Pensamentos, frases, estórias e mentiras criadas a partir de fatos corriqueiros. Uma livre distorção da realidade.
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011
Por trás da casca
Cof – uma tosse estranha e seca invadindo o ambiente. Cof cof, ela se repetia. Depois, foi seguida por numerosos hum-hum’s, daqueles necessários à limpeza das gargantas acometidas pelo pigarro. Narizes sendo aspirados, mãos limpando o contorno dos olhos e assim, com o organismo aparentemente em ordem, deu início ao discurso. Sua dicção era clara, as referências teóricas também. Falava como quem domina o assunto, fazia citações, inventava verbetes. Mostrava um conhecimento de causa inequívoco, parecia doce, tinha ternura nas pupilas. Não era, em absoluto, um grande homem, mas parecia, de alguma forma, encantador. Um princípio de careca, uma barriguinha um pouco protuberante, nada realmente digno de nota. Tinha uma insegurança contida, que era demonstrada em distraídos movimentos de mão e olhares em direção ao chão. Era, enfim, um homem comum. Talvez um pouco arrogante, mas comum. Depois de uma curta temporada de sorrisos sinceros, desencontraram-se, como acontece com as pessoas que, apesar da afinidade, não encontram no outro aquele quentinho do lado esquerdo. Era inteligente ele, agradável. E ela não quis, de forma alguma, perder a companhia, os diálogos, seus monólogos. Mas ele era arrogante, enfim. Covarde. Por trás da pompa do discurso, da gentileza forçada, do gosto pela auto-afirmação e do seu freqüente assunto sobre cifras, havia um pequeno amedrontado. Um sujeito amargo e invejoso. Passou a desdenhar sua delicadeza, a invadir o seu espaço, a sentir-se atingido por suas letras. Mal sabia ele que ela nem se preocupava com seus desgostos. Tinha por ele um carinho doce, uma paciência amável de quem conhece um homem ferido. Tinha pena de suas atitudes e comportamentos. Assustava-se com suas grosserias, com suas acusações, com sua vigilância e com sua inveja. Era um homem triste. Sozinho como poucos. Vira nela alguma coisa reluzente que pensou ser sua, e acreditou tão piamente em sua posse que, apesar dos esparsos e efêmeros encontros, não conteve sua frustração. Ela não era culpada de suas projeções. Ela nunca havia dito que prestava. Mas vendo suas letras assim, tão cítricas e direcionadas, teve ainda mais certeza de suas escolhas. Teve pena da pequena grande figura que se escondia por trás de toda a arrogância. Ela tinha visto aquela criança assustada em alguns momentos. Tinha vontade de abraçá-la; tinham medos em comum. Mas o pequeno homem bem-sucedido se levantava diante dela, escondendo-a atrás de sua timidez e de suas decepções. Era uma pena. Poderiam ter criado várias estórias juntos. Mas ele era um personagem complexo com uma espessa camada de lodo. Ela sempre gostou de recheios. E as letras nunca mais foram escritas...
