Pensamentos, frases, estórias e mentiras criadas a partir de fatos corriqueiros. Uma livre distorção da realidade.
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
Irrealidade
De dentro do quarto vazio, observava as paisagens poéticas que se desenhavam incessantemente pelos transeuntes despreocupados. Cada um com seus anseios, seguiam todos, desordenados, para seus destinos inevitáveis. Ela sempre teve medo de gente. Rostos conhecidos e ignorados a transitar pelas vielas de sua imaginação. Cada um com seu passado, seus medos e realizações. Tinha fobia de aglomerações. Sentia fisicamente as histórias se esbarrando, as possibilidades se perdendo, os desencontros se concretizando. Tinha pavor da impossibilidade. Por isso, trancada em seu universo onírico, tecia linhas sobre os traços naturais riscados pelo acaso, observados atentamente de sua janela-ilusão. Nunca se acreditou segura naquele lugar. Pelo contrário. Temia que, de repente, o mundo irompesse cômodo adentro, jogando-lhe na cara toda a sua futilidade intelectual. Passava dias em sua intangibilidade, colorindo de metáforas seus mais profundos desalentos. Virtualizava. Enquanto isso, tudo. Fluxo contínuo pela moldura na parede. Quadros sucessivos e efêmeros. E ela constante. Cristalizada em sua imobilidade de princesa morta. Em busca de um evento surreal que derreteria os girassóis e as paredes tão concretas de seu castelo de cartas. Nos dedos, os calos já em sangue pingavam gotas de poesia que, no papel, avermelhavam os sentimentos represados. Energia cinética. No copo, líquidos gaseificados com princípios proibidos tornavam a realidade um pouco menos segura. Um pouco mais fresca. E assim, fluidificada pelas substâncias que tocavam sutilmente seu sistema nervoso, deixou-se percorrer cretinos mundos de prazer e vazio. Deteve-se inerte, na cama ainda quente, e pensou, por um instante, nas oportunidades-sensações que havia perdido. Tentou concentrar-se no lustre: ponto de referência do equilíbrio rotacional e, antes de apagar completamente, pensou ainda que poderia ter sido diferente. As gotas de poesia escorrendo sobre os lençóis. O vermelho manchando, aos poucos, o alvo esconderijo absurdo. As células se debatendo ainda uns minutos. E o negro silêncio cobrindo tudo, por fim.
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
Amanhece
Ocorre-me uma repentina avalanche de idéias novas, todas borbulhando incessantes no caldeirão da minha angústia. A manhã chegou cedo e o sono, marca fiel de meu relacionamento dominical, extinguiu-se como fogo de palha, coroado pelo calor escaldante que, por aqui, cisma em não ceder. Em meio ao quarto bagunçado de pensamentos, penso em escrever qualquer coisa pra apaziguar o peito mas, de leve, uma estranha sensação de incômodo, inquietação infundada e banal. Nas covinhas, um sorriso de criança manhosa, que não sabe bem o que quer, mas está preste a chorar por sua tão urgente causa. Nos olhos, a maquiagem borrada do dia anterior e as generosas olheiras negras denunciam que algo na alma correu em desordem. Uma brisa fresca para aplacar a arritmia. Um peso na consciência qualquer, apenas para provar a existência do escrúpulo: pedra fina e pontiaguda. E assim, com a temperatura elevada e a preguiça no corpo, assina-se de fato o fim, recomeço de qualquer estrada. Por dento, uma sentença tranqüila de ter-se passado a hora; de findar-se o compromisso assumido erroneamente. Não há sinos nem passarinhos. Mas a brisa fresca – que entra pela janela do quarto ainda em desordem – faz notar a clara sensação de desalinho. De liberdade. Então pontos são colocados em seus lugares de destino. Silêncios encerram a questão qualquer. E ali, entre sorrisos sórdidos e sinceros, faz-se de novo a celebração da vida: implacável sucessão de acontecimentos. Borboletas me acometem na manhã solar e eu me perguntando ainda se a janela já se abriu. De longe, o horizonte calmo, rindo de minhas cruéis inquietações adolescentes. De perto, pupilas cintilantes tentando descobrir algo além da imagem. Por fora, palavras completamente dispensáveis: acessórios articulados de inseguranças mútuas. Por dentro, o turbilhão. O questionamento profundo a respeito do tempo. Na janela, a brisa. Entre os lençóis, o sol.
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
Manipulada
Tudo começa com uma brincadeira, mas de repente toma conta de toda a sua vida. Você começa a depender financeiramente daquilo e pergunta-se o que pode fazer para sair de tão desesperado círculo vicioso. Mas aí você já está dependente. Você precisa de sorrisos, e de lágrimas, e de gritos e de críticas. Você desconfia dos elogios, da sua capacidade, da verdade daquilo tudo, mas aí já é tarde demais. Você é uma atriz, enfim. Por mais que queira negar, desistir, desnudar, desmentir. Já era. É só abrir a boca pra falar uma merda que alguém repara na sua retórica. E nas brigas de namorado – que lástima – você é sempre acusada de convencê-lo de seus próprios pontos de vista. Mas você é inteira. Você sempre foi de verdade. E começam a achar que seu sorriso é galanteio, que sua simpatia é merchandising, que sua falta é estratégia. Você conhece um homem interessantíssimo, bem sucedido em sua área, e se afasta, antes mesmo de qualquer possibilidade. Vai que ele acha que é interesse? Aí você faz um comentário e é irônica, faz uma piada e vira humorista, chora de dor e parece cena. Sua vida é uma realidade acompanhada de perto por espectadores ansiosos para ver sua performance. E você de carne e osso. Sangrando por dentro dores que eles chamam de manha, de capricho. Você nega uma mentira e dizem que você é dissimulada. Você acredita em uma verdade e é tudo golpe de marketing. Você casa, separa, sofre, perde parentes e tudo fica assim um pouco raso. Ou fundo demais. Você percebe que é efêmera, que o tempo está passando, que sua testa agora tem rugas. Comparam-na a Narciso. Você envelhece como todos, e tem sempre alguém para lhe dizer o quanto você está pior que os outros. Ou mais gorda. Ou terrivelmente magra. Ou, pior ainda, lindíssima! Você não pode ser uma qualquer. Não pode acordar descabelada, e Deus te livre de ir ao supermercado sem maquiagem. Comparam a capa da revista com sua bunda na praia. Dizem que você disse horrores de cicrano sem você ao menos conhecê-lo. Dizem que você mente a idade. Que não liga pra família. Que só pensa em si mesma. Que a vida anda fácil. E você tentando negar. Tentando colocar a cabeça para fora, pra ver se alguém enxerga que você ainda está ali dentro. A mesma gorda da infância. A mesma magrela da adolescência. A dentuça; de aparelho; com os dentes branqueados. A mesma! Um pouco diferente, mas ainda igual. Ainda inteira. Ainda de verdade.
Você não é mais a personagem. Você agora é um mero fantoche...
Você não é mais a personagem. Você agora é um mero fantoche...
terça-feira, 23 de novembro de 2010
Anti-dor
Até quando você acha que vai se satisfazer com aquele sonho antigo, com aquela vontade incontrolável, com aquele amor calmo? Você realmente acha que suas inquietações e angústias são infundadas, que tudo não passa de caraminholas na sua cabeça, que os sininhos pararam de tocar? E quando você descobre que aquele lugar vazio na cama pode não ser uma falta, e sim um espaço? E que aquele controle, e aqueles sorrisos, e aquela compreensão podem simplesmente parar de existir sem lhe causar nenhuma dor, ou, ainda, lhe causando extremo conforto e certa – e útil – sensação que tudo teve seu tempo exato? É... parece que o planejado saiu um pouco do roteiro, que as linhas seguiram tortas, que as emoções pularam assustadas do peito. Mas as coisas chegaram a seu lugar, enfim. Um lugar diferente do previsto, do almejado, mas um lugar confortável, de uma paz extrema e até mesmo incômoda. Não é fácil se acostumar com o óbvio. Não é simples prever o descompasso. Mas assim, com as paredes mais limpas e os vidros abertos, parece que a casa tomou um novo ar inesperado, um sopro de vida repentino, uns quilos de entulho a menos. Não que não fique uma inquietação profunda, um pesar imenso, uma falta inexorável. Foi-lhe tirado o chão e o que há é água. Maleável, profunda, misteriosa. Exatamente por isso tranqüila e perversa. Cabe a você decidir ter medo ou atração. Colocar o pezinho na borda ou jogar-se de cabeça. Por enquanto, nada mais prudente do que ficar na borda, observando a movimentação dos círculos concêntricos que suas lágrimas causam nela. Faz falta ter tamanha segurança. É delicioso sentir-se livre. E assim, com pequenas pérolas negras desfazendo-se em suas mãos, aquele líquido espesso e gorduroso – por vezes chamado rancor – escorre dedos abaixo, deixando a superfície de novo lisa e alva. Não é a curiosidade que o faz prosseguir. É o medo incontido e irrestrito. É a possibilidade do futuro impreciso e a certeza absurda do acaso. Não se fazem sofredores como antigamente. Hoje em dia somos, todos, sobreviventes de um parto estéril. Fetos abortados de um amor ainda por nascer. Presos na distância entre o tempo e a realidade. Ligados pelos próprios umbigos. Querendo se livrar de si e presos, ainda, às vontades alheias. Dormindo no desespero. Sonhando com plumas leves.
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
Estranhidades
Então uma onda de comoção imensa invade a casa, deixando os móveis molhados de lágrimas e angústias. Era algo tão normal quanto a respiração, e o gotejamento dos olhos parecia um vazamento incessante; mina de água a brotar de pedra. O coração aos solavancos, desesperado dentro do peito e, por um instante, parecia que todo o mundo parava estupefato ao odor daquela maresia. Absolutamente nada demais. Apenas um sentimento estranho, um formigamento na boca do estômago, um sorriso faceiro no canto dos lábios. Coisas corriqueiras e cotidianas que, juntas, pareciam forjar uma amálgama nova de sentimentos inusitados. O peito brincando com a boca. E ao surpreender-se assim, bagunçada em seu descompasso de mulher, é que ela deu-se conta dos desvios da vida ao longo dos segundos. Os olhos germinando sorrisos escuros e vagos. Sentindo-se assim, tão completamente confusa, observou as terminações nervosas ligando-se de quando em quando, oferecendo informações desconexas e até mesmo paradoxais. A roda do mundo em seu arranjo: vez em cima, vez embaixo. Carrinhos balançando ao vento, ao sabor da tempestade que insistia em se aproximar no horizonte. A saliva misturando-se ao álcool, o gelo sensibilizando os dentes. E por manter-se assim, quase que paralisada durante esta crise de angústias vãs, percebeu-se completamente livre para traçar seus rabiscos no destino. Era, enfim, dona de si própria, capaz de mudar o rumo da estória e de colocar “h” quando lhe aprouvesse. A mentira era apenas uma verdade que se esquecera de acontecer. A verdade, apenas uma das muitas versões. E quem lhe visse ali, tão absurdamente compenetrada em seu universo interno, poderia pensar que algo de mal lhe afligia, que qualquer peso do passado cismava em lhe assentar nos ombros, que um gosto amargo qualquer lhe tocava o paladar. Bobagens, garanto. Naquele momento, com os olhos fixos em um infinito qualquer e uma tonteira branda de quem se sabe equilibrada, ela apenas fazia questão de observar-se por completo. Inteira como era. Perdida como estava.
terça-feira, 2 de novembro de 2010
Resignações
Acho a competência mortal e completamente infalível. Se tivesses ouvidos pra ver que estou ao seu lado, profunda e terrivelmente magoada, talvez não tivesses que lidar com meus ruídos e com minhas inquietações e com meus bailes tão assustadoramente ritmados, que me saem aos berros do coração-compasso. Sou pessoa de raízes profundas, que fincam na duvida sua mais divertida ingratidão. Sou gente de múltiplos que, agora, nesta madrugada fria, lembra de outro que de fato compartilharia meu riso em noite tão estrelada de letras. Penso que ele seria o fim dos abismos e hoje, durante horas a fio, lembrei-me de seus olhos a me fitarem do fundo da noite escura. Tenho medo dos descompassos da vida, que cismam em bater mudos nas sombras de minha resignação. Pergunto-me o porquê de estar aqui, e no meio das respostas mais obvias e doídas, aquela velha visão absolutamente inválida do velho andando só, com suas barbas longas e sua bengala servil. Não é assim que pretendo te ver. Prefiro sacrificar-te ao abismo antes que palavras vis me saiam rolando pela boca e olhos amargos lhe fitem a alma. Não sei qual minha parcela de culpa em tudo isso, mas sei que agora, sentindo-me sozinha aqui, assustadoramente perto, tenho certeza de que o fim se aproxima. Foi um sonho bom, pode ter certeza. Mas a madrugada teima em ir-se e na janela, a parca cortina já não consegue segurar os raios de sol. Peço desculpas pelo ruído das teclas. Foi-me inevitável. E no silencio escuro deste quarto desmaiado, penso entre lágrimas como eu queria estar só. Como eu queria assustadoramente encontrar-me em casa, entre as minhas cobertas e travesseiros. Peço desculpas se não tenho palavras. Aprendi há tempos a riqueza de um olhar. Mas duvido das intervenções combinadas e dos amores premeditados. Pra mim, o fim se aproxima. Não sem dor, não sem medo, apenas com resignação. Com uma certeza absoluta de ter passado o tempo de aceitar tudo e com uma preguiça imensa e doentia de agüentar todas as coisas. A vida se faz nos detalhes. O sonho se desfaz no esquecimento. Peço perdão pela minha impaciência. Se pudesse, guardaria você mais um tempo. No corpo e na alma. Mas é Chronos quem me leva. Ainda um pouco contra minha vontade. Vou amargar uma noite mal dormida e sofrer o medo de ficar sem ti. Mas por ora é tudo. Absolutamente tudo. E terrivelmente um nada.
