sábado, 30 de agosto de 2008

Apenas algumas reclamações

Ai, vocês vão me desculpar, mas eu sou assim! Não consigo conter meus arroubos de raiva e ironia. Às vezes, tenho mesmo vontade de ser cruel com as pessoas. Isso mesmo: cruel. Normalmente não consigo, porque sou trouxa. Fico com peninha: ó, coitada! É por isso que escrevo. Escrevo para poder ser cruel sem ter que olhar nos olhos. Já disse várias coisas neste espaço que não diria pessoalmente. Mas não é o suficiente. Minha vontade de ser grosseira permanece intacta. Inabalável. Às vezes chego a pensar que ela aumenta a cada dia. Não, isso não é nenhum tipo de fobia social. É só uma vontade inata de ser politicamente incorreta. Acho um saco essa coisa de não poder falar certas coisas. Essa balela das minorias discriminadas. Quer saber? Não tenho o menor tesão em homem gordo. Ponto. Não tenho. Não os acho escrotos, simplesmente não os acho atraentes. Esteticamente. E não é um pré-conceito. É um conceito formado ao longo da minha vida. E comprovado por uma ou outra experiência mal-sucedida. Em compensação, sou fã dos negros. Mas não gosto de negão. Gosto de neguinho – dos magros. E odeio homem muito branquelo; loiro. Também não gosto de homem forte. Aqui, na cidade do culto ao corpo, o que mais se vê são as almôndegas desfilando pela rua. Tenho nojo. Acho feio. E acho que eles são burros: isso sim um pré-conceito. Mas pra mim, quem passa três horas por dia dentro de uma academia, não deve ter muita coisa na cabeça além de anfetamina. Você realmente acha que esses caras lêem antes de dormir? Eu duvido. No máximo eles dão uma folheada na Caras, pra saber das novidades. Também não gosto de gente burra. Aliás, detesto gente burra. E isso não tem nada a ver com grau de escolaridade ou classe social. Conheço PhD’s que são uns tapados. E porteiros cultíssimos. Eu odeio gente burra. E odeio mais ainda gente burra que quer parecer inteligente – papagaio de pirata. E também não gosto das pessoas que babam ovo dos inteligentes, ao invés de aprender com eles. Eu tenho ojeriza de puxa-saco. Já estou até vendo a cara de alguns leitores, rindo do meu pequeno hábito de reclamar. Eles reclamam que eu reclamo, mas adoram me ver reclamando. Das pessoas incoerentes eu gosto. Antes incoerente do que chato. Os coerentes demais tendem à pieguice. São insossos. Gosmentos. É por isso que eu digo essas coisas. E desdigo, no momento seguinte. Essa coisa de coesão já me largou há alguns anos. Eu confesso que deveria tentar resgatá-la, pelo menos um pouquinho. Estou me perdendo nesta confusão. Aliás, ando querendo notícias! Ei, eu me mudei de cidade, mas ainda estou viva! O que é que vocês acham de um e-mailzinho de vez em quando? Eu tenho novidades para contar. Excelentes novidades. Mas não vou contar agora. Legítimo cú-doce. O que também é uma coisa bem irritante. Que se foda, quer saber? Vim aqui pra falar mal. Mas perdi o conteúdo. Só pra vocês falarem mal, está aí um péssimo texto. Por favor, reclamem entre si. Tenho achado todo mundo muito contente, estou tentando acabar com essa apatia. Coisa chata do caralho. Só quem reclama aqui sou eu: minha voz ecoando nas paredes! Cuidado, meus queridos. Tudo o que é bom dura pouco. E porra, saiam do telefone. Estou querendo falar com vocês!

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Do outro tempo

Tenho saudades do tempo em que nos beijávamos e que tudo era permitido. Saíamos, noite afora, gozando nossa embriaguez e nosso desespero. Ainda me lembro das noites mal dormidas em quartos escuros de hotel, e dos dias amanhecidos na beira das praias da nossa adolescência. Bons tempos, esses que se passaram. Os suores escorriam de maneira menos virulenta e mais contida, de modo a formar poças doces e suaves. Ainda não imaginávamos as obscuridades possíveis, e toda a nossa lascívia era nada mais do que um simples impulso pueril. Brincávamos como brincam os cachorros; não somos nada além de animais. Ainda me lembro de absurdos levantes e brigas infundadas. Mas me lembro melhor dos momentos singulares de beleza e poesia. Nos divertíamos, não podemos negar. Ainda que nada tivesse acontecido, penso que, ainda assim, sentiria saudades. As noites nunca mais foram as mesmas, depois que me distanciei. Alguma coisa se perdeu pelo caminho, ficando pregada em pedaços de asfalto negro; abandonadas na estrada. Ainda quando tento resgatá-las, não posso mais saber em que parte estão. Muito do que vivemos naqueles anos de intensidade segue preso em mim de alguma forma, arrastando correntes de uma outra época. Era boa a sensação de liberdade trazida depois de horas de descontrole. Mas era ainda mais incômoda aquela angústia do dia seguinte. Agora, enquanto reflito, me questiono como agüentamos por tanto tempo. Somos fortes. Não tivesse me distanciado, estaríamos, ainda, nos perdendo naquelas escuridões. O caminho é longo, e não o quero de volta. Mas às vezes, no barulho da noite sem fim, sinto vontade de estar outra vez no seio da amizade. Por vezes, confesso, procurei aquele calor na noite que faz aqui. Mas a noite aqui é outra – noite sem estrelas. Questiono-me, também, se ainda faço parte das estrelas que nos pertenciam. Acho que desviei um pouco a rota, penso não caber mais neste céu. Hoje sou satélite morto; busco a paz. Nos anos que se passaram, construí o que tenho de mais forte hoje, mas a estrutura se modificou com a força dos ventos. Rompantes, por aqui, não há. Só uma lenta marola de pensamentos e sussurros. Nada aqui é de fato o que parece ser. Tudo se move a favor de um objetivo torpe e sem brio. Não sei como as pessoas agüentam a pressão por tanto tempo. Há drogas. Não mais do que aí, garanto. Mas mais sujas. Mais negras. Não há diversão nas pessoas que se entorpecem: só há dor. Algo relativo à solidão, já o disse em outro momento. Tenho medo de terminar como elas, sem nenhum resquício de brilho no olhar. Mas a força de nosso passado me mantém firme, ainda de pés no chão. Procuro, em alguns lugares, aquela sensação de juventude que sentia em nossas madrugadas. Mas acordo sempre com a boca amarga de depressão, ópio vencido e não aproveitado. Sinto não poder mais participar de nossas celebrações e de nossos momentos íntimos. E sinto, ainda mais forte, que não tornarei a compartilhá-los como gostaria. A grande mudança que me propus me exige outras pequenas, das quais me arrependerei. Mas houve uma opção consciente, que me obrigou de alguma forma a ceder. Das noites nas calçadas, sinto falta dos cigarros. Pontas de luz em nossa escuridão. Pés no asfalto, jeans nos meios-fios da cidade. A união ainda me desterra. Mas a opção foi clara, e não quero voltar atrás. O álcool, por aqui, me parece desinteressante, e só quando estamos de novo juntos, tenho aquele prazer em seu sabor. É uma pena que não nos encontremos com tanta freqüência. E é ainda pior, se pensarmos que a tendência é a brusca queda deste número de vezes. Enquanto meu tempo se encurta, diminui também a minha possibilidade de ser como antes. Daqui a uns tempos, só poderei ser aquela em lugares reservados, longe dos olhares alheios. Deixaremos de compartilhar nossos momentos de maior intensidade com mentes desconhecidas. Perderemos um pouco da nossa história. Enquanto nada acontece, comungamos à distância nossos sonhos de futuro. Nosso passado ficou para trás, guardado em gavetas escuras do século passado. Mas os móveis ainda são os mesmo. Eles envelhecem, mas só acabam com a morte. Espero poder, ainda, compartilhar momentos de ternura e prazer semelhantes aos do passado. Minha boca continua a mesma. Talvez menos tenra e rósea. Mas ainda sedenta dos tragos de vida tomávamos juntos. Somos os filhos do desespero. Marionetes arrogantes, perdidas nas mãos dessa tal Modernidade.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

