quarta-feira, 29 de abril de 2009

Letras

Escrevo para ser lida e sentida, não para ser respondida. Tenho praticado o desapego. Tenho tentado dar sem querer nada em troca. Porque às vezes uma palavra carinhosa vale como um toque, um sorriso. Os olhos andam inundados. É claro que a resposta é aguardada. Mas ela não é necessária. Ela me obriga a lidar com a solidão, olhos nos olhos. Com a indiferença. Sofrer é bom para o amadurecimento. Embora acelere o processo das rugas. Um pezinho de galinha a mais; uma serenidade um pouquinho maior. Estamos empatados: eu na minha verborragia, você em seu silêncio. Bem-vindo ao meu mundo. Desculpa não tê-lo introduzido antes, eu estava fechada demais. Agora me abri, não sei porque. Agora decidi sorrir aqui dentro, mesmo que chore por fora. Tenho pintado algumas coisas. E os borrões de tinta sempre me lembram frases, cenas. A arte é uma só. Eu sou uma só. Minto, é claro. Minto um pouco, te engano, me engano. Preciso me esconder. Desesperadamente me mostrar. Tom anda concordando comigo. Canta aos meus ouvidos com a suavidade dessa dúvida. Parece tão linda. As confissões são cartas de alforria. Gostaria de tê-la colocado no correio. Seria mais adequado. Aquele papel meio amassado, aquelas lágrimas borrando a tinta azul. Lágrimas são pedaços de mar que nascem dentro da gente. Lágrimas são o caldo da alma dos outros que entrou em nós. Por isso a gente devolve quando sente. Por isso a gente disfarça com o sorriso. Não se preocupe. É mais uma decepção que eu estou tentando superar. Mais um sonho que escorreu pelo ralo antes de vestir o meu corpo. No banheiro, a morte no chão. No meu peito, a vida pulsando. Tenho pena de nós. Sinto saudades de mim. Hoje vi um filme que falava daqueles dias. Nossos dias. O ano acabou, o dia acabou, você acabou. Só eu continuo aqui. Parada. Serei eu a mesma? Será que conheço você? Sinto saudades. Muitas saudades de mim.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Monólogo da Atriz