terça-feira, 26 de outubro de 2010
Pedras
Aí de repente dá aquela sensação insana, louca, de sair correndo por aquela porta aberta e talvez não mais voltar. E dá ao mesmo tempo a sensação de inutilidade, e o cansaço antecipado da corrida, e uma pressa infantil de sair, e uma vontade tremenda de ficar. Aí eu deito no divã e digo coisas que eu nem precisava dizer, e guardo coisas que eu preciso soltar, e penso coisas inéditas, e digo textos ridículos. Aí eu saio de lá achando que não devia ter feito nada daquilo, e que deveria fazer tantas outras coisas, e que o tempo tá passando rápido e que eu, obviamente, estou ficando para trás. Mas aí eu olho pra trás e vejo quanta coisa já mudou, e quanta gente eu conquistei, e quantos degraus eu já subi, e quantas lágrimas, e sorrisos, e olhares, e amores, e temores, e quanto encanto derramado de surpresa, e quantas surpresas me atropelaram pelo caminho. Então eu penso na pedra, início e fim de cada caminhada. A pedra, símbolo máximo do recomeço, e do cansaço, e do medo do fracasso, e do fracasso e da própria glória. Aí, de repente, junto com aquela sensação insana me vem uma paz de outros tempos, uma leveza de cabeça descansando no peito, e de olhos penetrando olhos, e de pernas entrelaças, e de pintas e pintos e peitos e paz, enfim. Aí sorrio de graça, porque sorrisos sinceros são sempre espontâneos, e me calo diante da imensidão de um dia só. Penso em terminar, e penso no fim, e desisto dessa e de tantas outras bobagens, cismada que sou de que as coisas têm o destino certo na hora errada. Talvez. E me surpreendo de minhas inquietações e da minha imensa capacidade de criar novos e novos dilemas, de colocar em xeque torres e bispos enquanto os reis escapam-me pelos dedos. Tenho sempre essa sensação dos dedos. Da areia escorrendo por eles. Da água. Apenas quando bailam nos teclados os dedos conseguem conter o tempo. Com uma barreira intransponível a imortalizar letras e ruínas. Minha alma anda a derrame, ebulição constante do eterno eu adormecido nas montanhas da minha racionalidade. Há tempos não me lembro de sonhos e de frases melódicas durante a noite. Tenho dormido abismos de escuridão. E só quando acordo com o peito nos cabelos tenho a sensação de que a noite não passou em branco. De que a negritude dos sonhos foi necessária para recuperar o viço que agora se instaura em minha face. Não acredito muito em destino. Acredito em compasso. Em acaso. Em azar. E na roleta russa do meu relógio de ponteiros, penso no fim. No inevitável fim, preso entre as voltas concêntricas do meu caminho de pedras. Pedras são sempre um fim em si.
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
Tempestade de Idéias
Parece que aparentemente continua exatamente igual. Ingual. Mistura de dor doença e gozo, forte inchaço de glândulas estranhas. Parece calmo e infinitamente seguro. Mas no fundo, de dentro, no meio, o ralo a sugar intenções para baixo. Sempre para baixo. Escorrendo pelas gotas de tensão a possibilidade de entendimento e de angustia. O irreconhecimento. O medo e a demora. Com grãos passando pelo buraco do relógio. Ampulheta. Que se vira no repente, no meio da rima, na hora do sim. Concretude assustada de se saber inteiro. Medo sinistro de se sentir vazio. Porque, no fundo, é apenas aquilo que deixou de ser agora. Linha continua atropelada que deixa qualquer sorriso no espaço do passado. O tempo tentando parecer, tentando ser algo mais palpável do que apenas um instante que passa e que passa e quepassa. Unhas brancas em mãos claras contrastando pouco com o vestido que sustenta a aliança. É tempo do desconhecido. Abismo nos pés e amor nos olhos. Dúvida na hora da pergunta e estranha certeza inata. Enquanto tudo o tempo. Todo o tempo. Minutos indecisos batendo pulsantes num teclado qualquer. Notas dissonantes a agulhar uma cabeça já não sadia. Corredores de cupidos com suas harpas e flautas e trombetas e trompetes. Pratos no fundo criando uma imagem alimentar. Nutrição de alma altamente estéril. Frutas a caírem de pés descalços, que caminham lentos sempre no rumo certo. O errado nada mais é do que uma barriga de percurso. Quilos a menos para livrar-se da insatisfação. Medo doentio de novo e repetidamente. Palavras terminando em fonemas errados, criando rimas tortas e absolutamente lacrimejantes. Peito pulando no peito, batendo ritmos acelerados e voltando, pulsante, ao repouso eterno. Vírgulas não usadas sobrando meio à direita, criando espaços de pausas longas e sem sentido. Milhões de coisas a dizer e apenas uma língua que não quer calar, que se ocupa absolutamente de outras coisas que não o verbo. Língua. Sexo. Coisas. Casas. E os grãos de tempo escorrendo pelas paisagens indecisas da memória. Fotografias esquecidas em cantos de gavetas velhas, com olhares cansados do infinito a procurar alma a que penetrar. Sonhos perdidos no tempo e tempos perdidos nos sonhos. A linha passando rapidamente e se aproximando do corte. Tesoura do desejo. Medo do fim.
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
Sentido
Estupidamente arraigado um sentimento tolo e tardio de não se saber inteiro. Bobagens contemporâneas. Num maremoto de sensações pulsantes, a mesma e falha invenção da dor. Falta de nada. É de onde vêm as perdas e as fragilidades. De onde menos se espera. Num despertar tardio de uma manhã ensolarada e na brisa noturna de um céu sem estrelas. Penso no precipício e, portanto, na morte. Nada mais natural do que morrer aos poucos, dia após dia, nesse eterno vendaval de emoções inesperadas. É do porto romântico mais trágico que se fazem as escolhas insensatas e as decisões ainda não maduras aparecem como possibilidades reais. Parece que o mundo gira em torno de si mesmo, cada um em seu próprio umbigo. A metateatralidade rompendo as barreiras da cena e falas já decoradas sendo repetidas incessantemente pelos lábios um pouco sem cor. Paixões vermelhas de suor e maldade. Sensações soterradas por conceitos mal formados e ainda não entendidos. E é aí que amanhece. Um sol ardente invade a janela do quarto trazendo consigo aquele sorriso já perdido. Nos olhos, um brilho ocultado há tempos e, no peito, a paz. A simples felicidade de se ver. E só. De reconhecer no outro uma tristeza perdida, uma brasilidade, uma calma regional e um desejo profundo e intenso de se manter assim. Junto assim. Enquanto, ponteiros a viajar na órbita do tempo. Tonturas de Chronos a confundir os frágeis mortais. Lágrimas presas no intestino da alma. Sombras adolescentes a vagar pelo escuro. E o medo. Sempre terrível trovador de versos mansos. Obscuro desejo infinito, a desestabilizar a superfície calma. No lago manso e profundo, a iminência de um terremoto. Nos dedos suaves do contato, o grito da distância. Abismos. E por ser assim tão imensamente normal e tão absurdamente estranho, o peito se apavora nos compassos, criando valsas dissonantes e contratempos de escuridão. O que há é vida. O que sobra é perda. E aos poucos, reconhecendo em si certos traços tortos de punhos ainda não firmes, as linhas vão se seguindo, uma após a outra, criando o estúpido roteiro de toda uma existência. O espectador a imaginar as próximas cenas e o suspense a rir de sua pretensão. Bobagens alheias, lindas verdades. E por ser tão despretensioso e tão imensamente cruel, o amor faz-se soberano, esmagando qualquer passo de doçura e covardia que ouse lhe cruzar o caminho. O que fica é resto. O que toca é instante.
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segunda-feira, 9 de agosto de 2010
Labirinto
Há tempos não me interesso pelas letras que me podem sair. Obscuridades absurdas, penso que já disse tudo o que era. Repito-me. E, por ora, não tenho pretensões românticas com os dedos, instrumentos letais do meu desagrado. Ando decepcionada com a minha imagem, refletida infinitamente nos espelhos que duelam. Não tenho nada o que dizer, todos os caracteres já foram usados, todas as lágrimas choradas, todos os amores vividos. Tenho a impressão do fim, sabe-se lá por que. E enquanto viajo em situações improváveis, penso que cheguei a um beco sem saída, sem garrafas, sem tesão. Os pássaros da liberdade voam longe, há tempos esparsos, em locais completos e complexos. Nãos sei o que pensar dos olhos, nem do corpo, nem da mente. Só a velha hipocrisia de sempre reinando em minhas letras. Deveria parar de escrever e assumir a minha verve romântica, como a daquele louco roqueiro que se faz de louco para não ser doce. E os olhos derretendo mel. E a voz inquietante pedindo pra ficar. Tenho saudade de conhecer as pessoas certas e de brincar com as peças-chave do quebra cabeças. Ando oca. Com um pouco menos de brilho do que os olhos escondem, com uma vontade um pouco maior de deixar de ser, e de ser tudo de novo ao mesmo tempo. O que fazer com essa avalanche que me rola por dentro, e que eu tento frear com uma chuva fina? Por que o que eu quero está sempre um pouco além? E ele não volta, e eu não vou, e a gente se engana, e eu me perco. E rodando pelo labirinto, percebo que me perdi de mim. Há tempos. Que a saída é outra, escondida aqui mesmo – dentro – e que eu não acho. Atirando no pé. Segurando pelas orelhas. Interrompendo o pranto.
terça-feira, 20 de julho de 2010
Que passa...
Do intenso pulso do passo que passa
Do estranho tempo que passa e que passa
Do intenso pulso que passo e que passa
Do estranho vulto que passa o que passo
Da estranha língua que morde e não fala
Da falsa míngua que come o que cala
Da porta antiga que se abre e pára
Da morte à míngua que se morde e cala
Do intenso pulso do tempo que passa
Da intensa morte, da míngua e da fala
Da falsa sorte do tempo que passo
Do pulso antigo do tempo que passa.
Do estranho tempo que passa e que passa
Do intenso pulso que passo e que passa
Do estranho vulto que passa o que passo
Da estranha língua que morde e não fala
Da falsa míngua que come o que cala
Da porta antiga que se abre e pára
Da morte à míngua que se morde e cala
Do intenso pulso do tempo que passa
Da intensa morte, da míngua e da fala
Da falsa sorte do tempo que passo
Do pulso antigo do tempo que passa.
segunda-feira, 12 de julho de 2010
Do Indivíduo
Sou feita de caracteres dissonantes, que vagam na alma enquanto ardo em brasas. Não sei exatamente o que sou. E é na impossibilidade da classificação que encontro meu mais profundo eu. Em momentos de paixão, encontro-me calma, como aquela fonte, no meio do mato, onde tudo se deu. Duvido das coisas certas e exatas porque sou feita de dúvidas. E no medo mais profundo da exposição é que encontro as letras, que me saem como um emaranhado de coisas tolas, que cismam em ocupar meus dedos. Tenho ouvido palavras bonitas e teorias inexatas. Cada qual, no seu desalento, acredita em verdades particulares, que só servem para si. Por isso a qualidade e a diversidade do encontro. À luz de velas, sentados em uma mesa qualquer, verdades jorram como sentimentos adormecidos, que nunca foram antes contados. Na verdade, eles nunca existiram – somente naquele preciso momento. Por isso a beleza do encontro. Cada qual em seu universo intangível, parafraseando versos de um escritor qualquer. Por dentro, poesias e prosa. Narrativas complexas de suas próprias existências. Somos absolutamente diferentes. Mas nos reconhecemos no olhar. Na decisão contida de fazer dar certo e na esperança urubu de crescermos em escala. Somos. Diversos e divertidos, bailando no perigo de tentar se mostrar. Não sei o que acontece enfim. Atropelamo-nos um dia, e agora dependemos das rodas para que nosso mundo gire. Cada um com suas questões e com seus esclarecimentos. Assim, iluminando o caminho alheio, seguimos juntos – cada qual com seu lampião. É a minha escuridão que acende o tesão alheio, e é outra luz que vem me despertar quando apago a manhã. Não quero ser mais. Quero ser. Só. E na individualidade dos sentimentos mais inexatos, encontramo-nos como um. Não há o que esperar, nem o que decidir. Só há o que perceber. Uma percepção rara de desejos individuais. Queremos ser vários e, para isso, somos apenas um. Compartilhando lágrimas e sorrisos, gozos e culpas. Não são as letras que me movem. Nem a história, nem o tempo. São os olhos. Brilhantes ou marejados, opacos ou intensos. Escrevemos nossas letras enquanto a estória se desenrola. Não há porto aonde chegar. Não há nada. Apenas uma brisa suave soprando pela janela emperrada de um século qualquer. Somos indivíduos do hoje. Somos artistas do então. Por isso o abraço, o laço, a dor. Por isso tudo. Porque as paixões intensas são como aquele lago calmo: perdem-se no tempo, mas sabem exatamente o seu lugar de encantamento.