A fila

Os textos se acumulam no meu arquivo intangível. Tenho escrito mais do que gosto de publicar. São textos menores, é verdade, e cheios das minhas incoerências. Sou incoerente, fazer o quê? Tenho escrito com a cabeça, coisa que me desagrada. É claro que deixo os sentimentos percorrerem o meu corpo, desaguando nos dedos. Mas eles não jorram mais sem meu consentimento. Ando na calmaria. Tenho uma certeza oculta que não quero confessar. Por aqui, as coisas caminham. Fotos salvarão o meu marasmo e um sorriso traria de volta a inquietude. Estou certa de que deveria falar mais. Ando com a língua guardada dentro da boca. Ando com um sentimento gritando dentro do peito. Tenho a capacidade estonteante de me enganar, e saber disso me emudece. Preciso mudar de ares, definitivamente. A vinda da trupe trouxe a certeza da paz. Há vida depois da mudança. Gosto desta e daquela. Sinto falta da proximidade, e tenho medo que a distância modifique as relações. Ainda sou a mesma. Com pequenas nuances alteradas. Mas prefiro a metamorfose. Tenho sonhado com ele. Acordada. Tenho visto os homens da minha vida passando embaixo da janela. Estou com saudades daqueles cachos de cachecol. Por onde andarão? Penso se a felicidade tem o mesmo gosto para todos. Ele se diz feliz e eu, de olhar nos olhos dele, discordo. De ouvir a voz. De ler as palavras. Tudo frio. Pode ser o clima, é verdade. Mas me preocupo com a possibilidade de ele ter congelado. Por dentro. Não entendo o porquê da demora. Caminham todos embaixo do parapeito. Um atrás do outro, numa graciosa fila indiana que serpenteia. Há rostos que já não conheço. Há paixões que perderam o nome. O tempo corre apressado, levando a gente aos tropeços. Estamos alongando demais a vida. E deixamos de dar valor aos pequenos momentos. Impressiona-me a minha capacidade de perder tempo. Tenho verdadeiro talento em perder instantes de felicidade e prazer. Estou sempre dois passos atrás. Sempre me arrependendo precocemente do que poderia ter sido. Ando um pouco disléxica, trocando a ordem das letras. Na vida. Na rua. A linguagem me engoliu e me devolveu babada. Não consigo mais dizer as coisas simples. Enrolo. Barbante. Tenho prendido pessoas desnecessárias na minha teia, e não sei como me livrar delas. Ficam pendentes, pendendo. E pesam. Tenho feito faxina, é verdade. A casa anda bem mais arrumada. Mas ainda falta um travesseiro. Meu número. Enquanto isso, ele também passa alguns metros abaixo. As cabeças que não vejo. Estão todos amarrados por uma goma espessa: baba do meu pensamento. Alguns passam ligeiros; outros insistem em ficar. A fila vai e volta, volta e vai. De cima, tenho vontade de estar entre eles. De baixo, me sinto sufocar. Penso no mal que já causei a um específico. Pergunto-me se teria sido diferente se eu lhe tivesse dado a chance. Sempre fui dura demais com ele. Mas o amo incondicionalmente como amigo fiel. Com letra minúscula. Se maiúscula, seria outro. Confundo-me. Devaneio no acaso: o nome igual ao meu. Não é mera coincidência... essas coisas não existem. Tento não me culpar: não posso ter sido tão ruim. A negação é comum em todo e qualquer relacionamento. Mas só depois de anos entendi a angustia que lhe causava. Sempre dei esperanças – demônio de asas curtas. Gostaria de me redimir, se pudesse. Mas nunca vou poder dar o que um dia ele esperou. Sua dor já faz parte do passado. Seus ecos vibrarão em mim por toda a eternidade. Agora quem sofre sou eu, colhendo. A terra não mente, sempre traz de volta. Preciso achar as palavras. Estão presas embaixo da cama. E eu, presa no tanque do lado direito. Errei, mais uma vez. A falha já me custou meses. Talvez a carregue por toda a vida. Mas tenho certeza da escolha acertada, depois da aventura. De novo o xadrez. Ando me repetindo, tenho clara certeza. Mas ando me respeitando. Gosto da minha quietude – característica adquirida. A paz nas noites barulhentas é interessante. O álcool não ocupa mais minhas veias. Tenho o sono pesado, gosto de morrer em mim. Sinto a falta dele, que um dia eu ousei dispensar. Sinto sua presença, cada dia mais nervosa aqui dentro. Preciso me comunicar, mas perdi as palavras. Estão soltas no meu estômago. Sopa de letrinhas. Preciso de algumas horas de conversa a dois. Mas as horas são um tempo que eu não tenho, e a linguagem um instrumento que perdi. Continuo observando o movimento da fila. Sua velocidade me entontece. Quero dar as mãos pro mundo, e girar de um lado só. Mas o mundo está de costas, e eu não consigo gritar. Ele é um tanque, que pende pra um só lado. Isso, enquanto está de costas. Porque quando ele vira, o mundo sou eu.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Mentiras inverdades

Já disse que às vezes defendo pontos de vista que não são os meus? Certamente já o disse. Há alguns dias, em uma discussão sobre novos nomes da música, fui herege. Difamei cantores que eu amo, desdenhei de vozes impecáveis e lamentei a falta de genialidade da nova geração. Tudo balela. É claro que, no meio do bolo, disse algumas coisas que de fato penso. Mas em geral, abusei das asneiras. Estou contando o meu acesso desenfreado de inverdades porque a experiência foi muito interessante. Entre os interlocutores, alguns dos meus melhores amigos. Não consegui enganá-los por completo: eles já conhecem minhas artimanhas. Mas quando tenho um surto desses, eu mesma acredito piamente no que estou dizendo; sou até capaz de comprar briga. A turma que estava presente teve reações diversas: alguns ficaram chocados com o meu desplante. Outros se enfureceram. E os que me conheciam mais, ficaram num misto de indignação e incredulidade. Questionavam meus argumentos, se emputeciam, mas volta e meia soltavam o comentário ‘gente, não é verdade! ela sempre faz isso!’. É, eu sempre faço. Mas não é por querer, eu juro. É uma coisa esquizofrênica que não sei de onde vem; talvez uma vontade de testar minha capacidade de convencimento. Mas não é virtuose! Está longe de o ser. Às vezes, depois desses arroubos, chego em casa e fico pensando nas coisas que disse. De fato, eu poderia pensar daquela forma e, definitivamente, há outras pessoas que pensam assim. Talvez seja esse o meu vício pela discussão: refletir sobre as várias óticas, pensar em estratégias de convencimento, me deixar dobrar por argumentos alheios. Adoro essa brincadeira. Tenho pânico de quem discute para ganhar. O bom da discussão é o jogo. O cabo de guerra. Depois que um lado cai, é fim. Frescobol. O que me diverte é a bolinha no ar, oscilando de mão em mão. Eu gosto é da raquetada! Principalmente quando ela faz o outro jogador cair, só pra manter a bola no ar. Boas discussões têm tudo a ver com relacionamentos. O velho jogo de ceder e pressionar. O que nada tem a ver com discussões de relacionamento – que é um jogo bem menos interessante e saudável, de ônus e cobranças. Enfim, foi só um parêntesis. Às vezes me pergunto de onde surgiu esse meu hábito. Não é um gosto pela mentira. Tirando esses arroubos, minto muito pouco no meu dia-a-dia. Só o necessário. E nem acho que minto, quando estou em crise. Naquele momento, tudo o que digo é verdade. Não dentro de mim. Mas assim que eu pronuncio aquelas palavras impensadas, todo o meu corpo passa a acreditar nelas em um instante. Elas passam a ser genuínas para mim. Talvez se eu mentisse mais, diminuísse esses episódios. Mas não quero mentir mais. E não quero diminuí-los. Na verdade, adoro quando eles acontecem. Sou a que mais me divirto nessas discussões. Mas, tirando o lado divertido, assumo: não tenho controle sobre esses momentos. Solto a língua, e paro para me ouvir. Nestes instantes, nada é premeditado. Tudo acontece em frações de segundos. Gostaria de ter esses arroubos não só com mentiras, mas também com verdades. Mas parece que o bom senso cria uma represa para as sinceridades. Ia ser maravilhoso ter arroubos de verdade em certas situações. Na minha vida amorosa, por exemplo, ia ser um sucesso. Ia me poupar dias de angústia e expectativa. Tem gente que tem isso. Eu não, engraçado. Para tanta coisa extrovertida, para homens me escondo. Eles me intimidam. Sempre tenho medo de parecer ridícula, presunçosa, melosa, sei lá, piegas! Das outras áreas não posso reclamar. Tenho me dado muito bem com a linguagem. Sei resolver meus problemas com o português. Os brasileiros é que me incomodam. Ah, esses brasileiros. Complicados, confusos e carentes. Calientes! Que me deixam, de uma hora para outra, sem saber onde achar as palavras...