Sou de uma família tipicamente italiana, matriarcal. Italiano se entende no grito, não tem muita paciência para conversar. Nunca vi minha mãe pedir por favor, dizer obrigada. Meu pai sempre foi uma bomba-relógio: cheio de sentimentos por dentro, e sem nenhuma habilidade para expressá-los. Qualquer dia ele implode. Meu irmão, escondido atrás de seus racionalismos, cultiva, arduamente, o seu pequeno artista. Mas tem vergonha dele, um pouco como eu. Minha irmã seria um poço de emoção. Mas aprendeu a ser macha, como toda boa mulher da família. E tornou-se ríspida e frágil. Um oceano de águas profundas e revoltas. E eu? Eu me tornei um nada. Sempre tive dificuldades em demonstrar minhas fraquezas. Cresci ouvindo minha avó dizendo: seja macho como a sua mãe. Talvez por isso, sempre tive dificuldades de me assumir atriz. Porque ser atriz é não ser macho. É demonstrar os sentimentos, permitir-se fragilizar. Por isso, resumo-me no conflito. Sou uma mentira. Tive que amadurecer rápido demais para poder esconder meu segredo. Não podia decepcionar minha avó. Por isso – ouso dizer – sua morte foi minha redenção. Enquanto sua vida não se apagou, aqueles olhos me perseguiram, grudados em meu pescoço, sussurrando ao meu ouvido: seja macho, seja macho. Ainda hoje – confesso – posso ver o seu olhar de desaprovação, seu comentário por entre os dentes: fraca! E não consigo – por mais que eu tente – não consigo dizer “sou fraca sim, e daí?”. Passei a vida inteira tentando não decepcionar os outros, tentando trazer orgulho pros meus pais. E hoje me pergunto: e eu? Eu me orgulho de mim mesma?. Eu sou a antítese da família. Tenho fama de preguiçosa, de quem não gosta de trabalhar. Sou aquela de quem as pessoas dizem: poderia ter sido qualquer coisa, mas decidiu ser atriz. E atriz, neste contexto, é sinônimo de fracasso. De gente que não produz dinheiro, não produz conhecimento, não produz orgulho. Não é bonito contar pros amigos que tem uma atriz desempregada na família. Se eu fosse da Globo, aí sim! Aí vá lá! Para eles, eu sou uma aposta. Eles ainda têm esperança. O brilhante no ator é que, de uma hora para a outra, ele pode se tornar o troféuzinho da família. O assunto no salão de beleza. Mas alguém já se perguntou se é isso que eu quero? Se é isso que eu busco? Até hoje, quando me perguntam qual a minha profissão, eu ainda gaguejo para responder atriz. Porque ser atriz é trabalhar, todos os dias, com as minhas imperfeições, com as minhas fraquezas, com as minhas vaidades. É tentar, todos os dias, me tornar um ser humano melhor e, com isso, tentar compreender melhor os outros seres humanos. É deixar o julgamento de lado, e tentar ser compreensão. É ver-se no outro, na dor do outro. É humanizar-se. E ser humano não é ser macho. E eu fui criada para ser macho como a minha avó, como a minha mãe. Por isso, tenho o desprezível hábito de me armar com máscaras e ironias. Por isso, costumo assustar os homens. Porque fui criada para ser macho; e sou frágil. Porque fui moldada em uma forma que não me cabia e, hoje, tento romper as arestas que ainda me sobraram. É um exercício diário, doloroso. Mas sinto que estou me abrindo; aos poucos. Deixando-me mostrar em lampejos de dor e angústia. E estou me tornando melhor. Cada dia um pouco. Melhor.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Inquietações

Eu tentei te borrar de mim com a borracha da desilusão – que costumo usar em situações já sem esperança. Não foi suficiente. O grafite – parte negra da lembrança – cedeu fácil; aos poucos se transformou em pó. Mas os sulcos talhados pelo seu lápis-emoção continuam gravados na minha pele, como no dia em que você escreveu. Nosso amor talvez seja feito desses desencantos: uma paixão literária, que se confunde com as personagens dos nossos romances. A peça continua parada: um arquivo morto deste computador. Acho que a ação dramática da cena só se desenvolve quando a dramaticidade da vida anda em baixa. E tenho mergulhado em oceanos de nostalgias. Hoje não fui invadida pela poesia, nem pelo lirismo. Hoje tomei um chá de realidade, adoçado pela expectativa de novos acontecimentos. Brinquei com as palavras no eterno objetivo de ser deus. Mudei o rumo das coisas; deixei-me permear pelos pensamentos alheios. Hoje me envergonhei por alguns instantes, e me orgulhei da minha ousadia. Verti lágrimas de alívio e sorri sorrisos de nervosismo. Hoje brinquei de ser você. Porque ser eu às vezes cansa. Torna-se repetitivo. Porque ser eu não excede o que conheço, não me tira da redoma, guardada como um queijo a se derreter. Tenho-me derretido, é verdade. Amoleço. A vida tem me ensinado a ser menos dura. Os olhos têm me ensinado a sorrir com o peito. Por isso tentei apagar-te e não consegui. Porque de todos os que deixei para trás, você é o único que ainda guardo em mim. Por isso falei minhas últimas palavras, beijei os meus últimos versos. Porque o futuro se aproxima, e eu não queria deixar-te para trás sem algumas letras. Escrevi para ti, mas abri-me para mim. Abri-me para balanço, como disse algumas vezes, em situações um pouco diversas. Estou aberta para balanço! Quero ser balançada como folhas ao vento, com algo emocionante e inquietador. Quero balançar-me ao sabor de um sorvete de pistache. Verde como o urubu da esperança que um dia morreu. Vou entregar-me mais uma vez ao precipício. Quero de novo a vertigem, a insegurança. Quero alucinações em um quarto escuro, noites mal-dormidas de enjôo e angústia. Vou despir-me do luto, e vestir-me de rosa. De negro. Brincar de ser antisocial e multirracial. Numa banheira de hidromassagem. Num banheiro imundo qualquer. Vou lembrar de esquecer-te, e esquecer-me ao te lembrar. Tentar ser um brinquedo qualquer nas mãos do criador. Marionete. Hoje quero o mamulengo. Comandos em ação. Brincadeiras anos 80, roupinha de médico infantil. Hoje abri minhas comportas para um novo rio passar. Hoje me enrolei na bandeira do Brasil, e fumei mais cigarros do que um não fumante é capaz. Hoje parei de fumar. Hoje voltei a beber. Eu comecei a morrer.