domingo, 27 de junho de 2010
Da partida
E não sei por que, mas toda vez que entro neste ônibus escuro, indo de volta a minha tão saudosa casa, meus olhos se enchem de lágrimas, e meu peito aperta-se com uma dor intensa e maldita, de quem podia ter aproveitado mais os instantes de paz e a companhia tão cara dos meus. Nesta volta, ainda triste, penso por que é que a separação afigura-se como monstro tão forte, já que na distância a falta se mantém igual. Então é como se o tempo passasse mais ligeiro, e o que me dói, neste banco confortável que me leva ao aeroporto, é a incerteza do tempo, que me arrasta pela vida, me tirando a possibilidade de desfrutar com calma o colo seguro dos queridos. E aí me bate a certeza de ser do mundo, e o medo incontido de não ter mais casa pra onde voltar. Porque minha estrada é no trânsito, e aonde quer que eu vá, sei que só tenho a mim. Por isso, ao abrir as janelas da noite fria, deixando o sereno me atingir, invade-me uma solidão profunda de saber-me só. Independente e forte, como sonhei um dia. Só no mundo, com a responsabilidade do caminho em minhas mãos, e uma certeza inata de que o tempo da juventude já passou, e que o tão acolhedor colo de mãe só me será dado nesses raros momentos, que acabo de deixar pra trás. Assim, sabendo de minhas deficiências e potencialidades, deixo fartas lágrimas escorrerem-me pelos olhos, traçando em meu rosto uma linha triste de certeza e resignação. Nasci para o exílio e para o amor. Por isso a partida se faz tão forte e inesperada. Tão cheia de certeza e dúvidas. Faz-se completamente inevitável e dolorosa, porque a vida é o desencontro entre os desejos e as possibilidades. E a presença do amor profundo e inalcançável. Compadeço-me de meu próprio sofrimento despropositado. Muitos já sofreram esta falta de maneira mais intensa e avassaladora. Mas o que me devasta é a proximidade perdida nas pequenas distâncias, a vontade de estabelecer um contato mais vertical e profundo, que sempre escorre pelas minhas frestas na hora do adeus. Porque a vida é o encontro da impossibilidade. Porque dói ser a gente mesmo.
quinta-feira, 24 de junho de 2010
Sopro
E então alguma coisa de belo e doce passou a florescer nas cavernas escuras de seu eu. Eram frases soltas e singelas, que partiam de algum buraco acordado, que agora hesitava em dormir. Escondidos nos escombros por anos, os versos saiam agora aos montes. Travavam batalhas assustadoras com as rimas, e pulavam sedentos para a superfície. Era enfim tempo de colher louros. E enquanto o dia raiava ao longe, com um anuncio solene de céu de brigadeiro, ainda nas entranhas do corpo, as sílabas saiam em brasa, uma a uma, formando esculturas no fundo intangível. Como era bonito soletrar. Ponta por ponta dos dedos a narrar sua preferência ideogramática. Frutificando inexistências e colorindo as linhas – ainda sem vida – de interrogações e acasos. Porque os textos se fazem enquanto os olhos se movimentam. E não há dedo pulsante e frase equivocada que não acabe por fazer sentido quando as linhas se entrecruzam. Por isso, depois de anos acorrentadas à sombra da esquizofrenia, agora era, por fim, a hora de ensolarar. A idosa cabeça a podar seu semeador ímpeto, e o peito a pedir algumas letras a mais. Aquela sala de vó grande e farta a povoar seu peito e as folhas balançando faceiras em uma árvore qualquer. Nada como ver e ressignificar. Nada como aceitar quando o fim se impõe;
sábado, 19 de junho de 2010
Poeminhas Analfabetos
E enquanto o som aparece na noite escura
Lábios movem-se no vazio do silêncio
Os dedos bailando a valsa louca do momento
E o sim? Se rima a minha rima pouca
Vai-se todo o meu não ser em letras despencadas
de um eu que sabe
Não ser? Saber? Já ser?
E na métrica precisa do meu descompasso
Cismo em brincar com palavras vazias.
Porque o não, é muitas vezes talvez
E quem sabe por que?
Por ser? Saber...
Na ignorância musical de algumas frases
Melodias aparecem por si
Não gosto de me premeditar
Desisto de não tentar assim
E paro, precisa, na cabeça do contratempo
Não brinco de fazer canções
São as canções que insistem em me ninar
*****
E então fez-se noite no apartamento em chamas
Era silêncio embora melodia
Não havia nada demais no recinto
Apenas e velha e antiga casa vazia
E por isso, ao adentrar a porta,
Trôpega e sem ar
Não soube exatamente o que podia esperar
de tal estranho dia
porque a vida acontece no agora.
E não há nada de novo no momento.
As luzes acesas num piscar de vaga-lumes
E o peito a baforar fumaça e cinzas
Lábios movem-se no vazio do silêncio
Os dedos bailando a valsa louca do momento
E o sim? Se rima a minha rima pouca
Vai-se todo o meu não ser em letras despencadas
de um eu que sabe
Não ser? Saber? Já ser?
E na métrica precisa do meu descompasso
Cismo em brincar com palavras vazias.
Porque o não, é muitas vezes talvez
E quem sabe por que?
Por ser? Saber...
Na ignorância musical de algumas frases
Melodias aparecem por si
Não gosto de me premeditar
Desisto de não tentar assim
E paro, precisa, na cabeça do contratempo
Não brinco de fazer canções
São as canções que insistem em me ninar
*****
E então fez-se noite no apartamento em chamas
Era silêncio embora melodia
Não havia nada demais no recinto
Apenas e velha e antiga casa vazia
E por isso, ao adentrar a porta,
Trôpega e sem ar
Não soube exatamente o que podia esperar
de tal estranho dia
porque a vida acontece no agora.
E não há nada de novo no momento.
As luzes acesas num piscar de vaga-lumes
E o peito a baforar fumaça e cinzas
sexta-feira, 11 de junho de 2010
Abismo
Dá pra morar com um artista e não criar um projeto nos primeiros dez dias? Dá pra não acreditar nesse projeto como se fosse o projeto da sua vida, e fazer de tudo para que ele passe da verborragia para a prática em dois tempos? Dá pra não acreditar? E será que dá pra discutir assuntos fundamentais sem pelo menos alguns cigarros e meia garrafa de um vinho qualquer? E quanto tempo dura essa efusividade? E quanto tempo os assuntos permanecerão tão perturbadores, e tão frescos, e tão absolutamente brilhantes e deliciosos? E em quanto tempo vocês conseguirão erguer um espetáculo, ou um livro, ou uma coletânea musical? E por quanto tempo aquele projeto interessará a vocês reciprocamente, e fomentará uma vontade inata de se manter acordado e vivo e participativo e definitivamente e absolutamente brilhante? Por quanto tempo? Por quantas madrugadas? Por quantas brigas e ao custo de quantas noites mal dormidas? E quantos cigarros se consumirão nesse tempo? E haverá remorso? E crise, e fadiga e gargalhadas e outros assuntos? E quantos artistas interessantes, e inteligentes, e brilhantes, e medrosos, e dispostos, e saudáveis, e gostosos, e cabeçudos, e singulares você conseguirá reunir pra esse mesmo projeto? E o projeto realmente sairá do papel? E você sabe o que é um papel? E o papel te interessa, te instiga, te maltrata? E o que é um papel? E você quer um papel? Ou quer um processo? E esse processo te fará acordar extremamente feliz por ter nascido e infinitamente deprimido por não significar nada no mundo além de você mesmo? E você saberá lidar com suas questões e com questões alheias, e com questões filosóficas e matemáticas? E elaborar um orçamento tão próprio será tão fácil como meter o bedelho em projeto alheio e diverso e frio e burocrático? E você verá nos olhos das outras pessoas esse brilho intenso que agora brilha em seus olhos e que você vê refletido nos olhos dos outros artistas e que você quer a qualquer custo manter acesso? E você saberá lidar com todo esse tesão e toda essa angústia e toda essa dor e todo esse arrepio? Porque os pêlos se eriçam e pela primeira vez é chegada a hora de desistir da cama e do sonho e do descanso. É hora de acordar de alguma forma e sacudir a poeira e concentrar e partir pra ação. Mas você gosta de dormir muito. E o tempo lhe falta. E é hora de se livrar dessas amarras e as algemas lhe mantêm presa. Porque morar com um artista, sendo você um deles, é corroborar com a hipocondria e com o medo total e geral do absurdo humano. Porque o tempo vai passar apesar de estar congelado nos ponteiros na parede. E apesar disso, letras vão se soltar docemente de violões alheios, e você não saberá reconhecer a melodia. Porque você não trabalha com música, e sim com corpo. E por isso saberá em algum instante contrabalancear as batidas incessantes do seu coração com o verbo que escorre dos seus lábios, e por mais que tente interromper o processo criativo, não haverá como romper essa louca balada que tocará em seu peito e lhe fará ser mais forte que o Clarck Kent travestido. Porque toda a força de mudança e o potencial para a ação estão dentro dos seus olhos de vidro, que fitam sua real figura no espelho. O buraco do espelho está fechado. E preso em suas próprias elucubrações artísticas, é hora de agir. Porque é tempo. Porque é vento. E porque é foda.
domingo, 6 de junho de 2010
Prólogo
E é por não ser mais que sinto, talvez, uma vontade alucinada de fazer algo diferente do que foi feito antes. Eu sei, metade minha culpa. Outra metade acaso, esse meu pai-carrasco que me dá presentes esplendorosos e castigos dos mais doídos. E por acreditar piamente que ele é que rege toda e qualquer sensação de comodidade e angústia, é que me estaco em pleno movimento. Perdi a prática, de fato. Nunca sei o que fazer com as mãos. Já disse isso, outrora. A sensação real e inaceitável de se saber um ser com braços. E sem números. Porque se o telefone figurasse em minha agenda, confesso. É, confesso. Os dedos já teriam achado sua utilidade, afinal, o que sei fazer são letras. Tortas, estranhas, singelas. Mas letras de real e total sinceridade, pois que falam de mim mais do que a língua consegue. E me senti no meio de música junina, um olho cego vago e confuso procurando por um. E só por aquele. Porque no meio da falta de toda e qualquer possibilidade de descanso, apenas aqueles pêlos se fizeram minimamente real no meio de todos aqueles ombros. E ele, onde estava? Por não saber, sinto-me tola e sentindo-me tola, sei que algo há a mais que não deveria. Porque o que há é tempo. Um sentimento de asas esbaforidas que cismam em atrapalhar a paz das minhas entranhas. Novamente. Novamente, ouso dizer, porque esta paz já foi desarranjada outrora, e agora, de novo por ele, um pouco mais real, embora ainda distante. E por quê? Por que não? Não há motivos para conter o que de novo afigura-se ao longe, num horizonte tardio e belo; pequeno e, obviamente, de novo irreal. Não sei por que esse sonho de novo a berrar aos meus ouvidos. Palavras doces de sussurros em público. E é claro que devo de novo estar a me enganar, e é absolutamente óbvio que não há nada, mas por ora me basta a memória já meio apagada e embaçada de um dia que deixou de ser. Porque não há nada. E nunca houve. E apenas isso. Apenas o flamejar de asas nas entranhas da alma, a percorrer letras alheias e fotos e frases e temas e assuntos e letras e nada. Porque o motivo não há e, como de outras vezes, se o motivo ficar claro tudo se apaga. Porque a chama é a dúvida e o medo e a dificuldade e a vontade e, por fim, o orgulho. Porque podia ser mais fácil, é óbvio. Mas eu sou difícil. Não consigo me entender nas minhas estúpidas contradições e medos. Me assusto. Me acalmo. E oscilo entre a contenção desnecessária e o extravasamento absurdo. Falo bobagens. Faço bobagens. Mas não me arrependo. Pelo menos quase nunca. E é isso que me importa. Pelo menos por ora... por ele.