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Confissões de uma inconstante

Estou com medo. Um medo estranho e sensacional. Aquele medo de quem sabe que está se apaixonando. Aos poucos, sem querer, mas se deixando levar. Durante muito tempo lutei contra esse sentimento. Achei que não valia a pena, que era reflexo da carência, que nunca ia dar certo. Mas a vida tem suas razões. Aos poucos, foi me arrastando por esse oceano profundo sem que eu percebesse: fui me refrescando feliz, até que, agora, comecei a me afogar. Afogar-se, nesse caso, não é tão ruim assim. Tem sempre a possibilidade iminente de se sofrer. Coisa desnecessária e essencial. Estou me apaixonando pelo jeito, pelo sorriso, pela gentileza. Sempre me afastei dos homens bons. Nunca achei que pudesse ser boa para eles. Mas pela primeira vez sinto que, de certa forma, sou também uma mulher boazinha. Sempre sufoquei esse meu lado. Tenho vergonha do meu romantismo e da minha doçura. É sempre mais fácil mostrar a casca e esconder o recheio. Mas o recheio é doce, podem apostar. E, a cada dia, tem se tornado maior e mais cremoso. Tenho vontade de botá-lo pra fora, mas nunca fui boa nessas coisas de exibição. Escondo, faceira, essa faceta pra mim. Mostro-me aos poucos, sem pretensão. Quem sabe o quanto pode ser ruim e ainda assim acredita, merece ter o que há de melhor. Posso ser o que há de melhor, se eu quiser. Já o fui, um dia. Mas tenho me desencontrado das almas merecedoras, e tenho merecido poucas almas semelhantes. Mas, paulatinamente, tenho sentido a necessidade de me abrir. Para ele. Só para ele. Ainda penso nos contras, nas dificuldades, mas minha razão se engana. A emoção se sobrepõe, e me mostra facetas que eu, sem querer, fecho os olhos para não ver. A coisa já está se tornando física. Quase uma necessidade. Ainda não é um vício. Ainda não. Mas adoraria se, aos poucos, se tornasse. Há vícios que são benéficos. Saladas para a alma. Estou vendo um novo horizonte, do qual me escondi durante meses. Não gosto de me mostrar. Tenho uma dor guardada aqui, e um medo desse sofrimento inevitável. Mas até quando não vale a pena, prefiro sofrer a deixar de viver. Mas dessa vez vale. Todo o sofrimento que vier, tenho certeza, terá sido recompensado por momentos de extrema beleza. E não é só uma coisa que parte dele. Parte de mim também. Eu soterro, escondo, mas transborda. Não estou conseguindo mais evitar. É novo, é simples, e é grande. Bem maior do que eu poderia supor. Ainda não sei como lidar com tudo isso. Tranquei-me a sete chaves, e agora não consigo mais encontrá-las. Mas mesmo com as portas fechadas, me sinto aberta. Transbordante. A proximidade me inquieta. Me faz querer agarrar. Tenho a necessidade da pele, do abraço. Sempre fui assim. Mas nesse momento, tenho dificuldades de dormir. Me faltou a coragem de esticar o braço, de tocar o corpo. Aquela forma ali tão perto, e minha mente tão longe. Já não sei o que fazer. Como já disse, não sei como me mostrar. Nunca o soube. Penso em situações simplórias: qualquer coisa resolveria se me sobrasse a coragem. Mas sou covarde. Não consigo propor nem um olho no olho. Seria maravilhoso. Sinto falta dessa sinceridade. Sei que há sinceridade. Mas quero a pele, o conforto, a segurança. Não tenho conseguido lidar com a minha própria insegurança. Não sei mais agir como se tivesse certeza: estou sempre em dúvida. E a dúvida, nesse caso, é o meu grande fracasso. Alguns centímetros: foi o que me faltou hoje. Faltou uma iniciativa, uma credibilidade, uma certeza. Faltou-me tato. E sobrou-me intimidade. Nunca me senti tão confortável com ele: dentro e fora da realidade. Estamos em sintonia, eu sei. Mas acho que somos ambos bichos em fuga. Fugimos de nós, da nossa verdade. E ao mesmo tempo a buscamos desesperadamente. Essas linhas não serão lidas por ele, eu sei. Mas eu gostaria de colocar toda essa inquietação para fora. Queria que ele sentisse o meu calmo desespero. Minha necessidade da realidade. Queria ter os lábios mais próximos outra vez. E a certeza, equivocada, de que dará certo. Sinto falta de acreditar, mas com ele eu acredito. Sempre que estou perto, sempre que estou bem. Acredito na capacidade de ele me aceitar como eu sou: com meus defeitos e minhas variedades. E quero absorver o lirismo da sua simplicidade. Quero aquele calor latejante que até agora só senti pela proximidade. Quero aquele calor para mim. Em mim. De mim. Me sinto como uma criança perdida num shopping center: o paraíso ao alcance, e eu querendo a segurança de uma mãe. Quero conseguir entrar no paraíso. Não pretendo chorar antes de me machucar. Mas pretendo me lançar ao abismo com toda a minha verdade. Me lançar para ele e para mim, num balé atrapalhado, cheio de pés esquerdos. Quero dançar com ele até o sol se pôr e até o sol raiar. Quero sorrir a dois e brincar em paz. Quero ele para mim. Agora, nesse instante, nessa lágrima que cai. Quero a proximidade que não tenho e a distância que ainda hei de criar. Quero me esconder naqueles cabelos, e me perder na brisa daqueles olhos. Quero que ele se ache em mim. E que me perca. Quero me perder nessa melodia que a gente criou. E dançar a valsa da nossa insensatez. Quero o choro e a morte, a dor e o silêncio. Mas quero principalmente a vida, que pousa, sem rumo, nas asas da minha ilusão.