sábado, 18 de abril de 2009

Diante do silêncio

Quando ele disse que ia embora, algo nela se riu. Mais uma vez – pensou. Não era a primeira. Provavelmente, não seria a última. Mas dessa vez – ao contrário das outras – teve um pouco de pena de si mesma. Sentiu de imediato a nostalgia dos dias que não ia viver e se culpou, um pouco, por não tê-lo conhecido antes. Não havia como. Era apenas o acaso. Ele tinha se encarregado de juntá-los num momento inoportuno, quando ambos já não esperavam tamanhas surpresas. Guardou consigo a resignação daquele momento, mas agarrou-se à idéia de que ainda havia algumas coisas a serem vividas. Depois daquele dia, porém, só lhe restou o silêncio. Tentou encontrá-lo, ligou algumas vezes, mas nunca obteve resposta. Um mês vivendo na mesma cidade, freqüentando os mesmos lugares, e nada. Apenas uma sombra a lhe perseguir por entre as pessoas. Nunca tentou lhe entender – ele mesmo nunca quis se explicar. Mas respeitou o seu silêncio, como lhe era de praxe. Durante muitas noites, teve a certeza que o veria de novo; assim, sem querer. Mas o acaso não foi tão generoso desta vez. E então ele partiu. Algum tempo depois, ele se foi, como previsto, de volta para o que chamava de casa. Mandou-lhe, então, algumas mensagens – curiosa que estava sobre sua nova vida. E, de novo, teve como resposta o silêncio. Às vezes se perguntava se sua presença não havia sido um sonho. Devaneios encantadores daqueles dias de primavera. Tinha a impressão de que ele nunca havia passado por sua vida. Que ela o havia imaginado – algo como um príncipe moderno sem cavalo branco. Mas não. As testemunhas estavam ali. As alianças sumiram nos dedos, é verdade, mas aqueles olhos tristes lhe dizendo que iam embora continuavam vivos, gravados em sua memória. Não compreendia o sumiço, não se conformava com o silêncio. Mas o respeitava. Talvez fosse uma forma meio equivocada de não sofrer. Por alguns meses, sua imagem cismava em invadir seus pensamentos; mas ela a apagava com golpes de resignação. Nada a se fazer – pensava. E quando pensou que tudo já havia passado, que aquele sorriso (máscara de alguma dor) já havia se acomodado nos arquivos da memória, ele lhe surgiu imenso, na superfície, prestes a explodir. Foi numa conversa com uma amiga em comum. Ela havia proposto o assunto; como uma conversa atual; como se ele nunca a houvesse deixado. E ele? – perguntou. Nunca mais me respondeu – ela disse. Os olhos da amiga se encheram de lágrimas, como se a dor da perda fosse dela. Disse que achava uma pena, mas que o compreendia. Estava deprimido, estava de partida, e talvez não quisesse deixar pendências. Disse que se lembrava da última conversa com ele: estava confuso, apaixonado, não sabia o que fazer. Talvez se calar tivesse sido a única solução possível naquele momento. Por um instante, todo o seu corpo se estremeceu na esperança fugaz de um recomeço. Por vezes, ela tinha ousado acreditar que ele não passava de um canalha; que ela havia se envolvido demais; que aquele amor nunca tinha acontecido. Contou suas inseguranças para a amiga, que lhe tranqüilizou: você sabe muito bem quem ele era e em que momento estava. talvez tenha sido mais difícil para ele do que para você. Sentiu-se tola, por um instante. Por outro lado, não havia como saber. Ele tinha lhe dado margem para qualquer tipo de interpretação, e seu silêncio decidido lhe havia deixado insegura e acuada. Por vezes se sentia uma chata apaixonada, que não sabia lidar com a rejeição. Tudo isso ela disse à amiga, que lhe confortou com um sorriso: tenho pena de só ter sabido do caso de vocês depois que ele se foi. talvez eu pudesse ter intercedido de alguma forma. É. Ele tinha ido embora, isso era um fato. Não sabia quando voltaria a vê-lo, nem se voltaria a vê-lo. Mas seu aniversário estava próximo. E decidiu – mais uma vez – tentar permear seu silêncio. Diria a ele todas as palavras que ficaram guardadas; todos os sentimentos sufocados; todas as esperanças naufragadas. Diria o quanto pensava nele, e como se compadecia dos momentos que não viveram juntos. Diria a ele que, para ela, não havia sido uma ilusão. Havia sido lindo. Mágico. Daria esta chance a si mesma: tentaria uma última vez. Na pior das hipóteses teria como resposta, de novo, o silêncio. Mas ela já se acostumara. Não esperava, em absoluto, uma resposta apaixonada. Por hora, o que queria mesmo era tirar aquele amor dos ombros e entregar, sem culpa, a quem lhe era de direito.