domingo, 30 de maio de 2010
Respiro
Um sufocamento estranho e intenso que de repente me fez perder as palavras. Um vazio abismo de mim mesma preso entre o peito e a razão. Caracteres não seriam suficientes. A vida pulsando em cena sobrepujando tempos mortos e irreais. Vida. Não é então esse o sentido? Por entre os escombros da alma alguma poesia macia e soterrada, que teima em se calar neste momento de solidão. Que será então a arte? Pergunto-me sem imaginar resposta. Porque hoje o dia passou lento e vários fragmentos de pequenas escuridões vagaram pelos meus olhos-diamante. E não tivera medo de ocaso nem brilho de aurora para fazer luzir, nesse silêncio, o som de nossos dias. Porque os dedos bailam soltos em brasa, tentando colocar pra fora alguma inquietação repentina e maldita que cisma em me fazer angústia. O medo do terno. O terno da morte. Embaladas, no caixão de outro, as esperanças brilhavam alguma coisa de infinito e tardio que aos poucos ia soltando-se em pingos e lágrimas. O tempo passou e as feridas se foram, amargamente. Nos olhos, um brilho de amor antigo e uma saudade tardia de corpos que não existem mais. No fundo da terra, o fim. Porque a vida é a luta infindável e doentia contra a morte. O indivíduo louco e abjeto que cisma em rumorejar palavras em meu cangote. Ah, o cheiro louco e sagaz de quem jamais se entrega no fim da luta. Batalha diária contra as fadigas internas e um grito louco de saber-se completamente absurdo e tangível. A luz no fim do túnel, virada para a linha tênue da escuridão. E por quê? Vem de dentro pulsante e completamente incontrolável esse ímpeto noturno de estender-se em letras demasiado rápidas e profusas. Enquanto, os celulares a enlouquecerem sua voz na escuridão. Sou ser incomunicável e preciso. Coisa de momento. Sorrisos de olhar. Não me arrependo do passado. Não me orgulho do engano. Só sinto. E sou. Mais errada do que nunca e equivocada como sempre. Des-sinto. Repito-me. E me vejo na beleza do olhar alheio como folha a pendurar-se ao vento do suicídio. Brisa louca. Equívoco tardio.
sexta-feira, 28 de maio de 2010
A sós
Então a noite caiu e nós estamos sós. Não é este, afinal, o sentido da vida? Esperamos acordados por alguma solução milagrosa para os nossos problemas, e no fim o que resta é angustia. Não há nada o que esperar. Apenas amor e compreensão. Se você olha nos olhos, e sente que pode ser, então é este o sentido que buscava. Acredite. Não há nada que vá superar essa sensação de pleno e total desamparo. Na vida, o que há é meio. Guardo sempre questões absurdas e protelo decisões e desamparos por medo do erro. Por medo do fim. E pela indecisão, acabo colocando-me na posição mais deplorável e frágil que podia estar. Fico sempre no quando. Por isso decidi me jogar. Sem pára-quedas, sem rede de proteção. Jogar-me no abismo sob o risco de me machucar imensamente na chegada ao chão. E com a possibilidade de ter uma queda perfeita e extremamente prazerosa. O que há é risco. E uma saudade de amor tardia que cisma em me abalar a alma. O que há é risco. Um molejo de amor machucado, uma poesia ao pé do ouvido, uma brisa leve de suspiro a invadir a imensidão do quarto. Os pêlos se eriçando, as pernas se procurando. Ah, o enfim. Porque no fundo não há. Nada há que se possa dizer a não ser um olhar calmo e macio. Uma pena. Uma cena em plongè, como um olhar de deus a escancarar nossas intimidades. Porque somos seres do amor e, por isso, do ódio. Porque a calma é só uma ilusão impura e terna das coisas que vão dentro. Porque há caixa de pandora, e a esperança foi a única que restou. Dentro do peito, o tempo. Teimando em tilintar o seu tic-tac de morte. A areia correndo rápida pelas paredes de vidro e eu ainda aqui, sem mover um dedo frente ao destino. Sem cuidar do que cuida de mim. Por hoje, notas desafinadas valsam no espaço. Amanhã melodia. Olhos amendoados e castanhamente sábios, como há tempos não via. E uma saudade imensa e crescente dos pequenos diamantes que ainda virão. Acho que desisti das utopias. Sou um pequeno passo para o real.
domingo, 23 de maio de 2010
Exorcismo
Convenhamos, esse não foi um bom dia. Mas o que é um bom dia enfim? O dia em que você acorda, vê uma pessoa querida, recebe uma boa notícia, quiçá um dinheiro, trabalha naquelas óbvias coisas de sempre, toma um chopp com um amigo no fim do dia e dorme com a sensação que de fato viveu? Talvez. Mas hoje senti dor. Muita dor. Dessas que te fazem pensar na janela e no revólver – soluções práticas. Acabar com o sofrimento é sempre mais simples do que encará-lo. Por isso o mundo está como está. Digo isso claramente porque na confusão da minha cabeça dopada de cafeína, anti-histamínicos, antiinflamatórios, corticóides e o que mais que aqueles remédios contenham, diria coisas como:
E então eu tive vontade de me matar mas a morte não me adiantaria tanto visto que de lá não haveria volta e o que eu queria no fim era acordar daquele pesadelo e perceber que não havia mais dor nem agudo nem grave nem medo nem lagrima nem nada mas enquanto eu me envergonhava das pessoas estarem olhando eu queria chorar mais porque talvez assim eu fosse atendida mais depressa mas justo eu que sempre respeito a fila mas eu daria lugar a uma pessoa que estivesse como eu será que as pessoas sofriam em silêncio ou eu estava mesmo fazendo drama e porque é que o som dessa televisão simplesmente não desaparece porque eu não estou aqui pra ver jornal e esporte e jornal e o tempo que nunca passa nessa confusão cíclica que fica me dando voltas e eu de fato não quero saber o que eu tenho e sinceramente pouco me importa se vai ou não curar eu quero apenas que essa dor pare de alguma forma pare e eu possa respirar e pensar nas milhares de coisas que eu tinha que fazer e não fiz nas coisas que eu queria dizer e não disse e eu prometo ah eu prometo que se eu de novo voltar a me sentir bem ah eu prometo e não sei se vou conseguir cumprir mas como seria bom se conseguisse e esse médico entende muito menos do que eu e esse remédio não está fazendo efeito e as pessoas na rua será que percebem que eu estou completamente fora dessa realidade porque eu não estou sentindo nada e elas me olham como se eu fosse comum e talvez eu seja e como eu queria deitar e dormir um pouco mas dói ah como dói e eu não consigo parar então vou ligar de novo dizendo que talvez eu vá e aí eu tomo um outro remédio e consigo me comportar como se eu fosse uma pessoa normal e os amigos que conforto esses olhares que me fazem carinho só de ser e ainda bem que eu vim e ainda bem que parou de doer e eu acho que eu vou tomar uma cerveja mas eu não devia mas eu sempre fiz coisas que eu não deveria fazer e elas sempre sempre deram certo pelo menos por um instante então eu vou tomar só uma e depois vou embora ou duas e agora depois desse ultimo cigarro eu me vou mesmo porque graças a deus me ataca um sono gostoso de dormir com um travesseiro entre as pernas e quem me dera não fosse um travesseiro mas será e hoje isso já está suficiente de bom tamanho porque o rivotril vai ficar dentro da gaveta e eu vou dormir a base de cafeína e cigarros e cerveja e alguns sonhos que eu pretendo sonhar e que a minha psicanalista vai ficar feliz se eu sonhar já que a há tempos não sonho embora tenha dormido bem direitinho tirando os dias em que não durmo por isso vou botar umas palavras pra fora porque aqui dentro como sempre já está cheio demais e eu realmente preciso exorcizar a energia desse dia que não foi um dia bom mas que não foi em absoluto um dia ruim porque o bem e o mal não existem enfim apenas em mim e toda pedra faz parte do caminho as pedras e os pedros e os nomes e as coisas que a gente esquece e se lembra e depois fica tentando retomar quando ops já não dá mais então depois de fazer uma lavagem e de ver as coisas vermelhas como realmente são percebo que na verdade a dor não se foi mas eu resolvi ignorá-la e por isso vou dormir bem porque ela agora é minha companheira embora eu queira que ela vá embora e quem não quis eu queria poder mas ainda não sei por isso edredom meu fiel escudeiro branco e macio como as noites mais frias de todo o verão a me abraçar com suas longas voltas em torno de mim e o travesseiro entre as pernas e as penas os carneirinhos e os sonhos e ainda ele sempre ele e aquela dor no fundo como trilha sonora mas eu nem gosto de musica e meus olhos fechando e ainda aquela melodia e as letras começando a se embaralhar e Morpheus me olhando sedutor ah como eu o amo e bem tarde espero ah eu espero e pretendo ah como eu ainda espero... zzzzzzzz
E então eu tive vontade de me matar mas a morte não me adiantaria tanto visto que de lá não haveria volta e o que eu queria no fim era acordar daquele pesadelo e perceber que não havia mais dor nem agudo nem grave nem medo nem lagrima nem nada mas enquanto eu me envergonhava das pessoas estarem olhando eu queria chorar mais porque talvez assim eu fosse atendida mais depressa mas justo eu que sempre respeito a fila mas eu daria lugar a uma pessoa que estivesse como eu será que as pessoas sofriam em silêncio ou eu estava mesmo fazendo drama e porque é que o som dessa televisão simplesmente não desaparece porque eu não estou aqui pra ver jornal e esporte e jornal e o tempo que nunca passa nessa confusão cíclica que fica me dando voltas e eu de fato não quero saber o que eu tenho e sinceramente pouco me importa se vai ou não curar eu quero apenas que essa dor pare de alguma forma pare e eu possa respirar e pensar nas milhares de coisas que eu tinha que fazer e não fiz nas coisas que eu queria dizer e não disse e eu prometo ah eu prometo que se eu de novo voltar a me sentir bem ah eu prometo e não sei se vou conseguir cumprir mas como seria bom se conseguisse e esse médico entende muito menos do que eu e esse remédio não está fazendo efeito e as pessoas na rua será que percebem que eu estou completamente fora dessa realidade porque eu não estou sentindo nada e elas me olham como se eu fosse comum e talvez eu seja e como eu queria deitar e dormir um pouco mas dói ah como dói e eu não consigo parar então vou ligar de novo dizendo que talvez eu vá e aí eu tomo um outro remédio e consigo me comportar como se eu fosse uma pessoa normal e os amigos que conforto esses olhares que me fazem carinho só de ser e ainda bem que eu vim e ainda bem que parou de doer e eu acho que eu vou tomar uma cerveja mas eu não devia mas eu sempre fiz coisas que eu não deveria fazer e elas sempre sempre deram certo pelo menos por um instante então eu vou tomar só uma e depois vou embora ou duas e agora depois desse ultimo cigarro eu me vou mesmo porque graças a deus me ataca um sono gostoso de dormir com um travesseiro entre as pernas e quem me dera não fosse um travesseiro mas será e hoje isso já está suficiente de bom tamanho porque o rivotril vai ficar dentro da gaveta e eu vou dormir a base de cafeína e cigarros e cerveja e alguns sonhos que eu pretendo sonhar e que a minha psicanalista vai ficar feliz se eu sonhar já que a há tempos não sonho embora tenha dormido bem direitinho tirando os dias em que não durmo por isso vou botar umas palavras pra fora porque aqui dentro como sempre já está cheio demais e eu realmente preciso exorcizar a energia desse dia que não foi um dia bom mas que não foi em absoluto um dia ruim porque o bem e o mal não existem enfim apenas em mim e toda pedra faz parte do caminho as pedras e os pedros e os nomes e as coisas que a gente esquece e se lembra e depois fica tentando retomar quando ops já não dá mais então depois de fazer uma lavagem e de ver as coisas vermelhas como realmente são percebo que na verdade a dor não se foi mas eu resolvi ignorá-la e por isso vou dormir bem porque ela agora é minha companheira embora eu queira que ela vá embora e quem não quis eu queria poder mas ainda não sei por isso edredom meu fiel escudeiro branco e macio como as noites mais frias de todo o verão a me abraçar com suas longas voltas em torno de mim e o travesseiro entre as pernas e as penas os carneirinhos e os sonhos e ainda ele sempre ele e aquela dor no fundo como trilha sonora mas eu nem gosto de musica e meus olhos fechando e ainda aquela melodia e as letras começando a se embaralhar e Morpheus me olhando sedutor ah como eu o amo e bem tarde espero ah eu espero e pretendo ah como eu ainda espero... zzzzzzzz
terça-feira, 18 de maio de 2010
Do óbvio
Já era noite, eu sei. Já era tarde. Mas eu quis crer que ainda dava tempo. Que nenhum tempo havia passado desde que meus olhos brilharam por um toque macio qualquer. Por um sussurro. Mas a ampulheta já tinha sido virada, e a areia já corria solta pelos pensamentos. Era pra acontecer, eu sei. Mas já era tarde. E por isso a insônia, e o medo e a ansiedade. E tudo o mais que se seguiu. Era tarde demais para aqueles corpos que já tinham sido tão próximos. Era o fim. Um sonho daqueles velhos cabelos ruivos que voavam em outro tempo, e uma decisão daquela cabeça agora castanha de se sentir dona de si. A realidade era um pouco cruel com suas esperanças. O doce era um pouco mais salgado que a visão. Mas ainda assim o mel corria solto de seus lábios quentes, que se culpavam pela promiscuidade assistida e largamente aplaudida pelos dedos que sabiam de si. Ah, os textos! Cruéis componentes da escuridão. E foi no breu da noite, no silencio daquele quarto ainda em chamas que teve de repente uma inusitada e maldita crise de riso. Dessas que ela sempre costumava ter quando despudorada. E riu-se sozinha de tamanha monotonia e previsibilidade. A vida era enfim um livro já escrito, esperando os olhos de outro - que não o dono das letras. E era ela a dona da estória. Tecia seus comentários malditos desde o mais derradeiro instante. Porque a vida é ao invés. É a certeza do contrário. Por isso não soube exatamente como não ser quando de fato foi. E na ânsia de se anular, foi ridiculamente nada, como tantas vezes havia previsto. Viver é muito perigoso. O diabo na rua, no meio do redemunho. O mundo num grão de areia, e o céu numa flor silvestre. O medo e o olhar. A previsibilidade do olhar. Não dava para não saber, convenhamos. Nem dava para discordar. Era. E ponto. Tinha que ser. Pra achar graça, pra poder rir depois, pra falar que já sabia. Não foi novidade para ninguém e não era um fim em si. Era o meio de alguma coisa que terminava naquele fim mais na frente. Era aquela saudade maldita de coisas que jamais aconteceriam e aquela gargalhada do diabo que ela sempre adorava ouvir. O diabo na rua, no meio do redemunho. O céu numa flor silvestre. E eu ainda aqui. A discorrer filosofias das bobagens que já fiz. Sou mestra camaleônica, e me arrependo sempre do não. Agora, mais um cigarro em punho. Relutado. Aceso. Fatal. O que não me mata me fortalece. Por isso sou pedra e espinho, sou filha de titã. Sou forte como uma rocha e macia como uma flor. Sou um silencio desesperador que cisma em não se calar. Sou a dúvida enfim. Do que é certo. Do que é errado. E do que há em mim.