domingo, 17 de agosto de 2008

A partida do circo

Muito difícil essa coisa de lidar com o tempo. O tempo passa muito rápido, penso. Nesse exato momento, procuro encaixar as coisas da minha vida antiga na minha atual realidade. São coisas importantes, das quais eu nunca quero me livrar. Mas elas, hoje em dia, me exigem mais tempo do que o que eu posso lhes oferecer. Estranha essa sensação de déficit. Uma depressão profunda e irritante de não ser mais o que já se foi. O tempo que lhes dedico, para mim, é sem dúvida o mais agradável de todo o dia. Mas não consigo nunca dedicar-lhes tempo suficiente. Sempre acho que deveria ter ficado mais um pouco, sorrido um pouco mais. A triste certeza de que em pouco tempo tudo se distanciará novamente enche os meus dias de angústia. E eu, tola, tentando me equilibrar na corda bamba! O circo veio com toda a sua graça. Mas a pipoca, pra falar a verdade, me dá um pouco de indigestão. Fico querendo largar tudo, e ir-me embora com o circo. Sinto vontade de fazer parte da trupe. Mas me esqueço, em certos momentos, que já fui artista desse grupo. E que saí por conta própria. Voltar para o picadeiro seria dar alguns passos para trás. Seria voltar às origens. A bem da verdade, o que eu quero mesmo é que o circo mude. De cidade, de elenco, de história. Queria um circo menos nômade, mais fincado e estável perto de mim. Mas não cabe a mim mexer as peças do tabuleiro. Nunca soube jogar xadrez. Sou uma mera espectadora desse jogo monótono e brilhante. Espero, sinceramente, que as rainhas e os cavalos logo cheguem por aqui. Os peões podem continuar pra sempre onde estão. Imóveis, inertes. O que eu queria mesmo, era poder começar uma nova partida. Longe daquela terra, mas embaixo da mesma lona. Aquela, antiga e brilhante, agora um pouco mais castigada pelo sol.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Criança inventada

Bomba da semana: estou grávida! Pai, mãe, não se desesperem! Eu entendo o susto de vocês, mas, definitivamente, de todos os rebentos que despontaram repentinamente na família, o meu, com certeza, será o mais querido. Não tive culpa, não tenho nem como explicar. Coisa do Dudu, que desde que chegou, não pára de chamar irmãozinhos... Eu não acreditava, mas agora, não posso negar. Meu caso é de assustar a vigilância sanitária. Aliás, estou pensando seriamente em ligar pra Anvisa. Afinal, nos últimos 5 anos, não deixei nem um dia de tomar meu anticoncepcional. A chance de isso acontecer era tão ínfima, que nem passava pela minha cabeça. Coisa de 0,01%, dá pra acreditar? Mas não estou reclamando. A bem da verdade, fui eu mesma que clamei pelo movimento de renovação dos Prosdocimi. Qual é? Eu era a neta mais nova... já tava mesmo passando da hora. Os Castro Santos, também, vamos combinar! Já estão bastante crescidinhas as minhas ‘primas pequenas’. Pois então. O fato é que mal posso esperar pra minha barriguinha começar a aparecer. Estou louca pra ficar barriguda. Gravidíssima. Ao que parece, infelizmente, o bebê não terá escolha: será branquinho, dos cabelos encaracolados e escuros. A cara do pai. Ou da mãe. A qualquer um dos dois que puxar, sairá meio birutinha. Mas será reprimido, com certeza! Brincadeira... Mas é que com mais um artista lá em casa, a gente pira. Com essa coisa de filho vamos ter que, precocemente, acabar com o oba-oba de um quarto pra cada! Delícia, na verdade. Já estamos tendo idéias mirabolantes para o quarto do bebê. Daqui a uma semana, faremos o primeiro ultra-som. Ainda não vai dar pra saber o sexo. Eu acho que será um meninão, como o pai. Ele quer uma princesinha, como a mãe. Coisa de novos-pais babões. Já começamos a discutir os nomes, e até que estamos nos entendendo bem nesse assunto. Gostamos de nomes curtos! E o sobrenome? Digno de Hollywood! Com um toquezinho europeu na pronúncia. Por enquanto, toda e qualquer previsão é apenas um palpite! Mas oito meses passam rápido (eu já estou grávida de quatro semanas). Foi o tempo que esse desvairado teve pra me conhecer e me ‘obrigar’ a casar com ele. Parece que foi ontem. E já tem um serzinho que é a nossa junção. Eterna e irrevogável. Nos misturamos com tanta intensidade, que formamos outro. Nosso tesouro. Nossa surpresa. Nosso sorriso abobalhado dessa ultima semana! Estamos em êxtase! Felizes e medrosos como nunca. Mas queríamos dividir essa sensação com vocês: essa, de que o chão saiu do lugar, e de que o amor pode ser palpável. Estamos anestesiados. Maravilhados. E gratos ao Dudu que, no fim das contas, é o grande responsável pelo milagre! Taí mais um priminho, meu pequeno. Que vocês se tornem inseparáveis. E que, daqui a alguns anos, você possa dizer pra ele, em segredo: “fui eu que te chamei”. O quadrado está completo. Mas aguardem! Algo me diz que ainda falta mais um pra completar a estrela... quem sabe ele não é francês? Um pouquinho de sotaque na mistura serviria para apimentar! Poliglotas, internacionais e muito amados. A nova geração da família resolveu descer em bando – eles não querem perder tempo. Bendito pesadelo na fila da adoção. Bendita estrelinha de sobrancelhas grossas. Bendita semente, que quero ver florescer!

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Reunião de Fragmentos

Por diversas vezes, parei de escrever um texto subitamente, como se a idéia me fosse arrancada, sem mais nem porquê. Esses fragmentos, discriminados, acabavam caindo na pasta dos textos não finalizados, e ruminavam sua inquietação por todo o sempre. Mas decidi fazer-lhes uma visita. E me questionei sobre a necessidade de conclusão daqueles pensamentos. O que propus, com a criação desse blog, foi libertar minha necessidade da escrita. Pretendo, portanto, não sufocar mais estes desabafos. Esses suspiros. Se alguém se interessar em completá-los, sinta-se à vontade. Talvez lhes falte um pai. Os fragmentos abaixo não pretendem dialogar entre si. Foram escritos em momentos diferentes, e vou postá-los do mais curto pro mais longo, independente da cronologia. São pedaços de mim que foram abortados. São mais alguns fragmentos de uma vida inventada...

