Pensamentos, frases, estórias e mentiras criadas a partir de fatos corriqueiros. Uma livre distorção da realidade.
sábado, 26 de dezembro de 2009
Agradecimento de anos
E porque tento dizer coisas que não podem ser ditas, os dedos congelam-se na melhor parte da festa. Bailavam nos teclados segundos atrás e, agora, quando tento falar um pouco de mim, interrompem-se repentinamente, puxados por alguma tração absurda que não sei explicar. Sonho com pessoas distantes que eu queria mais próximas e penso como o tempo pode ser implacável. Dizem que ele destrói tudo. Mas ele tem sido sutil comigo. Hoje – aniversário do meu tempo – tenho mais é que agradecer. A vida tem-me sido uma boa amante: cruel e gentil como os melhores. Sou gente que vivo pessoas: e conheço das mais maravilhosas. Tropeço, às vezes, em pequenos diamantes sorridentes. Ando em dia com a beleza. Não tenho o que pedir. Apenas mais sorrisos e mais abraços. Mais ouvidos para poder entender e mais tato para poder ajudar. Em meu mosaico de ilusões, olhos. Sutis e carinhosos olhos, que já me olharam bem de perto, e já pediram para ficar. A vida é partida. Foi Guimarães que disse que viver é muito perigoso – e ele estava certo. Com as peças que me são dadas, aproveito o caminho. Jogo com o que não posso tocar. E embora espere respostas e anseie por direções, agradeço, a todo o momento, pela companhia. Poucas pessoas são tão bem cercadas. Por trás dos ombros, um sorriso incessante: coisas de outro mundo. E, se for esquizofrenia, que mal tem? Ando acompanhada dos melhores. A cada dia, novas bocas se juntam a esta jornada. Sorrisos sem graça e encantadores. Sou refém das reticências. Por isso, com calma, brinco de desenhar estradas assustadoramente belas. Porque sou filha do vento e deixo pegadas para serem seguidas. Porque destruo as pegadas para que a busca seja mais emocionante. Não tenho do que me arrepender. Não há como voltar atrás. Por isso estampo sorrisos cruéis e profundos: sombras de mim. E agradeço pela brisa fresca e pela água abundante. Ando cercada de abraços. Agradeço cada olhar: furtivos e penetrantes. Cada olhar que se fez único e se foi, deixando em mim mais do que uma gota de saudade. Hoje não tenho o que desejar. Mas quero que a estrada se faça mais larga, e que os sorrisos se colem em mim. Hoje agradeço a presença. O sorriso e o abraço. O olhar que ficou para trás. Agradeço aos que passaram; e aos que permanecem. Aos que foram embora por vontade ou por culpa. Hoje revejo as rugas e admiro os traços. Por fora estou envelhecendo. Por dentro, alguma coisa se inquieta como nunca. Acho que reaprendi a ser criança...
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quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
Ecos da noite chuvosa
Estou com um pouco de medo das decisões. Eu sei, temos o direito de ir e vir; mas tenho medo de querer ficar. Ando assim ultimamente: com vontade de repetir velhas versões e de inaugurar novos modelos. Coisas de inconstante. Por isso escrevo, nestes tempos, sobre romances inacabados e amores platônicos. Porque quando olho nos olhos e decido que sim, pode ser que seja para sempre. Aí tenho medo de querer ficar já que sei que você pode querer ir. Coisas de livre arbítrio. Bobagens de adolescência tardia e velhice precoce. Tenho falado bastante das borboletas. E elas, realmente, andam povoando a minha casa. Andam junto comigo. E quando respiro fundo, e penso que, enfim, acabou; elas batem as asas sorridentes, me mostrando que ainda existe outro caminho. Então penso em ficar. Em sorrir mais um pouco, em beijar mais um pouco, em beber mais um pouco. Por ora, confesso, só confio nos cigarros. São eles que me mantêm acordada dos pesadelos que invento. Apesar disso, tenho sorrido com freqüência. E criado, todos os dias, novos roteiros febris das bobagens que me acometem. É que minha casa de bonecas desmoronou e dela surgiu um castelo sólido e iluminado. O castelo sou eu. E, por mais que eu tente me convencer que não, quando olho nos olhos e sorrio um pouco mais, tenho vontade de ficar. Com você, em você, por você. Porque você foi, e eu continuo aqui. Com alianças envelhecidas envolvendo meus dedos. Uma depois da outra. Mas, sinceramente, não estou querendo casar. Desculpa se te enganei. Faz parte de mim. Eu minto às vezes. Te engano para me colorir. Sou um livro de criança perto de uma caixa de canetinhas. E meus braços são longos! Peço desculpas pelos meus traços. Mas estou feliz. As covinhas estão trabalhando bastante. E, ironicamente, não ando brincando de ironizar. Tenho, sim, medo. Um pavor profundo e infantil de querer ficar. De te olhar nos olhos e querer desdizer tudo o que eu disse. De te cobrar uma decisão qualquer. Mas sou capricórnio com capricórnio – disseram. Nunca vou dar o primeiro passo. Enquanto, divirto-me com o acaso num jogo infinito de tira e põe. Já não sei mais quem é que dá as cartas. Mas aposto alto, com beijos de boa noite e café na cama. Sinto falta daquele gosto. Ainda não sei por onde começar. O que sei é que você tem todo o direito de ir. Mas devia levar seus pedaços. Algo seu ainda está em mim. E eu estou com medo de querer ficar.
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quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
Ante o começo
E, não sei por que, tive medo de não te ver nunca mais. Bobagem, eu sabia. Bobagem... Mas alguma coisa por dentro me apavorava às vezes, como sobressaltos de escuridão. Não sei bem o que era; não sei. Sei que quando olhei seus olhos e, sem querer, sorri; toda uma estrutura rígida e segura se desmoronou em segundos. Uma estrutura aqui dentro. Não que eu não tivesse planejado: confesso. Eu já sabia que ver-te abalaria toda e qualquer rigidez de minha parte. Mas eu sabia na minha cabeça. Não sabia no corpo. Por isso, quando te olhei e, sem querer, sorri, tive medo. Medo de que um buraco no chão se abrisse e você escorresse por ele para todo o sempre. Medo de que tudo desse errado e de que eu nunca mais voltasse a te ver. Medo do fim antes do início. E não há nada. Eu sei, não há nada. Foi apenas um formigamento na boca do estômago: sensação infantil e romântica. Mas quando sorri, assim, sem querer, soube que não havia mais volta. Não por ora, não enquanto. Quando sorri soube, sem querer, que você seria meu companheiro de várias noites: eu dormiria com você na cabeça e acordaria embalada por bons sonhos. Mas agora, entre lençóis e travesseiros – e ainda sem você – tive medo. Medo de não te ver nunca mais e de deixar de dizer palavras que fariam seus olhos sorrirem. Medo de não chegar tão perto, e de não tocar jamais. E mesmo agora, enquanto escrevo, acho-me boba; mas tenho medo! Um pavor intenso e absoluto de você não voltar mais. Um sentir-me ridícula de não saber como me comportar com você. Um desespero profundo de estar me sentindo uma adolescente distante e um pânico supremo de me pensar de fato adolescente na sua presença. Agora, sei, posso me controlar. Mas quando olhar novamente em seus olhos pode ser que, de novo, eu sorria sem sentir. E aí não sei se vou conseguir segurar a tensão e conter o abraço. Ando querendo te olhar. E por isso tenho medo. De que o chão da sala se abra, e você escorra pelo buraco sem fim. Medo de olhar para você, e não sorrir espontaneamente. De querer te abraçar com força e corar – sem querer. Medo de tudo não passar de uma impressão, e sentir, ao te ver, que as borboletas foram embora, que não há mais nenhuma formiga. E medo, principalmente, de descobrir que é tudo real. Medo de não saber o que fazer. Medo de querer você e não poder, e medo de poder e você não querer. Ai, medo. Volto para os meus lençóis – alheios às minhas loucuras – que me acolhem, aconchegantes, para mais uma noite de medo e você. De eu e você. De mim.
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segunda-feira, 30 de novembro de 2009
Da incerteza do acaso
E enquanto a água gelada lhe escorria pela face – ainda suada – arrependeu-se por um momento de não tê-lo feito antes. Preservara-se por pura falta de vergonha, quisera fazer-se de vítima. Mas agora, com os seios ainda dormentes e o pensamento ainda vazio, teve a certeza de que não adiaria mais nenhum minuto. E enquanto a água lhe escorria pela face, como lágrimas incontroláveis, lembrou que ele ainda estava na cama, inerte, embriagado pelo seu aroma e seu sabor. Em seus lábios, também o gosto dele se misturava a palavras sem sentido, que ela dizia sem querer, como se nascessem do instante. Sentiu na pele um arrepio fugidio e, no estômago, por fim, borboletas. Aqueles olhos azuis não lhe saiam do pensamento, penetrando, sutis, no seu mais oculto segredo. Estava enfim juntos, depois de tantos quem-sabe e de quantos talvez. Por um instante, deixou-se pender ao peso da água, e agradeceu pelo encontro promovido pelo acaso. Coincidências não existiam, sabia. Por isso, quando ousou desligar o chuveiro e deitou-se novamente a seu lado, sabia que não havia mais volta. Acabara de entrar em um labirinto sem fim, que consumiria ainda alguns anos de sua existência. E sorrindo suas covinhas rasas, penetrou também naquele oceano e lhe disse, com os olhos, coisas que os lábios não ousariam dizer. Foi um segundo mágico: um encontro de almas e lábios. E olhando para ele assim, tão alvo e tão novo, teve medo do que poderia fazer com o futuro daquele garoto. Era um garoto, enfim. Ela, uma mulher. Segura e decidida como as mulheres às vezes o são. E embaixo daquele ventilador pulsante, na meia luz do quarto ainda em sombras, sentiu-se infantil e desprotegida diante do garoto. Com seus olhos azuis e seus cachos dourados. Abraçou-lhe por um instante, e o enroscar de pernas provou sua certeza: entrara em um labirinto sem fim. Fechou os olhos por um momento, aproveitando a sensação de fragilidade que lhe invadira. E, quando afinal os decidiu abrir, viu que o menino vertera uma lágrima. Gorda e delicada como as suas próprias. Pensou em dizer palavra, mas ele tampou sua boca com os lábios em um beijo de cumplicidade e amor. Mas amor assim tão rápido? – duvidou. Mas ele lhe sorriu com a certeza dos homens maduros. Sorriu-lhe com sua graça de garoto, e com os olhos marejados de dúvidas sinceras. Então teve certeza de que aquilo não era nada; absolutamente nada além de um encontro inusitado. De uma decisão premeditada. De um artifício bobo e fascinante promovido pelo acaso. E teve certeza de ter estabelecido um início; um início bonito e tardio de algo que, algum dia, teria fim.
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domingo, 22 de novembro de 2009
Quanto a mim
Tenho falado pouco de mim. Tenho escrito nessas linhas detalhes sutis da vida dos outros (que não existem). Fantasio, fofoco, recrio. Mas tenho falado pouco de mim. A verdade é que estou gorda e um pouco cansada talvez. Tenho vivido vidas opostas; sonhos alheios, realidades irreais. E pensado pouco em mim mesma. Ando triste na medida. Sozinha e solitária como quase sempre. É que gosto muito da minha companhia, dos meus pensamentos. E, desta vez, estou de fato me acompanhando. Parei de usar estórias antigas e fugazes para me distrair. Tenho um foco claro e brilhante (que teima em percorrer as escadarias da ilusão). Ladeira acima, coloco um pé por vez. O alto do morro está lá, a uma distância intangível – graças a deus. Tenho sido mais complacente e compreensiva. E estou calma com relação ao futuro. Todo dia um dia novo; todos os dias uma nova descoberta. Conheci coisas belas e sujas. Coisas podres de pessoas laqueadas, faces ocultas de sorrisos sinceros. Ando em minha própria companhia. Às vezes, flagro olhares furtivos e aflitos que buscam uma compreensão profunda qualquer. No fundo, estamos todos presos em nossos castelos; subindo os altos muros para nos escondermos das (nas) sombras. Acho bonita a idéia disso tudo. Utópica. Mas vejo cada vez mais gente se perdendo no labirinto, procurando saídas para problemas inexistentes. É tudo uma questão de perspectiva. Do alto, as coisas de baixo parecem pequenas. Mas quem insiste em rastejar tem ótica diferente: mundo de gigantes e fantasmas. Ando no prumo. Com a cabeça ereta e os sentimentos em dia. Acho uma pena não me envolver mais com certas pessoas; arrependo-me de envolvimentos desnecessários. Mas hoje (ou seria ultimamente?) sou sincera comigo mesma. De uma verdade crua e dolorida. Digo coisas que nunca deveriam ser ouvidas. As palavras falam por si só. Mas não perco mais meu tempo com relacionamentos infrutíferos e desgastantes. Preservo-me com armaduras e látex. Mas ainda espero – esperança urubu – olhos que faísquem os meus; peles que me façam ferver. Por ora, ando em calma. Silêncio custoso e real. E as saudades – que foram muitas e intensas – têm se aplacado em vagar, criando a certeza de que o que é não deixará de ser jamais. E o que não é não merece um só pranto. Conto carneiro ao revés. Brinco de lobo mau. E ando ativa: pró e passiva dos acontecimentos do enredo. Deixei-me levar. Por ora (confesso), ando cansada de manusear os títeres. Sou boneco sem rumo, bailando esta valsa louca: composta pelo acaso.