segunda-feira, 3 de maio de 2010
Do desnudamento do amor
O que é que eu amo quando te amo? Rubem Alves sempre me faz indagações absolutamente pertinentes e perturbadoras. Esta é de Santo Agostinho, do qual nada sei. Amo o Rubem porque ele reflete minhas belezas como ninguém. Sua delicadeza assombrada parece sair de dentro do meu peito. O que há em mim de mais belo, ele transforma em letras. Sem querer. Mas quando me pergunto o que eu amo quando te amo, não consigo elaborar uma frase assim tão sucinta. Penso em estória. E foi assim: um dia, no sofá da minha casa, conversava com ela sobre a completa e total falta de homens interessantes no mercado. E ela me disse que eu deveria conhecê-lo. Que, definitivamente, nós precisávamos nos conhecer. E o tempo passou. Não sei quanto tempo. Mas um belo dia eu soube que te conheceria e a partir daí todo o meu universo começou a conspirar. E foi em volta daquela mesa oval que nos olhamos pela primeira vez, e o que aconteceu eu já contei com suficiente clareza em outros momentos para não precisar repetir-me aqui. O que aconteceu foi que de repente um buraco no chão se abriu e eu tive medo de você não sair nunca mais de lá. E foi aos poucos que nos aproximamos pelo verbo – caminho sempre mais difícil: eu pisando em ovos e você estalando as gemas. E nos surpreendemos em uma trama impossível, cheias de pontas a serem amarradas. E é exatamente porque sabemos no que tudo isso vai dar que não há pressa – em absoluto. Quero mais que você viva o que tem pra viver, que faça parte, que transforme e se transforme. Porque quando for, vai ser intenso. E divertido. E ridiculamente óbvio. E o que me espanta em toda esta estória é que a gente sabe. E finge que não sabe, mas sabe. Nos sorrisos sem graça das esquinas da memória e na ânsia sufocada de se saber na impossibilidade. Ossos do ofício. E não é que ela tinha razão? Nós, de fato, precisávamos nos conhecer. Mas o que é que eu amo quando te amo? Acho que amo não te amar ainda, e saber que esse amor pode tranquilamente esperar porque é um amor calmo. Amo a ansiedade desengonçada e a falta de jeito para lidar com esse amor incubado, que nos faz falarmos besteiras e não termos vergonha por isso. Amo o jeito como você propõe assuntos inteligentes quando, na verdade, nossos olhos falam coisas que as palavras não alcançariam. Amo a proximidade na distância e, principalmente, a distância reservada na proximidade. Mas amo, sobretudo, a impossibilidade de amar agora. Amo a calma para não transformar isto em sofrimento, e amo a espera velada e sutil. O sarcasmo da adversidade e a violência do ímpeto. Amo nosso autocontrole, e nosso descontrole que escapa em sorrisos dos olhos. Acho que é isso que amo quando amo você. Amo o que você tem de meu e não quer me entregar. Amo seu mistério e principalmente seu desnudamento. Enfim, acho que amo você.
sexta-feira, 30 de abril de 2010
Vazio
E estava tudo tão cheio daquele vazio que pareceu que nunca antes havia ficado completo. E nos ecos do espaço ela encontrava, enfim, a si mesma. Como era bom reencontrar-se! Como tinha se perdido durante um tempo. E passou a despender seu tempo apenas com as coisas necessárias e inúteis. Apenas com as pequenas delicadezas invisíveis que, por muito tempo, tinha se negado a reparar. E sentiu um prazer imenso em escolher entre cada nova coisa, e tudo que tocava parecia enfim cintilar. Como era bom estar de volta. A sua casa. Sua própria casa. O corpo, extensão da alma, ecoando pelas paredes e a fazendo sorrir assim, sem mentira, sem peso, sem pena, sem nada. Apenas por ser. Sorrir. E teve medo de que um dia algo lhe nublasse de novo o foco e lhe barrasse todo e qualquer movimento. Ela gostava das coisas que tinham movimento ascendente. O que é bom puxa para cima. E por isso mesmo deitou-se naquele chão imundo e teve a deliciosa e plena sensação de limpeza e liberdade. Era tudo nascendo de novo. Eram os buracos a serem preenchidos e algumas poucas coisas a precisarem de remendo. E foi com agulha e linha que teceu com os olhos um texto-poesia, que falava das coisas que mexiam dentro de si e adoçavam-lhe as idéias. Sabia que compromissos se entrelaçavam um pouco mais a frente e que o tempo, embora espaçado, estava borrando neles sensações ainda infantis e bobas. Mas calmas. Pela primeira vez, em muito tempo, calmas. Ah, como tudo chegava enfim a seu lugar. Aos poucos. Toque após toque. Não dava pra confiar em qualquer afago. Nem qualquer pedido. Há que se ter discernimento entre as coisas que foram e as que nunca deixarão de ser. Por isso o maremoto assusta; as ondas. Mas a areia vai sempre estar lá, rompendo seu limite-pedra dia a após dia. Até transformar-se em uma coisa que não ela. Até um dia, enfim deixar de ser. Por isso o tempo companheiro, que cura todo e qualquer desamor. Que cuida de amansar o rancor mais intenso e a solidão mais vazia. É que os dias, ultimamente, não amanhecem ensolarados. Mas eu ainda tenho um edredom para me deitar. No silencio do peito, a chuva. Pingando, fria, em minha pele ainda fresca. É que o dia é brisa, e a noite tempestade. Por ora, nem uma onda a me bater. Apenas o vazio completo e absoluto de estar só. E tão imensamente feliz. E tão sordidamente completa. E assustadoramente realizada. E plenamente consciente dos elos da corrente. A entrelaçarem-se todos. Como os dias. Um depois do outro.
sábado, 24 de abril de 2010
Dúvida
E descobriu-se num mundo de pessoas interessantes, e, num mundo de pessoas interessantes, não havia para onde correr. Lembrou-se da reserva de mercado e do tempo que havia passado em standby, e decidiu que era melhor decidir-se. Sabia que havia tempo demais e tempo de menos e teve medo das perdas e das necessidades. Era ela enfim. E eram eles depois de longos tempos e de muita espera. Sabia ela que, no fim, acabaria por ser mais fácil que o esperado, mas sabia que a escolha seria difícil. Sentia saudades dos abraços e dos braços e da boca, e ao mesmo tempo temia ser precipitada. O tempo passava rápido e ela, sem pressa, corria pelas horas a saborear as novas possibilidades do presente. Resolveu não prendê-lo ao seu véu, e ficou feliz ao ver-lhe enroscado em outros braços. Era por fim livre de si, e isso lhe causou tal vazio que quase duvidou de sua lucidez. Tinha feito a coisa certa. E agora aquelas barbas lhe vagavam o pensamento como sombras obscuras a nublar-lhe as idéias. Ambos a esfumaçarem-se nas nuvens do tempo. Ambos a mexerem-lhe as entranhas como parasitas isolados e seguros. Ah, os homens. Como simplesmente ignorá-los? Como passar imune a eles? Como não magoá-los e amá-los e duvidá-los e senti-los? Como ser sem eles e como escolher entre tantos? No mundo das pessoas interessantes, sorrisos são possibilidades. Barbas são oásis e covinhas ilusões. Mas no mundo das pessoas interessantes, tudo se mistura em total sintonia, fazendo com que as inquietações pareçam banais e sutis inseguranças. Mas o tempo passa. Os cabelos diminuem e os sorrisos desaparecem. Além de tudo, ainda ele. Deprimido e frágil como o mais mortal dos homens, a sofrer sua perda em silêncio, com um insinuante sorriso nos olhos. Nos meus, dúvidas e aflições. Peço aos castanhos que me salvem. Aos verdes, aos azuis e aos negros. Estou perdida em indagações e questões objetivas. Sinto-me uma escrota, embora nunca tenha dito que prestava. Não quero enganar. Mas quero olhar nos olhos e ver mais que historias escritas. Quero versos impressos e impressões inapagáveis. Quero sentimentos e não verbos. Quero olhos. E por isso me questiono entre o duvidoso e o legitimamente duvidoso. Entre o risco e o quase risco. Tenho visto o despenhadeiro, mais ainda não sei como saltar. Quero a segurança de um lugar e a incerteza de um sorriso sincero. Quero. A barba, os cabelos, e principalmente a cama. Em corpos e em pensamentos. E na fuga que eu finjo esquecer entre as taças de vinho. E cerveja. E mais.
quinta-feira, 15 de abril de 2010
De Manhã
Se soubesse como fazer, faria diferente. Mas anda difícil. Uso sempre as mesmas variantes, e a equação nunca se torna exata. E quem é que se interessa pela exatidão? Vivo os sentimentos no fio da navalha. Um só movimento e ele tenderá para um lado, ou para outro – se você quiser. Por isso equilibro-me na razão. Porque sei da nossa loucura e já consegui retomar meu prumo. Pelo que vejo, você anda mareado. Pelo que beijo. Pelo que olhos. Pelo que pêlo. E de novo você – ah! de novo não! Você de manhã e essa cara amassada, e esse sorriso inevitável e de novo. Caí pro lado errado, eu sei. Caímos. Mas já que estamos aqui em baixo, no meio do caos sentimental e saudosista, nada melhor do que ir. Pra longe e para nunca mais. Para onde a gente nunca foi, e de onde a gente nunca devia ter saído. Porque no fundo é nada. É só aquele formigamento – que a gente jurou que não voltaria – fazendo essas cosquinhas irresponsáveis. E não me venha olhar assim! Não foi minha culpa! Fui eu quem disse não primeiro. Fui eu que sorri com o canto dos lábios. Mas me não venha olhar assim! Que esse olhar eu conheço de longe, e essas mãos eu conheço de perto. Não me venha. Me tenha. E me desculpe pelas desculpas. A gente sempre soube que terminaria assim. Que começaria assim. Que seria. Jogo da mentira. Eu mudo pra me esconder e você troca para me encontrar. Crueldade, sim. Você tinha um ás na manga, e eu nunca joguei pôquer (in portuguese). I can, I know. Mas chega. Nós desistimos, lembra? Depois do primeiro temporal e das nuvens que se aproximavam. Que pode ser? Eu sei. Mas não será, e pare de me olhar assim, com essa cara de quem vai conseguir me convencer a qualquer momento, porque não vai. E não venha querer olhar o que eu escrevo, porque eu não estou falando de você. Estou falando de mim. Do que me vai na cabeça, e do que eu estou lendo nesses olhos que tentam me decifrar enquanto eu me decifro inteira nessas linhas que você ignora. E não adianta fingir. Você desaprendeu a disfarçar – logo você. Por isso me perdoe o deslize. Hoje a noite apago a luz, e prometo que tranco a porta. Mas por enquanto ainda é dia. Meu rosto deve estar amassado de travesseiro e você está encantador com esses olhos inchados. Eu tinha saudade dos olhos inchados. Agora tire essa interrogação da cabeça, e pare de me olhar assim. Eu também não sei porque tenho este sorriso nos lábios. Estou achando graça. E só. E eu também não vou te explicar o que aconteceu. Você estava bem aqui. Por isso pare de me olhar com esses olhos, que eu prometo que tiro esse sorriso do rosto!
sábado, 10 de abril de 2010
Silêncio!