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Hoje vi um atropelamento. Na janela de casa, um atropelamento. Na janela da alma, uma dor. No chão, o sangue denunciava um último sopro de vida. Vermelho. No rosto do motorista, o desespero. No do morto, a paz. Viver dói.
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Hoje não fui ao bailinho. Hoje deixei de ser criança um pouco. Fui ríspida com amigos e não pude fazer a melhor cena. Hoje pensei nele, quis falar com ele e não consegui. Hoje não tive vontade de chorar. Nem um pouquinho. Hoje fiquei sozinha. Muito sozinha. Mas não soube entender a solidão. Não quis falar com ela. Hoje só escrevo merda. Estou vazia por dentro.
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Estou arrepiada. Os pêlos do corpo eriçados. Uma estranha sensação de que algo está para acontecer. Talvez um sexto sentido. Não duvidem: as mulheres têm dessas coisas. Alguma sensibilidade não cognitiva. Alguma ligação inexplicável com o mundo. Não é a primeira vez que me sinto assim. Várias vezes já tive essas sensações. Às vezes, uma angústia desenfreada, um medo doentio. E depois, nada.
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Há pessoas que gostam de aniversário. Ela, particularmente, detesta receber telefonemas nestes dias. Até os amigos mais próximos, com quem possui uma relação estreita, adquirem tons formais no exercício de parabenizar e desejar os melhores votos. A grande verdade é que, quando o aniversariante é querido, palavras não alcançam a essência do bem que lhes desejamos. Mas era aniversário dele. E ela havia lhe prometido um e-mail. A distância, nesse caso, impedia o abraço. O sorriso. Teria que escrever. Ensaiou algumas linhas. Apagou. Reescreveu. Tudo lhe parecia premeditado e piegas – como são, de fato, os escritos de aniversário. Mas havia prometido, e pretendia cumprir...
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Nunca pensei que o fato de morar sozinho pudesse trazer tantas perturbações às pessoas. Não sei se vocês entendem o que eu quero dizer, mas mesmo as pessoas que não se sentem solitárias, que tem amigos, amores, amantes, parentes; quando vão morar sozinhas, começam a desenvolver tipos peculiares de paranóias. Tem o caso do jovem independente, que passou a ter medo de se engasgar com comprimidos. Tem também o daquele senhor que, do dia pra noite, achou que fosse sufocar enquanto dormia. E, a partir daí, passou a ter pânico de tomar banho: poderia se afogar com a água do chuveiro! Tem também o da velha senhora, que tinha medo de morrer e só ser encontrada dias depois – como se fosse fazer alguma diferença. Tem ainda o da garota, que temia desaparecer naquela cidade desconhecida, e seu sumiço só ser notado quando ela mesma voltasse para dar a notícia de que fora encontrada. Coisa de paranóicos. É claro que, tirando o afogamento no chuveiro, todas aquelas fatalidades poderiam, de fato, acontecer. Mas eram tão improváveis que a fobia se tornava (...)
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Ando um pouco preocupada com a solidão das pessoas, ultimamente. Não, podem ficar tranqüilos: não vou começar a discorrer sobre a solidão do homem moderno segundo Sartre e Beckett. Pra mim esse assunto está mais do que encerrado – embora muito do que eu vou escrever agora tenha, de alguma forma, relação com os estudos que fiz pra escrever aquele artigo. Mas se quisesse continuar na teoria, teria aceitado o mestrado. Agora quero refletir sobre a prática. Falo de fatos que tenho vivido, presenciado, ou que aconteceram com pessoas extremamente próximas. Enfim, a questão é que ando um pouco preocupada com a solidão das pessoas ultimamente. E quando digo solidão, estou me referindo a esse sentimento ruim mesmo. Tenho encontrado pessoas que não estão apenas solteiras: estão sozinhas, solitárias. Estão com dificuldades de lidar com a própria companhia. Porque se tem uma coisa difícil em ficar sozinho, é agüentar a própria companhia 24 horas por dia. Tem pessoas que são ótimas para lidar com os outros, mas que não conseguem lidar
consigo mesmo. Não me excluo do bolo – também me sinto assim às vezes. Mas devo admitir que, ultimamente, tenho me achado uma companhia cada vez mais interessante. Adoro minha solteirice e tenho convivido muito bem com minha solidão. Minha solidão é calma; de uma tranqüilidade irritante, mas cheia de descobertas inesperadas. Aceitar nossos piores pensamentos às vezes é bem complexo, mas conviver com eles e trabalhá-los nos dá uma noção de humanidade. De finitude. E de valores: os que nos são caros, e os que nos são impostos por qualquer tipo de hierarquia – social ou emocional.
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Depois de meses, a menina acorda com um telefonema. O que ela esperava. Com o canto esquerdo dos lábios, um sorriso. Ela disfarça. Tenta manter um tom agradável de surpresa. Do outro lado da linha, a ansiedade de quem tarda a tomar uma decisão inevitável. Segundos de silêncio. A garota se senta na cama. Descabelada. Nua. Em sua cabeça, um turbilhão. A voz masculina do outro lado tem algo de terno e duro. Algo que lhe interessa. Com as pernas cruzadas, ela observa o quarto – seu universo. Tudo disposto da pior maneira possível. Um mergulho de meses. Confusa ainda, ela decide desligar. Banho. Água escorrendo pelo corpo, acalmando a pele do susto involuntário. Uma reação de dentro pra fora. Ela respira fundo. Se observa. Tinha envelhecido um pouco nesses meses. O cabelo mal cortado. Alguns quilos a menos. Sem pressa, ocupou-se com os hidratantes. Sentiu prazer em se cuidar. Não devia fazer isso por ele, e não o estava fazendo. Aquele telefonema apenas a trouxera de volta à superfície. Arrumou o universo – cada astro em seu lugar. Tentou organizar também as idéias, mais confusas. Pediu um milk-shake. Ela estava podendo engordar. Enquanto fazia tudo isso, pensava na conversa ao telefone. Pensava na nova possibilidade de vida, no novo sopro de ar. Sentiu-se rejuvenescida. Sentiu-se imortal. Um homem, do outro lado da lanchonete, a observava. Incomodada, mostrou-se menos solícita do que gostaria. Um ódio começou a percorrer seu corpo. Por dentro. Parecia caminhar pela corrente sanguínea. Irrigar os músculos. Uma sensação incontrolável, ela não podia intervir. Desesperada, começou a compreender sua crise: tudo estava exacerbado, depois de meses de quietude. Teve vontade de agredir aquele homem. Fisicamente. Em sua cabeça, imaginava milhares de formas para feri-lo. Ela queria vê-lo sofrer. Não entendeu muito bem seus sentimentos. O rosto dele lhe era particularmente familiar, mas completamente desconhecido.
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A partir de agora, postarei, sempre que achar necessário, esses fragmentos perdidos. O foco não é o sentido e sim a busca. Vou postá-los sob o título Incompletos – seguido do subtítulo que lhes darei. Espero que não seja um estorvo a leitura de pensamentos abortados. E espero, ambiciosamente, que os pensamentos continuem aí, do outro lado da tela, como um diálogo entre mim e vocês, interrompido bruscamente por uma pane elétrica nos meus circuitos cerebrais. Bons pesadelos!

sábado, 9 de agosto de 2008

Superficialidade, filha-da-putice e o circo

Tenho escrito coisas absurdas. Essa coisa de ter que escrever é um pouco ambígua, porque a obrigação acaba ocultando os melhores textos, que são os que partem da necessidade. Não tenho necessidade de escrever mais. Ou até tenho, mas muito raramente, e em lugares onde se torna impossível fazê-lo. Outra coisa que me torra o saco é essa obrigação de ser engraçada. Escrever stand ups não é fácil como pode parecer. Nunca sei o que vai provocar o riso nas outras pessoas. E não quero o riso fácil. Difícil ter conteúdo e forma. Ultimamente, tenho tido vontade de criar parcerias. Acho que escrever um texto a várias mãos ia ser um caos, mas um caos criativo. Tenho exercitado a capacidade de ouvir. Falo muito, sempre falei. E sempre tive dificuldade de parar pra ouvir os outros. Ouvir é mesmo muito difícil. Paradoxalmente, sempre adorei críticas. Difícil mesmo é ouvir elogios. Eles nunca me soam sinceros. Em Belo Horizonte, sempre tive amigos-chave, aqueles nos quais eu confio, e que me fazem acreditar nas boas críticas. Mas aqui... aqui a situação é bem outra. Não conheço muito bem o parâmetro crítico das pessoas – nem das que eu conheço melhor. Às vezes até conheço, é fato, mas não confio. Não gosto de gente que elogia sempre. Na verdade, não gosto de gente que elogia. “É bom” pra mim não serve. É bom por quê? O que eu sinto falta aqui são os argumentos. Talvez porque tenha aprendido a ser questionadora – e um bom questionamento está intimamente ligado ao argumento. Há tempos não tenho uma conversa cabeça, uma discussão fundamentada sobre um filme ou uma peça. Sinto falta dos acadêmicos. Polêmicos. Não estou chamando as pessoas de burras, que fique bem claro. Mas tenho tido contato com pessoas um pouco superficiais. Falta embasamento teórico. O achômetro até me interessa, em mesas de buteco e discussões informais. Mas eu tenho necessidade do conteúdo. De conversas com substância. Tenho saudade das críticas da Ana, dos arroubos da Priscila, da falsa ponderação da Isabel. Tenho saudades de sentar em frente ao barraquinho e fumar um cigarro com o Gu (ou na companhia dele). Tenho vontade de ser criticada e, depois de dar um passeio pelo poço, voltar à tona com força total. Ator é muito instável. E a estabilidade nos sufoca. Às favas com a estabilidade! O que a gente quer é não ter chão. É procurar no teto um lugar pra pisar e, de repente, se descobrir de cabeça pra baixo. O que eu quero é o sangue nas orelhas e o coração pulando dentro do peito. Estou com saudades de dizer, na coxia: “ai, Vi, tô com dor de barriga”. Tenho saudades dessa dor de barriga. Essa, que parece que vai rasgar a alma, que te faz ter medo de cancelar o espetáculo. E que some, completamente, depois que alguns movimentos são feitos. Estar no palco é sempre uma experiência singular. Eu sei, parece clichê, mas cada dia o espetáculo tem uma forma. Uma fala que se esquece, um tempo que se atrasa, um espectador que tosse, um sentimento dentro do peito. Adoro esse conceito de catarse! Essa purgação pelo terror e pela piedade. Aristóteles desenhou o conceito como uma via que partia do espetáculo para o espectador. Mas posso garantir: há um quê de purgação para o atuante. Diferente, é claro. Nosso grau de identificação é outro. Menos efêmero e ilusório. E mais esquizofrênico. A gente trabalha com o obscuro. Com estranhas facetas de nós mesmos, que não gostaríamos de conhecer. É doloroso; enlouquecedor; angustiante. E mágico. Tirando o surto de dentro, o de fora também é interessante. Estar no teatro – em cena – é um exercício metateatral. A observação do espetáculo pelo ponto de vista do atuante. O pseudo-envolvimento com a personagem e a plena consciência de si. Do que se deve fazer. Estou com saudades. Ando querendo ser outra. Essa coisa de stand-up é legal. Mas sou eu o tempo todo. Variações do mesmo eu. E estou um pouco cansada de mim...