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sábado, 21 de novembro de 2009
Branco
Com os dedos já em sangue de tanto tecer, olhou a vestimenta completa e orgulhou-se de si. Havia engenhado o mais perfeito manto. A mais linda prova de fé e sagacidade. Pensou em desistir por um momento, mas vendo o brilho daquele pedaço de tecido – que há pouco não passava de um trapo – teve certeza de sua missão. Nunca mais deixaria de coser. Foi banhar-se, então. Não se sentia digna de tamanha realeza, e por isso banhou-se, lavando o corpo e a alma. Enquanto a água gelada dourava-lhe a pele, desculpou-se por tantos erros e por todas as mentiras. Olhou as falanges – desfiguradas e irreconhecíveis – e não conseguiu ver nenhum sacrifício naquilo. Por um instante, teve certeza de que toda a sua vida só tinha sido necessária para chegar àquele exato momento; àquela deliciosa sensação. Seu corpo inteiro formigava, em uma dormência embriagadora e apavorante. Tinha borboletas no estômago e, enquanto a água gelada lhe escorria pelo rosto, e seus olhos fechados lhe mostravam o breu, soube que a felicidade não passava de um segundo. Infinito e irreal. Teve pena dos que passariam pela vida sem essa sensação. Teve orgulho de fazer parte do que realmente importava. E desligando o chuveiro, com as gotas a abrirem caminho no chão de pedra, enrolou-se no manto sagrado, molhada do banho e das lágrimas. Hesitou em olhar-se no espelho. Não podia ser merecedora de tamanho deslumbre. Mas ousou. Prendendo os cabelos em um nó com suas próprias pontas, deixou mechas escorrendo pela face, e se atreveu a respirar fundo. Sabia que seus lábios estavam vermelhos e inchados. Sentia seus peitos bailando num cancã frenético de francesas de outrora. Pensou em desistir de sua audácia, mas viu-se de relance no espelho comprido, que apresentava o manto por inteiro envolvendo a sua nudez ainda juvenil. Era então uma santa. Alva e rubra, manchada pelo sangue espesso que brotavam das bolhas dos dedos. Era ainda jovem. Mas já sofria na pele as chagas da transformação. Sentia medo, orgulho, desespero. Era apenas mais um passo indeciso e concreto rumo à vida adulta e, quiçá, adúltera. Passou os dedos nos lábios em um gesto sensual que lhe fez questionar sua serenidade. Paralisou-se. Mas era tarde demais. Já estava vestida de branco, borrada com o sangue que lhe escorria pela pele. Na cama, não menos apavorado do que ela, o homem já dava sinais de profundo amor e submissão. Tinha, sem querer, ganhado um jogo perdido. Estava com os dedos doloridos, e os lábios cansados e vermelhos, gritando de dor. Sentia-se plena e envergonhada. E tinha, agora, uma história para contar. Cedendo seu peso ao quente da cama, sentiu aqueles braços fortes a envolver sua magreza. Aquela língua úmida a desejar sua nudez. Teve medo da morte. E, com os olhos fechados e o lábio entre os dentes, pediu, em silêncio, para que o tempo nunca passasse.
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Castelo
Com os olhos marejados, respirou fundo e voltou. Não era a primeira vez que o fazia. Mas desta vez suspirou diferente, como quem ainda não sabe o que está por vir. Teve medo, enfim. Mais uma vez foi hostil, falou mal de si mesma, pensou bobagens, sorriu mentiras. E encantou. Como de praxe, encantou. Mas assustou também. E, com sua armadura devidamente colocada a quilômetros de distancia, fez sua barreira mais eficiente do que nunca. Aí se sentiu sozinha no castelo que havia construído para si. E não soube como sair dele. Havia fechado as entradas, barrado as saídas, trancado as janelas. Olhou-se refletida em vidro, e teve medo de sua pavorosa astúcia. Como havia sido tola – pensou. E, aos poucos, de leve mesmo, principiou a afastar as cortinas, deixando entrar pequenos feixes de luz, sorrateiros. Ainda sim, não conseguiu conceber a possibilidade de destrancar a porta. Mas experimentou abrir as janelas, deixando o sol entrar de vez. Foi então que o castelo ficou quente e, sem perceber, a princesa teve vontade de brincar nos jardins, de sentir a brisa leve a lhe balançar os cabelos, e de corar as faces de vergonha e mormaço. Sorriu – como há tempos não o fazia. Deparou-se com um rosa ainda em botão, que a fez pensar, sem querer, em um sorriso distante que por ora parecia mortificado. Mas ainda assim sorriu. Estava de novo entrando em contato com a natureza e com a vida. E foram as borboletas que sobrevoavam o jardim que a fizeram perceber como o seu coração andava em pedra. Amoleceu-o em banho-maria, transformando-o em uma substância pastosa e doce como brigadeiro. E as muralhas do castelo derreteram-se instantaneamente, abrindo os horizontes para as montanhas e o mar. A princesa, nesta hora, cantou. Com os lábios e a alma. E convidou a lua para um passeio noturno. E foi assim que, ao acaso, os olhos da princesa voltaram lentamente a brilhar, e o seu coração voltou a adoçar a vida de sapos e príncipes. Assim. De repente. Porque é de uma decisão que brotam os pequenos amores. De um sorriso no olhar e de uma certa calmaria interna. E de um desassossego moreno, de olhos fundos e coxas grossas. E é assim, inspirada pela estória da princesa, que planto uma semente de cacau – primeira e eterna. Planto para que germine. Rego para que dê frutos. E sorrio, para que saibam que por baixo de uma casca grossa, sempre pode haver uma deliciosa surpresa.
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
Retorno
Ouvindo palavras que não sei de onde vem. Tenho saudades dessas vozes que adentram meus ouvidos e me fazem pensar em coisas que eu já tinha abafado. Ah saudade daquela pessoa que já fui e não sou mais. Hoje levo a paz. Uma paz profunda e serena, que me faz esquecer por instantes do maremoto que sou por dentro. A ausência me faz completa. E, na completude, me falta um pedaço. Estou feliz com as coisas que deixaram de ser. Caminho da vida. Pequenos sorrisos conquistados, pequenas conquistas sorridentes. Hoje vou deixar de me esquecer, e lembrar-me daquilo que está por vir. Os cabelos loiros, o sorriso, as possibilidades. Ah vontade arrebatadora de deixar de acontecer. De deixar acontecer e só. Sou o sonho e as pequenas realidades. As responsabilidades e as pequenas loucuras cuidadosas. Sinto medo de deixar de ser. E deixarei, é fato. Deixaremos, todos. Por ora, choro lágrimas de profunda beleza. Pequenos brilhantes em meio a este deserto de ganância. Simples jogos de cena que criarão a poesia desse nosso viver. Tenho pena, ainda. De mim. Não de mim. Não de nada, de tudo, enfim. E as cifras magnéticas e intangíveis enfim começam a fazer algum sentido obscuro e delicioso. Na carteira, fotos antigas e amareladas. Cartões, fichas, possibilidades. Tenho elaborado um projeto. Minucioso. Envolve alianças e um altar. Olhos calmos e febris. Ao lado, na brancura do edredom vazio, a solidão. Bonita, ela. Passageira. No bolso, o bilhete para outro começo. Inicio de tentações e libertinagens. Ainda os cachos loiros. Ainda aqueles olhos apertados, abraços apertados, amassos. Coisas belas e sujas; profundas e sutis. Ao mesmo tempo, o pânico. Rosas, flores, fotos. Cartões e cartazes. Uma sensação de borboletas no estômago, um enjôo, uma gordurinha localizada. Tudo na mais perfeita imperfeição. Natural. Covinhas e umbigo, sentimentos, sentido. Há sentido? Sorrisos. Só risos. Olhos calmos e profundos. Olhos tristes. Castanhamente. Com calma, sigo arrepiada na tênue linha que separa a loucura do não ser. Será? Com pêlos eriçados, nada mais precisa de justificativa. Ação, apenas ação. Letras soltas em telas irreais, olhos fervorosos em busca de sentido inexistente. Tudo pouco. Tudo melodias repetitivas e deliciosas. E o medo. Graças! O medo. Sempre e nunca. Nuca. Boca. Chão e asas. E o céu, mais próximo que o chão, mais bonito que o próprio. Mais meu. E seu. Como é bom estar de volta!
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
No pulo
Só então percebeu que nada do que falava fazia sentido. Ela havia inventado, como sempre. Havia criado uma realidade paralela bem mais interessante do que a realidade que vivia. Pena – pensou. Mas sorriu, observando os pássaros negros que voavam ao longe. Ainda pela janela, pode avistar o pôr do sol, que se apresentava sem pressa, em um palco distante. Pensou novamente no ator, e em quando voltaria a vê-lo. O tempo era seu principal inimigo. Tentou desvencilhar-se destes pensamentos soturnos, e lembrou-se daqueles corpos, ainda garotos, a se conhecer em um réveillon qualquer. Fazia muito tempo. E o tempo era seu inimigo. Sorriu sem graça dos cabelos desgrenhados que lhe olhavam agora, do fundo da tela. Ela sentia saudades. E ele, o que sentia? Sorriu de dúvida e de medo. Chorou. Nada como envelhecer. Dia após dia, ruga após ruga. Renew – pensou. Nada mais óbvio. E, besuntada de creme, teve vergonha de seus pensamentos eróticos. Era hora de dormir. Pensou nos loiros cachos que compartilhavam suas idéias. Parceria vitoriosa. Pensou nos outros cachos, ainda curtos, a se enroscar nos seus. Loiros cachos também. Parceria perfeita, formada ao acaso. Não sabia a hora de contar. Mas lembrava dos sorrisos que nunca havia visto, e queria trocar letras e sons. Queria fazer um amor dançante, cheio de arte e harmonia. Se era a pessoa certa? Ainda não sabia. Mas sempre se precipitava. Era de praxe. Sempre se surpreendia. Soluçando de uma noite feliz, teve pena do garoto ainda menino que morreria antes de saber o que é o amor. Para ele, faltava a calma de esperar. Para ele, faltava apenas a paciência de saber. Detestava saber dos amores com antecedência. Sempre lhes depositava mais moedas do que mereciam. Estava de novo fantasiando. Brincando, mais uma vez, de ser feliz. Tinha saudade dos olhos tristes, da melhor boca do mundo, das sardas perdidas por aí. Mas sabia de cada pequena pinta localizada. Sabia pensar, enfim. Pensou, portanto, o quanto seria bom mais um trago e ainda mais um gole. Pensou naqueles braços que não lembrava, e naquela pele que jamais poderia esquecer. Pensou, enfim, nele; como jamais ousara pensar depois de tudo. Pensou nos sorrisos, e nos olhos, e na dor. Sentiu-se parte. E distante. Perdeu-se. E chorou. Com as mãos vacilantes, e os olhos concisos. Chorou de amor e de medo. Porque o tempo passa. Passa rápido. Passa perto. Passa por nós.
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
Destinos
E então ele subiu o morro e se despediu – sem olhar para trás. Não queria ver os olhos cintilantes da menina que sorria. Não queria admitir sua própria partida. Correu por entre os carros até alcançar a porta do ônibus e parou, por um momento. Pela primeira vez, hesitou. Não queria se afastar. Mas era preciso. Naquele momento, era preciso. Enquanto sacolejava pelas estradas esburacadas, pensava naquele sorriso inocente, que ele se recusara a ver. Jamais esqueceria aquele sorriso a lhe atravessar as costas e atingir – em cheio – o coração.
Parada no sopé do morro, a menina ainda guardava nos lábios aquele sorriso sem graça. Os olhos ainda brilhando como luas novas. E, embora tentasse transparecer essa atmosfera calma, por dentro era só trevas. Um oceano escuro e revolto de sentimentos que não podia compreender. No ventre, a esperança de dias melhores. No ventre, sua sentença irrevogável de vida. Tentava – bravamente – conter a ânsia de vômito que lhe invadia ao pensar nele, sozinho, sacolejando pelas estradas esburacadas. Ela também deveria estar lá. E ele fora embora sem ao menos olhar para trás.
Por mais que tentasse se convencer, ainda não conseguia acreditar que tinha tomado a decisão certa. Tinha-a deixado para trás, como o ventre ainda em ponta e os olhos ainda em mar. Não era certo. Não era justo. Mas não podia adiar seus planos por causa de um percalço. Deveria, sim, seguir em frente e construir o futuro que traçara a duras penas. Ainda que sozinho. Por um instante, chorou. Não era certo. Não era justo. Só metade de tudo aquilo era verdade. O sonho estava dividido em duas partes desiguais e desconexas. Três partes. Seria menino ou menina? Com as ondas a lhe avançar pelos olhos, soluçou quieto enquanto tentava tomar a decisão mais sensata. Havia gasto todo seu dinheiro. Já usara todos os sonhos que lhe cabiam no bolso. Do lugar exato onde estava, não havia volta. Não mais.
Tentava compreender os motivos de sua partida. Tinha, a muito custo, apoiado sua decisão. Mas depois de ouvir o ronco do motor ao longe e de não sentir as pedras do caminho, passou a desacreditar da sorte. Por dentro, era só ausência. Uma ausência maldita e desesperadora de se sentir dois enquanto era metade. Carregava consigo um amor convulsivo e desesperado. Um filho natimorto de paixão abortada. Um ventre recheado de desilusões e angústias. Por alguns segundos, sentiu-se morta, e tal sensação lhe foi demais agradável para conseguir afastar o pensamento inevitável do fim da vida. Abreviar o sofrimento seria um ato de coragem, e não de covardia. Sorriu de sua destreza. Sabia, enfim, como lidar com a situação.
Dentro das lágrimas que rolavam de seu rosto endurecido pelo tempo, havia algum tempero amargo de culpa. Sabia que não podia tê-la deixado. Sabia que o fardo era também seu. Por isso, na primeira parada do ônibus, teve ganas de sair correndo, e nunca mais voltar. Mas deixou-se ficar na cabine do banheiro, sentado por sobre o vaso sujo e malcheiroso, tentando embriagar-se de pingas e pensamentos. Tentando encontrar forças para se levantar. Ouviu quando o motor voltou a ligar-se, e o motorista buzinou duas vezes, anunciando a nova partida. Ouviu, mas continuou parado, no mesmo lugar, esperando que o acaso decidisse por ele. Lembrou-se daqueles olhos de lua nova como duas estrelas a iluminar seus passos. Tomou mais um trago, e ainda outro, e outro. Deixou-se cair por entre a louça do banheiro, e seus soluços poderiam ser ouvidos a quilômetros de distância, caso não os abafasse com aquela mão calejada e tosca. E com aquela certeza de que nada iria mudar.
Sorriu de sua bravura e custou a acreditar no que faria. Ela, menina-moça, tão vulnerável e tão forte, tão absolutamente dona de seu destino. Não teve tempo de repensar. Nem sequer hesitou. Correu morro acima, por entre os carros e os ônibus e ainda mais e mais. Chegou ofegante ao topo do morro – mirante da cidade – e ainda antes um pouco observou a vista. Ainda teve este tempo. Observou a cidade que lhe prendia e o abismo que a libertava. Tomou um pouco de distância, sentiu a pulsação aumentar numa descarga de adrenalina, e se lançou. Um salto para o infinito. Uma gota de liberdade. Naqueles segundos intermináveis – enquanto durava a queda – ainda teve tempo de ter certeza de que não podia se arrepender. Não iria se arrepender. Morria consigo o amor e o destino. Estava, enfim, livre outra vez.
Dormiu abraçado àquele vaso imundo, alternando crises de choro e vômito. Como companheira, apenas a garrafa plástica de aguardente barata. Acordou no meio da noite, entre o som dos grilos e dos pneus no asfalto. Não sabia ao certo quanto tempo tinha ficado ali. Não sabia mais se lhe restava algum tempo. Com as migalhas de sua dignidade, pensou que não poderia – jamais – voltar para casa assim. Ficaria rico. Só voltaria para lá quando estivesse rico. Ainda seria digno de rever aquele seu sorriso inocente, e aqueles seus olhos cintilantes. Por ora, pedia desculpas a si mesmo e maldizia o destino. Mas a sorte ainda havia de mudar. Um dia – ele pensava. Um dia...