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
Linhas tortas
Então o dia amanhece. Raios de sol entram pelas frestas da cortina e você se pergunta se é possível frear um pouco o tempo. O coração, cavalgante, custa a caber no peito. Ao alcance das mãos, a paz. Um meio sorriso sonolento, um abrir e fechar de olhos cansado. E você agradece pelo instante que, afinal, já se repetiu e se repetirá ainda por muitas vezes. Os longos cabelos a cobrir suas idéias. E, mais uma vez, você confia na vida e no acaso. Esforça-se para concretizar os sonhos-planos e coloca no prumo toda uma sorte de coisas que cismam em andar à margem. Você escreve algumas linhas ao léu, e a criatividade transborda novamente de suas páginas. Você sempre foi um livro aberto que se decifra com o cotidiano. Algumas pessoas preferiram de você o mistério, contentaram-se com a capa, criticaram pelas orelhas. E você mudando de sentido, cambiando os signos para uma análise semiológica mais complexa. Você e os pseudo-intelectuais, presos sempre em suas masmorras de angústias e frustrações. A verdade do artista é feita na pupila do espectador. É no olhar do outro que você se consolida ou aniquila. Por isso não me venha com equações para uma respiração ofegante, nem com matemáticas para a proporção de tempo-espaço. O mundo que você vive é de química, e as relações elementares nem sempre são balanceadas. No fundo, o que a gente queria era não ter medo. Estufar o peito e passar de cabeça erguida pelos fracassos, pelas incapacidades, pelos desrespeitos. Mas quem inventou as regras já morreu e, pudesse ele, escreveria tudo de novo. O que você não entende é que a pena está em suas mãos. E o mata-borrão não tem utilidade para tinta seca. Por isso, folhas em branco! Páginas inteiras de vazio para que você escreva sua história. Ela será recheada de personagens obscuros e misteriosos, que lhe farão refletir seus maiores desencantos. O fim de toda dúvida é um sorriso de criança. Hora de buscar a sua, então. Dentro de si, escondida por debaixo de camadas de roupas e maquiagens e edredons e limites e pavores. Lá embaixo, ela. Encarcerada e perdida entre suas camadas de esquecimento. Compre um pirulito! Conheço poucas pessoas que não se encantam por um apetitoso e róseo pirulito. De morango, talvez. De desejo. Dê uma chance ao que pulsa. Abra a janela com os olhos e guarde na boca as palavras. Afiadas, elas podem ferir. Doces, podem mudar toda uma estrada. Canetas em punho. Tintas borradas. E mãos à obra.
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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
Presentinho
A vida acontece no atropelo. Um dia você acorda estranhamente irritada e percebe que não há nada que você possa fazer pra transformar sua realidade. Você se resigna, trabalha, descansa e, no fim do dia, resolve comemorar a tristeza de mais um aniversário, de saudade dos amigos, de conquistas esparsas e de frustrações, enfim. Aí você desce do taxi, acende um cigarro, e toma fôlego para agüentar os sorrisos, os cumprimentos, as falsidades. Mas alheio ao seu mau-humor, está o mundo. Repleto de possibilidades confusas, de amigos queridos, de abraços sinceros e de mistério. Ali, bem perto. Parado no canto do bar. Escondido sob uma barba espessa, o mistério. Propulsor de questionamentos estranhos, de olhares diretos. Então você sorri. De longe, sorri. E a vida passa em instantes a parecer mais divertida. A cerveja mais gelada, o cigarro ainda mais saboroso. Você passeia por entre as pessoas e elas parecem ter graça, enfim. Você bailando sobre seus saltos, que incomodam sutilmente seus suaves pés; você rodando pelo salão, encontrando prezados sorrisos e desconhecidos olhares. Aí você se cansa um pouco, embriagada pela bebida e pelos pensamentos. Pára, respira fundo, e vai lavar o rosto. Subindo pelas escadas, depara-se de novo com o mistério, estrategicamente colocado no topo, à esquerda, como uma sombra que lhe observa. Você segue para o banheiro, abre a torneira, e a água escorrendo por sua face cria riscos negros e verticais. Lágrimas forjadas do seu desespero. Você se arruma, confiante. Seus olhos no espelho te fazem de novo acreditar no dia; ter vontade de colhê-lo, assim, sem motivo. E você decide voltar. Ainda em cima dos saltos, você decide fazer de novo parte daquela festa. Mas é agarrada pelo mistério, surpreendida pelo acaso, inebriada pelo futuro. E agora, algum tempo depois, você descobre-se ainda mais presa nessa teia. Completamente envolta no desespero, sentindo uma angústia inexata e profunda, misto de paixão e pavor. E se aceita cada dia mais envolvida, e delicia os pequenos momentos, comemora as sutis vitórias e ignora a possibilidade do fim. Talvez pela primeira vez, você aceita a felicidade como um estado constante, sorri sozinha em momentos inusitados, contempla por horas a calma do sono alheio. Você está presa. E tão imensamente livre, tão absurdamente estática, tão profundamente extasiada... Você de novo acredita. Em nada. E em tudo. Você sempre confiou no acaso. Você, por ora, tem aquela certeza absoluta. Aquela certeza esmagadora de que encontrou o seu lugar.
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