Mudando de assunto, gostaria de frisar mais uma vez a nossa famosa frase bailística: “Eu nunca disse que prestava!”. Nunca disse. Não que eu não preste, não é isso. Mas enfim, vocês entenderam... Ando querendo fazer bobagens – mas o peso da tradicional família mineira ainda não conseguiu se desgrudar do meu corpo. Fora isso, tenho um conceito moral arraigado que também não quer me soltar! Não estou querendo fazer nada demais, não. Mas às vezes acho que estou sendo filha-da-puta com os outros. Coisa boba. É por isso que estou reiterando: eu NUNCA disse que prestava. Isso serve tanto pros caretas, quanto pros confiantes demais. A fila anda, e eu to com medo de empurrar o coleguinha da frente. Como eu cantava com a zuleica: “bobeou cachimbo cai”. Não só cai como apaga. O cachimbo é o sucesso da metáfora. Há que se dar uma baforada atenciosa, de tempos em tempos, para manter a chama acesa. A forma pode ser até resistente, mas o conteúdo vira fumaça. E vira rápido!

Mudando novamente de assunto, estou contando os dias. Faltam seis. De novo. Vem aí a trupe mais deliciosa do universo. Estou doida pra ver os malabarismos monetários, as palhaçadas alcoolizadas, as bailarinas na areia, e o domador de leões no meio da selva. Prevejo: divertimento garantido. Ainda não fiz a programação, mas estou com uma idéia mirabolante... Preciso saber o endereço da alegria! Que os outros não me ouçam, mas os melhores artistas estarão aqui – com uma ou outra exceção. Já estou preparando a pipoca, e arrumando alguém pra dividir o algodão-doce comigo. Será que vai ter maçã do amor? Vem vindo a anja e a diaba – branco e augusto. Só gosto deste clown. Dos outros tenho pena. Ai! Tragam uma garrafa de champanhe! Estou querendo me divertir... Prometo que me apresento pra vocês – meu lado mais amargo e o mais doce. Na medida das papilas gustativas. Vou ter o maior prazer de apresentá-los ao meu novo mundo. Bem-vindos!

E não se esqueçam: eu nunca disse que prestava!

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Fofoquinhas sobre a nova vida de casada...

Quem me conhece sabe das malfadadas peripécias do meu primeiro casamento. O Casamento-Relâmpago. Recuso-me a contá-las aqui. A experiência foi tão absurda que achei que nunca mais dividiria o mesmo teto com alguém. Fiquei traumatizada por meses. Sim, eu sei: sou muito jovem ainda, imatura, ele era insuportável, cheio de manias... Casamento fadado ao erro! Mas eis que trago a notícia bombástica: acabo de começar uma nova ‘união estável’. Precipitada; impensada? Sei lá! Acho que pra quebrar esse paradigma de inteligência, resolvi mostrar que não, eu não aprendo com os erros. Estou oferecendo a outra face. Escolada, porém, dessa vez impus algumas regras! Graças a muita ralação, pudemos alugar um bom apartamento de dois quartos: suíte, quarto, banheiro social, sala pra dois ambientes, lavabo, cozinha, e o principal: uma mega varanda! De cara, concordamos em colocar uma rede nela. Uma rede, e uma mesinha – mobília decidida. Nas salas, a televisão dele, meu dvd, um sofá lindo que a gente comprou num brechó e duas poltronas; a mesa do escritório dele (que cabe a impressora e nossos laptops lado a lado, no maior amor), um aparador, e a mesa nova de jantar. Quanto aos quartos, decidi o seguinte: um meu outro dele. É óbvio que, a princípio, ele não entendeu muito bem a idéia. Mas como a minha capacidade de persuasão é um pouco acima da média, no fim das contas, além de adorar, ele acabou achando que a sugestão tinha partido dele. Empecilho resolvido, combinamos assim: a suíte, é claro, ficaria comigo. Mas ela seria também o quarto oficial. Resultado: os armários abrigam as minhas roupas e todas as outras tralhas da casa. O quarto dele, um brinco! Só uma meia-dúzia de coisas. E o resto do armário vazio, já que aquele é o quarto oficial de hóspedes! Bem espertinho ele... Deixei. Afinal, não trocaria o conforto da suíte por nada. Na cozinha, minhas taças disputam espaço com os ‘copos lagoinha’ dele; e na geladeira, meu kiwi às vezes fede à mexerica. Bobagem. Coisas que ainda vamos ajustar. O fato é que acabamos de nos mudar, então tudo está às mil maravilhas. A cada momento uma nova descoberta. Estamos naquela fase do amor intenso. Nem a divisão dos quartos estávamos utilizando. Mas aí veio a primeira briga. Primeiro desentendimento marital. Coisa seriíssima! Ele ficou horas fazendo aquele barulhinho só pra me irritar e acabou irritando mesmo. Cada um virou pra um lado da cama. Climão. Aí eu, sem conseguir conter o ímpeto, solto essa: ‘por que é que você não volta pra sua casa, hein? Amanhã a gente conversa com calma’. Caímos na gargalhada. Os dois. Ele completou: ‘se quiser, posso ir ali pro outro lado da parede e só voltar amanhã’. Lindo ele. Transamos. E, logo depois do sexo, mandei-o de fato de volta pra casa. E ele foi! Pelado, resmungando, mas foi. Eu fiquei rolando na cama, com frio, arrependidíssima de tê-lo mandado embora, mas sem coragem para chamá-lo de volta. No dia seguinte, acordamos como dois adolescentes apaixonados. Tomamos café juntos, discutimos a crítica do jornal... Tudo na maior paz. Confesso que essa calmaria está me incomodando um pouco. Ainda não consigo acreditar que vamos ter alguns meses de paraíso. Já fico pensando qual vai ser nossa próxima briga... Aliás, acho bom a gente comprar mais uma rede, pra colocar na varanda. É que domingo vamos fazer almoço aqui em casa, e eu não vou abrir mão da minha sonequinha digestiva. Nem ele. Já senti que na segunda, vamos acordar em quartos separados. Melhor assim. Estou achando ótimo isso de manter a individualidade. Ele vem, assiste um filminho comigo, e depois vai embora, me deixando à vontade par pinçar a sobrancelha. Ou então eu vou lá, dou uma esquentada na cama, e o deixo cutucando a unha do pé. Privacidade! Ah, nada como esses relacionamentos modernos!..