Por alguns dias, pensaram que ela tinha fugido atrás dele. Custaram a encontrar o corpo em frangalhos no fundo do precipício. Tentaram avisá-lo. Em vão. Havia sumido no mundo como um rato. Ninguém jamais o encontraria. Anos depois, ainda sem dinheiro e com nenhuma dignidade, fora encontrado morto em um quarto sujo de hotel barato. Cirrose – diagnosticaram. Nunca soube de seu salto no abismo. Passou o resto dos dias com uma pedra presa aos pés, como um afogado a se debater. Não conseguira emprego, nem dinheiro, e muito menos amor. Ainda um pouco antes de seu coração parar e seus olhos perderem o brilho, lembrou-se daquela lua nova e do sorriso cintilante. Sentiu pena de si por não ter conhecido o filho. Pediu desculpas e morreu sem paz.
Não se encontraram no além. Não se encontraram nunca mais. Com medo daquela pobreza arrasadora, morreram separados, cada um em sua miséria. Mas ambos, no último suspiro, maldisseram o amor. Maldito amor. Maldito e sufocante amor.
Parada no sopé do morro, a menina ainda guardava nos lábios aquele sorriso sem graça. Os olhos ainda brilhando como luas novas. E, embora tentasse transparecer essa atmosfera calma, por dentro era só trevas. Um oceano escuro e revolto de sentimentos que não podia compreender. No ventre, a esperança de dias melhores. No ventre, sua sentença irrevogável de vida. Tentava – bravamente – conter a ânsia de vômito que lhe invadia ao pensar nele, sozinho, sacolejando pelas estradas esburacadas. Ela também deveria estar lá. E ele fora embora sem ao menos olhar para trás.
Por mais que tentasse se convencer, ainda não conseguia acreditar que tinha tomado a decisão certa. Tinha-a deixado para trás, como o ventre ainda em ponta e os olhos ainda em mar. Não era certo. Não era justo. Mas não podia adiar seus planos por causa de um percalço. Deveria, sim, seguir em frente e construir o futuro que traçara a duras penas. Ainda que sozinho. Por um instante, chorou. Não era certo. Não era justo. Só metade de tudo aquilo era verdade. O sonho estava dividido em duas partes desiguais e desconexas. Três partes. Seria menino ou menina? Com as ondas a lhe avançar pelos olhos, soluçou quieto enquanto tentava tomar a decisão mais sensata. Havia gasto todo seu dinheiro. Já usara todos os sonhos que lhe cabiam no bolso. Do lugar exato onde estava, não havia volta. Não mais.
Tentava compreender os motivos de sua partida. Tinha, a muito custo, apoiado sua decisão. Mas depois de ouvir o ronco do motor ao longe e de não sentir as pedras do caminho, passou a desacreditar da sorte. Por dentro, era só ausência. Uma ausência maldita e desesperadora de se sentir dois enquanto era metade. Carregava consigo um amor convulsivo e desesperado. Um filho natimorto de paixão abortada. Um ventre recheado de desilusões e angústias. Por alguns segundos, sentiu-se morta, e tal sensação lhe foi demais agradável para conseguir afastar o pensamento inevitável do fim da vida. Abreviar o sofrimento seria um ato de coragem, e não de covardia. Sorriu de sua destreza. Sabia, enfim, como lidar com a situação.
Dentro das lágrimas que rolavam de seu rosto endurecido pelo tempo, havia algum tempero amargo de culpa. Sabia que não podia tê-la deixado. Sabia que o fardo era também seu. Por isso, na primeira parada do ônibus, teve ganas de sair correndo, e nunca mais voltar. Mas deixou-se ficar na cabine do banheiro, sentado por sobre o vaso sujo e malcheiroso, tentando embriagar-se de pingas e pensamentos. Tentando encontrar forças para se levantar. Ouviu quando o motor voltou a ligar-se, e o motorista buzinou duas vezes, anunciando a nova partida. Ouviu, mas continuou parado, no mesmo lugar, esperando que o acaso decidisse por ele. Lembrou-se daqueles olhos de lua nova como duas estrelas a iluminar seus passos. Tomou mais um trago, e ainda outro, e outro. Deixou-se cair por entre a louça do banheiro, e seus soluços poderiam ser ouvidos a quilômetros de distância, caso não os abafasse com aquela mão calejada e tosca. E com aquela certeza de que nada iria mudar.
Sorriu de sua bravura e custou a acreditar no que faria. Ela, menina-moça, tão vulnerável e tão forte, tão absolutamente dona de seu destino. Não teve tempo de repensar. Nem sequer hesitou. Correu morro acima, por entre os carros e os ônibus e ainda mais e mais. Chegou ofegante ao topo do morro – mirante da cidade – e ainda antes um pouco observou a vista. Ainda teve este tempo. Observou a cidade que lhe prendia e o abismo que a libertava. Tomou um pouco de distância, sentiu a pulsação aumentar numa descarga de adrenalina, e se lançou. Um salto para o infinito. Uma gota de liberdade. Naqueles segundos intermináveis – enquanto durava a queda – ainda teve tempo de ter certeza de que não podia se arrepender. Não iria se arrepender. Morria consigo o amor e o destino. Estava, enfim, livre outra vez.
Dormiu abraçado àquele vaso imundo, alternando crises de choro e vômito. Como companheira, apenas a garrafa plástica de aguardente barata. Acordou no meio da noite, entre o som dos grilos e dos pneus no asfalto. Não sabia ao certo quanto tempo tinha ficado ali. Não sabia mais se lhe restava algum tempo. Com as migalhas de sua dignidade, pensou que não poderia – jamais – voltar para casa assim. Ficaria rico. Só voltaria para lá quando estivesse rico. Ainda seria digno de rever aquele seu sorriso inocente, e aqueles seus olhos cintilantes. Por ora, pedia desculpas a si mesmo e maldizia o destino. Mas a sorte ainda havia de mudar. Um dia – ele pensava. Um dia...
Por alguns dias, pensaram que ela tinha fugido atrás dele. Custaram a encontrar o corpo em frangalhos no fundo do precipício. Tentaram avisá-lo. Em vão. Havia sumido no mundo como um rato. Ninguém jamais o encontraria. Anos depois, ainda sem dinheiro e com nenhuma dignidade, fora encontrado morto em um quarto sujo de hotel barato. Cirrose – diagnosticaram. Nunca soube de seu salto no abismo. Passou o resto dos dias com uma pedra presa aos pés, como um afogado a se debater. Não conseguira emprego, nem dinheiro, e muito menos amor. Ainda um pouco antes de seu coração parar e seus olhos perderem o brilho, lembrou-se daquela lua nova e do sorriso cintilante. Sentiu pena de si por não ter conhecido o filho. Pediu desculpas e morreu sem paz.
Não se encontraram no além. Não se encontraram nunca mais. Com medo daquela pobreza arrasadora, morreram separados, cada um em sua miséria. Mas ambos, no último suspiro, maldisseram o amor. Maldito amor. Maldito e sufocante amor.
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
Conquista
Mais uma dessas viagens inesperadas, que me ocorrem de madrugada, enquanto os dados do cartão de crédito cismam em estar ao alcance das minhas mãos. Mais uma atitude impensada. E de novo eu, sozinha, no aeroporto, pergunto-me por que é que estou de novo indo para lá. Por que assim, tão de repente. Não sei se sei fazer planos a longo prazo. Todos eles se desfazem antes do tão sonhado dia. Vivo o agora. Por hoje, malas arrumadas com pressa, dia cheio de compromissos inadiáveis e, de novo, a paz. Do alto, de cima, a paz. A estranha sensação – pela primeira vez – de não estar voltando para casa. A casa é a que fica. Vou de passagem, de visita. Meu lugar é no sovaco do cristo, no edredom branco com almofadas vermelhas. No banheiro ainda sem box. Estranho a sensação de crescer, de achar meu lugar no mundo diferente do lugar onde nasci. Tenho saudades dos amigos, das crianças, dos momentos, de lugares. Tenho saudades de um eu que fui e já não sou. O passado, como parte do presente, infelizmente não me serve mais. Roupas velhas que deixei de usar, embora ainda as guarde com carinho. Aos poucos, vou sentindo a familiaridade do exílio. Sensação que nunca imaginei plenamente possível. Lembro daquele menino com os olhos tristes, que me sorriu, doído, antes de partir. Talvez ele não tenha encontrado esta paz. Me compadeço dele e dos momentos que não vivemos. Ainda não consigo deixar de acreditar que teria dado certo. Mas agora, outros olhos me sorriem brilhantes, e eu acabo por me convencer de que daria certo, de qualquer forma. Sozinha, vazia, custo a esconder a sensação de completude que me invade. Sorrio da mulher que me tornei. Ainda menina, ainda sem graça. Mas forte como sempre e confiante como nunca. No saguão, por entre os ouvidos, ruído de teclas soltas a se divertirem com os dedos. Mais uma lua de mel com o teclado. Por dentro, uma esperança maldita, que brinca de me preencher e me iludir. Sempre gostei de acreditar. Ainda olhos castanhamente tristes, ainda cabelos levemente desgrenhados, ainda um sotaque acentuado. Ainda em mim imagem dos que se fizeram sentir, e dos que ainda hão de se mostrar. Observo com calma o caminho que eu mesma desenhei. Dou passos lentos e contínuos rumo ao futuro. Afinal, não foi isso que eu quis? Não pedi, batalhei, conquistei e me surpreendi. A vida acontece no enquanto. E o medo, por mais que pareça assustador, é inevitável e vital. Viva o medo. A alegria. A esperança e o amor. Benditos os sonhos que ousamos sonhar e tivemos a braveza de construir. E viva o futuro. Esse invejável senhor que nasce sempre do agora.
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
Prelúdio
Fazendo coisa errada, eu sei. Mas como é bom errar de vez em quando... Nada como perder os pudores, e viver a verdade. Nada como respeitar o corpo e se render ao mau-senso. Não gosto de pensar nas conseqüências quando elas são efêmeras e – convenhamos – insignificantes. Bobagens. Apesar de tudo, somos adultos, e sabemos muito bem onde essa montanha russa vai dar. Obviedades. Por isso arriscamos. Pois sabemos dos contratempos e das ridicularidades.
(Tempo)
O tempo passou e as bobagens continuam sendo feitas. Nesse arquivo intangível, fica fácil acompanhar as desilusões e desavisos de uma vida bem regrada. Nada mais natural do que errar. Por ora, ando observando movimentos alheios, pensando em irreais e sutis separações e desencontros. Brincadeiras de adultos. Como crianças, continuamos correndo contra o tempo, tentando inibir esse tal futuro que nos apavora e nos consome. Morrer já não parece novo. A proximidade do fim nos envelhece. Rugas a mais, sentimentos a mais, tempo de menos. No relógio, ponteiros incessantes girando em torno de nossos umbigos. Vida que segue. Nada como a vida para aplacar a morte. Hoje, sinto saudades doídas das crianças que já não são. Penso em meus sobrinhos, correndo, felizes, para conhecer o novo presente. Presente é hoje. Saudade estranha da criança que fui e não conheci. Na cabeça, o tempo. Tempo demais para acreditar, tempo pequeno para se desiludir. Tenho refletido sobre trocar de profissão. Custo a admitir, mas acho que os dedos andam me dando mais alegrias do que os palcos. Decepções. Escrevo porque preciso. Desisto porque me entendo. E, dia após dia, vou elaborando esse labirinto sem saída aparente, este turbilhão de idéias que resumem a existência. Sentada no parque, sozinha, atrás de mesa enorme. Sozinha comigo mesma. Vou brincando de ser o deus da sintaxe. Vou mexendo nas palavras e guimaraneando verbetes. Escrevo o que sinto, não dicionario. Por vezes, duvido das letras e das frases. Elas não importam. Fonema por fonema, o texto se faz sólido; construindo, por si, seu completo significado. Estou travada. As cenas, perfeitas em pensamento, recusam-se a ganhar vida no papel. Não há ilusão real. Pingo por pingo, a enxurrada de letras se faz cachoeira, tocando, gelada, corações que andam em pedra. Letras são a matéria da alma. Metafísico? Não sei. Acredito nos livros e nas poesias. Duvido dos poetas e escritores. Indivíduos são veículos das línguas. Não são a arte. São a torneira por onde ela escoa incessante; por vontade própria. Hoje cantarolo uma música que não conheço. Brinco de adivinhar o futuro e de me iludir com ele. Hoje esqueço o prazer e procuro um amor. Amor calmo, como já o disse. Tenho duvidado das coisas reais. Tenho sonhado com aquele cabelo desgrenhado. Mas enquanto os carneirinhos não param de pular a cerca, prefiro manter os olhos bem abertos. A realidade me afoga. Mergulho em dias calmos de sol e brisa fresca. Firmo parcerias importantes, brinco de acreditar. Porque por nada, sem nada, o jogo da vida se desfaz. Sem querer, sem razão. Porque o último pode ser hoje, e o dia parece lindo. Carpe diem. Aproveitem.
