sábado, 27 de dezembro de 2008

Diário de um menino novo

Mesmo depois de rica, quando vinha, não trazia presentes. Nunca foi de me encher de mimos, de me estragar com bobagens. Vinha mais ou menos de dois em dois meses, e se encontrava comigo apenas um ou dois dias. Mas sempre foi minha tia preferida. O pouco tempo que tinha comigo, dedicava-me a maior quantidade de amor possível; e foi com ela que aprendi muitas das brincadeiras que, hoje, penso em ensinar aos meus filhos. Ela diz que eu deveria ter sido filho dela, mas que, quando nasci, ela era muito jovem ainda. Não teria condições de criar-me. Apesar disso, e talvez por isso mesmo, a tenho como uma segunda mãe. Não dessas que a gente diz da boca pra fora, pra agradar aos outros. Tenho um sentimento profundo; e uma certeza: a de que vim parar nesta família para poder conhecer e conviver com ela. Pra mim, essa história de mãe é muito relativa. Nunca conheci minha mãe biológica: fui adotado com dias. E nem sei se gostaria de conhecê-la, caso tivesse a oportunidade. Não acho, de forma alguma, que ela seria melhor do que a mãe que eu tive. Mãe pra mim é quem abraça quando a gente chora, quem diz não no momento oportuno, quem dá a mão quando sentimos medo. Mãe é compreensão e certeza. É dúvida e segurança. E foi ela quem me deu essas coisas, quando a minha mãe me faltou. Não a biológica: a minha mãe. Minha mãe sempre cuidou mal de sua saúde: preferia os prazeres e delícias de uma vida efêmera do que as regras da vida saudável. Era careta, ela. Mas tinha o seu vício na comida: não aceitava suas limitações. Tenho uma profunda gratidão e um amor eterno à minha mãe de alma, e não foi fácil conviver com a sua partida. Depois dela, me restou apenas uma família desestruturada, e meia dúzia de pessoas querendo tomar as rédeas do meu viver. Não foi fácil, confesso. Mas era muito novo ainda, e entendo a preocupação. De fato, não saberia me cuidar sozinho. Mas agora, ainda novo, quero começar a escrever meu próprio destino, letra por letra. Por isso escrevo sobre ela. Porque no meio do furacão, nessa enxurrada de dúvidas e inquietações, ela me veio com essa proposta, até meio absurda, talvez. Nunca tinha pensado em sair daqui. Adoro este apartamento, e foi aqui que eu aprendi a ser o homem que hoje sou. Mas sair da segurança dessas paredes encharcadas de memórias pode me tornar um homem maior, melhor. E a segurança de um lar de mãe, realmente, me falta agora. Por isso estou pensando em aceitar. Em me jogar no mundo amparado pela certeza dessa prima-tia-mãe que nunca me faltou. Fico me questionando se não atrapalharia a vida tão estruturada dela. Se não seria motivo de matérias, se a minha vida também seria exposta. Tenho medo de abandonar a casa, e tenho medo que meu pai me interprete mal. Eu o amo, é claro. Mas já sou grande o suficiente para perceber os defeitos e inseguranças dele. Não quero forçar suas fragilidades. Pra mim, a paternidade a essa altura sempre lhe pareceu um fardo. Não queria ter que ficar apenas pra lhe agradar. E não quero, de forma alguma, ter que ficar para cuidar de seus remorsos. Nunca foi um bom pai, nunca foi um bom marido. E agora, condoído, ele passa os dias a resmungar. Não sei se tenho essa dívida com ele, e não quero prender-me à ela. Fazer isso pode guiar a minha existência por caminhos que não sei se quero seguir. Quero estudar, quero ser livre, quero ter filhos. Mas quero sair dessa redoma em que me colocaram. Quero romper essas paredes, e aparecer do outro lado do mundo, depois de quebrar muito a cara. Quero viver por mim mesmo! Por hora é isso. Escrevi mesmo só pra desabafar. Já não sei mais o que falo. Apenas queria uma luz...

sábado, 20 de dezembro de 2008

No silêncio do cigarro (ou ainda ele)