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Carta a um antigo desafeto

Oi, querida, como é que você está? Pergunto mais por educação, porque tenho notícias suas sempre – tanto dos seus amigos, como dos seus outros desafetos. Gostaria de poder falar tudo isso pessoalmente, mas tenho a impressão de que você não teria paciência de me ouvir, por isso escrevo essa carta. Hoje fiquei sabendo que, mais uma vez, você está magoada comigo. Motivo tolo: te deletei do meu universo virtual. Sinceramente, não entendo, mas mesmo assim vou me explicar. Primeiro, gostaria que você entendesse que não fiz isso de sacanagem. É um velho hábito. De tempos em tempos (tempos curtos), dou uma olhada nos meus “amigos virtuais”, e excluo aqueles com os quais não mantenho contato. A razão é simples: não tenho porque acumulá-los. Aliás, acho mesmo de péssimo gosto manter mais do que um punhado deles. Não preciso mostrar a ninguém que conheço muitas pessoas. E os amigos, amigos de verdade, cabem nos poucos dedos das mãos. Por isso, virtualmente, mantenho apenas aquelas pessoas com as quais não gostaria de perder o contato; nos mandamos notícias mutuamente. São pessoas queridas, que foram afastadas de mim pelas circunstâncias da vida. Se você duvidar, pode entrar lá e conferir: vários dos nossos conhecidos em comum não constam naquela lista. Nada pessoal, apenas uma atitude coerente com o meu modo de pensar. Quanto a você, sejamos sinceras: acho que nunca trocamos uma mensagem naquele espaço. E olha que fomos “amigas” por anos. Por isso – e apenas por isso – achei melhor deletá-la. Prova da nossa indiferença é que fiz isso há meses e, pelo jeito, só agora você foi perceber. Sua mágoa – se é sincera – na verdade me espanta muito. Achei que se você fosse sentir alguma coisa, fosse algo parecido com alívio. Porque, a bem da verdade, a convivência comigo, pra você, sempre pareceu um fardo. Resolvi descomplicar! Já que você não faz parte da minha vida real, também não tem porquê fazer da virtual. Lado bom da história: você não precisa nem perder seu tempo falando mal de mim. Pode simplesmente fingir que eu não existo. Acho que isso será bom pra nossa eventual convivência. É saudável assumirmos nossos reais lugares: somos pessoas completamente diferentes, que possuem vários amigos em comum. Não somos amigas. Há muito tempo não o somos.

Sobre isso, aliás, também tenho algumas coisas a dizer. O tempo passa, minha querida, e passa rápido. Já faz tempo que deixamos de ser aquelas garotinhas bobas, que brigavam por motivos medíocres. Se você quer saber, às vezes eu tento, mas nunca consigo lembrar porque começamos a nos desentender. O que eu lembro é que éramos bem amigas. Lembra daquela vez que nos encontramos na peça do Rodrigo Santoro? Histéricas pra conseguir falar com ele? Eu lembro. Com saudades. E das viagens que fazíamos praquele interior? Você ainda vai lá? E aquela amiga estranha que tivemos? Até hoje não entendo qual era a dela – e me dá arrepios, só de pensar! Lembro das caipivodkas – nossa, como a gente bebia vodka naquela época! – lembro dos seus irmãos “pequenos” e do seu pai indo nos buscar nas festas. E não consigo me esquecer daquele apartamento, daquela varanda, e das longas histórias que aconteceram ali dentro. Sim, é disso que eu me lembro. De bons momentos da minha adolescência. Bons momentos que passamos juntas. Depois, um abismo. Não sei como ele se formou, não me interessa. Mas ele existe. Está aí e, pelo jeito, não queremos passar por ele. O deixamos quieto, cada dia mais profundo. Se quer saber, também tenho mágoa de você. Mágoa não, frustração. É que depois dos desentendimentos, depois da calmaria, por várias vezes tentei me reaproximar. E todas as vezes desistia quando sabia que, mais uma vez, você estava tentando jogar as pessoas contra mim, falando mal, criando essas suas estranhas fantasias. É uma pena. Poderia ter sido diferente. Mas não foi. Acho melhor, então, deixarmos de ser hipócritas, e assumirmos nossa real distância. Posso estar parecendo extremista, mas não é a minha intenção. Aliás, gostaria que você soubesse que não tenho nada – absolutamente nada – contra você. Se tivesse, provavelmente não estaria perdendo meu tempo escrevendo essa carta. Se eu te achasse uma escrota – como parece que você acha que eu acho – eu diria: “tá magoada comigo? foda-se!”. E ia me ocupar com coisas mais importantes. Mas, realmente, achei estranha a sua mágoa. E nunca foi minha intenção. Apenas quis colocar os pingos nos “is”. Sabe o que é? Depois que me mudei pra cá, que me distanciei, comecei a perceber melhor o valor de cada coisa na minha vida. E descobri que picuinhas de turma não tem lugar nela. Não quero confusão, não sou de confusão. Mas tenho que ser verdadeira comigo mesma. Portanto, se tiver que causar mal-estar por discordar de certas regras de conduta, vou ter que fazê-lo. Não tenho porque te manter no meu universo virtual só porque vai ser um choque eu te deletar. Desculpa, mas chega de hipocrisia. Na verdade, eu acho que a gente devia se re-conhecer. Porque eu, sinceramente, não conheço essa aí adulta, mãe de família e agora fumante. A que eu conheço é uma menininha mimada, capaz de mover o mundo quando é contrariada. Metade das coisas que você pensa sobre mim, também deixou de ser verdade ao longo do tempo. As pessoas mudam. É como eu disse: o tempo passa, e passa rápido. E esta é a última vez que eu gasto meu tempo tentando harmonizar essa história. Já me fiz bem clara agora. A você, cabe uma escolha. Pode optar por me manter apenas como uma conhecida, uma pessoa da qual você não gosta, mas que é obrigada a encontrar de vez em quando. Ou então, pode experimentar. Tentar me conhecer de novo, sem pré-conceitos. Sem idéias já concebidas. Por mim, proponho deixar o passado em seu lugar. Nossas imaturidades eram condizentes com a nossa idade. Mas nós crescemos, mudamos. Eu não sei quem você é. Quanto a mim, muito prazer! Meu nome é Flávia Prosdocimi...

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Enfim...