Nunca é tarde demais.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Canto

Um urubu no telhado, uma gaivota na mesa. Uma banheira na sala e um sorriso na testa. Preocupação no olhar, e a tristeza no vento. Palavras soltas no ar, gritos em meu pensamento. Às vezes quero acordar, por outras sonho, me perco. Às vezes quero atracar, às vezes bailo no tempo. O infinito a brilhar, a areia voando lenta. A ampulheta a virar; o mundo gira, invento. Palavras soltas no ar. Palavras: quero brincar. Palavras sempre a rodar. Palavras para pensar. É com os dedos que escrevo, é com a cabeça que penso. É com a cabeça que escrevo, e com os dedos me esqueço. Sentido sempre escondido, coisas que nunca admito. Palavras soltas no ar. Sempre a me revelar. Quando me escondo, me mostro. Quando me mostro, persisto. Quando me assusto, apavora. Quando me canto, assobio. Tento não me afogar, mas jogo água em cima. Tento não me incinerar. Mas sou a chama que brilha. Eu sou a chama que esquenta. Quando me esquento, incendeio; quando me esfrio, congelo. E se não penso não faço, mas se começo, eu crio. Sempre um passo atrás. Sempre tão perto, demais. Gosto do risco, me jogo. Gosto do medo, me grito. O susto dos meus gemidos, a boca, o peito, o cio. Coisas falando demais, coisas que ficam pra trás. O dia passa depressa, meu dia eu mesmo invento. Quando não quero não sofro. Quando não sofro, arrependo. Quero a última gota. Quero morrer, desalento. Sempre com o mundo a rodar, palavras querem expressar. Digo que diz, não diz nada. Mas nada quero falar. É só um sopro de vida. É só aquela ferida. Tempo tudo cicatriza: a casca, o verme, a coriza. Passa, passando, lá vai. É outro pano que cai. O fim de mais um trabalho. O dia, o pranto, o orvalho. Salgado, doce, amargo. O gosto de mais um trago. O vício, a marca, a vacina. Mais uma vez a chacina. É negro, é pobre, é de rua. A vida nua e crua. A gente finge que vê, a gente tenta viver. E indo assim, não se vai. A gente pensa e não sai. Preso nas grades de vidro, o peixe fica contido. Mais um aquário no asfalto. Tem mais asfalto que terra. Árvore virou história, príncipe não existe mais. Ainda sonho: cavalo. Asas num céu: branco e mar. É tudo sonho, verdade. Tudo uma irrealidade. Por isso invento, transformo. Trabalho alquímico adoro. Metal em ouro – brasão. Lágrima em letras – canção. E por aqui eu termino esse meu canto, versão. Parece até abstrato: pedra no dedo, sapato. Nada mais é do que vida, pulsando nessa batida. Tentando se misturar. Discurso bobo, vulgar. Seguindo o mesmo caminho: pretexto, texto, espinho. Só mais uma tentativa, apenas mais um lamento. Palavras soltas no ar, sempre perdidas no vento.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Procedimentos