Impressiono-me com a calma que o tempo me conferiu. Hoje, no olho do redemunho (ah, Riobaldo!), o que vi foi paz. No agito de olhos fervorosos e completamente sem razão, vi a natureza humana de frente, em seus piores instintos. Mas não tive raiva. Tive pena. A arrogância às vezes me diverte. Claro que um mal estar momentâneo foi inevitável, mas qual o quê! Hoje não houve casca que tirasse meu humor. Tenho aquela covinha deseducada no meio da face, mostrando-se safadamente para problemas de todas as espécies. Nada como o correr dos dias. Lentos e macios, mostrando deliciosamente os percalços e as delícias. Não há nada que não chegue a seu devido lugar. E o que é a vida afinal? Apenas a sucessão de minutos insólitos, que nos passam em cada situação de forma diferente. Assustei-me hoje com a necessidade de auto-afirmação alheia. “Eu” mando, “eu” decido, “eu” é que sei. Aquele velho papo. Um dedo apontado para mim, outros três para você. Um perdido no infinito. Ridículo e irrisório. Ah, a arrogância. Material de trabalho inesgotável. Dava pra escrever cenas e cenas, mas minha imaginação para situações tem andado bem reduzida. Ando brincando com os quebra-cabeças na própria realidade. Tudo não passa de um jogo de tabuleiros. O fim será igual, lamento. Por isso aproveito o caminho. Com a covinha macia sempre em funcionamento. Nasci com a marca da ironia. Mas nunca disse que prestava. E, de fato, só presto às vezes – principalmente quando não é necessário. Ah, os ais! Lamentos desnecessários e tediosos. Sempre acho que a pessoa que grita mais alto é a que tem menos razão. Só costumo gritar quando estou errada, acuada, ofendida. Quando tenho razão sou clara. Quando quero me fazer entender, quando preciso convencer, recorro à retórica. Nunca é à toa. E eu rio, desculpa. Das coisas boas, das ruins, e principalmente dos berros. Não grite nos meus ouvidos, sou surda para você. A não ser que você me olhe. Ou peça. Desculpo, claro. Mas não grite. Não nos meus ouvidos. Tenho tímpanos de pandeiros e vibrações virarão samba. Do mais divertido. Do mais dançante. Porque no fim de tudo, o que há é festa. Por isso não grite! Eu ainda estou lhe devolvendo um sorriso. E, qual criança birrenta, as atenções estão se voltando. Para você. Não do jeito que você queria. Você é o centro das atenções. E não é só minha covinha que trabalha. Acho que todos estão ficando surdos!
terça-feira, 6 de abril de 2010
Dois
Se ele me pedisse um beijo, hoje, não sei exatamente o que faria. Não é porque ele me abalou toda e qualquer estrutura, que eu me renderia, ainda hoje, àqueles olhos tão castanhamente tristes. Mas devo confessar que ele anda incomodando a minha calmaria com suas palavras indiretas que tentam, sutis, me atingir em cheio. Tenho pena de sua covardia. Do seu medo desesperado de olhar. Ele já me perdeu uma vez por isso, e hoje eu o olho com certo pesar do que poderia ter sido e não foi. E é também por isso que os garotos me cansam. Tão inseguros em seu amor a imagem, tão despreparados para as coisas lindas que não tem beleza. E são suas letras tortas que mais me entristecem. Porque eu tinha um abraço carinhoso pra lhe oferecer. Um olhar do passado e uma aliança para dar de volta. Não a quero mais, agradeço a tentativa. Fosse em outro momento, me casaria e iria pra longe. Não adianta me propor filhos agora. Nem me abrir suas carências e suas dúvidas. Já entendi seu silêncio outrora, e ainda escutarei suas palavras, se ele quiser falar. Mas o tempo passou e eu passei com ele. Aquela melodia já parou de tocar em mim. Tranquei a porta e abri meu coração. Fiquei inabitada por algum tempo. Vazia. E no silêncio dessas palavras tortas, entendo o arrependimento e a culpa. Mas agora passou. Não posso mais voltar atrás. Sinos já badalam em outro lugar embora ainda sem som. Ganho meus dias em outras poesias, em pensamentos distantes e macios. Não há o que perdoar nem entender. Desencontros. Os anos passam rápido, e tenho pena dos que ficaram para trás. Ele ficou para trás. E não há nada que o traga ao presente. Nem as alianças esquecidas, nem o funk despropositado que eu até já me esqueci, nem a madrugada inteira e o nascer do sol sem despedidas. Chegou a minha hora de ir de vez. E peço desculpas pelos caminhos cruzados. Não foi minha culpa. Não há culpados. Mas no mundo das pessoas que deixaram suas casas, não há mais para onde voltar. Temos enfim que seguir adiante. Desejo-lhe sorte e calma, com toda a minha fragilidade. Desejo. Que ele saiba ponderar melhor quando for a hora, e que eu tenha forças para ajudar se for preciso. Já destranquei a porta e ofereci abrigo. Por ora, nada mais posso fazer. Tenho sabores inéditos a conhecer, e filosofias baratas para divulgar. Peço perdão ao acaso. E o agradeço, todos os dias, pela beleza do encontro.
sexta-feira, 2 de abril de 2010
Um
E comecei um texto chato e burocrático, quase uma bula de procedimentos literários. Ando vazia por dentro, as novidades me escapam. Apenas aqueles velhos assuntos ainda a rodear minhas letras. Mas a tela do computador, virgem branca e brilhante me atraiu profundamente, e eu não consegui conter meus instintos. Como companhia, hoje, apenas um cappuccino e alguns cigarros. Ando acompanhada de mim. No calendário um feriado que não me significa nada, não me esclarece nem inquieta. O que é que hoje significa? Não comi carne por ocasião. Bem queria a minha cama cheia. Ato falho: não era bem isso que eu queria dizer. Sei que o dia de folga me foi perturbado por telefonemas dóceis e incômodos. A todo o momento trimmmms a interromper o meu silêncio. Ainda sonho com o dia que poderei calar os telefones. Todos os telefones. E me comunicar apenas com os olhos. Com letras e pele. Como eu odeio as caixas postais e seus recados. Hoje, de fato, não consegui acessar as mensagens que me chegavam e me descobri, de novo, livre da tecnologia. Por desencargo de consciência, avisei-lhes da minha inutilidade auditiva. Hoje só ouço o que vai dentro. Um bater incessante de coração acelerado, e algumas coisas entaladas numa garganta que eu nem sei se pode falar. Hoje estou carente daquele velho colo de mãe, seguro e exato como a concha de um caracol. E na imensidão do pequeno apartamento, na materialidade de todos os móveis e todas as coisas, meu silêncio ecoa como um grito desesperado de liberdade enfim. Enfim! Falta eu me adequar a nova realidade, mas ela não há, infelizmente. Meu relógio anda parado, correndo atrás de um tempo estranho, que parece que já passou. Ando sozinha comigo. Mas vislumbro, ali bem perto, um pequeno oásis de paz.
quarta-feira, 31 de março de 2010
Para fora!
E de repente um sentimento de leveza assim tão grande me invadiu a alma, fazendo murchar certas incertezas e nublando de sombras o chamado futuro. E de repente era presente, enfim. Era eu comigo mesma, tendo que tomar uma decisão precisa e correta. E era a retesa. Era o caráter. E era a dor.
Passou. Sorriu. E tudo ao mesmo tempo pareceu tão pequeno e as questões tão insignificantes e as palavras tão repetitivas e os pensamentos tão estacionados, que sentiu vontade de voltar a ser quem ela era há alguns anos. Uma garota. Jovem. Uma menina. Mas era mulher enfim. Com todos os prós e todos os contras e todas as questões e ainda ele. E decidiu que decidir-se não era assim tão ruim e que todas as coisas que um dia foram poderiam voltar a ser, e poderiam ser diferentes, e poderiam enfim dar certo. E torceu. Com toda sua força e bondade. Olhou para o céu, procurou uma estrela, e pediu. Não havia estrelas naquela noite. A estrela estava nela. Embaixo do braço direito, escondida do mundo, apontando-lhe com seus braços o melhor caminho. E teve fé por um breve instante. Fé como nunca antes. E teve saudades, e esperou respostas, e pensou que era bobagem, e ficou ansiosa e deixou os dedos bailarem no teclado, vãos, formando palavras sem sentido que saiam de sua caixa lotada, afinal era esse o sentido dos textos. E teve aquela saudade doída e não soube explicar por que. Porque parecia que o tempo estava passando rápido demais e as coisas estavam ficando para trás e ao mesmo tempo ainda era muito presente, e muito pulsante, e muito, mas muito desconhecido. E era do desconhecido que ela tinha saudades. Das coisas que queria descobrir e que sabia que descobriria se pudesse. E pensou em agir, e achou que podia parecer precipitado e esperou mais um passo. Mas o tempo passava rápido e, no papel, as letras saindo diferente do planejado e ela percebendo aos poucos que a saudade estava mais presente do que a presença, e a imagem ainda não havia saído do pensamento. Mas as coisas andavam muito confusas e a vida ia mudando rápido demais e ela temia o que estava por vir. E ela esperava. Ela ainda espera...
Passou. Sorriu. E tudo ao mesmo tempo pareceu tão pequeno e as questões tão insignificantes e as palavras tão repetitivas e os pensamentos tão estacionados, que sentiu vontade de voltar a ser quem ela era há alguns anos. Uma garota. Jovem. Uma menina. Mas era mulher enfim. Com todos os prós e todos os contras e todas as questões e ainda ele. E decidiu que decidir-se não era assim tão ruim e que todas as coisas que um dia foram poderiam voltar a ser, e poderiam ser diferentes, e poderiam enfim dar certo. E torceu. Com toda sua força e bondade. Olhou para o céu, procurou uma estrela, e pediu. Não havia estrelas naquela noite. A estrela estava nela. Embaixo do braço direito, escondida do mundo, apontando-lhe com seus braços o melhor caminho. E teve fé por um breve instante. Fé como nunca antes. E teve saudades, e esperou respostas, e pensou que era bobagem, e ficou ansiosa e deixou os dedos bailarem no teclado, vãos, formando palavras sem sentido que saiam de sua caixa lotada, afinal era esse o sentido dos textos. E teve aquela saudade doída e não soube explicar por que. Porque parecia que o tempo estava passando rápido demais e as coisas estavam ficando para trás e ao mesmo tempo ainda era muito presente, e muito pulsante, e muito, mas muito desconhecido. E era do desconhecido que ela tinha saudades. Das coisas que queria descobrir e que sabia que descobriria se pudesse. E pensou em agir, e achou que podia parecer precipitado e esperou mais um passo. Mas o tempo passava rápido e, no papel, as letras saindo diferente do planejado e ela percebendo aos poucos que a saudade estava mais presente do que a presença, e a imagem ainda não havia saído do pensamento. Mas as coisas andavam muito confusas e a vida ia mudando rápido demais e ela temia o que estava por vir. E ela esperava. Ela ainda espera...
sábado, 27 de março de 2010
Música
E foi então que eu percebi que talvez nunca fosse. Talvez acontecesse de a gente ficar para sempre e não ficar nunca mais. E eu me perguntei que bobagem era aquela que me inquietava a alma, e eu tinha saudade dos teus olhos e das tuas palavras. É. Saudade daquelas palavras macias que não chegaram a me dizer nada, mas eu pensava nelas entrando pelos meus ouvidos e me dizendo coisas surpreendentes e óbvias. Porque no fundo, o que tinha me encantado era a incoerência. A falta de coesão do corpo com as frases, que negavam enquanto o peito queria. E eu sei que você quis disfarçar, porque eu também quis e também não devo ter conseguido porque quando eu me reparava, em meio à conversa efusiva da roda, esta sempre olhando para os seus olhos e para a sua boca, e para as suas mãos, e para todo o corpo que em minutos se voltou todo pra mim e eu, que conheço bem essa coisa de linguagem corporal entendi que não era consciente, mas que estava acontecendo e a gente estava se deixando levar. E porque hoje a semana já está no fim, inquieto-me do telefone ainda não ter tocado, e de nenhum e-mail ter adentrado a minha caixa e espero ansiosa por aquele novo olhar e aqueles novos sorrisos que nos prometemos em silêncio no momento da despedida. Porque desde aquele dia – que parece tão distante – durmo e acordo pensando em você e já não sei mais o motivo de minha cama estar vazia enquanto você ocupa meus pensamentos. E é por isso que escrevo essas letras doentias e febris. Para ver se você começa a entender que a minha loucura não passa de uma inquietude transviada, borrada de ilusões irreais que eu cismei em dourar ao ver teus olhos. Assim, verborragiando letras, sinto-me um pouco mais livre para ser menos normal quando te encontrar, e talvez sorrir destas linhas como se fossem um reflexo atravessado do que me passa no peito. Porque por dentro sou misturada. Sou vermelha como poucos. E é por isso que coloco essas letras para fora pra brincar um pouco de ser deus, e fazer com que você leia, e alterar o seu destino que já estava escrito. Porque eu quero que você faça parte da minha estrada e por isso desenho com giz o caminho para você passar. E as portas estão abertas para você fugir, mas eu sei que você vai ficar. Porque toda essa loucura se aquieta quando estamos juntos e os nossos instrumentos se unem em melodia. Porque meu coração anda buscando seu compasso e o que tem é falta, então ele reclama e se desespera. E por isso a pressa. Só por isso a pressa. Para que a sinfonia não passe nos deixando para trás. Para que possamos tocar na mesma banda, dividindo o mesmo som.