Um braço nu. Um seio a mostra. Da janela, uma brisa gelada invadindo o quarto. Roupas espalhadas pelo chão, um certo cheiro. Lençóis remexidos e pés entrelaçados. Ainda um resquício de sono. Sorrisos. E silêncio. Sentidos aguçados, prazeres rondando. O conforto. Ah, o conforto a dois. Na cabeça, a memória que não devia se transformar. O amor. Na boca o gosto dele, dela. A cumplicidade no olhar; almas que se encontraram. A paz. Segundos infinitos de paz. Pelo corpo, o suor secando. No teto, toda a brancura da mente. Segundos de nada. A eterna vontade de congelar o tempo. De viver pra sempre no infinito das horas. A relatividade: rapidez. Horas e horas em milésimos de segundos. No movimento das mãos, suave, o carinho do toque. Os pêlos se eriçando, cobrindo o corpo inteiro de sensações. Arrepio. O medo do fim, da separação. Dos corpos. A unidade sendo desfeita apenas fisicamente: a sintonia. Tudo voltando aos poucos para o seu devido lugar. A organização tomando o lugar do desejo avassalador. E o tempo: passando como um furacão. Imagens em flashs. Um beijo na nuca. Orelha. Uma frase que não devia ser dita interrompendo o silêncio. Um medo. Diabo. O vento frio da janela e a vontade de continuar deitado. A obrigação de se levantar. Por um instante, toda a demora parece genial. Expectativas superadas. Necessidade do bis. De repente, um empurrão suave: de volta à cama. Beijos longos, intermináveis. A vontade de ser um só. E de novo a vida, entrando aos poucos e sempre. Olhos nos olhos. O som da respiração enchendo o silêncio de sentido. Pressão. Um excesso de peso sobre o tórax e um relaxamento profundo. O abraço. O peso do outro como se fosse o seu próprio. Calor. Corpos quentes. Boca seca. Adrenalina. De novo a paz. Curta e infinita. Longos olhares, longos beijos. Nariz com nariz, coxa entre coxa. Pêlos se misturando. Cabelos. Mãos pendendo inquietas. O relógio. O dia que amanhece, os pássaros. A música de dentro e de fora. O último instante: a hora de levantar. Tudo feito aos poucos, lentamente. Um mamilo, uma língua. A blusa pra atrapalhar. Uma mão, uma bunda, um jeans. Aos poucos, recompostos, um abraço vestido. A alma vestida de certezas e dúvidas. Um beijo. A porta. A vontade de um pouco mais. De novo, olhares. Um novo sorriso, um último beijo. As mãos se soltando aos poucos, sem muita vontade. O último olhar e o vazio. Ainda o cheiro pelo corredor. De novo a cama; a espera. No corpo, a tranqüilidade do lar. Na cabeça, a paz no turbilhão. E a saudade. A estranha saudade de se despedir de si.

Da noite

É à noite que escrevo mais. Poderia dizer que é por causa do silêncio, da calmaria, mas seria apenas um jargão. Na minha casa, nunca há silêncio. Nem na de dentro nem na de fora. Pela janela, sons de buzinas varam a noite. Freadas de carros, pneus no asfalto. Fragmentos de conversa de bêbado pelo vidro das horas. No peito, o barulho do que nunca passa e a angústia do que não vem. A cabeça poluída de palavras e impressões. O silêncio absoluto seria esmagador -- penso. Gosto da confusão ruidosa, do baralho fonético. Mas gosto dele apenas à noite. De dia, o sol inunda tudo. Só no escuro é que consigo saber o real contorno dos objetos. Adoro os pontos de luz -- cada um com sua intensidade e função. Por dentro não durmo nunca: acho. Terei a morte inteira para descansar. Por dentro as maquinações ocupam tempos e espaços. Até em repouso tento estar atenta. Pudesse, trocava o dia pela noite. Não sou de pegar sol. Coruja, como diz, há anos, minha mãe. Acho a lua mais calma. Sol é intenso demais pra mim. Conflita com meu interior barulhento. Por isso gosto da noite, acho. E por isso, talvez, goste dos seres solares. Alguma coisa a ver com harmonia e equilíbrio. Notívagos, como eu, possuem algo melancólico, de se ruminar sozinho. Somos seres do dentro, do lúgubre. Possuímos cavernas desabitadas e esconderijos secretos. Nada do que se gabar! Seres solares possuem praças ao ar livre e um vento fresco de fim de tarde. Gosto do frescor que eles me trazem. Às vezes acho que estou sempre com cheiro de mofo e cigarros. E de bebida velha: dia seguinte de ressaca. É claro que as impressões são exacerbadas. Não sou tão soturna quanto posso parecer. Na verdade, tenho tentado ser um pouco mais solar, até. Um conflito consciente da razão com a emoção. Eterno revezamento entre dia e noite. Minhas idéias, à noite, funcionam melhor. Leio melhor, escrevo melhor, ensaio melhor. Minha criatividade está escondida em algum buraco negro afastado da luz. Mas não é só a cabeça que melhora com o passar das horas. Meu corpo, por mais que eu tente, é rebelde durante o dia. Só quando a noite cai é que ele aceita, de bom grado, as ordens que lhe dou. Porém exercitá-lo à noite libera substâncias que impedem minha cabeça de dormir. Resultado final: não me exercito e não durmo. Aliada à minha afinidade com a noite está minha completa caretice em acordar tarde. Quem me dera se os ponteiros do relógio se movessem sem me preocupar. Qual o quê! Quando o dia amanhece, a consciência pesa sobre o travesseiro. Posso até dormir pela manhã, mas adentrar a tarde é proibido. Veto interno, coisa minha. Isso independe da quantidade de horas dormidas. Verdade é que se tivesse o poder, queria cinco horas a mais de noite por dia: viver de noite, dormir de noite, e ver o sol, pra não perder o costume. Essa coisa de que sol é vida tem aquele famoso fundo de verdade. No sentido emocional, digo. O outro dispensa comentários. A luz artificial me cansa. Lâmpadas incandescentes são de extrema utilidade, mas deveriam ser utilizadas com um pouco mais de moderação. Nós humanos temos mania de tentar mimetizar as coisas. Uma coisa boba que eu pensei agora, mas vejam: quando queremos dormir de dia, fechamos as cortinas, tapamos os olhos... e à noite, para a vida, lâmpadas. Sem mais nem porquê isso me lembrou uma conversa que tive ontem. O interlocutor, do dobro da minha idade, dizia: “nosso erro (se referia aos casais homossexuais) é tentar copiar um modelo de relação homem-mulher, monogâmico”. A mimese nunca será tão perfeita quanto o modelo original. E, convenhamos, neste caso até o modelo -- perfeito a princípio, tem o prazo de validade curto. Somos condicionados, é disso que estou dizendo se ainda não me fiz entender. O condicionamento, imposto ou escolhido, gera uma série de condutas rígidas, difíceis de serem mudadas. Difíceis, não disse impossíveis. Mas há algo dentro de nós, penso, que permanece ligado ao modelo, mesmo que consigamos trocar as peças. Algo como uma culpa, ou um estranhamento. Uma bobagem o que eu estou dizendo, mas ando me reprogramando, e tenho tido certos problemas de aceitação. Problemas operacionais. Controlo a máquina de maneira satisfatória, mas ela traz consigo um ranço de passado. Como os velhos, que acham que os tempos idos são sempre melhores do que os que estão por vir. Disse e não me alonguei, mas estou tentando ser um pouco mais solar. Não que eu consiga viver mais o dia, mas estou tentando me distanciar um pouco da noite. Tenho dormido mais cedo -- o que já são horas inaceitáveis se formos pensar nos moldes vigentes. Ser noturna me deixa mais interessante, mas o sol me deixa mais alegre. Já reparou como as pessoas da noite sorriem menos? Eu sorrio bastante, mas é um sorriso ácido. Quase uma ironia. Talvez esta seja minha medida entre o claro e o escuro. Lusco-fusco. Não deixa de ser agradável. Um certo tipo de essência. Parando para refletir, agora, percebi que meus relacionamentos sempre duraram mais com os seres da noite. Mas definitivamente, sou mais feliz com os solares. Eles me inundam de maneira absurda -- e depois se vão, levando-se por completo e deixando, em mim, um certo brilho no olhar. Meus olhos talvez estejam brilhando ultimamente; tenho visto o sol. Mas coloquei-o cuidadosamente por entre as nuvens, sem ele saber. Travessuras de uma menina má, talvez. Mas acho que mais uma brincadeira inocente, de quem quer aproveitar o dia sem ser incomodado. De lá, de trás do seu esconderijo, o sol se mostra pra mim em momentos oportunos. Me faz abrir um sorriso esperançoso apenas para se esconder em seguida. Fui tentar ser esperta, mas a verdade é que me enganei. O sol anda brincando comigo. E eu, divertida, ando brincando com fogo. Só espero não me queimar... A fogueira, na escuridão da noite, é o sexo desse meu tempo.