Tudo começa com uma simples manhã nublada de outono. Você acorda, se apronta com um pouco de pressa, termina de arrumar as suas coisas, e sai pela porta; deixando para trás um pouco do seu presente. Mas você não vai para um lugar qualquer. Você está indo passar o feriado na casa dos seus pais; na sua casa. Aeroporto: check-in, sala de embarque, decolagem. Lá, do alto, enquanto você se perde em pensamentos do presente e do passado, observa o mar de nuvens brancas bem embaixo dos seus pés. Não é nada demais. Não te causa nenhum espanto ou estranhamento. Apenas o céu, visto por outro ângulo, iluminado por frescos raios solares que te trazem uma sensação de vida. Aí, sem querer, lhe vem uma frase à cabeça: um mar de nuvens brancas à beira do abismo da precipitação. A frase passa, esbarra em seus pensamentos, e se vai, como um lampejo. Aos poucos, sem querer, ela passa a permear suas idéias; como uma metáfora irônica da vida. A construção não tem nada demais: apenas uma luz que lhe acendeu enquanto observava pela janela. Nos ouvidos, a poesia dos Hermanos. Aos poucos, uma coceirinha invade seu corpo e a essa primeira frase, muitas outras vão se juntando. Não há um motivo aparente. Não há um porto aonde chegar. Apenas o caminho delicioso e fugidio da imaginação. Imaginação baseada na observação e no seu modo de ver a vida. Aí basta ter um tempinho de calma – como agora, no banco do ônibus, com o computador apoiado em minhas pernas de índio – e começar a colocar pra fora as inquietações geradas por uma impressão da realidade. Não sei dizer se as coisas que escrevo aqui são verdades. Elas partem de alguma verdade – é certo – mas pode ser uma verdade inventada. Mentiras sinceras me interessam. Por isso, amiga, quando for ler estas linhas, não leia com o julgamento da realidade. Leia com a empatia do acontecimento. Verdadeiras ou não, as coisas que escrevo aqui aconteceram em mim em algum momento da caminhada. Aconteceram em mim, e não comigo. Escrevo em primeira pessoa porque me é mais fácil imaginar-me, travestir-me. Vivo disso. É um pouco como a nossa célebre discussão sobre mulheres que apanham dos maridos. Eu invento pontos de vista. Faz parte da minha personalidade testar a minha própria retórica. Criar passagens mais importantes do que o vai-e-vem da minha existência. E você – como poucas pessoas – tem o dom de descobrir minhas pequenas farsas (às vezes). Ouso dizer: tudo que escrevo aqui é verdade! Mas não se esqueça: esse foi – e sempre será – meu lugar oficial de mentir. Por isso, não veja estes escritos como um boletim semanal do meu estado de espírito. Trate-os mais como crônicas ferinas do meu ponto de vista humano. Coloco-me sempre no lugar da observação, e deixo-me comover pelas coisas que me cercam naquele momento. Pode ser que, ao fim de um texto, nem eu mesma lembre o ímpeto que me motivou a escrevê-lo. Pode ser também que, ao final, eu mesma me surpreenda com o discurso. Por isso, leia essas linhas como a manifestação mais pura do meu sujeito-pensante. Do meu lado emoção. Aqui, dispo-me da persona e coloco minhas máscaras no armário. Aqui, quem escreve são os dedos, e não a testa. Por isso, quando pousar os olhos sobre essa tela, abra-se para uma percepção mais sensorial das palavras. Tudo que coloco aqui parte do meu sentimento de perplexidade em relação ao mundo. São sempre experiências novas, pueris. E também por isso efêmeras, como um mar de nuvens brancas à beira do abismo da precipitação.

