Pensamentos, frases, estórias e mentiras criadas a partir de fatos corriqueiros. Uma livre distorção da realidade.
quinta-feira, 24 de junho de 2010
Sopro
E então alguma coisa de belo e doce passou a florescer nas cavernas escuras de seu eu. Eram frases soltas e singelas, que partiam de algum buraco acordado, que agora hesitava em dormir. Escondidos nos escombros por anos, os versos saiam agora aos montes. Travavam batalhas assustadoras com as rimas, e pulavam sedentos para a superfície. Era enfim tempo de colher louros. E enquanto o dia raiava ao longe, com um anuncio solene de céu de brigadeiro, ainda nas entranhas do corpo, as sílabas saiam em brasa, uma a uma, formando esculturas no fundo intangível. Como era bonito soletrar. Ponta por ponta dos dedos a narrar sua preferência ideogramática. Frutificando inexistências e colorindo as linhas – ainda sem vida – de interrogações e acasos. Porque os textos se fazem enquanto os olhos se movimentam. E não há dedo pulsante e frase equivocada que não acabe por fazer sentido quando as linhas se entrecruzam. Por isso, depois de anos acorrentadas à sombra da esquizofrenia, agora era, por fim, a hora de ensolarar. A idosa cabeça a podar seu semeador ímpeto, e o peito a pedir algumas letras a mais. Aquela sala de vó grande e farta a povoar seu peito e as folhas balançando faceiras em uma árvore qualquer. Nada como ver e ressignificar. Nada como aceitar quando o fim se impõe;
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