domingo, 19 de julho de 2009

O fim

Amanheceu. E o que o tempo já anunciava como um fatal destino, enfim, aconteceu. Era previsto. Ninguém se espantou. Mas quando a porta fechou atrás de si, e o quarto ficou vazio, algo de estranho se estabeleceu. Ainda não era exatamente uma solidão. Nem um arrependimento, nem alívio. Era apenas uma sensação nova. Diferente. Ao olhar para as paredes, sentiu que há anos não as via. Eram paredes, enfim. De tijolo, cimento e tinta. Paredes que sustentavam seu castelo, muralha infinita de sua ilusão. Em um instante, tudo ruiu. Descascadas, as paredes eram o retrato fiel do abandono em que se encontrava. Havia se esquecido de si mesmo há tempos. Por isso, quando tomou coragem para se levantar da cama, assustou-se com as rugas que viu. Não estava mais feia – em absoluto. Estava mais coerente. Cada vinco esculpido ao longo dos anos representava uma dor, uma decepção. Agora, aquela metade do armário vazio a fazia lembrar de tempos felizes. De dias que tinham cismado em se perder pela memória. É a convivência que mata a sutileza. Tinha deixado de dizer tantas coisas. Tinha dito outras das quais não queria se lembrar. E, depois de tantos anos de ressentimento e angústia, enfim, o vazio. A cama, o armário, o corpo. Em tudo faltava um pedaço. Uma parte essencial e inerente. Não havia percebido sua necessidade durante o tempo em que, com calma, arquitetou com receio a delicada estrada do fim. Nunca soube aonde ia chegar. E agora, depois de tudo, concluiu que sabia menos ainda. Ansiava o desfecho. Mas na vida – ninguém lhe dissera – as coisas não terminam depois do fim. O fim é apenas um recomeço; uma nova chance; uma inauguração. Estava fechando as portas para fazer uma limpeza geral, intensa. Água sanitária em todas as lembranças. Alvejante pros sentimentos. Em breve poderia abrir suas gavetas sem tantos sustos, sem sobressaltos. Estava em busca do tempo, que cismara em lhe escorrer pelas mãos. Não sabia o que seria de si. Era ele quem se encarregaria de dizer. Por hora, só olhava suas raízes envelhecidas refletidas no espelho, e seus olhos inchados, cansados de tanto brotar. Por um instante a paz. Fugidia. Só lhe restava agora tomar uma decisão. Mas as opções eram muitas, e ela ainda não sabia por onde seguir.

sábado, 11 de julho de 2009

Cigarros


Oito cigarros. Oito cigarros figuram num maço comprado há dias. Oito cigarros que cismo em não acender. Tenho parado de fumar, como sempre. Por isso, agora, os oito cigarros me fitam inquisidores e gracejantes. Sete cigarros. São sete os que me olham. Um já descansa entre os lábios, embora ainda apagado, e levemente úmido. Seu cheiro invadindo minhas narinas. Desejo. O isqueiro que não deseja acender. Faísca. Fogo. O cigarro queimando de leve, e a fumaça subindo faceira. O vício. Precipício inacabado, medo do eterno fim. Medo da dor. Fumo porque me é inerente. Porque me traz certo alívio, e porque me lembro das repreensões. Fumo para me sentir completa sem ele, para sufocar o vazio que ele deixou dentro de mim. Hoje me lembrei. Falei um pouco, senti saudades. Hoje pedi perdão pela minha audácia. Perdão a mim mesma. Desculpas pelo precipício. Arrependo-me. O cigarro, já pela metade, ousa me lembrar o quanto sou fraca. O quanto vacilo. Entre as opções, a solidão. A vontade do outro inacabado e imperfeito. Ansiedade. As unhas vermelhas a combinar com os saltos. Altos. A esperança e a realização. O sorriso, enfim. O cinzeiro... Nada como duvidar de si mesmo...

sábado, 4 de julho de 2009

Caminhada

Com um sorriso nos olhos, despediu-se de toda dor e partiu. Não parecia triste. Não era de remoer recordações. Mas no fundo da alma, lhe pesava uma mágoa de se sentir ingrata; dessas que cismam em nos agarram em momentos inoportunos. Tinha feito o que podia, tinha certeza. Mas não tinha feito tudo. E era isso que lhe doía. O fardo de não ter feito o impossível. Sabia que sua caminhada seria longa. Ela estava apenas dando os primeiro passos. Mas quando se despediu da dor, com aquele sorriso nos olhos, teve a certeza que deixara muita coisa para trás. Os dias corriam ligeiros. Por vezes, ela mesma se perdia em sua existência, mergulhada em questões cotidianas de baixo valor sentimental. Toda aquela rotina lhe consumia. Dia após dia, fazendo as mesmas coisas, brincando os mesmos jogos. Por dentro, levava a esperança de um amor qualquer, perdido, que cismava em se agarrar em qualquer figura masculina que lhe parecesse razoável. Andava com um certo tipo de carência. Não sexual. Afetiva. Mas sabia que também isso era parte do percurso. A cada trecho que vencia da estrada, tinha mais e mais certeza de seu destino. E, com mãos e peitos, cortava certeira as intempéries do acaso. Divertia-se sofrida. Não era dada aos prazeres corriqueiros da malandragem. Sabia muito bem sua função e administrava sua culpa com mãos de ferro. Deixava-se, por vezes, se perder em seus pensamentos. Gostava de se escutar. Pouco a pouco, com cuidado, conhecia sedenta os territórios mais longínquos de seu próprio ser. Visitava com freqüência os becos de seu submundo. Neste momento, estava sozinha. Por motivos diversos, é fato. Mas nenhum motivo era maior do que sua própria vontade. Porque quando sentiu que já não produzia mais, foi embora. Não sem saudades, mas com um sorriso nos olhos. No rosto. E à medida que caminhava, conhecia, certeira, todas as possibilidades de seu futuro-presente. Confrontava-se com as possibilidades de escolha e se amedrontava delas. Sabia que, em algum momento, deveria deixar algo para trás. Era certo. Mas nunca soube muito bem ponderar os prós e os contras de seu viver. No momento em que se despediu de toda dor (e partiu sem olhar para trás) estava feliz. Sabia que estava escrevendo, a bico de pena, sua própria história. E por isso caminhava lenta, como a tinta que vai, aos poucos, borrando o papel de significados. Caminhava com o peso do dia, e com a leveza da alma. Estava em paz. O caminho ainda era longo. Os dias do porvir seriam intermináveis. Mas a jornada se faz pelo caminho e não pela chegada. Então ela caminhava lenta. Olhando calmamente as flores da encosta. Sorrindo das pequenas sutilezas, e das grandes ironias. Ela estava em paz. Sonhando com o que já foi, e com o que ainda haveria de ser.