terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Irrealidade

De dentro do quarto vazio, observava as paisagens poéticas que se desenhavam incessantemente pelos transeuntes despreocupados. Cada um com seus anseios, seguiam todos, desordenados, para seus destinos inevitáveis. Ela sempre teve medo de gente. Rostos conhecidos e ignorados a transitar pelas vielas de sua imaginação. Cada um com seu passado, seus medos e realizações. Tinha fobia de aglomerações. Sentia fisicamente as histórias se esbarrando, as possibilidades se perdendo, os desencontros se concretizando. Tinha pavor da impossibilidade. Por isso, trancada em seu universo onírico, tecia linhas sobre os traços naturais riscados pelo acaso, observados atentamente de sua janela-ilusão. Nunca se acreditou segura naquele lugar. Pelo contrário. Temia que, de repente, o mundo irompesse cômodo adentro, jogando-lhe na cara toda a sua futilidade intelectual. Passava dias em sua intangibilidade, colorindo de metáforas seus mais profundos desalentos. Virtualizava. Enquanto isso, tudo. Fluxo contínuo pela moldura na parede. Quadros sucessivos e efêmeros. E ela constante. Cristalizada em sua imobilidade de princesa morta. Em busca de um evento surreal que derreteria os girassóis e as paredes tão concretas de seu castelo de cartas. Nos dedos, os calos já em sangue pingavam gotas de poesia que, no papel, avermelhavam os sentimentos represados. Energia cinética. No copo, líquidos gaseificados com princípios proibidos tornavam a realidade um pouco menos segura. Um pouco mais fresca. E assim, fluidificada pelas substâncias que tocavam sutilmente seu sistema nervoso, deixou-se percorrer cretinos mundos de prazer e vazio. Deteve-se inerte, na cama ainda quente, e pensou, por um instante, nas oportunidades-sensações que havia perdido. Tentou concentrar-se no lustre: ponto de referência do equilíbrio rotacional e, antes de apagar completamente, pensou ainda que poderia ter sido diferente. As gotas de poesia escorrendo sobre os lençóis. O vermelho manchando, aos poucos, o alvo esconderijo absurdo. As células se debatendo ainda uns minutos. E o negro silêncio cobrindo tudo, por fim.

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