(Tempo)
O tempo passou e as bobagens continuam sendo feitas. Nesse arquivo intangível, fica fácil acompanhar as desilusões e desavisos de uma vida bem regrada. Nada mais natural do que errar. Por ora, ando observando movimentos alheios, pensando em irreais e sutis separações e desencontros. Brincadeiras de adultos. Como crianças, continuamos correndo contra o tempo, tentando inibir esse tal futuro que nos apavora e nos consome. Morrer já não parece novo. A proximidade do fim nos envelhece. Rugas a mais, sentimentos a mais, tempo de menos. No relógio, ponteiros incessantes girando em torno de nossos umbigos. Vida que segue. Nada como a vida para aplacar a morte. Hoje, sinto saudades doídas das crianças que já não são. Penso em meus sobrinhos, correndo, felizes, para conhecer o novo presente. Presente é hoje. Saudade estranha da criança que fui e não conheci. Na cabeça, o tempo. Tempo demais para acreditar, tempo pequeno para se desiludir. Tenho refletido sobre trocar de profissão. Custo a admitir, mas acho que os dedos andam me dando mais alegrias do que os palcos. Decepções. Escrevo porque preciso. Desisto porque me entendo. E, dia após dia, vou elaborando esse labirinto sem saída aparente, este turbilhão de idéias que resumem a existência. Sentada no parque, sozinha, atrás de mesa enorme. Sozinha comigo mesma. Vou brincando de ser o deus da sintaxe. Vou mexendo nas palavras e guimaraneando verbetes. Escrevo o que sinto, não dicionario. Por vezes, duvido das letras e das frases. Elas não importam. Fonema por fonema, o texto se faz sólido; construindo, por si, seu completo significado. Estou travada. As cenas, perfeitas em pensamento, recusam-se a ganhar vida no papel. Não há ilusão real. Pingo por pingo, a enxurrada de letras se faz cachoeira, tocando, gelada, corações que andam em pedra. Letras são a matéria da alma. Metafísico? Não sei. Acredito nos livros e nas poesias. Duvido dos poetas e escritores. Indivíduos são veículos das línguas. Não são a arte. São a torneira por onde ela escoa incessante; por vontade própria. Hoje cantarolo uma música que não conheço. Brinco de adivinhar o futuro e de me iludir com ele. Hoje esqueço o prazer e procuro um amor. Amor calmo, como já o disse. Tenho duvidado das coisas reais. Tenho sonhado com aquele cabelo desgrenhado. Mas enquanto os carneirinhos não param de pular a cerca, prefiro manter os olhos bem abertos. A realidade me afoga. Mergulho em dias calmos de sol e brisa fresca. Firmo parcerias importantes, brinco de acreditar. Porque por nada, sem nada, o jogo da vida se desfaz. Sem querer, sem razão. Porque o último pode ser hoje, e o dia parece lindo. Carpe diem. Aproveitem.
domingo, 4 de outubro de 2009
Trava
É que às vezes os dedos travam. Não conseguem tecer sutilezas; só cruas estampas da realidade. Perdoem-me. Mas vazios também são preenchidos de formas. Voem comigo. Bailem em mim. Eu, por ora, preencho os espaços brancos com luzes coloridas. Tenho sinalizado caminhos sinuosos. É que passos às vezes são apenas impulsos. Ímpetos. Vetor vertical e agressivo, que pode chegar a lugares irreais. Não se neguem a beleza da verdade. Nada melhor do que a auto-sinceridade. Tenho me mentido com uma freqüência encantadora. Perco-me em minhas próprias estórias de criança. Bailo. Os dedos, como dois pés esquerdos, mexem-se à força. Andam fazendo doce. Deixam de melar as palavras. Não sei ainda o por quê, mas as letras me parecem incrivelmente distantes. Cada uma sozinha, em seu devido lugar. Por isto, música. Por isto, poesia. Porque quando as máquinas param, e as engrenagens deixam de se encaixar, nada melhor que óleo. Perfumes para a alma. Na brisa gelada do mar, ainda há alguma esperança perdida de uma orquestra em uníssono. Cantamos o hino de nossas vaidades. Ainda chegaremos lá. No pote de ouro, do outro lado do arco-íris. Por aqui, só cores esparsas. Creiam-me: estou oca. Nada de relevante para dizer, nenhuma boa cena a ser escrita, nenhum grande amor a me brilhar nos olhos. Apesar disso, a brisa, leve, me acalma. Porque amanhã será outro novo dia. E novos dias sempre trazem novos ares. Respirem fundo. A plenos pulmões. Notícias de outros tempos hão de chegar por aí...
sábado, 3 de outubro de 2009
Quando não dá
Tenho o péssimo hábito de ser abstrata, sei. Mas hoje resolvi usar todas as letras, colocar todos os pontos. O que acontece é que não acontece. Não sei se já aconteceu com você, mas, comigo, já aconteceu de eu ter que pedir para parar. Não que estivesse ruim. Era excelente. Tão bom que meu corpo não tinha condições de agüentar. Então pedi para sair, como quem desiste de batalha vencida. É que tem horas que ou o cara coloca a cueca e vai embora, ou lhe coloca uma aliança no dedo e fica para o resto da vida. No caso específico, ele se vestiu e se mudou. Para mais longe do que eu podia imaginar. Mas, agora, me vejo em situação inversa. Sou eu que estou pegando as minhas coisas e saindo pela porta. Desculpa, mas esta efervescência que aconteceu em você, não aconteceu em mim. Simplesmente não aconteceu. Eu não tenho culpa. Você não tem culpa. Simplesmente não era para ser. Sei que é difícil aceitar, mas eu, infelizmente, tenho dificuldades em dizer não. Adoraria lhe sorrir mais uma vez. Mas não me é possível. Ao escancarar-lhe os dentes, verteria lágrimas em mim. Não temos culpa. Eu já estive do outro lado, creia. E ele foi embora sem ao menos uma explicação. Por isso tento me abrir. Para aplacar uma dor que - eu sei - é inevitável. Não me leve a mal. Me leve à toa. Os controles não são movidos à pilha. Nem sempre a dramaturgia segue a pulsação. Peço desculpas pelo sofrimento, talvez ele pudesse ter sido evitado. Mas não pude reger a orquestra que tocava em ti. Em mim, vários músicos se reúnem. Tenho ouvido ruídos. E não é porque não é valsa que você não me tocou. Outros atores têm percorrido as minhas fantasias. Mais reais. Peço que se conforme. Talvez outra personagem venha a preencher seus diálogos. Mas não eu. Desista-me. Desata-me. Sou opinião e cenas. Mas em você, não sou real. Cachos morenos e albinos percorrem meus pensamentos. Ando não gostando da reteza. Desculpe-me. Decupe-me. Há de haver alguma explicação. Acredito no acaso. Mas não posso querer-te, assim como não posso cobrar um amor vadio. Decifra-me. Desista-me. Sou de outros olhos e de outra dor. Sou de ninguém e sou de outro alguém que me tocou. Não você. Não agora. De outro. (In)felizmente.
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Visões
É como um mar revolto – disse – e se calou. Durante horas permaneceu num silêncio incômodo, deixando que suas palavras ecoassem pelas paredes imundas daquele quarto de dormir. Ela não se mexeu. Não entendeu o que ele havia dito, e não o quis entender. Bastava. Não agüentava mais as lamúrias sonolentas e inacabáveis daquele que um dia fora seu Homem. Só lhe restava os trapos. Nojentos e marrons, como aquele leito fedorento em que se encontravam. Nas janelas, palavras a giz desapareciam aos pedaços. Lembranças de um tempo que fora bom. O passado é um incômodo presente; uma linha cortada preenchida por memórias inventadas e imprecisas. Não queria se lembrar. Ao seu lado, nu, jazia aquele corpo masculino desprezível, ainda sedento de seus suspiros. Não queria mais, era apenas isso. Não queria ele, nem ela, nem aquele lugar. Queria inexistir. A morte era pouco para quem já se aproximara tantas vezes. Desafio ridículo. Nos pulsos e na alma, as cicatrizes ainda sangravam como gangrenas incuráveis. Desistir não era o bastante. No ventre inchado de algumas semanas, a perversão cruel daquele a quem chamavam Deus. Não acreditava em destino. Apenas em acaso. Olhando com outros olhos, o quarto parecia limpo, as cortinas bem colocadas, os lençóis brancos cheirando a alfazema. Olhares. O cheiro de esgoto lhe invadindo as narinas, e aquele sorriso ao seu lado exalando eucalipto. Nada mais desprezível. Tentou quebrar o silêncio com algum ruído calculado, mas os membros permaneceram inertes, tocando de leve a sua pele e aquecendo-a com aquele fresco calor. Desprezível. Enquanto engolia – muda – o choro, pensou diversas vezes em sangue. Era natural. Mas o suor que lhe escorreu dos olhos parecia um triste indício de que não seria capaz. Não mais uma vez. Passou, incólume, pelos calafrios que lhe percorriam o corpo e tentou engolir o vômito que, a essa altura, já lhe subia pelo peito. Tudo em vão. Ao seu lado, o Homem. Quente e febril como qualquer outro homem. Com seus cabelos negros e lisos escorrendo por sua coxa branca. Com a respiração ofegante de bicho acuado. E só. No mais, apenas o silêncio. E o barulho das ondas febris, atirando-se para a morte na areia da praia.
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
Desencontros
Relutando ainda um pouco em escrever acompanhada. Gosto da solidão. Dificulta-me olhares alheios e curiosos, tentando, sorrateiros, descobrir o que se passa em minhas mãos. Não sei do que será. Escrevo o agora. Esse agora fugidio que escorre, incessante, pelos ponteiros da parede. Por dentro ando em calma. Me sinto cruel. Não tenho culpa. Não há culpados. Não foi me dada a sorte de escolher o que se passa comigo. Em mim. Pensamentos acontecem. Pulsações se impõem. Sou apenas um corpo. Mas somos adultos, sabemos. Estamos expostos ao risco. Cabe a cada um lidar com seus fantasmas e seus castelos. Tenho os meus. Medos. Não julgo olhos alheios, mas sinto-me julgada pelo desprazer de ser. Sou. Sinto. Mas des-sinto e des-sou a todo instante. Metamorfose. Imperfeição. Sou apenas o que meus sentidos fizeram de mim. Perco-me e acho-me a cada mergulho profundo, a cada silêncio conciso. Dor. Não faço brilhar olhos por querer. Não os quero sangrar. Mas sou pimenta. Ardo em outros como cortes em mim. Corto. E o sangue me enlouquece aos poucos, fazendo de mim feridas alheias; grandes gangrenas pessoais. Sou praga. Toco e apodreço. Pedra, ouro. Contos de fadas que terminam no para sempre. Mas sempre é utopia. Irrealidade. Não existe o que não deixará de ser. Osso. Pó. Tenho pena das coisas que deixarei de levar. Sentimentos ricos, sorrisos brilhantes. Mas não posso obrigar-me a querer o que não é meu. Não cabe a mim impingir poesias. Sinto. Sou. E tudo ao inverso também. Descontrole. Se sábia, assim, fosse, teria comigo uma mala de idéias. Saco de toda ilusão. E vestiria, faceira, a doce fantasia da felicidade. Máscaras e máscaras de ilusão. Mas a vida é desencontro. Tempos errados, cortes secos. Não há edição. Sou feita de coisas ruins e feias. Coisas boas e sutis. Um paradoxo; fiel à minha verdade, por mais mentirosa que seja. Sou refém do meu sorriso e da minha consciência tranqüila. Gosto do travesseiro. Os balões são apenas coisas que me ocorrem. Carneiros. Não há como frear. Sou rodas ladeira abaixo. Sou dedos em pleno vôo. Sou o que o mundo me tornou. Dura, seca e transbordante. Paradigma. Paradoxo. Erro fatal; purgatório. Caldeirão de letras a borbulhar. Sentimentos incoerentes e descontínuos. Sou o que sou, e não o que deveria ser. Triste ser. Humana.
domingo, 13 de setembro de 2009
Alcoolvalsâmico
Procurando pela casa algo doce para comer. Mas só há morangos. E morangos, no momento, não agradam meu paladar. Morangos são restos insossos do sangue que já suguei. Nada mais doce. Bêbada de alcoóis diversos, pergunto-me se vale a pena continuar essa existência insípida. Nada como água. Ainda não sei por que, mas os cachos morenos e deliciosamente desgrenhados ainda não saíram do meu pensamento. Tenho fuçado vidas alheias ao meu bel prazer. Nada que se reclame e se admire. Apenas mais um exercício fugaz de quem não tem o que fazer. Pergunto-me, descrente, como impor a aproximação, mas nenhuma resposta sutil me vem à cabeça. Quero. Desejo. Mas ainda não sei como agir. A proximidade ao longe me tornou ainda mais distante. O contato que parecia simples complicou-se, tornando meus anseios ainda menos palpáveis. Se ele está lá, e eu aqui, desconfio qual seria a grande distância. Mas ela não há. Estamos próximos no descuido. Sabe incerto das minhas fadigas. Penso em telefonar, mas o numero não me ocorre. Nunca o soube, é verdade. Mas minha ânsia de falar parece absurdamente coerente e necessária. Aguardo oportunidades. Loucamente. Penso, sem saber como demonstrar, mas penso, como qualquer apaixonado pensaria. Ando com a solidão. Quero o abraço certeiro e o sorriso conciso. Apenas mais um olhar vacilante. Adoraria revê-lo. Penso-sonho em tocá-lo. Mas suas sonoridades me escapam por entre os dedos, fazendo com que cada nova nota pereça, enfim, o prelúdio de um novo amor. Que custa a passar. Já há absurdos na nossa historia. Meses e meses de criações desavisadas. Quero botá-las à prova, mas novos rumores resistem às condições do passado. Quero sorrir ao seu lado. Não custaria nada estender a mão, mas os braços pendem soltos, amarrados a alguma algema invisível. Se os dedos passeiam livres, por favor, estenda-me as mãos. Já não posso mais conter o maremoto que me arrasa, e que me leva, febril, de encontro a você. Já não me basto. E não quero parecer leviana pela velocidade assustada dos compassos em meu peito. Mas penso em ti desnudo, como quem baila na areia o tango dos que já não vão. Traga para mim um punhado de mar. Valsa, faceiro, suspiros para mim. Criança. Sorri-me com a alma. Que a vida eu mesma me encarrego de lhe dar.
terça-feira, 8 de setembro de 2009
Brainstorm
O dia amanheceu escuro, como uma noite sem estrelas. As cinzas pesadas entrando pela janela. Um ruído de mundo desabando sobre algum lugar em mim. Por dentro, apenas a vontade de ficar um pouco mais, como é de praxe. Por fora, a vida gritando sedenta, afogando-me por entre a realidade. O dia amanheceu escuro e minha alma reagiu como noite, num silêncio acanhado de quem não sabe aonde ir. As palavras presas por entre os dentes. O sorriso fervendo apenas nos olhos. Os dedos com vontade de agarrar pedaços alheios. O coração com medo de sangrar mais uma vez. Sem pressa, nada do que a cabeça programou torna-se real. Tudo mentiras pensadas. Tudo verdades queridas. Os dias se esquecem de acontecer nesse vendaval de cenas. A linha terminando num anticlímax febril. Pensa nele, nos outros, em si. Mas apenas pensa, e por não agir sofre. Os dedos bailando valsa num teclado também em breu. Silencio, calma, a vontade de gritar. O desejo arrebatador de dizer coisas insanas que rondam meus pensamentos. Aqui, tudo é mentira. Aqui, tudo é a mais pura verdade. Prostituo as letras a meu favor, jogo com os fonemas e com a sintaxe. Brinco de escrever. Mas no meio de tudo, no fim de tudo, tem eu. Perdida entre as letras assombradas, que formam palavras ao leo. Tudo em mim. Ao longe, gritos loucos de alguma dor. Por perto, sussurros no ouvido de total prazer. Penso nos cabelos que não posso alcançar. Mais uma vez, esperarei em vão por brancos sorrisos de paixão. Ainda mais uma vez, deixei para trás óculos e jeans. Mas ainda trago a moradia comigo. Casa de algumas frases. Desengano. Bailo. Brinco de novo de não dizer nada com nada e ainda assim fazer algum sentido. Algum sentido há de ter. Na minha cabeça, ou na de quem assiste febril ao desenrolar das linhas tortas. A vida se escreve letra por letra e, às vezes, a gente desentende o significado das palavras. Correndo por entre os corredores vazios e perdendo-se nos labirintos da falta de coragem. Ando não sabendo o que dizer. Ainda tenho vontade de olhar. Às vezes apenas os olhos são capazes de significar a contento. Aurélio teria inveja. Por isso, tampo agora as pupilas para mais uma noite de sonhos negros. Amanhã, acordarei sob um céu cinzento, com gosto de lágrimas, e sem pernas por onde enroscar. Acordarei sonolenta, caindo novamente na rotina desesperadora de sorrisos e cifras. E, se eu tenho que me render a elas, só espero que, amanhã, elas sejam musicais. A melodia anda escorrendo por minhas orelhas como mel. Prestes a se açucarar. Amedrontado (e ameaçado) por esta chuva que despenca ao longe. E que espera, paciente, o dia de chegar aí!