Se a sua vinda não é certa, sua volta eu garanto: certeza. Se no mar que eu nado não há peixes, garanto a natureza das flores que plantei no seu jardim. Espero-te esta noite para prestigiar a estréia do meu novo viver. Espero-te no silêncio do quarto e no barulho da alma. Espero-te acordada nessas noites frias de ruído e solidão. Porque tenho medo: medo de estar só. E apenas sua lembrança me acalenta na profundidade deste nada tão real. Ainda não sei se devo convidá-lo para comigo dançar. Essa valsa acabou há tempos, mas sempre é tempo de rememorar. Tenho tido saudades de você. Daquele sorriso indecente de garoto que sabe que pecou. Daquele sorriso quando a porta do carro se abre, e eu subo em minhas pernas como se deixasse um pedaço da minha esperança. Confundo-me em meus sentimentos: não sei o que quero de ti. Talvez seu amor seja só um capricho de menina mimada, que eu teimo em querer ter. Sua companhia, esse bem já conquistado, me satisfaz, por vezes. Mas por outras quero agarrar-lhe pelo pescoço, e mostrar-lhe que só a união completa nos fará inteiros. Às vezes não sei se somos amigos ou amantes. Não sei se estamos jogando uma partida de regras desconhecidas, ou se estamos nos enrolando no novelo do destino. Perco-me em você. Na sua imagem. Na minha imagem sua. Já não sei o que é real nessa teia de pensamentos. Sei que ainda te espero. Cada dia mais perto. Pra que seja mais intenso quando optarmos pelo sorriso incessante, ou pela lágrima derradeira. Não tenho fantasias de amor romântico, apenas uma fugidia sensação de tarefa não acabada. Ainda não cumprimos nossos roteiros, ainda há cenas a gravar. Mas estamos adiando as filmagens, e o tempo não tem nos ajudado muito. As externas dependem da meteorologia, e eu dependo de mais sol. Sou da noite, ambos sabemos. Talvez seja essa nossa maior distância. Meia volta terrestre. Aqui, no meu apartamento escuro, imagino você a dourar-se nos raios solares. Lindo como ouro. Com essa barriguinha sexy, de quem tem alguns chopps a me contar. Hoje queria abrir uma cerveja, brindar com um champanhe, mas só me resta o cigarro: esse velho companheiro de solidão e angústia. Esse pequeno cérebro que ilumina a escuridão do meu quarto, e acende um pouco os meus pensamentos. Hoje estou enferrujada. Há tempos não escrevo, e meus dedos estão cansados de passear por palavras vazias. Ainda estou perdida no meio das caixas. Ainda me perco em você.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Cemitério

Era meia-noite. Passeou por entre as tumbas, e um frio gelado lhe correu a espinha. Teve medo de tudo aquilo não passar de uma cilada. Mas estava confiante. Tinha certeza de que havia sido esperto. Não se deixara enganar. Pelo menos não facilmente. Olhou novamente o relógio e pensou que talvez estivesse atrasado. Ou também podia ter chegado cedo demais. Nunca sabia ao certo qual era a hora exata do encontro. Mas esperou, observando velhas sepulturas, e assustando-se com o movimento inesperado de gatos no cio. Aqueles gemidos lhe eram odiosos, e pensou, por um instante, em desistir. Não queria parecer covarde e, de fato, não o era. Mas algo lhe dizia que aquela situação não terminaria bem. Uma impressão fugidia de que não voltaria a ver as coisas que tanto amava. Tudo lhe ocorria em relâmpagos. Flashs, visões. Uma tontura foi lhe tomando o corpo e sentiu-se embriagado por um aroma fétido que rondava o seu ouvido. Questionou sua sanidade: poderia ficar louco. Às vezes tinha certeza de que tudo aquilo não passava de mais uma de suas invenções. Mas manteve-se firme. Afinal, era ou não era um homem? Desses, com h maiúsculo? Observou as minhocas que não paravam de brotar da terra: fertilidade. Ouviu novamente o ranger da porta de ferro, balançada pelo vento. Um farfalhar de folhas secas espreitando sempre: impaciência. Acendeu um cigarro. Dois. Fumou com se fosse ele o próximo a entrar naquela cova aberta. Fumou muito. Não sabia qual seria o seu próximo cigarro. Decidiu desistir: sim, era prudente. Decidiu o contrário, em seguida. Era sua verdade, ora essas. Mataria a mãe para estar ali – no sentido psicanalítico da coisa. Pensou na mãe: morta, no pai: morto, nos irmãos que nunca teve. Ele era sozinho no mundo. Ia temer a troco de quê? Era sua única chance, e não podia desperdiçá-la. Mas o tempo corria ao longe, deixando murchas suas rosas tão vermelhas. Em cima da sepultura, aquelas flores até pareciam uma oferenda: coisa de santo. Mas ninguém sabia o real significado daquele buquê. A senha. Alguém sabia. E era esse alguém desconhecido que ele esperava enquanto os ponteiros do relógio giravam, e seus dentes batiam de frio. Tudo contribuía para tornar aquele lugar assustador. Aquilo não era certo, ele sabia. Mas precisava provar para si mesmo que era capaz. Precisava deixar de lado o peso da sociedade e começar a preocupar-se com o peso de deus próprios desejos. De suas fantasias. O tempo passava ligeiro, mas ele continuaria ali, de pé. Parado em frente a maior lápide, de anjo, com medo e com frio. E com a pressa alheia de quem espera alguém que se atrasou. Ansioso para encontrá-lo. Ele, por quem tanto esperava...

