terça-feira, 2 de novembro de 2010

Resignações

Acho a competência mortal e completamente infalível. Se tivesses ouvidos pra ver que estou ao seu lado, profunda e terrivelmente magoada, talvez não tivesses que lidar com meus ruídos e com minhas inquietações e com meus bailes tão assustadoramente ritmados, que me saem aos berros do coração-compasso. Sou pessoa de raízes profundas, que fincam na duvida sua mais divertida ingratidão. Sou gente de múltiplos que, agora, nesta madrugada fria, lembra de outro que de fato compartilharia meu riso em noite tão estrelada de letras. Penso que ele seria o fim dos abismos e hoje, durante horas a fio, lembrei-me de seus olhos a me fitarem do fundo da noite escura. Tenho medo dos descompassos da vida, que cismam em bater mudos nas sombras de minha resignação. Pergunto-me o porquê de estar aqui, e no meio das respostas mais obvias e doídas, aquela velha visão absolutamente inválida do velho andando só, com suas barbas longas e sua bengala servil. Não é assim que pretendo te ver. Prefiro sacrificar-te ao abismo antes que palavras vis me saiam rolando pela boca e olhos amargos lhe fitem a alma. Não sei qual minha parcela de culpa em tudo isso, mas sei que agora, sentindo-me sozinha aqui, assustadoramente perto, tenho certeza de que o fim se aproxima. Foi um sonho bom, pode ter certeza. Mas a madrugada teima em ir-se e na janela, a parca cortina já não consegue segurar os raios de sol. Peço desculpas pelo ruído das teclas. Foi-me inevitável. E no silencio escuro deste quarto desmaiado, penso entre lágrimas como eu queria estar só. Como eu queria assustadoramente encontrar-me em casa, entre as minhas cobertas e travesseiros. Peço desculpas se não tenho palavras. Aprendi há tempos a riqueza de um olhar. Mas duvido das intervenções combinadas e dos amores premeditados. Pra mim, o fim se aproxima. Não sem dor, não sem medo, apenas com resignação. Com uma certeza absoluta de ter passado o tempo de aceitar tudo e com uma preguiça imensa e doentia de agüentar todas as coisas. A vida se faz nos detalhes. O sonho se desfaz no esquecimento. Peço perdão pela minha impaciência. Se pudesse, guardaria você mais um tempo. No corpo e na alma. Mas é Chronos quem me leva. Ainda um pouco contra minha vontade. Vou amargar uma noite mal dormida e sofrer o medo de ficar sem ti. Mas por ora é tudo. Absolutamente tudo. E terrivelmente um nada.

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