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
Tu
Acordei com o cheiro suave de terra molhada e o gosto salgado de lágrimas frescas. Chuva no tempo e na alma. Por dentro, uma tranqüilidade inquieta, que teima em anunciar algum grande acontecimento. Em vão. O dia passou e as gotas secaram. Agora, só resta a espera. Em algum lugar, nuvens se reúnem anunciando uma tempestade. O corpo se incomoda. Nenhum rastro de esperança ou dor. Nenhuma vontade surpreendente ou expectativa fundamentada. O que há é vento, uivando pelos ouvidos o som de novos tempos. Tudo incerteza. Da janela virtual, o sol desponta ao longe. Tudo uma grande irrealidade. Os sonhos se misturam nesse paraíso efêmero de sentimentos e saudades. Os acontecimentos se atropelam. Somos o silêncio e a vontade. Por dentro, as amarras vão se soltando aos poucos, deixando pequenos recalques pelo caminho. Já não me importo com o que se passa em cabeça alheia. Tenho decidido gostar um pouco mais de mim. Na desfaçatez da indiferença, um leque promissor de possibilidades. Tenho um sorriso no rosto. Disfarçado entre a chuva, é verdade. Mas ele insiste em aparecer. Tenho parecido invisível aos outros. Mas planto sementes carinhosas que, com algum cuidado, renderão bons frutos. Tenho planejado aparições despretensiosas e sonhos palpáveis. Vou me escondendo do cotidiano. Na cabeça dele, sei, ainda há algo de misterioso, uma interrogação. Na minha, reticências. Não consegui ainda penetrar universo tão distante. Mas caminho lenta, com o cheiro suave de terra molhada a invadir meus sentidos. Transbordo pelos olhos. Alguma coisa que não me parece palpável cisma em soprar canções aos meus ouvidos. O que tenho pensado é música. Preta. Por enquanto, apenas os poros abertos e a pele atenta. Quero a proximidade do calor. Por enquanto, apenas esse meu canto, perdido no espaço, esperando ecoar. Não sei se há ouvidos para a minha voz. Não sei se alcanço o sorriso que eu quero agarrar. Sei que os dias passam sedentos, e o que era para esmorecer cresce lento e contínuo, como praga a enraizar-se nas veias. Falo bobagem, penso besteiras. Mas solto meu grito neste mar de letras. Rio engraçada do sorriso que atravessa esta tela. Eu também estou aí. No olho de quem lê. Nos seus olhos, meu foco, embora você ainda duvide. Não se sinta convencido, apenas solte sua voz. No mar, hoje a noite. Amanhã em mim. E não pense em descaso. Viajo, por isso não fui. Semana que vem estou de volta, e ficarei feliz em aparecer. Se você deixar. Se você quiser. A primeira nota foi minha. No caso, a segunda. Mas não entendo nada de melodias. Apenas de enredos. Escreva seu personagem. Eu, hoje, já decidi o que encenar. E te convido, ainda um pouco sem graça, a subir no meu palco. Seja bem vindo ao meu drama. Ainda temos muito o que criar.
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terça-feira, 25 de agosto de 2009
Efêmeros
Uma saudade fugidia me pegou hoje de surpresa. Saudades de algo que nunca soube. Acordei vendo passarinhos verdes. Como há tempos. Nada de novo, nenhuma nova brisa. Apenas um olhar para dentro renovado, um suspiro profundo de saber que se pode haver. Complexo? Conciso. Nada do que quis aconteceu. Mas eu aconteci. Em mim. Voltei a visitar-me e a me sorrir. Hoje acordei com gosto de cigarros na boca e um cheiro de pétalas na alma. Lavada com espumante e alguns chopps. Ontem deixei um pedaço do passado para trás, me desprendi de umas amarras. E descobri que pode haver outro. Assim, sem querer. Pode haver outro ainda mais interessante. Outro sorriso, outro toque, outra idéia. Pode ser bom. Mas não há nada. Nenhuma nova brisa. Apenas estas rosas se desprendendo dos meus cabelos e traçando uma trilha leve no chão. Para ser seguida. Com passos calmos, vou lembrando os caminhos que eu mesma criei. Migalha por migalha. Sem fome demais. Mas hoje os pássaros amanheceram cantando Tim Maia, e eu me perguntei por que é que eu não tocava nenhum instrumento. Meu coração é uma excelente percussão. E fui no ritmo. Neste meu ritmo de hoje, de espelhos quebrados e faces embaçadas. Por enquanto, apenas uma idéia. Cócegas divertidas de borboletas no estômago. E ainda o medo. Sempre ele, a me empurrar adiante e me mostrar que pode, sim, dar errado. Há sempre a possibilidade da falha. Por isso o gozo no êxito. Ando distante, sei. Mas ando comigo. Com as covinhas a pleno vapor. Com os lábios ainda cansados de maldizer, e a língua a ponto de se divertir. Posso me enganar, mas não será o fim do mundo. Não será a primeira vez. As covinhas se mostrando cada vez mais divertidas. Peles a centímetros de distância trocando temperaturas levemente impróprias. E eu ainda me arrisco. Sem nada, sem perspectiva. Apenas com o sorriso. E o olfato. Alguma coisa inexplicável ou hormonal. Deus é química? Acho que me entorpeci. Alguma coisa está diferente aqui dentro. Os passarinhos amanheceram cantando hoje e, mesmo depois do ocaso, a melodia continua em meus ouvidos. Devo ter enlouquecido, mas é de praxe. Nada como uma esperança nova a despertar os sentidos. Nada como uma grande bobagem a impulsionar a alma.
domingo, 19 de julho de 2009
O fim
Amanheceu. E o que o tempo já anunciava como um fatal destino, enfim, aconteceu. Era previsto. Ninguém se espantou. Mas quando a porta fechou atrás de si, e o quarto ficou vazio, algo de estranho se estabeleceu. Ainda não era exatamente uma solidão. Nem um arrependimento, nem alívio. Era apenas uma sensação nova. Diferente. Ao olhar para as paredes, sentiu que há anos não as via. Eram paredes, enfim. De tijolo, cimento e tinta. Paredes que sustentavam seu castelo, muralha infinita de sua ilusão. Em um instante, tudo ruiu. Descascadas, as paredes eram o retrato fiel do abandono em que se encontrava. Havia se esquecido de si mesmo há tempos. Por isso, quando tomou coragem para se levantar da cama, assustou-se com as rugas que viu. Não estava mais feia – em absoluto. Estava mais coerente. Cada vinco esculpido ao longo dos anos representava uma dor, uma decepção. Agora, aquela metade do armário vazio a fazia lembrar de tempos felizes. De dias que tinham cismado em se perder pela memória. É a convivência que mata a sutileza. Tinha deixado de dizer tantas coisas. Tinha dito outras das quais não queria se lembrar. E, depois de tantos anos de ressentimento e angústia, enfim, o vazio. A cama, o armário, o corpo. Em tudo faltava um pedaço. Uma parte essencial e inerente. Não havia percebido sua necessidade durante o tempo em que, com calma, arquitetou com receio a delicada estrada do fim. Nunca soube aonde ia chegar. E agora, depois de tudo, concluiu que sabia menos ainda. Ansiava o desfecho. Mas na vida – ninguém lhe dissera – as coisas não terminam depois do fim. O fim é apenas um recomeço; uma nova chance; uma inauguração. Estava fechando as portas para fazer uma limpeza geral, intensa. Água sanitária em todas as lembranças. Alvejante pros sentimentos. Em breve poderia abrir suas gavetas sem tantos sustos, sem sobressaltos. Estava em busca do tempo, que cismara em lhe escorrer pelas mãos. Não sabia o que seria de si. Era ele quem se encarregaria de dizer. Por hora, só olhava suas raízes envelhecidas refletidas no espelho, e seus olhos inchados, cansados de tanto brotar. Por um instante a paz. Fugidia. Só lhe restava agora tomar uma decisão. Mas as opções eram muitas, e ela ainda não sabia por onde seguir.
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sábado, 11 de julho de 2009
Cigarros

Oito cigarros. Oito cigarros figuram num maço comprado há dias. Oito cigarros que cismo em não acender. Tenho parado de fumar, como sempre. Por isso, agora, os oito cigarros me fitam inquisidores e gracejantes. Sete cigarros. São sete os que me olham. Um já descansa entre os lábios, embora ainda apagado, e levemente úmido. Seu cheiro invadindo minhas narinas. Desejo. O isqueiro que não deseja acender. Faísca. Fogo. O cigarro queimando de leve, e a fumaça subindo faceira. O vício. Precipício inacabado, medo do eterno fim. Medo da dor. Fumo porque me é inerente. Porque me traz certo alívio, e porque me lembro das repreensões. Fumo para me sentir completa sem ele, para sufocar o vazio que ele deixou dentro de mim. Hoje me lembrei. Falei um pouco, senti saudades. Hoje pedi perdão pela minha audácia. Perdão a mim mesma. Desculpas pelo precipício. Arrependo-me. O cigarro, já pela metade, ousa me lembrar o quanto sou fraca. O quanto vacilo. Entre as opções, a solidão. A vontade do outro inacabado e imperfeito. Ansiedade. As unhas vermelhas a combinar com os saltos. Altos. A esperança e a realização. O sorriso, enfim. O cinzeiro... Nada como duvidar de si mesmo...
sábado, 4 de julho de 2009
Caminhada
Com um sorriso nos olhos, despediu-se de toda dor e partiu. Não parecia triste. Não era de remoer recordações. Mas no fundo da alma, lhe pesava uma mágoa de se sentir ingrata; dessas que cismam em nos agarram em momentos inoportunos. Tinha feito o que podia, tinha certeza. Mas não tinha feito tudo. E era isso que lhe doía. O fardo de não ter feito o impossível. Sabia que sua caminhada seria longa. Ela estava apenas dando os primeiro passos. Mas quando se despediu da dor, com aquele sorriso nos olhos, teve a certeza que deixara muita coisa para trás. Os dias corriam ligeiros. Por vezes, ela mesma se perdia em sua existência, mergulhada em questões cotidianas de baixo valor sentimental. Toda aquela rotina lhe consumia. Dia após dia, fazendo as mesmas coisas, brincando os mesmos jogos. Por dentro, levava a esperança de um amor qualquer, perdido, que cismava em se agarrar em qualquer figura masculina que lhe parecesse razoável. Andava com um certo tipo de carência. Não sexual. Afetiva. Mas sabia que também isso era parte do percurso. A cada trecho que vencia da estrada, tinha mais e mais certeza de seu destino. E, com mãos e peitos, cortava certeira as intempéries do acaso. Divertia-se sofrida. Não era dada aos prazeres corriqueiros da malandragem. Sabia muito bem sua função e administrava sua culpa com mãos de ferro. Deixava-se, por vezes, se perder em seus pensamentos. Gostava de se escutar. Pouco a pouco, com cuidado, conhecia sedenta os territórios mais longínquos de seu próprio ser. Visitava com freqüência os becos de seu submundo. Neste momento, estava sozinha. Por motivos diversos, é fato. Mas nenhum motivo era maior do que sua própria vontade. Porque quando sentiu que já não produzia mais, foi embora. Não sem saudades, mas com um sorriso nos olhos. No rosto. E à medida que caminhava, conhecia, certeira, todas as possibilidades de seu futuro-presente. Confrontava-se com as possibilidades de escolha e se amedrontava delas. Sabia que, em algum momento, deveria deixar algo para trás. Era certo. Mas nunca soube muito bem ponderar os prós e os contras de seu viver. No momento em que se despediu de toda dor (e partiu sem olhar para trás) estava feliz. Sabia que estava escrevendo, a bico de pena, sua própria história. E por isso caminhava lenta, como a tinta que vai, aos poucos, borrando o papel de significados. Caminhava com o peso do dia, e com a leveza da alma. Estava em paz. O caminho ainda era longo. Os dias do porvir seriam intermináveis. Mas a jornada se faz pelo caminho e não pela chegada. Então ela caminhava lenta. Olhando calmamente as flores da encosta. Sorrindo das pequenas sutilezas, e das grandes ironias. Ela estava em paz. Sonhando com o que já foi, e com o que ainda haveria de ser.
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sábado, 20 de junho de 2009
Enquanto
Enquanto as folhas caiam no chão. Neste breve tempo, enquanto as folhas bailavam ao vento, é que tudo se deu. Percebeu um pouco depois. Não imediatamente. Mas sentiu, à flor da pele, um leve arrepio gelado. Foi tudo num segundo. Num só instante. Enquanto as folhas se desprendiam do alto e chegavam, lentas, àquela superfície molhada. Não sabia muito bem o que estava fazendo ali. Ventava forte. Fazia frio. E mesmo assim; mesmo com tudo voando ao seu redor; mesmo com o vinho lhe nublando a alma; mesmo assim. O arrepio lhe percorreu a espinha, de baixo para cima, num átimo. Do lado de fora do vidro embaçado, a chuva. Sentiu-a como lágrimas, talvez suas, a se desprenderem calmamente de olhos já cansados. Já descrentes. Olhava fixamente. A janela, a taça, o palco, os olhos. Algumas notas cismando em povoar seus pensamentos. Algumas palavras. Tudo no mais perfeito silêncio. Harmonia. E de olhar, despreocupada, pro lado de fora, é que percebeu. Naquele instante. Entre o salto da folha, e sua chegada macia ao chão. Entre um gole e outro de vinho. Percebeu que o tempo passava, e que ela se ia com ele. Que estava desistindo, apesar da esperança. Percebeu que mudara. Mas foi naquele breve instante – não mais. Naquele limite tênue entre a decisão e a ação. Naquele suspiro. Foi ali que tudo se deu. Letras cantadas no tom exato, na melodia correta. Letras voando pelos ouvidos e poluindo sua alma. Naquele instante. Enquanto as folhas caiam e os olhares se cruzavam. Enquanto a música era cantada e sentida. Naquele exato instante. Nem um minuto a mais. Ela viu acontecer. Como quem assiste a um filme. E viu que não era possível voltar atrás, que aquele arrepio a lhe congelar a espinha duraria o tempo necessário de uma paixão. Tudo isso ela viu; mas sem querer. Porque não lhe foi possível fechar os olhos. Porque, mesmo se os fechasse, as imagens a povoariam por dentro, como nômades a vagar. Não pôde conter, embora tentasse. Mas naquele instante; naquele breve instante; teve certeza de si. Viu-se em olhos alheios, perdida em palavras escritas por outros dedos; em canções de um amor tardio. Viu-se sorrindo de dor e chorando de prazer num futuro que custava a chegar. Viu-se. Como nunca havia se visto em outros olhos. Num instante fugaz, entre a janela e o microfone. Entre a boca, e os ouvidos. Enquanto tudo, as folhas. Sempre as folhas. Bailando, lentas, o compasso da ilusão. Voando suaves por entre olhos estranhos. Tentou evitar, mas não pôde. Teve a sensação de que o tempo acelerava, enquanto ela ficava para trás. Estava parada. Completamente paralisada. Enquanto as folhas caiam, e a música lhe acariciava os ouvidos. Enquanto o vinho corava suas entranhas, ferino. Desviou o olhar, insistente, mas aqueles olhos continuavam ali. Em algum lugar, dentro. E, naquele instante, teve certeza que o inverno jamais chegaria. Que ela continuaria acorrentada às grades daquele outono chuvoso. À lareira, ao cachecol, e àquele sorriso melancólico, contido num instante de olhar.
quinta-feira, 4 de junho de 2009
Inconstância
Perdoem-me a negligência. Não é por falta de vontade. Tenho me consumido em outras letras. Tenho me derramado em outras linhas. Mas não me esqueci deste universo diverso, que cisma em pairar pelo meu subtexto. É que tenho perdido em personagens distintos, em linhas talvez mais profundas, de uma sutileza inebriante. Deixo de escrever um pouco para vocês porque tenho escrito para mim. Estou gerindo uma grande auto-análise. Do ponto de vista da freqüência – não vou negar – tenho sido relapsa. Mas prometo que é por uma boa causa. Outros textos estão sendo escritos; outras realidades têm sido criadas. Por hora, perdoem-me a falta de assunto. Acho que me esvaí por completo nos diálogos roubados, de antemão, da peça que ainda irei representar. É um trabalho minucioso; um mergulho para dentro. Complexo? Talvez. Coerente, eu diria. Tenho me frustrado (a atriz). Ela anda meio oca também. Perdeu suas particularidades em um fundo branco qualquer, em alguns caracteres perdidos, em alguns acentos folgados. Tudo em seu mais perfeito lugar. Se não me sensibilizo nos olhos, por favor, perdoem-me. Tenho me doado às letras. Ando meio dura para expressar. Cada coisa em seu devido lugar. Maturação demanda tempo. Mas tudo bem. A gente se encontra. Em algum lugar do futuro, em algumas brechas do passado. Vou tentar ser mais freqüente. Mais sutil. Uma vez por semana pode ser um bom número, vou tentar me obrigar. Mas sem dor. Com cuidado, com carinho. Mas não se assustem: as letras têm sido usadas, as linhas continuam sendo escritas. Elas só não figuram nesse universo intangível por necessidade de ineditismo. Por coerência aos direitos autorais. Outra hora, quem sabe? Posso postar as cenas mais interessantes, os temas mais adequados. O pensamento continua solto. A ebulição continua ativa. Só que agora não é o momento. Aqui não é mais o espaço. Tenho falado de outros assuntos. Tenho batido em outras teclas. Talvez este seja o espaço de falar de mim: um eu que eu esqueci de criar. Que se esvai pelos dedos à medida que eles dançam. Tenho perdido o dom do prazer. Por isso me proponho à atualização. Adequações são necessárias. Estou levando um tempo no rearranjo. Mas volto, prometo. Ou juro? Tentarei! Aparecerei com mais freqüência. Forjarei alguns milagres. Por hora peço desculpas. E agradeço a compreensão. Agradeço os caminhos que me foram mostrados e mão amiga pronta a me ajudar. Os obstáculos são muitos. Eu vou um pé de cada vez – mas um atrás do outro. Estou subindo degrau por degrau. Espero encontrar vocês no topo da escada. Lembrando que o importante não é onde se vai chegar, mas o caminho a ser percorrido. Tenho colhido flores na margem da estrada. Ando semeando um belo jardim.
sexta-feira, 29 de maio de 2009
O caminho
Reclamava consigo mesma enquanto sabia de suas obrigações. “Que preguiça”, repetia o tempo todo. A cada momento, se convencia mais e mais de sua incapacidade. Mas tinha vontade de rompê-la. Nada como a disposição. Mas aí vinha a preguiça. De novo a preguiça. A enferrujar suas idéias e zombar de sua determinação. Concluiu que era o seu próprio algoz. O homem é o lobo do homem, lembram? Pois é, ela se lembrou. Bobagem. Se lembrara de muitas coisas enquanto criava desculpas cada vez mais criativas para a sua falta de atitude. Tinha tomado decisões. Tinha feito promessas a si mesma. Mas ela não acreditava em promessas. Duvidava de juramentos. Nunca fora muito crente. Ainda mais nos homem. O homem é o lobo... Ela era a chapeuzinho. Louca para ser interceptada a qualquer momento. Onde estará ele? Perguntava-se com freqüência sobre o paradeiro dos animais que, soltos, haviam se perdido pelo mundo. Dido, dido... perdido na arrogância da ignorância. Frases de efeito. O pior cego é o que não quer ver, sabe como? É, eu sei. Na preguiça de sua lentidão, Caetano. No sol de quase dezembro. Decidiu ir também. E a bordo daquela cadência, sentiu de novo a velha ironia. Sempre usava a ironia pra se distanciar do que era difícil. Hoje havia chorado. Graças a Deus! Às vezes as lágrimas decidem grudar-se na alma. Inundam as paredes de dentro, mas não se mostram. Suas lágrimas eram tímidas e vaidosas. Era preciso muito esforço para cativá-las. Estranho – pensou. E lembrou que deveria parar de lembrar. Certas coisas não devem ser pensadas. E ponto. Cada passado em sua devida gaveta de frustração. O que demora tempo demais para amadurecer, em geral, apodrece. Dizia por ela, é claro. Só sabia dizer do seu lugar de enunciação. Com o cigarro descansando no cinzeiro e enchendo o ambiente de uma prazerosa fumaça. As letras eram velozes e virtuosas. Não gostavam de se mostrar, mas tinham ainda mais vergonha de se esconder. Corriam melodiosas, como um rio em dia de chuva. Da janela, gotas caindo incessantes. Nada como a madrugada na solidão. Apavorando a espera e a angústia. De seus dedos, o breve conforto da possibilidade. Enganara-se. Claramente. Como gostava de se equivocar! Tinha que parar de mentir para si mesma. Estava com esta mania há tempos. Mentiras são apenas verdades que se esqueceram de acontecer. As situações que inventamos, com um bocado de trabalho, acabam por se tornar reais. Nem que seja em um espaço especial de mentir. O palco continua lá. As letras não se mexeram. O que falta são os longos dedos começarem sua tessitura. A cada passo, uma ação. A cada caminhada, um pensamento. Meus escritos são estradas dos dedos.
domingo, 17 de maio de 2009
Conselhos
Não confunda liberdade com libertinagem. Parece. Mas é diferente. Quando a gente se perde de nós mesmos, não adianta tentar nos encontrar nos outros. O mergulho deve ser pra dentro, acredite. Não é correndo atrás de (a)braços alheios e suspiros fugidios que você vai se encontrar. Eles só vão te trazer uma efêmera sensação de conforto, mas ela será seguida, inevitavelmente, de um vazio emocional; de uma ressaca moral; de uma culpa sem sentido. O que eu queria que você soubesse, é que o que você procura está dentro, não fora. Está aí. E quanto mais você o busca nos outros, mais se perde de si mesma. Não posso te arrumar. Você está bagunçada, sabe que está, mas a cada dia tem tentado se descabelar mais. Entortar. Minha recomendação? Olhe-se no espelho. Assim, no fundo dos olhos. Olhe-se com calma, e procure encontrar a si mesma no reflexo. É difícil. Às vezes a gente não gosta do que vê. Na maioria das vezes a gente perde a paciência antes de realmente enxergar alguma coisa. Mas eu insisto que você deveria tentar. Deveria procurar alguma coisa aí dentro que se perdeu, que se rachou em algum momento, e que você não encontra mais. Colar os cacos não é o principal. O mais importante é encontrá-los. São cacos de espelho perdidos dentro de você e que, a todo instante, refletem um pouco das coisas que você não quer ver. Não tente se purgar através da catarse alheia. “Não adianta fingir que não sente. Gente sente tudo”. Você não precisa magoar os outros para provar suas potências a si mesma. Você não precisa provar nada. Ou precisa? A cobrança vem de dentro para fora, acredite. Foi você quem criou a melodia, mas está com medo de dançá-la. Lá no fundo, creio eu, você sabe bem o que está buscando. Sabe bem o que perdeu. Você conhece seu bicho papão. Mas foge dele em olhares alheios, em sorrisos. Você já sorriu pra si mesma hoje? Já se perdoou e se culpou pelas coisas que fez? Não adianta jogar pro outro, sabe? Às vezes as questões tem que ser resolvidas apenas dentro. Poderia ter sido bom. Poderia ter sido diferente. Poderia ter sido um amor. Não se culpe de não ter acontecido em você. As coisas que acontecem nos outros muitas vezes nos fazem criar sensações mentirosas. Ouça o que vai dentro. Bote a mão na pontinha do externo, e sinta o coração pulsando na ponta dos dedos. A vida está nas suas mãos. Olhe nos olhos. Mas olhe com verdade. E se pergunte se você de fato acredita nisso. Eu acho que não. Eu realmente acho. Mas eu entendo que é difícil confessar. Que é doído. Não fuja da dor agora. O buraco em que você entrou para tentar se esconder dela deságua em uma poça muito pior. De solidão. Triste. Angustiada. Vazia. Tenho me preocupado com você. Acho que anda faltando um pouco de conteúdo. Relações fast-food não deixam nada além de uma gordurinha abdominal. Que vai se acumulando ao longo do tempo; ficando maior. E que, quando você percebe, já te deixaram mais deformada do que devia. Do que queria. Não tente empedrar-se. É tentador, eu sei, mas você não é assim. É mais fácil. Mas muito menos interessante. E não digo em relação a “ligar o foda-se”, não. O problema é que você “ligou o foda-se” para si própria e, assim, não vai chegar a lugar nenhum. Há que se ter um objetivo. Nem que seja um fútil, qualquer. Mas seja honesta consigo mesma. Seja justa com sua essência. Não se maltrate por anarquia. Não se estupre apenas por tesão. Respeite-se. E ouça um pouco a si mesma, ao invés de tapar os ouvidos de dentro para fora.. O que os outros pensam não interessa. O que eu estou dizendo não interessa. Só você interessa. Busque o seu sentido. Deve haver um, em algum lugar. Mas não se maltrate tanto. Não se ignore. Se ouça. Se olhe. E reconheça o que vai dentro. A casca é uma bobagem. Apodrece cedo. Respeite a essência, bonita. E se respeite. O importante na vida não é o que te excita, e sim o que te emociona. Se cuida!
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quinta-feira, 7 de maio de 2009
Risco
Acho que tenho pedras nos dedos. Desenvolveram uma estranha teia de aranha. Espessa. Estou com dificuldades de escrever. Não ando tendo tempo para mim. E escrever é o meu olhar para dentro. Pelo microfone, a voz anuncia: por lá, 15ºC. Não trouxe nenhuma roupa de frio – penso. Um casaco, talvez. Estava com saudade das manhãs ensolaradas e frias. Secas. Mas mais aconchegantes do que quaisquer outras. Penso na cama, ainda quente, que deixei para trás. Na esperança que, de repente, cismou em aparecer. Enfim um interesse. Ah, os homens... Esses estranhos seres peludos que tanto me encantam. Perfeitos em suas imperfeições. Enquanto espero o telefone dar algum sinal de vida, lembro das oportunidades que perdi ao longo da caminhada. Quanta coisa a gente deixa de viver por medo de tentar! Estou cascuda. Escolada. Hoje prefiro descer ao mais fundo abismo a ficar na beirada, indecisa. Gosto do risco. Do gosto do risco. E devo assumir que esses amores de calçada muito me encantam. Descompromissados. Apenas mais uma tentativa divertida de agarrar a felicidade pelas pernas. Tenho sido bem sucedida em encontrar pérolas no chiqueiro. Se alguém as jogou aos porcos, trato eu de recolhê-las! Com todo o cuidado recomendado de lavá-las bem antes de usá-las. Estou tentando negar. Mas não sei porque senti aquele coceirinha. Sabe aquela? Que finge não ser nada e vai crescendo desgovernadamente. Que, de repente, transforma o muro cinza em um grande cobertor de hera. Verde. Mas calma!! Antecipo-me, eu sei. Mas gosto das ilusões solitárias que fabricam, aos poucos, os sonhos irreais. Tenho aplacado minhas saudades nos sono. No silêncio que nasce na escuridão da minha alma. O breu mais claro da existência. De novo, a voz perturba minha verborragia muda. Em pouco tempo estarei lá. Mas hoje não há ansiedade. Não haverá encontro. Hoje saí duma solidão para entrar em outra. A casa, vazia, não vai me acolher como o abraço de mãe. Mas o que importa? Levo dentro uma felicidade alheia que nem consigo explicar. Uma magia estranha de ver um sonho se realizar. O sonho das pessoas mais importantes. Estou feliz por eles. Muito feliz. Mas quando chegar, ninguém abrirá as portas para mim; não haverá sorrisos de saudades. Apenas contas e mais contas se acumulando por debaixo da porta. Todas me esperando com a voracidade do vencimento. Mas calma. Cuidarei delas uma a uma, em seu devido tempo. Assim como agora estou cuidando de semear a minha horta. Aos poucos. Semente por semente. Estou atenta às lagrimas do orvalho. Estou dando à natureza o tempo necessário do florescimento. Gosto das coisas que amadurecem aos poucos. Acho que as pessoas andam verde demais.
quarta-feira, 29 de abril de 2009
Letras
Escrevo para ser lida e sentida, não para ser respondida. Tenho praticado o desapego. Tenho tentado dar sem querer nada em troca. Porque às vezes uma palavra carinhosa vale como um toque, um sorriso. Os olhos andam inundados. É claro que a resposta é aguardada. Mas ela não é necessária. Ela me obriga a lidar com a solidão, olhos nos olhos. Com a indiferença. Sofrer é bom para o amadurecimento. Embora acelere o processo das rugas. Um pezinho de galinha a mais; uma serenidade um pouquinho maior. Estamos empatados: eu na minha verborragia, você em seu silêncio. Bem-vindo ao meu mundo. Desculpa não tê-lo introduzido antes, eu estava fechada demais. Agora me abri, não sei porque. Agora decidi sorrir aqui dentro, mesmo que chore por fora. Tenho pintado algumas coisas. E os borrões de tinta sempre me lembram frases, cenas. A arte é uma só. Eu sou uma só. Minto, é claro. Minto um pouco, te engano, me engano. Preciso me esconder. Desesperadamente me mostrar. Tom anda concordando comigo. Canta aos meus ouvidos com a suavidade dessa dúvida. Parece tão linda. As confissões são cartas de alforria. Gostaria de tê-la colocado no correio. Seria mais adequado. Aquele papel meio amassado, aquelas lágrimas borrando a tinta azul. Lágrimas são pedaços de mar que nascem dentro da gente. Lágrimas são o caldo da alma dos outros que entrou em nós. Por isso a gente devolve quando sente. Por isso a gente disfarça com o sorriso. Não se preocupe. É mais uma decepção que eu estou tentando superar. Mais um sonho que escorreu pelo ralo antes de vestir o meu corpo. No banheiro, a morte no chão. No meu peito, a vida pulsando. Tenho pena de nós. Sinto saudades de mim. Hoje vi um filme que falava daqueles dias. Nossos dias. O ano acabou, o dia acabou, você acabou. Só eu continuo aqui. Parada. Serei eu a mesma? Será que conheço você? Sinto saudades. Muitas saudades de mim.