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Estava cansado e suado quando chegou ao lugar do encontro, ainda alguns minutos antes da hora marcada. O local parecia deserto, como ele esperava. Ensaiou alguns gritos, mas sua voz ficou embargada: talvez fosse respeito. Decidiu caminhar. Por entre as lápides, todas as sombras lhe pareciam assustadoras. O barulho dos gatos o arrepiava e, por vezes, pensou que havia, em algum lugar por ali, uma mulher sendo molestada. Era só o que lhe faltava: testemunhar um crime em uma noite como aquela. Estava sentindo-se um pouco ridículo, com aqueles suspensórios. Aquilo era coisa do tempo de seu avô. Mas alguém lhe entenderia. Perdido por entre aquelas sombras dançantes havia alguém que lhe reconheceria. Um suspensório não era assim tão comum. Pensou em tirá-los, e observar primeiro o garoto do buquê. Não sabia porque tinha escolhido rosas. Na verdade, achava romântico... Quis fantasiar do seu jeito. Afinal, tudo não passava de um delírio romântico que ele queria aproveitar nos mínimos detalhes. Não era fácil, em uma cidade pequena. Pelo menos não para ele. Admirava os outros. Tinha respeito. Mas não conseguia ter aquele desprendimento: não tão fácil. Contou os minutos: por que será que ele demorava tanto? Talvez não viesse – pensou. Mas logo descartou a hipótese. Depois de tantas conversas, não é possível que ele desistiria no último instante. Estavam tão ansiosos. Sentou-se, por um instante, bem de frente ao portão. Era dali que os cabelos encaracolados surgiriam em alguns instantes. Mal conseguia conter sua respiração ofegante. Suspirou. Agora faltava pouco.

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Sentia-se obsceno com aquelas flores na mão em um lugar tão hostil. Era uma cilada, tinha certeza. Deixou as flores sobre a lápide e caminhou até o portão enferrujado, para fumar mais um cigarro. Teve medo, de novo. Não, isso não era desistir. Tinha ido até lá. Tinha esperado. Sentiu-se ridículo, ingênuo, traído. Foi embora sem nem ao menos olhar para trás, e uma lágrima gorda cismou em equilibrar-se nos seus olhos.

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Ainda nada. Já era tempo de ele ter aparecido. Será que tinha chegado mais cedo, e decidido caminhar por entre as árvores e as covas? Decidiu atravessar o cemitério – em linha reta, para não se perder. Levou cerca de cinco minutos até avistar um outro portão. Seria possível? Então era isso, tinham-se desencontrado. Seu coração começou a bater, descompassado. Era uma questão de segundos. Apressou o passo, segurando-se para não correr. Em cima da última lápide antes do portão, um buquê de rosas vermelhas. Lindas rosas. Chamou por ele. Nada. Gritou. Saiu pelo portão, olhando a imensidão da pequena estrada. Nada. Correu por entre os mausoléus em desespero: ele ainda devia estar por ali. Nada. Chorou. Um choro masculino cheio de resignação. Tinha perdido sua melhor chance. Talvez a única. Abatido, abraçou as flores tão delicadas, e pensou como teria sido revelador o encontro. Com cuidado, retirou o suspensório. Depositou-o em cima da mesma lápide, e fez uma curta oração: que a vida se encarregasse de entregá-lo a quem de direito. E que a espera fosse breve. Deu um beijo em sua própria mão, como se beijasse uma criatura querida que vai embora. Deu as costas para o antigo portão de ferro, que rangeu ao sabor do vento. E foi-se embora. Um dia haveriam de se encontrar.

