domingo, 21 de fevereiro de 2010

Em algum lugar do futuro

Estava perdido em algum lugar do futuro. Aquele momento estava em algum lugar de seu futuro, e ela não sabia precisar bem qual. Mas era ali. Bem no meio da efusividade de pessoas vagando pelo Circo Voador. Bem quando ela não imaginava encontrar mais nada de interessante. No meio de todos aqueles cariocas desinteressantes que ela estava cansada de ver. Bem ali. E foi inesperado. Completamente sem querer que se pegou de repente hipnotizada por castanhos olhos negros parados bem a sua frente. Assim, de repente. Não teve como fugir: não havia um plano de fuga. Estava completamente presa àquela redoma invisível que a prendia ridiculamente ao lado dele. Suspirou fundo fazendo aquele ruído desagradável de estafa, que ele interpretou como um sinal. Virou-se, por um momento, e pegou-a com gotículas de suor a brotar da testa, com salivas fugitivas a esconderem-se em lugar desconhecido. Inesperadamente, a dormência: membros, boca, olhos. Só via ele. Perdido naquela multidão dançante, ele destacava-se como um objeto estático e colorido. Viagem de entorpecentes. E ela ali: sóbria. Seus olhos a perfurarem-lhe a alma como espadas suicidas. E as borboletas a flamejarem suas teorias do caos. E isto foi perto. Em algum lugar qualquer do futuro onde ela se encontrava mais segura e perdida do que nunca. Foi quando ele piscou, como piscam as pessoas normais. Não de um olho só: um piscar de olhos corriqueiro e indefeso. Piscar de quem quer mudar de foco e não consegue. Os olhos dele vibravam em si. Reconheceram-se. De lugar nenhum, mas reconheceram-se de algum lugar perdido em suas imaginações mais otimistas. E sorriram aquele sorriso amarelo de quem consegue o que queria sem querer. Sem saber se realmente queria. Há tempos ela não se sentia tão desconcertada. Talvez desde os tempos presentes, enquanto desconcertava-se ainda com aqueles óculos desconcertados. E não soube explicar para si qual química percorria seu corpo, desenfreada. Enquanto tudo, aquela música mexia-lhe as pernas timidamente e o homem virava-lhe a cabeça. Tudo naquele instante do futuro. Um futuro impreciso que, quiçá, estava prestes a acontecer.

Nenhum comentário: