Pensamentos, frases, estórias e mentiras criadas a partir de fatos corriqueiros. Uma livre distorção da realidade.
sexta-feira, 29 de maio de 2009
O caminho
Reclamava consigo mesma enquanto sabia de suas obrigações. “Que preguiça”, repetia o tempo todo. A cada momento, se convencia mais e mais de sua incapacidade. Mas tinha vontade de rompê-la. Nada como a disposição. Mas aí vinha a preguiça. De novo a preguiça. A enferrujar suas idéias e zombar de sua determinação. Concluiu que era o seu próprio algoz. O homem é o lobo do homem, lembram? Pois é, ela se lembrou. Bobagem. Se lembrara de muitas coisas enquanto criava desculpas cada vez mais criativas para a sua falta de atitude. Tinha tomado decisões. Tinha feito promessas a si mesma. Mas ela não acreditava em promessas. Duvidava de juramentos. Nunca fora muito crente. Ainda mais nos homem. O homem é o lobo... Ela era a chapeuzinho. Louca para ser interceptada a qualquer momento. Onde estará ele? Perguntava-se com freqüência sobre o paradeiro dos animais que, soltos, haviam se perdido pelo mundo. Dido, dido... perdido na arrogância da ignorância. Frases de efeito. O pior cego é o que não quer ver, sabe como? É, eu sei. Na preguiça de sua lentidão, Caetano. No sol de quase dezembro. Decidiu ir também. E a bordo daquela cadência, sentiu de novo a velha ironia. Sempre usava a ironia pra se distanciar do que era difícil. Hoje havia chorado. Graças a Deus! Às vezes as lágrimas decidem grudar-se na alma. Inundam as paredes de dentro, mas não se mostram. Suas lágrimas eram tímidas e vaidosas. Era preciso muito esforço para cativá-las. Estranho – pensou. E lembrou que deveria parar de lembrar. Certas coisas não devem ser pensadas. E ponto. Cada passado em sua devida gaveta de frustração. O que demora tempo demais para amadurecer, em geral, apodrece. Dizia por ela, é claro. Só sabia dizer do seu lugar de enunciação. Com o cigarro descansando no cinzeiro e enchendo o ambiente de uma prazerosa fumaça. As letras eram velozes e virtuosas. Não gostavam de se mostrar, mas tinham ainda mais vergonha de se esconder. Corriam melodiosas, como um rio em dia de chuva. Da janela, gotas caindo incessantes. Nada como a madrugada na solidão. Apavorando a espera e a angústia. De seus dedos, o breve conforto da possibilidade. Enganara-se. Claramente. Como gostava de se equivocar! Tinha que parar de mentir para si mesma. Estava com esta mania há tempos. Mentiras são apenas verdades que se esqueceram de acontecer. As situações que inventamos, com um bocado de trabalho, acabam por se tornar reais. Nem que seja em um espaço especial de mentir. O palco continua lá. As letras não se mexeram. O que falta são os longos dedos começarem sua tessitura. A cada passo, uma ação. A cada caminhada, um pensamento. Meus escritos são estradas dos dedos.
domingo, 17 de maio de 2009
Conselhos
Não confunda liberdade com libertinagem. Parece. Mas é diferente. Quando a gente se perde de nós mesmos, não adianta tentar nos encontrar nos outros. O mergulho deve ser pra dentro, acredite. Não é correndo atrás de (a)braços alheios e suspiros fugidios que você vai se encontrar. Eles só vão te trazer uma efêmera sensação de conforto, mas ela será seguida, inevitavelmente, de um vazio emocional; de uma ressaca moral; de uma culpa sem sentido. O que eu queria que você soubesse, é que o que você procura está dentro, não fora. Está aí. E quanto mais você o busca nos outros, mais se perde de si mesma. Não posso te arrumar. Você está bagunçada, sabe que está, mas a cada dia tem tentado se descabelar mais. Entortar. Minha recomendação? Olhe-se no espelho. Assim, no fundo dos olhos. Olhe-se com calma, e procure encontrar a si mesma no reflexo. É difícil. Às vezes a gente não gosta do que vê. Na maioria das vezes a gente perde a paciência antes de realmente enxergar alguma coisa. Mas eu insisto que você deveria tentar. Deveria procurar alguma coisa aí dentro que se perdeu, que se rachou em algum momento, e que você não encontra mais. Colar os cacos não é o principal. O mais importante é encontrá-los. São cacos de espelho perdidos dentro de você e que, a todo instante, refletem um pouco das coisas que você não quer ver. Não tente se purgar através da catarse alheia. “Não adianta fingir que não sente. Gente sente tudo”. Você não precisa magoar os outros para provar suas potências a si mesma. Você não precisa provar nada. Ou precisa? A cobrança vem de dentro para fora, acredite. Foi você quem criou a melodia, mas está com medo de dançá-la. Lá no fundo, creio eu, você sabe bem o que está buscando. Sabe bem o que perdeu. Você conhece seu bicho papão. Mas foge dele em olhares alheios, em sorrisos. Você já sorriu pra si mesma hoje? Já se perdoou e se culpou pelas coisas que fez? Não adianta jogar pro outro, sabe? Às vezes as questões tem que ser resolvidas apenas dentro. Poderia ter sido bom. Poderia ter sido diferente. Poderia ter sido um amor. Não se culpe de não ter acontecido em você. As coisas que acontecem nos outros muitas vezes nos fazem criar sensações mentirosas. Ouça o que vai dentro. Bote a mão na pontinha do externo, e sinta o coração pulsando na ponta dos dedos. A vida está nas suas mãos. Olhe nos olhos. Mas olhe com verdade. E se pergunte se você de fato acredita nisso. Eu acho que não. Eu realmente acho. Mas eu entendo que é difícil confessar. Que é doído. Não fuja da dor agora. O buraco em que você entrou para tentar se esconder dela deságua em uma poça muito pior. De solidão. Triste. Angustiada. Vazia. Tenho me preocupado com você. Acho que anda faltando um pouco de conteúdo. Relações fast-food não deixam nada além de uma gordurinha abdominal. Que vai se acumulando ao longo do tempo; ficando maior. E que, quando você percebe, já te deixaram mais deformada do que devia. Do que queria. Não tente empedrar-se. É tentador, eu sei, mas você não é assim. É mais fácil. Mas muito menos interessante. E não digo em relação a “ligar o foda-se”, não. O problema é que você “ligou o foda-se” para si própria e, assim, não vai chegar a lugar nenhum. Há que se ter um objetivo. Nem que seja um fútil, qualquer. Mas seja honesta consigo mesma. Seja justa com sua essência. Não se maltrate por anarquia. Não se estupre apenas por tesão. Respeite-se. E ouça um pouco a si mesma, ao invés de tapar os ouvidos de dentro para fora.. O que os outros pensam não interessa. O que eu estou dizendo não interessa. Só você interessa. Busque o seu sentido. Deve haver um, em algum lugar. Mas não se maltrate tanto. Não se ignore. Se ouça. Se olhe. E reconheça o que vai dentro. A casca é uma bobagem. Apodrece cedo. Respeite a essência, bonita. E se respeite. O importante na vida não é o que te excita, e sim o que te emociona. Se cuida!
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quinta-feira, 7 de maio de 2009
Risco
Acho que tenho pedras nos dedos. Desenvolveram uma estranha teia de aranha. Espessa. Estou com dificuldades de escrever. Não ando tendo tempo para mim. E escrever é o meu olhar para dentro. Pelo microfone, a voz anuncia: por lá, 15ºC. Não trouxe nenhuma roupa de frio – penso. Um casaco, talvez. Estava com saudade das manhãs ensolaradas e frias. Secas. Mas mais aconchegantes do que quaisquer outras. Penso na cama, ainda quente, que deixei para trás. Na esperança que, de repente, cismou em aparecer. Enfim um interesse. Ah, os homens... Esses estranhos seres peludos que tanto me encantam. Perfeitos em suas imperfeições. Enquanto espero o telefone dar algum sinal de vida, lembro das oportunidades que perdi ao longo da caminhada. Quanta coisa a gente deixa de viver por medo de tentar! Estou cascuda. Escolada. Hoje prefiro descer ao mais fundo abismo a ficar na beirada, indecisa. Gosto do risco. Do gosto do risco. E devo assumir que esses amores de calçada muito me encantam. Descompromissados. Apenas mais uma tentativa divertida de agarrar a felicidade pelas pernas. Tenho sido bem sucedida em encontrar pérolas no chiqueiro. Se alguém as jogou aos porcos, trato eu de recolhê-las! Com todo o cuidado recomendado de lavá-las bem antes de usá-las. Estou tentando negar. Mas não sei porque senti aquele coceirinha. Sabe aquela? Que finge não ser nada e vai crescendo desgovernadamente. Que, de repente, transforma o muro cinza em um grande cobertor de hera. Verde. Mas calma!! Antecipo-me, eu sei. Mas gosto das ilusões solitárias que fabricam, aos poucos, os sonhos irreais. Tenho aplacado minhas saudades nos sono. No silêncio que nasce na escuridão da minha alma. O breu mais claro da existência. De novo, a voz perturba minha verborragia muda. Em pouco tempo estarei lá. Mas hoje não há ansiedade. Não haverá encontro. Hoje saí duma solidão para entrar em outra. A casa, vazia, não vai me acolher como o abraço de mãe. Mas o que importa? Levo dentro uma felicidade alheia que nem consigo explicar. Uma magia estranha de ver um sonho se realizar. O sonho das pessoas mais importantes. Estou feliz por eles. Muito feliz. Mas quando chegar, ninguém abrirá as portas para mim; não haverá sorrisos de saudades. Apenas contas e mais contas se acumulando por debaixo da porta. Todas me esperando com a voracidade do vencimento. Mas calma. Cuidarei delas uma a uma, em seu devido tempo. Assim como agora estou cuidando de semear a minha horta. Aos poucos. Semente por semente. Estou atenta às lagrimas do orvalho. Estou dando à natureza o tempo necessário do florescimento. Gosto das coisas que amadurecem aos poucos. Acho que as pessoas andam verde demais.
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