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Depois de andar duas ou mais quadras, sentiu-se tolo de ter ido embora. Poderia ter esperado mais alguns instantes. Ele não era bom com horários, sabia. Poderia muito bem ter se enganado. Decidiu – não sem hesitar – voltar lá e esperar mais alguns minutos. Não seria ele o covarde. Ele era homem, e sabia disso. Caminhou a passos largos – mas lentamente – saboreando seu último cigarro do maço. Será que estava com mau-hálito? Ele já havia dito que não gostava muito do cheiro de cigarros. Mas ele era assim. Sempre fora assim. E queria mostrar sua essência. Naquele dia, não queria se esconder. Era um momento tão bonito: o dia que assumiria seus desejos para si mesmo, e para um outro. Não um outro qualquer: aquele, com quem compartilhava suas inquietações e angústias por noites a fio, separados apenas por uma tela retangular. Aquele, que lhe mostrara que o amor era possível, mesmo à distância. Estava batendo queixos; o frio penetrava-lhe a alma. Cruzou a porta do cemitério, e caminhou até o anjo alado: bonito e altivo como a pureza de seus sentimentos. Mas não avistou flores. Seu buquê não estava lá. Em seu lugar, o suspensório xadrez. Muito menos feio do que ele imaginava. Muito mais doce. Lágrimas inundaram seu olhar, e ele chamou por seu amor, enquanto arrependia-se dolorosamente de ter ido embora. Não podia ter duvidado dele. Não daquele jeito. Ele não armaria uma cilada: ele o amava. Resignou-se com sua inutilidade. Não servia nem para encontros amorosos. Sentiu-se a pior pessoa do mundo. Pensou, ironicamente, em se matar. E foi-se embora, abraçado ao suspensório xadrez. Sua alma oscilava como aqueles quadrados: vermelho, preto, vermelho, preto. Amor e ódio, amor e desilusão.

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A vida é a arte do encontro...

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Depois do banho

Se você soubesse como estou vestida agora, com certeza sairia deste seu quarto escuro, e viria repousar os pêlos nos meus cabelos, ainda molhados. Algum tempo se passou, a gente sabe. E nada melhor do que o tempo para acalmar as feridas e despertar os desejos. Pergunto-me se aquelas lágrimas valeram a pena. Eu, por mim, ainda prefiro este sorriso que tenho agora. Este sorriso molhado, que inunda a casa, e molha as minhas pernas, ainda nuas. Há um som diferente na respiração desse lugar. Algo de calmo e maduro, que floresceu desde que você se foi. As plantas tomam conta das paredes, e um jardim florido enfeita a casa da minha alma. Há paz por aqui. Os caminhos vão sendo abertos em meio à mata virgem e, em cada investida, novos paraísos são descobertos. Eu sei, você queria fazer parte desta expedição. Mas seu passaporte foi negado, houve problema com o visto, eu não quis deixar você entrar. Agora, sua partida é apenas mais uma página deste livro inacabado, e embora você tente voltar pra história, seu personagem perdeu o sentido. Algumas páginas se perderam. Espero que encontre um outro autor competente, que lhe faça um romance, um best-seller. Posso até lhe indicar alguns, se quiser experimentar. Mas há de ser rápido: ainda tenho milhares de flores para regar. O bosque criou raízes, e por mais que a chuva não pare, não há avalanche que o tire daqui. O bosque é a paz, perdida entre nomes próprios e rostos familiares. É a letra que já foi cantada e se esqueceu. Há um tom conservador, nessa natureza do Éden, mas perdi a vontade de ser vanguardista. Só não me contento com a arte descritiva. Gosto da abstração. Mas isso é coisa da década de 20. Antropofagia. Peço desculpas se comi você. Mas foi inevitável. Digeri aquilo que me era necessário, e devolvi-lhe ao mundo, também com um pedaço de mim. Não se compadeça de si mesmo. A troca foi justa. Você só precisa me deixar ir embora. Eu já estou aqui, e você não sabe. Não se apegue tanto a esse pedacinho de mim: eu também tenho milhares de pedaços presos comigo. Mas eles formam uma linda colcha de retalhos: colorida e inspiradora, como cada momento da colheita. Desses pedaços, apenas o primeiro me entristece. Mas a matéria-prima dele se perdeu pelas ruas, como pequenas gotas de orvalho. Continuo plantando o jardim. E há tantas flores ainda por regar... Sou refém das reticências. Vivo o que ainda está por vir. Sou o brilho da aurora e a promessa do ocaso. A linha contínua que começa no nada e termina no além. Sou apenas mais um botão de rosa neste jardim suspenso. O que ainda não foi, e o que logo vai deixar de ser. E o que é, agora. Meu tempo é quando.