Pensamentos, frases, estórias e mentiras criadas a partir de fatos corriqueiros. Uma livre distorção da realidade.
domingo, 10 de janeiro de 2010
Revoada
Trajava apenas uma calcinha quando se levantou assustada, às seis da tarde, para atender a campainha. A visita dele, embora não combinada, já era prevista. Sabia que ele viria mesmo sem ser convidado. Hesitou em abrir a porta naqueles trajes. Mas seus corpos já eram velhos conhecidos e sua nudez, bronzeada do sol daquela tarde, não merecia cortinas. Ele sorriu ao vê-la assim, tão à vontade, e não notou seu leve desconforto com a sua presença. Ela estava encantada por outro homem, que lhe sorria, embaçado, através do espelho de seus sonhos. Não tinha porque dar explicações, mas ao ver aquele homem ali, apaixonado e indefeso, sentiu-se cruel e indecente. Não podia controlar os arroubos do destino. Estavam separados, afinal. Pelo tempo, pela distância e, agora, por outro amor. Não tinha ilusões de amor romântico com sua nova paixão. Apenas queria viver livremente seu platonismo exacerbado. Foi por isso que se sentiu mal com aquela visita inesperada, e aquele olhar profundo e sedento. Não sabia como dizer-lhe que não. Que não mais. Por isso abriu a porta, ainda seminua, e chorou, sem que ele pudesse entender. Abraçaram-se por infinitos segundos e, quando por vontade dele o abraço se partiu, soube que ele a compreendera. Assim. Sem verbos nem mentiras. Olhou-a também com os olhos marejados e agradeceu, em silêncio, pelos momentos que já haviam vivido. Durante alguns minutos, permaneceram se olhando na penumbra da sala, que resistia a se entregar as trevas. Acariciou-lhe, por fim, os cabelos, num gesto quase maternal de extremo carinho. Suas borboletas não voavam mais para ele. E, por dentro daquele homem, uma revoada lhe embrulhava o estômago, trazendo uma vontade doentia de morrer e ser esquecido. Não havia culpados. Haviam-se desencontrado em sentimentos paralelos e delicados, dos quais não tinham controle. E foi quando ele virou as costas para partir que ela sentiu aquela dor lancinante, de quem sabe que fez alguém sofrer. Ainda abraçou-lhe por um instante, colando seus seios às costas dele. Mas ele mais uma vez hesitou. Pediu desculpas, agora em voz alta, e partiu para todo o sempre. Nunca mais voltaram a se ver. Mas sempre que ela se lembra daquele início de noite em seu apartamento vazio, faz uma oração breve e intensa para que ele algum dia lhe perdoe de não poder. E ele, quando se vê sozinho, no escuro de seu quarto, ainda desenha seu rosto em vão, e se arrepende, docilmente, das palavras que não ousou dizer...
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2 comentários:
Muito linda esse post! Adorei eu te sigo me segui também?ok!obrigado e parabéns pelo seu Blog muito interessante.
Nossa, gostei muito do seu blog! Tenho lido algumas das suas postagens mais antigas e gostei bastante. Estou te seguindo, ok? acabei de iniciar um blog e estou empolgadissimo com a idéia. Um grande abraço!
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