sábado, 4 de abril de 2009

Lírica

Fui acometida por um súbito ataque de lirismo. Desses que cismam em me surpreender nas manhãs mal-dormidas. Mas decidi resistir. Poesia hoje não! – digo a mim mesma, olhando os meus olhos ainda borrados da maquiagem antiga. Poesia, hoje, não! Tenho tentado resistir a esses arroubos de profundos sentimentos, regados a uma esperança nostálgica de um tempo que nunca será. A vida não tem me sido uma boa amante. Por isso resisto, hoje, à poesia. Porque decidi não me entregar à tristeza e ainda não tenho motivos para sorrir. É claro que no canto dos meus lábios está – como sempre esteve – aquela velha tensão irônica, sedutora. Aquela, de quem ri de algo que não tem a menor graça. Mas não vou me entregar a esse rio profundo, que deságua dentro de mim. Pelo menos não hoje. Resisto porque ainda não é o momento adequado. Porque, por hora, sei que posso esperar. Não que eu não tenha pressa – devo confessar – mas é que essa balada de amor romântico precisa de terra fértil para florescer. Paixões. Por isso decidi me livrar de todos esses homens que ainda andam agarrados ao meu pescoço. Não que eu não goste deles, de forma alguma. Para cada um tenho um olhar especial, uma lembrança furtiva, um apelido ridículo. Mas eles andam ocupando muito espaço dentro desta minha caixa que, como vocês já sabem, vive cheia demais. Por isso resolvi jogá-los fora; dá-los de presente a caixas um pouco menos cheias. Decidi limpar o meu armário de ilusões para poder recheá-los de novos personagens. Porque figuras repetidas, às vezes, enjoam. E nos prendem, sem querer, a uma realidade paralela, intangível. Um limbo; purgatório; espaço entre o paraíso e o desespero. E é porque me prendo a essas antigas esperanças que hoje disse não à poesia. Porque não quero sonetos de amor saindo dos meus dedos, e não quero palavras encantadoras brilhando nos meus lábios. Não quero, porque hoje decidi ficar sozinha. Pela primeira vez; enfim; sozinha! Comigo mesma, livre dos meus fantasmas. Resolvi tirar do coração essa sujeira agarrada, escorregadia. Resolvi deixá-lo limpo, para quando um novo amor passar. Para quando, de repente, outro ataque de lirismo me derrubar na cama. E aí sim, sem culpa, eu escrever as mais sinceras palavras de amor. Incontroláveis. Como lágrimas a derreter, calmamente, as folhas amareladas daquela carta antiga. Por isso disse não à poesia. Porque não quero decepcioná-la. Porque as dores dos amores antigos nunca são tão brilhantes como uma nova paixão. Porque meus amantes foram colocados todos, hoje, no passado. Cada um em seu devido lugar afetivo na minha memória de sensações. Porque hoje resolvi abrir a porta, com a casa limpa, e esperar a próxima correspondência. O próximo platonismo. O próximo descompasso. Porque chega uma hora em que temos que decidir entre ir em frente, ou continuarmos presos aos espectros do passado. E eu decidi pelo amanhã. Pelo que ainda há de vir. E aguardo, ansiosamente, as decisões do acaso. Com a porta aberta e a alma limpa. E com esse lirismo guardado, sufocado, esperando encontrar, enfim, o objeto do seu (des)encanto.