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quinta-feira, 23 de abril de 2009
Monólogo da Atriz
Sou de uma família tipicamente italiana, matriarcal. Italiano se entende no grito, não tem muita paciência para conversar. Nunca vi minha mãe pedir por favor, dizer obrigada. Meu pai sempre foi uma bomba-relógio: cheio de sentimentos por dentro, e sem nenhuma habilidade para expressá-los. Qualquer dia ele implode. Meu irmão, escondido atrás de seus racionalismos, cultiva, arduamente, o seu pequeno artista. Mas tem vergonha dele, um pouco como eu. Minha irmã seria um poço de emoção. Mas aprendeu a ser macha, como toda boa mulher da família. E tornou-se ríspida e frágil. Um oceano de águas profundas e revoltas. E eu? Eu me tornei um nada. Sempre tive dificuldades em demonstrar minhas fraquezas. Cresci ouvindo minha avó dizendo: seja macho como a sua mãe. Talvez por isso, sempre tive dificuldades de me assumir atriz. Porque ser atriz é não ser macho. É demonstrar os sentimentos, permitir-se fragilizar. Por isso, resumo-me no conflito. Sou uma mentira. Tive que amadurecer rápido demais para poder esconder meu segredo. Não podia decepcionar minha avó. Por isso – ouso dizer – sua morte foi minha redenção. Enquanto sua vida não se apagou, aqueles olhos me perseguiram, grudados em meu pescoço, sussurrando ao meu ouvido: seja macho, seja macho. Ainda hoje – confesso – posso ver o seu olhar de desaprovação, seu comentário por entre os dentes: fraca! E não consigo – por mais que eu tente – não consigo dizer “sou fraca sim, e daí?”. Passei a vida inteira tentando não decepcionar os outros, tentando trazer orgulho pros meus pais. E hoje me pergunto: e eu? Eu me orgulho de mim mesma?. Eu sou a antítese da família. Tenho fama de preguiçosa, de quem não gosta de trabalhar. Sou aquela de quem as pessoas dizem: poderia ter sido qualquer coisa, mas decidiu ser atriz. E atriz, neste contexto, é sinônimo de fracasso. De gente que não produz dinheiro, não produz conhecimento, não produz orgulho. Não é bonito contar pros amigos que tem uma atriz desempregada na família. Se eu fosse da Globo, aí sim! Aí vá lá! Para eles, eu sou uma aposta. Eles ainda têm esperança. O brilhante no ator é que, de uma hora para a outra, ele pode se tornar o troféuzinho da família. O assunto no salão de beleza. Mas alguém já se perguntou se é isso que eu quero? Se é isso que eu busco? Até hoje, quando me perguntam qual a minha profissão, eu ainda gaguejo para responder atriz. Porque ser atriz é trabalhar, todos os dias, com as minhas imperfeições, com as minhas fraquezas, com as minhas vaidades. É tentar, todos os dias, me tornar um ser humano melhor e, com isso, tentar compreender melhor os outros seres humanos. É deixar o julgamento de lado, e tentar ser compreensão. É ver-se no outro, na dor do outro. É humanizar-se. E ser humano não é ser macho. E eu fui criada para ser macho como a minha avó, como a minha mãe. Por isso, tenho o desprezível hábito de me armar com máscaras e ironias. Por isso, costumo assustar os homens. Porque fui criada para ser macho; e sou frágil. Porque fui moldada em uma forma que não me cabia e, hoje, tento romper as arestas que ainda me sobraram. É um exercício diário, doloroso. Mas sinto que estou me abrindo; aos poucos. Deixando-me mostrar em lampejos de dor e angústia. E estou me tornando melhor. Cada dia um pouco. Melhor.
quarta-feira, 22 de abril de 2009
Inquietações
Eu tentei te borrar de mim com a borracha da desilusão – que costumo usar em situações já sem esperança. Não foi suficiente. O grafite – parte negra da lembrança – cedeu fácil; aos poucos se transformou em pó. Mas os sulcos talhados pelo seu lápis-emoção continuam gravados na minha pele, como no dia em que você escreveu. Nosso amor talvez seja feito desses desencantos: uma paixão literária, que se confunde com as personagens dos nossos romances. A peça continua parada: um arquivo morto deste computador. Acho que a ação dramática da cena só se desenvolve quando a dramaticidade da vida anda em baixa. E tenho mergulhado em oceanos de nostalgias. Hoje não fui invadida pela poesia, nem pelo lirismo. Hoje tomei um chá de realidade, adoçado pela expectativa de novos acontecimentos. Brinquei com as palavras no eterno objetivo de ser deus. Mudei o rumo das coisas; deixei-me permear pelos pensamentos alheios. Hoje me envergonhei por alguns instantes, e me orgulhei da minha ousadia. Verti lágrimas de alívio e sorri sorrisos de nervosismo. Hoje brinquei de ser você. Porque ser eu às vezes cansa. Torna-se repetitivo. Porque ser eu não excede o que conheço, não me tira da redoma, guardada como um queijo a se derreter. Tenho-me derretido, é verdade. Amoleço. A vida tem me ensinado a ser menos dura. Os olhos têm me ensinado a sorrir com o peito. Por isso tentei apagar-te e não consegui. Porque de todos os que deixei para trás, você é o único que ainda guardo em mim. Por isso falei minhas últimas palavras, beijei os meus últimos versos. Porque o futuro se aproxima, e eu não queria deixar-te para trás sem algumas letras. Escrevi para ti, mas abri-me para mim. Abri-me para balanço, como disse algumas vezes, em situações um pouco diversas. Estou aberta para balanço! Quero ser balançada como folhas ao vento, com algo emocionante e inquietador. Quero balançar-me ao sabor de um sorvete de pistache. Verde como o urubu da esperança que um dia morreu. Vou entregar-me mais uma vez ao precipício. Quero de novo a vertigem, a insegurança. Quero alucinações em um quarto escuro, noites mal-dormidas de enjôo e angústia. Vou despir-me do luto, e vestir-me de rosa. De negro. Brincar de ser antisocial e multirracial. Numa banheira de hidromassagem. Num banheiro imundo qualquer. Vou lembrar de esquecer-te, e esquecer-me ao te lembrar. Tentar ser um brinquedo qualquer nas mãos do criador. Marionete. Hoje quero o mamulengo. Comandos em ação. Brincadeiras anos 80, roupinha de médico infantil. Hoje abri minhas comportas para um novo rio passar. Hoje me enrolei na bandeira do Brasil, e fumei mais cigarros do que um não fumante é capaz. Hoje parei de fumar. Hoje voltei a beber. Eu comecei a morrer.
sábado, 18 de abril de 2009
Diante do silêncio
Quando ele disse que ia embora, algo nela se riu. Mais uma vez – pensou. Não era a primeira. Provavelmente, não seria a última. Mas dessa vez – ao contrário das outras – teve um pouco de pena de si mesma. Sentiu de imediato a nostalgia dos dias que não ia viver e se culpou, um pouco, por não tê-lo conhecido antes. Não havia como. Era apenas o acaso. Ele tinha se encarregado de juntá-los num momento inoportuno, quando ambos já não esperavam tamanhas surpresas. Guardou consigo a resignação daquele momento, mas agarrou-se à idéia de que ainda havia algumas coisas a serem vividas. Depois daquele dia, porém, só lhe restou o silêncio. Tentou encontrá-lo, ligou algumas vezes, mas nunca obteve resposta. Um mês vivendo na mesma cidade, freqüentando os mesmos lugares, e nada. Apenas uma sombra a lhe perseguir por entre as pessoas. Nunca tentou lhe entender – ele mesmo nunca quis se explicar. Mas respeitou o seu silêncio, como lhe era de praxe. Durante muitas noites, teve a certeza que o veria de novo; assim, sem querer. Mas o acaso não foi tão generoso desta vez. E então ele partiu. Algum tempo depois, ele se foi, como previsto, de volta para o que chamava de casa. Mandou-lhe, então, algumas mensagens – curiosa que estava sobre sua nova vida. E, de novo, teve como resposta o silêncio. Às vezes se perguntava se sua presença não havia sido um sonho. Devaneios encantadores daqueles dias de primavera. Tinha a impressão de que ele nunca havia passado por sua vida. Que ela o havia imaginado – algo como um príncipe moderno sem cavalo branco. Mas não. As testemunhas estavam ali. As alianças sumiram nos dedos, é verdade, mas aqueles olhos tristes lhe dizendo que iam embora continuavam vivos, gravados em sua memória. Não compreendia o sumiço, não se conformava com o silêncio. Mas o respeitava. Talvez fosse uma forma meio equivocada de não sofrer. Por alguns meses, sua imagem cismava em invadir seus pensamentos; mas ela a apagava com golpes de resignação. Nada a se fazer – pensava. E quando pensou que tudo já havia passado, que aquele sorriso (máscara de alguma dor) já havia se acomodado nos arquivos da memória, ele lhe surgiu imenso, na superfície, prestes a explodir. Foi numa conversa com uma amiga em comum. Ela havia proposto o assunto; como uma conversa atual; como se ele nunca a houvesse deixado. E ele? – perguntou. Nunca mais me respondeu – ela disse. Os olhos da amiga se encheram de lágrimas, como se a dor da perda fosse dela. Disse que achava uma pena, mas que o compreendia. Estava deprimido, estava de partida, e talvez não quisesse deixar pendências. Disse que se lembrava da última conversa com ele: estava confuso, apaixonado, não sabia o que fazer. Talvez se calar tivesse sido a única solução possível naquele momento. Por um instante, todo o seu corpo se estremeceu na esperança fugaz de um recomeço. Por vezes, ela tinha ousado acreditar que ele não passava de um canalha; que ela havia se envolvido demais; que aquele amor nunca tinha acontecido. Contou suas inseguranças para a amiga, que lhe tranqüilizou: você sabe muito bem quem ele era e em que momento estava. talvez tenha sido mais difícil para ele do que para você. Sentiu-se tola, por um instante. Por outro lado, não havia como saber. Ele tinha lhe dado margem para qualquer tipo de interpretação, e seu silêncio decidido lhe havia deixado insegura e acuada. Por vezes se sentia uma chata apaixonada, que não sabia lidar com a rejeição. Tudo isso ela disse à amiga, que lhe confortou com um sorriso: tenho pena de só ter sabido do caso de vocês depois que ele se foi. talvez eu pudesse ter intercedido de alguma forma. É. Ele tinha ido embora, isso era um fato. Não sabia quando voltaria a vê-lo, nem se voltaria a vê-lo. Mas seu aniversário estava próximo. E decidiu – mais uma vez – tentar permear seu silêncio. Diria a ele todas as palavras que ficaram guardadas; todos os sentimentos sufocados; todas as esperanças naufragadas. Diria o quanto pensava nele, e como se compadecia dos momentos que não viveram juntos. Diria a ele que, para ela, não havia sido uma ilusão. Havia sido lindo. Mágico. Daria esta chance a si mesma: tentaria uma última vez. Na pior das hipóteses teria como resposta, de novo, o silêncio. Mas ela já se acostumara. Não esperava, em absoluto, uma resposta apaixonada. Por hora, o que queria mesmo era tirar aquele amor dos ombros e entregar, sem culpa, a quem lhe era de direito.
Nunca é tarde demais.