quarta-feira, 24 de março de 2010
Pontos
e então eu olhei pra você e não achei nada mas era só o princípio e nessa coisa de olhar vou me perdendo em você e me perdendo em mim e quando reparei percebi que tinha acontecido em algum momento borboletas coisa pouca ainda apenas leves sinos tocando a distancia e eu não sabia precisar muito bem o que era talvez um emaranhado qualquer me nublando os pensamentos talvez algum tipo de mentira impensada como eu sempre costumava me contar e aí eu dormi mal e acordei pensando em você e tive a nítida sensação de ter ficado de repente louca porque nada fazia sentido e eu mal te conhecia e já sentia saudades e aí veio aquele telefonema dizendo sei lá o quê mas dizia de alguma forma que você também tinha pensado em mim e de repente todo o chão se abriu por um instante e eu me senti tão insegura que tive vontade de gritar mas foi também por isso pela vontade de gritar que eu achei que estava tudo perfeitamente certo e que aquele balanço nada mais era do que a brisa de uma nova paixão batendo na minha porta e então eu tive medo um medo doentio de não saber como seria e de imaginar como seria tive medo de me decepcionar e de te decepcionar e ao mesmo tempo imaginava a cada segundo novas versões para o nosso roteiro e escrevia capítulos e decupava cada cena cada quadro cada olhar em plano detalhe e você ali me olhando com aquela cara de quem finge não olhar e eu ali te vendo me olhar e fingindo ignorar aquele olhar que me embaraçava de alguma forma e eu pensando como será que você me conhecia tanto tendo me conhecido há apenas alguns instantes e os instantes passando e você me conhecendo ainda mais aí eu tive vontade de te abraçar e não sei por que você me pareceu tão carente que eu achei que você precisava de mim e precisava por isso você sorria sem graça tentando esconder suas inquietações mas não sabia que também eu por dentro estava inquieta tentando controlar um maremoto que me refrescava enquanto me causava terror e foi quando nos aproximamos para despedir que tive a total certeza de que não não era só comigo acontecia alguma coisa maior e estranha e perfeita que eu não podia e nem queria explicar e foi por isso que depois de longos segundos eu ainda não conseguia me desvencilhar do abraço e que cada palavra que você disse na breve despedida me soou como um convite e eu aqui espero o convite e rumino frases e borrões que eu mesma criei nesse meu emaranhado de emoções porque por dentro agora estou borbulhando e ainda tenho vergonha de admitir porque acho que é cedo demais precipitado demais adolescente demais mas sei que você acha também e ficamos os dois contando os dias para chegar a olhar o que nem sabemos se vai haver mas no fundo da minha cama na escuridão do travesseiro e do quarto vazio ainda penso naquelas bobagens e nos sorrisos e nas dores e em tudo o que ainda virá porque não acredito em coincidências e em geral não costumo acreditar nas pessoas assim mas acreditei em você em alguma saudade presente nos teus olhos e em alguma carência ecoando no seu corpo acreditei em você e agora não sei mais como nem o que será sei que seremos e o mais rápido e ao mesmo tempo em que posso estar enganada acho que você entenderá que eu estou completamente certa porque tudo isso não aconteceu comigo aconteceu em mim em algum lugar de mim e acho que aconteceu também em você como raramente acontece como a gente em geral imagina sinos assim de repente mas nunca acontece e agora aconteceu em mim em você e eu tenho medo simples assim um medo doentio de não passar de uma impressão pueril e banal medo ah tenho medo
sexta-feira, 5 de março de 2010
Por entre os escombros
E o mundo caiu assim, de repente, como uma tempestade refrescante em uma tarde de verão. Caiu como caem as folhas e as lágrimas: sem motivo aparente. E por isso sentiu-se livre para de novo sonhar. A poesia de cada instante lhe sorrindo como olhos agora cerrados. Não se sabe exatamente o porquê de toda aquela profusão. O que se sabe é que quando olhou-se refletida no espelho, com aqueles dez anos a mais, espantou-se com sua sutil jovialidade. Estava mais bela do que nunca. Perdida nos destroços de sua alma, sabia pedra por pedra o caminho a ser percorrido. Era um paradoxo. E tinha medo. Por isso mesmo, quando resolveu abandonar-se ao prazer e à luxuria, sentiu-se escrava de suas próprias atitudes. Estava ridícula como sempre e feliz como raramente. Alguma fagulha de paixão a borbulhar-lhe no peito. Passou dias por entre seus escombros pensando por qual tijolo começaria. Era moldada de massa mole, derretia-se com toques suaves. E teve certo medo de sentir-se vulnerável na sua fúria de marionete sem corda; quis tomar os títeres em suas mãos. Não sabia exatamente como faria para amolecer argila alheia. Por isso, quando o encontro inevitável fez-se real, perdeu as contas de quantas vezes havia se preparado para aquele momento. E fez, novamente, tudo que não deveria ter feito. Correu por entre as vielas de sua alma debaixo de uma garoa fresca, que cismava em gelar-lhe as entranhas. Estava de novo aquecida. E no calor daquele corpo ainda desconhecido, rendeu-se à velha sensação de morte e paz. Não, ela não sabia ao certo o que a impulsionava para aqueles braços tão rudes e vazios. Mas apenas neles se sentia completa. Por isso, olhando o mundo destruído a sua volta, teve total certeza de que, enfim, encontrara o seu lugar. Nenhum de seus sorrisos a corar-lhe a face, nenhuma de suas historias a nublar-lhe as idéias. Apenas aquela sensação intensa e fugaz, que escorria-lhe pelos braços a medida que tentava levantar-se. Não soube dizer exatamente onde o terremoto começou em si. Mas quando todo o resto começou a reconstruir-se, ela, por dentro, sentiu-se desmoronar. Misto de inveja e culpa, de torpor e nada. E foi quando acordou daquela noite agitada, que se deu conta de que o mundo havia estacionado e ela, sorrindo, acabava de entrar pela porta. Havia pegado carona nas órbitas. Estava girando em torno de si.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
Assunto
Escrevia um texto lindo quando, de repente, o computador travou. Do nada, sem maiores avisos. Uma pena. O texto era um baile da alma. Tinha prometido não escrever hoje. Por nada. Daria férias às letras. Mas ao ver a tela brilhante, misto de angustia e inquietação, resolvi fazer um carinho ao intangível. Abri a janela da alma. Por isso, os dedos corriam soltos pelo teclado macio, criando imagens irreais e descritivas. Não tenho nenhum compromisso com a verossimilhança nestas linhas – pelo contrário. Aqui crio realidades inventadas, brinco com os acontecimentos, finjo que sou deus. E por brincar assim, irresponsavelmente, toco em cheio a realidade e as fantasias do meu eu mais profundo. Aqui já fui casada, já fui mãe, porra louca e nordestina. Tudo com a maior sinceridade. Hoje sou eu, confessando a completa falta de assunto e o tremendo deslumbramento pela escrita. Ela me preenche e me aprisiona. Os temas surgem de lugar inesperado, e os textos funcionam por si só, criando atmosferas encantadoramente mentirosas. Não sei o que acontece com a alma quando as letras, uma por uma, pulam de dentro do peito – invisíveis – para o preto da tela, tão real. Algo de mágico acontece neste momento oportuno, no qual as coisas que não existem passam, de fato, a fazer parte do mundo. E o que é realidade mesmo? As palavras têm prazo de validade indeterminado. Duram o tempo de uma leitura. Ou por toda uma vida. Uma vez, vi um céu numa flor silvestre, e nunca mais me esqueci de olhar além. Sou apaixonada por olhos alheios. Eles me invadem de forma violenta, causando em mim sensações irremediáveis. Gosto dos olhos sinceros, que me apaixonam avassaladoramente apesar de tudo. Gosto de olhar. Por isso, no momento em que as pupilas se cruzam, quase sempre tenho medo de que as palavras não sejam suficientes. E quase nunca o são. Há que se guardar pequenas sensações nas gavetas do desejo. E transformá-las em poesia depois. Sou movida a poemas não acabados e olhares perdidos. Tenho saudades das coisas que não são e, principalmente, das coisas que eu não sei se vão chegar a ser. Tenho saudades de corpos que não conheço e de bocas que pretendo ainda alcançar. Tenho certeza do sucesso e do fracasso, e por isso me inquieto. E me aquieto. Hoje tenho saudades daquele garoto qualquer, tão qualquer como qualquer garoto, que me fazia o coração disparar com sussurros ao ouvido. Temo que ele me entenda de um jeito que nem eu sei explicar. E sonho com um abraço longo e sincero, que fiquei devendo há algum tempo. Acho que me identifiquei com a dor de seus olhos, que logo em seguida passou. Mas aquela dor ficou em mim, como uma marca forte de personalidade e sensibilidade. Aquele garoto sabe de sua condição de qualquer, e, por isso, sua beleza. Estimo por sua felicidade. Mas o queria aqui. Fazendo qualquer coisa comigo, ou tecendo letras de absoluta beleza em mim. Hoje prometi que nada escreveria; mas ando inundada de pequenos poemas mortos, que foram desenterrados de cova mal lacrada. Hoje os fantasmas estão de volta, e as linhas indecisas seguem-se escrevendo por si só. Peço desculpas pela verborragia e pela falta de assunto, mas inundei-me por dentro e queria, de alguma forma, compartilhar as minhas notas. Hoje vomito músicas. Mas como sempre o disse, tenho o péssimo defeito de ser uma desafinada.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
Álibi
Acordou então com uma leve fadiga do dia anterior: misto de cerveja e cigarros. E decidiu que apesar do peso na cabeça, o dia seria bom. Saiu por entre os carros balançando o cabelo ao vento e levando, de leve, a brisa fresca no rosto. Ainda não sabia o que seria de si. Mas correu, como correm os cachorros sem motivo algum. E encontrou-se, de repente, com um eu que não conhecia. Um eu cansado e feliz das decisões que tinha enfim tomado. Estava livre outra vez. Com os dias a correrem pelos dedos como gotas de chuva fresca. Foi então que se percebeu dona de si como nunca havia sido. Dona de seu destino e de sua própria vontade. E decidiu que algumas coisas precisavam, enfim, chegar a seus lugares. Não em vagar. Do mesmo modo: de repente. E colocou o mundo para rodar com suas próprias forças. Respirando fundo e mantendo o eixo. E pensou naqueles cabelos molhados e dançantes e teve um medo doentio de eles nunca serem seus. Sonhou mais uma noite um sonho sufocado de respeito e transgressão, e teve vontade de desistir mais uma vez. Como era complexo ser senhora de sua vontade. Como era completo. Sentiu-se sozinha. De uma doçura melancólica a solidão. Os homens interessantes tinham o terrível defeito de estarem sempre casados, e ela já se cansara de ser a outra. Gostara, por um momento. Dos dias de semana agitados e dos sábados tranqüilos. Mas depois sentiu saudades dos edredons e dvd’s, com pés a enroscarem-se debaixo do amor romântico. E decidiu abandonar a paixão fugaz. Saiu de cena, perdeu o jogo. De longe, sofria como uma platéia inóspita, que ainda não sabe bem para quem torcer. E sentia culpa. Uma culpa tremenda por desejar para si o que era de outra – pelo menos momentaneamente. E teve certeza de seu destino. Como sempre e como nunca, soube exatamente aonde chegaria com todo aquele xadrez. Mas no peito, cinzas. Brumas de sentimentos passados a transbordarem por entre a tampa. A completude se esvaindo em palavras e o vazio a consumindo por dentro. Como era difícil ser.
domingo, 21 de fevereiro de 2010
Em algum lugar do futuro
Estava perdido em algum lugar do futuro. Aquele momento estava em algum lugar de seu futuro, e ela não sabia precisar bem qual. Mas era ali. Bem no meio da efusividade de pessoas vagando pelo Circo Voador. Bem quando ela não imaginava encontrar mais nada de interessante. No meio de todos aqueles cariocas desinteressantes que ela estava cansada de ver. Bem ali. E foi inesperado. Completamente sem querer que se pegou de repente hipnotizada por castanhos olhos negros parados bem a sua frente. Assim, de repente. Não teve como fugir: não havia um plano de fuga. Estava completamente presa àquela redoma invisível que a prendia ridiculamente ao lado dele. Suspirou fundo fazendo aquele ruído desagradável de estafa, que ele interpretou como um sinal. Virou-se, por um momento, e pegou-a com gotículas de suor a brotar da testa, com salivas fugitivas a esconderem-se em lugar desconhecido. Inesperadamente, a dormência: membros, boca, olhos. Só via ele. Perdido naquela multidão dançante, ele destacava-se como um objeto estático e colorido. Viagem de entorpecentes. E ela ali: sóbria. Seus olhos a perfurarem-lhe a alma como espadas suicidas. E as borboletas a flamejarem suas teorias do caos. E isto foi perto. Em algum lugar qualquer do futuro onde ela se encontrava mais segura e perdida do que nunca. Foi quando ele piscou, como piscam as pessoas normais. Não de um olho só: um piscar de olhos corriqueiro e indefeso. Piscar de quem quer mudar de foco e não consegue. Os olhos dele vibravam em si. Reconheceram-se. De lugar nenhum, mas reconheceram-se de algum lugar perdido em suas imaginações mais otimistas. E sorriram aquele sorriso amarelo de quem consegue o que queria sem querer. Sem saber se realmente queria. Há tempos ela não se sentia tão desconcertada. Talvez desde os tempos presentes, enquanto desconcertava-se ainda com aqueles óculos desconcertados. E não soube explicar para si qual química percorria seu corpo, desenfreada. Enquanto tudo, aquela música mexia-lhe as pernas timidamente e o homem virava-lhe a cabeça. Tudo naquele instante do futuro. Um futuro impreciso que, quiçá, estava prestes a acontecer.
