Pensamentos, frases, estórias e mentiras criadas a partir de fatos corriqueiros. Uma livre distorção da realidade.
segunda-feira, 3 de maio de 2010
Do desnudamento do amor
O que é que eu amo quando te amo? Rubem Alves sempre me faz indagações absolutamente pertinentes e perturbadoras. Esta é de Santo Agostinho, do qual nada sei. Amo o Rubem porque ele reflete minhas belezas como ninguém. Sua delicadeza assombrada parece sair de dentro do meu peito. O que há em mim de mais belo, ele transforma em letras. Sem querer. Mas quando me pergunto o que eu amo quando te amo, não consigo elaborar uma frase assim tão sucinta. Penso em estória. E foi assim: um dia, no sofá da minha casa, conversava com ela sobre a completa e total falta de homens interessantes no mercado. E ela me disse que eu deveria conhecê-lo. Que, definitivamente, nós precisávamos nos conhecer. E o tempo passou. Não sei quanto tempo. Mas um belo dia eu soube que te conheceria e a partir daí todo o meu universo começou a conspirar. E foi em volta daquela mesa oval que nos olhamos pela primeira vez, e o que aconteceu eu já contei com suficiente clareza em outros momentos para não precisar repetir-me aqui. O que aconteceu foi que de repente um buraco no chão se abriu e eu tive medo de você não sair nunca mais de lá. E foi aos poucos que nos aproximamos pelo verbo – caminho sempre mais difícil: eu pisando em ovos e você estalando as gemas. E nos surpreendemos em uma trama impossível, cheias de pontas a serem amarradas. E é exatamente porque sabemos no que tudo isso vai dar que não há pressa – em absoluto. Quero mais que você viva o que tem pra viver, que faça parte, que transforme e se transforme. Porque quando for, vai ser intenso. E divertido. E ridiculamente óbvio. E o que me espanta em toda esta estória é que a gente sabe. E finge que não sabe, mas sabe. Nos sorrisos sem graça das esquinas da memória e na ânsia sufocada de se saber na impossibilidade. Ossos do ofício. E não é que ela tinha razão? Nós, de fato, precisávamos nos conhecer. Mas o que é que eu amo quando te amo? Acho que amo não te amar ainda, e saber que esse amor pode tranquilamente esperar porque é um amor calmo. Amo a ansiedade desengonçada e a falta de jeito para lidar com esse amor incubado, que nos faz falarmos besteiras e não termos vergonha por isso. Amo o jeito como você propõe assuntos inteligentes quando, na verdade, nossos olhos falam coisas que as palavras não alcançariam. Amo a proximidade na distância e, principalmente, a distância reservada na proximidade. Mas amo, sobretudo, a impossibilidade de amar agora. Amo a calma para não transformar isto em sofrimento, e amo a espera velada e sutil. O sarcasmo da adversidade e a violência do ímpeto. Amo nosso autocontrole, e nosso descontrole que escapa em sorrisos dos olhos. Acho que é isso que amo quando amo você. Amo o que você tem de meu e não quer me entregar. Amo seu mistério e principalmente seu desnudamento. Enfim, acho que amo você.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Um comentário:
Saudade de ter palavras repletas de vida.
Saudade de sentir um amor e se deliciar com poesia.
Saudade da minha eterna poeta, atriz e amiga metade.
Bom saber de você, dele, dela, de todos estes que moram dentro de vc!
Te guardo com amor, ensinamento e muita alegria.
Irei visita-la mais vezes.
um beijo enorme no seu coração!
Postar um comentário