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quinta-feira, 16 de abril de 2009
Canto
Um urubu no telhado, uma gaivota na mesa. Uma banheira na sala e um sorriso na testa. Preocupação no olhar, e a tristeza no vento. Palavras soltas no ar, gritos em meu pensamento. Às vezes quero acordar, por outras sonho, me perco. Às vezes quero atracar, às vezes bailo no tempo. O infinito a brilhar, a areia voando lenta. A ampulheta a virar; o mundo gira, invento. Palavras soltas no ar. Palavras: quero brincar. Palavras sempre a rodar. Palavras para pensar. É com os dedos que escrevo, é com a cabeça que penso. É com a cabeça que escrevo, e com os dedos me esqueço. Sentido sempre escondido, coisas que nunca admito. Palavras soltas no ar. Sempre a me revelar. Quando me escondo, me mostro. Quando me mostro, persisto. Quando me assusto, apavora. Quando me canto, assobio. Tento não me afogar, mas jogo água em cima. Tento não me incinerar. Mas sou a chama que brilha. Eu sou a chama que esquenta. Quando me esquento, incendeio; quando me esfrio, congelo. E se não penso não faço, mas se começo, eu crio. Sempre um passo atrás. Sempre tão perto, demais. Gosto do risco, me jogo. Gosto do medo, me grito. O susto dos meus gemidos, a boca, o peito, o cio. Coisas falando demais, coisas que ficam pra trás. O dia passa depressa, meu dia eu mesmo invento. Quando não quero não sofro. Quando não sofro, arrependo. Quero a última gota. Quero morrer, desalento. Sempre com o mundo a rodar, palavras querem expressar. Digo que diz, não diz nada. Mas nada quero falar. É só um sopro de vida. É só aquela ferida. Tempo tudo cicatriza: a casca, o verme, a coriza. Passa, passando, lá vai. É outro pano que cai. O fim de mais um trabalho. O dia, o pranto, o orvalho. Salgado, doce, amargo. O gosto de mais um trago. O vício, a marca, a vacina. Mais uma vez a chacina. É negro, é pobre, é de rua. A vida nua e crua. A gente finge que vê, a gente tenta viver. E indo assim, não se vai. A gente pensa e não sai. Preso nas grades de vidro, o peixe fica contido. Mais um aquário no asfalto. Tem mais asfalto que terra. Árvore virou história, príncipe não existe mais. Ainda sonho: cavalo. Asas num céu: branco e mar. É tudo sonho, verdade. Tudo uma irrealidade. Por isso invento, transformo. Trabalho alquímico adoro. Metal em ouro – brasão. Lágrima em letras – canção. E por aqui eu termino esse meu canto, versão. Parece até abstrato: pedra no dedo, sapato. Nada mais é do que vida, pulsando nessa batida. Tentando se misturar. Discurso bobo, vulgar. Seguindo o mesmo caminho: pretexto, texto, espinho. Só mais uma tentativa, apenas mais um lamento. Palavras soltas no ar, sempre perdidas no vento.
quinta-feira, 9 de abril de 2009
Procedimentos
Tudo começa com uma simples manhã nublada de outono. Você acorda, se apronta com um pouco de pressa, termina de arrumar as suas coisas, e sai pela porta; deixando para trás um pouco do seu presente. Mas você não vai para um lugar qualquer. Você está indo passar o feriado na casa dos seus pais; na sua casa. Aeroporto: check-in, sala de embarque, decolagem. Lá, do alto, enquanto você se perde em pensamentos do presente e do passado, observa o mar de nuvens brancas bem embaixo dos seus pés. Não é nada demais. Não te causa nenhum espanto ou estranhamento. Apenas o céu, visto por outro ângulo, iluminado por frescos raios solares que te trazem uma sensação de vida. Aí, sem querer, lhe vem uma frase à cabeça: um mar de nuvens brancas à beira do abismo da precipitação. A frase passa, esbarra em seus pensamentos, e se vai, como um lampejo. Aos poucos, sem querer, ela passa a permear suas idéias; como uma metáfora irônica da vida. A construção não tem nada demais: apenas uma luz que lhe acendeu enquanto observava pela janela. Nos ouvidos, a poesia dos Hermanos. Aos poucos, uma coceirinha invade seu corpo e a essa primeira frase, muitas outras vão se juntando. Não há um motivo aparente. Não há um porto aonde chegar. Apenas o caminho delicioso e fugidio da imaginação. Imaginação baseada na observação e no seu modo de ver a vida. Aí basta ter um tempinho de calma – como agora, no banco do ônibus, com o computador apoiado em minhas pernas de índio – e começar a colocar pra fora as inquietações geradas por uma impressão da realidade. Não sei dizer se as coisas que escrevo aqui são verdades. Elas partem de alguma verdade – é certo – mas pode ser uma verdade inventada. Mentiras sinceras me interessam. Por isso, amiga, quando for ler estas linhas, não leia com o julgamento da realidade. Leia com a empatia do acontecimento. Verdadeiras ou não, as coisas que escrevo aqui aconteceram em mim em algum momento da caminhada. Aconteceram em mim, e não comigo. Escrevo em primeira pessoa porque me é mais fácil imaginar-me, travestir-me. Vivo disso. É um pouco como a nossa célebre discussão sobre mulheres que apanham dos maridos. Eu invento pontos de vista. Faz parte da minha personalidade testar a minha própria retórica. Criar passagens mais importantes do que o vai-e-vem da minha existência. E você – como poucas pessoas – tem o dom de descobrir minhas pequenas farsas (às vezes). Ouso dizer: tudo que escrevo aqui é verdade! Mas não se esqueça: esse foi – e sempre será – meu lugar oficial de mentir. Por isso, não veja estes escritos como um boletim semanal do meu estado de espírito. Trate-os mais como crônicas ferinas do meu ponto de vista humano. Coloco-me sempre no lugar da observação, e deixo-me comover pelas coisas que me cercam naquele momento. Pode ser que, ao fim de um texto, nem eu mesma lembre o ímpeto que me motivou a escrevê-lo. Pode ser também que, ao final, eu mesma me surpreenda com o discurso. Por isso, leia essas linhas como a manifestação mais pura do meu sujeito-pensante. Do meu lado emoção. Aqui, dispo-me da persona e coloco minhas máscaras no armário. Aqui, quem escreve são os dedos, e não a testa. Por isso, quando pousar os olhos sobre essa tela, abra-se para uma percepção mais sensorial das palavras. Tudo que coloco aqui parte do meu sentimento de perplexidade em relação ao mundo. São sempre experiências novas, pueris. E também por isso efêmeras, como um mar de nuvens brancas à beira do abismo da precipitação.
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sábado, 4 de abril de 2009
Lírica
Fui acometida por um súbito ataque de lirismo. Desses que cismam em me surpreender nas manhãs mal-dormidas. Mas decidi resistir. Poesia hoje não! – digo a mim mesma, olhando os meus olhos ainda borrados da maquiagem antiga. Poesia, hoje, não! Tenho tentado resistir a esses arroubos de profundos sentimentos, regados a uma esperança nostálgica de um tempo que nunca será. A vida não tem me sido uma boa amante. Por isso resisto, hoje, à poesia. Porque decidi não me entregar à tristeza e ainda não tenho motivos para sorrir. É claro que no canto dos meus lábios está – como sempre esteve – aquela velha tensão irônica, sedutora. Aquela, de quem ri de algo que não tem a menor graça. Mas não vou me entregar a esse rio profundo, que deságua dentro de mim. Pelo menos não hoje. Resisto porque ainda não é o momento adequado. Porque, por hora, sei que posso esperar. Não que eu não tenha pressa – devo confessar – mas é que essa balada de amor romântico precisa de terra fértil para florescer. Paixões. Por isso decidi me livrar de todos esses homens que ainda andam agarrados ao meu pescoço. Não que eu não goste deles, de forma alguma. Para cada um tenho um olhar especial, uma lembrança furtiva, um apelido ridículo. Mas eles andam ocupando muito espaço dentro desta minha caixa que, como vocês já sabem, vive cheia demais. Por isso resolvi jogá-los fora; dá-los de presente a caixas um pouco menos cheias. Decidi limpar o meu armário de ilusões para poder recheá-los de novos personagens. Porque figuras repetidas, às vezes, enjoam. E nos prendem, sem querer, a uma realidade paralela, intangível. Um limbo; purgatório; espaço entre o paraíso e o desespero. E é porque me prendo a essas antigas esperanças que hoje disse não à poesia. Porque não quero sonetos de amor saindo dos meus dedos, e não quero palavras encantadoras brilhando nos meus lábios. Não quero, porque hoje decidi ficar sozinha. Pela primeira vez; enfim; sozinha! Comigo mesma, livre dos meus fantasmas. Resolvi tirar do coração essa sujeira agarrada, escorregadia. Resolvi deixá-lo limpo, para quando um novo amor passar. Para quando, de repente, outro ataque de lirismo me derrubar na cama. E aí sim, sem culpa, eu escrever as mais sinceras palavras de amor. Incontroláveis. Como lágrimas a derreter, calmamente, as folhas amareladas daquela carta antiga. Por isso disse não à poesia. Porque não quero decepcioná-la. Porque as dores dos amores antigos nunca são tão brilhantes como uma nova paixão. Porque meus amantes foram colocados todos, hoje, no passado. Cada um em seu devido lugar afetivo na minha memória de sensações. Porque hoje resolvi abrir a porta, com a casa limpa, e esperar a próxima correspondência. O próximo platonismo. O próximo descompasso. Porque chega uma hora em que temos que decidir entre ir em frente, ou continuarmos presos aos espectros do passado. E eu decidi pelo amanhã. Pelo que ainda há de vir. E aguardo, ansiosamente, as decisões do acaso. Com a porta aberta e a alma limpa. E com esse lirismo guardado, sufocado, esperando encontrar, enfim, o objeto do seu (des)encanto.
domingo, 29 de março de 2009
Espelho
Na sala, minhas roupas espalhadas pelo chão; enquanto, no quarto, olho-me, nua, no espelho. Mas os olhos que me fitam, do outro lado da porta, não são meus. Por um instante, não são meus. O quarto todo me abraça num eco. As paredes insistem num grito mudo por algo que já se foi. Tudo é falta. Na completude dos objetos, o que sobra é a saudade. Palavra triste, sanidade. Pelo ralo, todo o quarto escorre num suspiro gosmento, que não quer se desgrudar de mim. E os meus olhos, onde estão? Do outro lado não sou eu. Do lado de cá, dor. O peito se move ofegante, como quem procura uma palavra e não acha. A língua a ponto de se soltar; a cabeça prestes a explodir. Tudo é secura. Sertões. No chão da sala, as roupas: imóveis. No chão da alma o medo. As gotas de silêncio envolvem o ambiente de espera. E o tempo para, por toda uma eternidade. Nas mãos, um beijo que não quer sair. E nas costas, a cama que não quer deitar. Tudo é imóvel, enquanto o tempo não passa. Só essa sensação se transforma, trazendo, aos poucos, o peso do esmagamento. Comprimido. Talvez a tarja preta o levasse embora. Mas não quero me embriagar. Nos meus olhos, os olhos de outra que quer sentir a verdade. Tenho me mentido, às vezes. A lágrima do lado de lá não me comove. Nunca fui fácil de dobrar. E, aos poucos, vou sentindo os pensamentos caindo nos meus pés, um por um, e deles brotam novas possibilidades que, agora, só me causam náuseas. O desconforto lateja entre meus dentes, mas mesmo perdendo a noção da realidade, sei que vou resistir. O que me segura é saber que já passei por isso antes. Que já quis morrer e me matar. Por isso tenho raiva desses outros olhos, que me fitam como se não fossem eu, e que me pedem atitude, embora saibam da minha impotência. Nos lençóis, ainda um certo perfume e um certo calor. Um calor que não é meu. Na sala, as roupas no chão choram a minha tristeza. No quarto, as paredes torturam a minha angústia. Tudo pela coragem. Tudo covardia. No peito, todo o movimento do amor. No peito, toda a fobia do fracasso. Pelos dedos, que flertam com o chão, o pranto escorre ligeiro, criando poças de tímida incerteza. Os olhos se enchem de água. E a alma pergunta por que? Por que não? Todo o corpo responde a essa maré de sentimentos, mas o cérebro se recusa. Toda a casa abraça a comunhão, mas a cozinha veta. É no fundo que se conhece o sentimento. É no silêncio que se constrói o grande amor. E são os olhos os geradores da mentira. Por isso, do outro lado espelho, quem me olha não sou eu. Mas não sei de que lado estou. Ainda não sei como chegar lá. Na sala, as roupas no chão vão se enchendo de pó. Envelhecendo. No quarto, as janelas abertas insistem em ainda ventilar. É a esperança insistente, que cismou em sobreviver. Do outro lado do espelho, a mão aguarda o contato. Do lado de cá, todo e qualquer contato tende a ser repelido. Meu olhos não querem mentir, eu sei. Meus olhos apenas se amedrontam com a verdade. Meus olhos querem ser vistos, e por isso não olham. Por isso, do outro lado não sou eu. Porque o outro lado é o que eu quero conquistar. É aquilo que eu quero perto, que eu quero dentro. Por isso as roupas na sala vão morrer. Para que eu possa, aos poucos, vestir-me com uma outra pele. Para que eu possa, de repente, correr atrás de quem sou meu.
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segunda-feira, 23 de março de 2009
Não posso
Estou triste hoje. Ferida mortalmente. Sinto uma dor lancinante que não ousa passar. Lateja. Respiro, concentro-me, e nada! A dor continua aqui. Uma dor de amor pulsante, que cisma em bailar a valsa do meu descompasso. A dor é da espera. Da impotência. Sinto não poder esticar os braços, choro por não poder abraçar uma alma. E me pergunto – sem responder-me – por que é tão difícil? Sinto uma melancolia profunda de sentir-me tão perto, e não poder me aproximar. E creio, cegamente, que a busca, enfim, acabou. Ao menos temporariamente. Quero viver este amor. Quero me permitir. Mas o escudo da hierarquia não me deixa passar pro outro lado; me faz ter medo de subir o muro. Assim, não sei de que lado fico. Tento encontrar brechas nessa realidade irreal, mas só encontro medo. Confesso: sinto-me, novamente, uma garotinha de 14 anos. Perdida. Suspirosa. Improvisada. Estranho cada palavra que sai da minha boca. Pareço infantil e inconsistente. Mas estou apaixonada, é apenas isso. De uma paixão avassaladora e despropositada. Que nasceu de um campo infértil, e em uma hora muito, mas muito imprópria. Não sei se vou conseguir esperar toda essa eternidade sufocando esses gritos dentro de mim. Às vezes, parece que meus olhos vão sangrar, e minha boca vai se abrir em declarações da alma, como uma boneca que, com pilha nova, não consegue descansar. Há dias ele invade meu sono. Sem nem saber onde moro, já devassou minha cama, e conhece, sorrateiramente, cada pequena porta dos meus sonhos. Fui eu quem o deixei entrar, eu sei. Mas ele foi como um vampiro. Como a imprensa: uma vez convidada, nunca deixa de aparecer. Eu não sabia – juro – não sabia que sua presença se tornaria tão palpável. E, mesmo com toda esta distância, ainda consigo sentir o toque suave de suas mãos e sua voz aveludada soando bem perto dos meus ouvidos. Não sei o que me aconteceu! É como se de repente a realidade ruísse; e dela só sobrasse ele e eu. Como uma só coisa, a se misturar entre os olhares. Uma só energia vibrando pelas paredes e pelas portas. Saindo pelas janelas e alcançando os espaços. Pode ser que Freud explique – mas eu, sinceramente, duvido. Pode ser platônico, esse amor de pequenos toques. Mas resisto! Quero a textura da pele e o espetar dos cabelos. Quero o olhar que enxerga, e não o que passa e atravessa. Quero estender-lhe a mão. E é por isso que estou triste. Porque não consigo. Eu quero, mas não consigo! Sou covarde. Mas não sou a primeira. Muitos já devem tê-lo vivido. Por isso faço minhas as palavras – talvez fora de contexto – de Vinicius de Moraes:
Peço desculpas pela minha fraqueza... talvez um dia eu crie coragem.
Não posso
Não é possível
Digam-lhe que é totalmente impossível
Agora não pode ser
É impossível
Não posso.
Peço desculpas pela minha fraqueza... talvez um dia eu crie coragem.
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