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
Órfã do Carnaval
Havia-se acostumado a dormir pouco e comer mal. Em seu corpo, ainda esguio, os reflexos da vida desregrada e do farto e irresponsável consumo de álcool já começavam a deixar as primeiras seqüelas. Era nova, ainda. De uma velhice doentia. Era viciada em remédios para morrer e olhos para sonhar. Não vivia sem uma ilusão. Por isso, quando os dias acordavam contentes, e os tambores marcavam o compasso de seu coração; saía à rua com uma agradável sensação de tempo perdido e de escolhas mal feitas. Era carnaval, enfim. E durante aqueles dias, todo o seu caos cotidiano parecia nada menos que uma caretice corriqueira. No meio de toda aquela efusividade sexual, da falta de regras e sentido, ela parecia ser a única a não querer tirar férias de si. Enquanto a multidão sambava sua embriaguez de fuga, ela, perdida entre os tamborins, bailava a sua sobriedade sensual. Nada além de cigarros e a conta. Por trás dos longos cabelos negros, observava a patética coreografia social: intelectuais e mendigos divertindo-se ao som da mesma levada, fingindo, por um instante, fazer parte do mesmo mundo. Era bonito o carnaval. Suores e salivas se misturando àquele cheiro de cerveja velha que insistia em se acumular nas sarjetas daquela avenida. Corpos desconhecidos se encontrando febris em uma impessoalidade quase absurda. Ali, tudo era permitido. Naquela multidão de desconhecidos em potencial. Naquela animada confraternização em nome de coisa nenhuma. Era apenas uma licença oficial para se esquecer de si e dos padrões morais: nenhuma pessoa em sã consciência agüentaria mais de um ano em estreita sobriedade. Por isso, quando os tamborins começaram a festejar na esquina, ela sentiu-se, enfim, livre para se recolher. Enquanto todos se perdiam em suas insanidades carnavalescas, ela, com seu cigarro, recolhia-se à sua já notada insignificância cultural e observava os sorrisos sem valor. Não criticava o carnaval. Era ela sua principal foliã – apesar da distância. Comia, satisfeita, todo e qualquer pedaço interessante de carne que lhe passasse sob a vista, e guardava – em suas gavetas da alma – fotografias coloridas desta folia degradante. Era uma entusiasta e uma mártir da quarta-feira de cinzas. Sofria na festividade pagã todas as chagas culturais que, durante o ano, afogava em pequenos copos sujos. Por isso, quando o último apito soou, e todos os tamborins se calaram, teve uma extrema saudade de si. Daquela que acabava agora para voltar em outro carnaval. Apagando o cigarro, sorveu o último trago de felicidade e se entregou ao cansaço. Era, de novo, mais uma reles colombina sem bloco. Mais uma órfã do carnaval.
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
Drama
Há uma linha tênue que separa a sanidade da loucura. Hoje ultrapassei o limiar. Vi o outro lado de perto. Pensei em morrer. No canto da pequena sala gelada, o medo as solidão. Do lado de cá, uma vontade de dormir infinitamente. Depois de sorrisos deliciosos e momentos de extrema frustração, todo o caldeirão borbulhou ao mesmo tempo dentro de mim. Agora, enquanto escrevo, uma letargia nova provocada por altas doses de remédio. Os dedos bailando lentos nos teclados, formando palavras que são, agressivamente, expulsas da alma. Preciso esvaziar os potes. E fechar a tampa. Lacrar esse derrame que escorre do corpo em gotas salgadas. As coisas se configurando de maneiras estranhas e inexplicáveis. Sonho. E nos sonhos, aprendo com calma a delícia da realidade. Preciso com certa urgência de um psicólogo de plantão. Para quem eu possa ligar com calma para discorrer sobre as sombras do peito. Por ora, tenho vontade de derramar toda aquela caixa dentro de mim e de sumir do mundo. Andando sobre pedras que não são minhas, trilhando caminhos estranhos pelos quais eu não gostaria de passar. E os dias me atropelando como tratores grosseiros e cruéis. Tenho sono. E não consigo dormir. Os fantasmas gritando. E sorrindo. Ando de cansada de fazer coisas apenas para agradar aos outros. Mas preciso. E a diferença entre a felicidade e a necessidade está justamente aí. Queria sair correndo por uns dias. Umas semanas. Brincar de me esconder em Buenos Aires – terra conhecida, amiga, e viável. Como eu queria sumir. Deixar de dar noticias, de dizer como eu me sinto. Vontade de calar os celulares por um instante, por toda a eternidade. Ah, vontade! De acordar depois de uma semana e descobrir que o meu mundo já chegou a seu devido lugar, que as coisas estão, enfim, no prumo. Vontade de pintar, de escrever, de criar, de dormir, e dormir, e dormir. É. Acho que preciso tomar meu tarja preta. O quanto antes. Rosa. Bem rosa. E calar os telefones. Preciso calar os telefones e as vozes que não param de ecoar na minha cabeça. Parar. Preciso cessar a derrama que não se estanca. Preciso de colo e de casa. Preciso de mim. Urgentemente de mim. Mas não consigo me encontrar. E eu? Onde estou???
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
Revival
Estava com a sensação estranha de descobrir-se em velho amor. Borboletas a incomodar-lhe a calmaria. Eram dias claros que passavam lentos. No fundo, a velha sensação de sentir-se a imaginar. Os homens eram, de fato, sua melhor invenção. Assim, fechou os olhos no exercício diário de criar encontros, e encontrou-se lá, ainda ao seu lado. Era uma sensação antiga, já o disse. Mas a familiaridade do encontro afigurou-se como uma recordação doce, que teimava em querer se repetir. No peito, a certeza de não ter vivido todos os momentos. Arquitetou pequenos planos de fuga, mas acabava sempre por encontrar-se de novo lá: fumando um cigarro no pátio interno daquele apartamento térreo, e naqueles braços, agora ainda mais ternos e intensos. Enquanto, confundia-se nas ilusões. Misturava realidade e sensações, e criava, sem querer, um jogo de acreditar que se tornava cada vez mais palpável. O telefone ainda a figurar-lhe na agenda. Suas palavras intangíveis ainda a ecoar-lhe nos ouvidos. Então era noite naquele quarto vazio e ela, com suas dúvidas, acreditava naquela certeza inata de que dessa vez seria diferente. Sabia que suas atitudes atrapalharam o passado e, por isso, tecia com cuidado os acontecimentos do porvir. Os dias passavam lentos. E ela, utópica, saboreava cada pequeno novo dado que lhe surgia em suas viagens introspectivas. Alguma coisa a perturbar-lhe a boca do estômago. Lembrou-se então dos negros cabelos e dos corpos dançantes que se encontravam com assustadora freqüência em verões já idos. A antiga memória afetiva já rompera o ano, fazendo dos encontros inesperados pequenas doces pérolas do acaso. Saboreava. Por isso, enquanto criava ambientes oníricos de intensa beleza, sentia como se os acontecimentos conspirassem a favor do encontro. Madrugadas de insônia convergiam e mecanismos cibernéticos os aproximavam. O fato é que se gostavam. A despeito do tempo e do amor romântico. Tinham olhos brilhantes e sorrisos sutis. Estavam, de novo, se descobrindo. De maneira profunda, intensa e talvez até irreal. Ela ainda não sabia o porquê, mas o como se lhe apresentava de maneira incisiva. Faltavam apenas mais uns poucos dias para colocar sua ilusão à prova. De novo ali, à beira daquela baía que tantas vezes os contemplara, embaixo das poucas estrelas e à luz daquela lua cheia. Tão familiar quanto aqueles olhos negros. Tão desconhecido quanto aqueles velhos corpos...
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quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
Do Jardim
E então o dia amanheceu claro, e eu me perguntei por que é que eu ainda estava deitada. Levantei-me com a calma dos dias ociosos, e resolvi dar-me um tempo para sofrer. Embaixo daquele sol forte, na solidão do apartamento vazio, pensei por alguns instantes na necessidade de se sobreviver. Não era como estava acostumada, não era exatamente o que eu queria fazer. Entretanto, debaixo daqueles quarenta e quantos graus, só conseguia pensar em como o dia terminaria. Possibilidades infinitas de se romper a inércia e começar a escrever uma nova história. Por trás de tudo, uma certeza inata. Não era para aquilo que eu estava ali. Não podia perder o foco ao focar-me em interesses alheios. Estava confusa. Algo como uma necessidade vital de um terapeuta assolou-me a alma, dando-me a total certeza do fracasso. Ainda era pouco. Estava me enterrando com as próprias mãos e precisava, a todo custo, interromper este processo de erosão interna que embrulhava meu estômago e embaralhava minha visão. No fundo, a calma inesperada e doentia de quem conhece o roteiro dos dias. Estava ansiosa. Mais uma vez. Com saudade de amigos próximos que se tornaram distantes, e com vontade dos amigos distantes que se aproximavam com o passar dos dias. Domingo teria almoço e conversa. Sorrisos e cumplicidade. Não sabia o que aconteceria até lá. O que sabia é que o tempo passava ligeiro, e atropelava-me os pensamentos. Por dentro, um fogo ardente e aquela vontade inextinguível de brincar de ser outrem. Um sufoco assustador de me pensar responsável e capaz, e de assistir de longe a vitória que também era minha. Ossos do ofício. Estava atordoada. Mais atordoada do que nunca. As pequenas surpresas me massacravam como notícias mórbidas de um terremoto distante. Estava apavorada. E de longe, ao longe, aquela possibilidade latente de felicidade, que teimava em surpreender-me e tentar-me. De longe o diabo e São Jorge, mesclados em um mesmo painel. Por isso, quando acordei suada do calor da noite, e percebi que o dia já raiava enfim, fiz uma prece rápida para que as coisas encontrassem seus devidos lugares, e que a tormenta se acalmasse em mim. Fechei os olhos e pensei na dor e na delícia de ser. E sofri calada a solidão da tarde que caía, pedindo, em silêncio, por flores mais vermelhas e mais cheias de espinhos. Para que eu pudesse, em breve, me ferir e me curar ante a beleza do jardim.
domingo, 10 de janeiro de 2010
Revoada
Trajava apenas uma calcinha quando se levantou assustada, às seis da tarde, para atender a campainha. A visita dele, embora não combinada, já era prevista. Sabia que ele viria mesmo sem ser convidado. Hesitou em abrir a porta naqueles trajes. Mas seus corpos já eram velhos conhecidos e sua nudez, bronzeada do sol daquela tarde, não merecia cortinas. Ele sorriu ao vê-la assim, tão à vontade, e não notou seu leve desconforto com a sua presença. Ela estava encantada por outro homem, que lhe sorria, embaçado, através do espelho de seus sonhos. Não tinha porque dar explicações, mas ao ver aquele homem ali, apaixonado e indefeso, sentiu-se cruel e indecente. Não podia controlar os arroubos do destino. Estavam separados, afinal. Pelo tempo, pela distância e, agora, por outro amor. Não tinha ilusões de amor romântico com sua nova paixão. Apenas queria viver livremente seu platonismo exacerbado. Foi por isso que se sentiu mal com aquela visita inesperada, e aquele olhar profundo e sedento. Não sabia como dizer-lhe que não. Que não mais. Por isso abriu a porta, ainda seminua, e chorou, sem que ele pudesse entender. Abraçaram-se por infinitos segundos e, quando por vontade dele o abraço se partiu, soube que ele a compreendera. Assim. Sem verbos nem mentiras. Olhou-a também com os olhos marejados e agradeceu, em silêncio, pelos momentos que já haviam vivido. Durante alguns minutos, permaneceram se olhando na penumbra da sala, que resistia a se entregar as trevas. Acariciou-lhe, por fim, os cabelos, num gesto quase maternal de extremo carinho. Suas borboletas não voavam mais para ele. E, por dentro daquele homem, uma revoada lhe embrulhava o estômago, trazendo uma vontade doentia de morrer e ser esquecido. Não havia culpados. Haviam-se desencontrado em sentimentos paralelos e delicados, dos quais não tinham controle. E foi quando ele virou as costas para partir que ela sentiu aquela dor lancinante, de quem sabe que fez alguém sofrer. Ainda abraçou-lhe por um instante, colando seus seios às costas dele. Mas ele mais uma vez hesitou. Pediu desculpas, agora em voz alta, e partiu para todo o sempre. Nunca mais voltaram a se ver. Mas sempre que ela se lembra daquele início de noite em seu apartamento vazio, faz uma oração breve e intensa para que ele algum dia lhe perdoe de não poder. E ele, quando se vê sozinho, no escuro de seu quarto, ainda desenha seu rosto em vão, e se arrepende, docilmente, das palavras que não ousou dizer...
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