Antes de qualquer coisa queria me desculpar. Pela demora na atualização do blog, pela repetição dos assuntos, pela ausência. A ausência é uma falta sempre ambígua. Estive distante esses dias justamente porque estava mais perto. Dos que importam, dos que me fazem falta, dos que me fazem parte. A proximidade é a melhor manifestação de amor. Por isso escrevo: para me sentir mais próxima. E, embora distante, é claro o estreitamento de relações com os que amo. É simples. E puro. Já falei sobre o redimensionamento das importâncias no exílio. Aprendemos a dar a cada coisa, o seu devido valor. É por isso que peço desculpas. Por estar longe. E por estar cada vez mais perto. Cada vez mais dentro. Junto.
Estou um pouco sem assunto hoje. Acho que desaprendi a arte da escrita. Não que eu a domine normalmente. Mas hoje, particularmente, não sei o que dizer. Estou com uma sensação estranha de completude. Não tenho queixas, no momento. Impossível? Inacreditável? Acho que a minha escrita não passa de uma forma de reclamar em prosa. E hoje não tenho queixas. Tenho uma boa vida, não tenho do que reclamar. Amigos emocionantes, pais inexplicáveis, amores instáveis. Tudo exatamente como deveria ser. Utópico. Etílico. Refrescante como aquele chopp no fim da noite. No fim da vida. Tem uma hora em que tudo acaba, precisamos admitir. E minha vida mansa termina agora: hora de pegar no batente. Hora de agarrar o mundo pelas orelhas, e deixar que ele me puxe pelos cabelos. Com um sussurro no ouvido. Aquelas palavras que a gente não ouve direito, mas sabe o que significam. Tudo muito bem educado, do jeito que eu gosto. Resolvi acabar com a violência. Agora adoto a polidez. Tem surtido efeito, e eu tenho achado graça. Tenho sorrido mais, repararam? É ironia. Estou rindo de vocês. E para vocês. Estou rindo por nós.
Alguma coisa não está fazendo sentido, eu sei. Mas o sentido é dado por quem lê, e não por quem escreve. Por isso não me culpo, saiba você re-significar. Mas não ache que as palavras são minhas! As palavras estão na tela, e são de quem as pegar primeiro. São dos olhos que se perdem no fundo preto, ou se acham no fundo branco. São de quem imprime e de quem exprime. Eu, por hora, digo, digo e não falo nada. Cada um entende o que quiser. Como um cigarro tragado por quem parou de fumar. Ou um suspiro cansado de quem acabou de dormir. São apenas intuições, não se enganem. Nada é tão verdadeiro. Eu sou só um projeto. Estranho, errado, inacabado. Apenas um prédio prestes a desmoronar, ou um vulcão estéril, em plena ebulição. Eu sou o que eu finjo e o que eu invento. O que eu nego e acredito. Apenas uma fraude desmascarada nas manchetes dos jornais. Eu sou o que ninguém quer, e o que todo mundo deseja. E você? É o quê?
Pensamentos, frases, estórias e mentiras criadas a partir de fatos corriqueiros. Uma livre distorção da realidade.
terça-feira, 30 de setembro de 2008
sexta-feira, 12 de setembro de 2008
Porque ele pediu
Tinha pedido um texto, ele. Um texto em sua homenagem, que ficasse gravado nesse universo intangível, e que ele pudesse chamar de seu. Infelizmente, ele não sabia que as palavras não possuem rédeas, e que moldá-las não é exatamente o meu trabalho. Mas decidi agradá-lo, semeando letras em um fundo branco, que só acaba quando não há mais delas no meu pensamento. Tivesse pedido outra coisa, outra qualquer que eu pudesse confeccionar, com certeza eu o teria feito com prazer e dedicação. Mas ele havia pedido palavras e eu, infelizmente, ainda não sabia controlá-las. Dói, tentar colocá-las a minha disposição. Ele não sabia que quando paro para escrever, são elas as donas dos dedos. Da mente. Mas mesmo assim, e talvez exatamente por isso, sentei-me à frente do computador com o afinco do sertanejo, que semeia sorrindo o mais árido pedaço de chão. Por tudo que vivemos juntos, algumas linhas de sofrimento seriam sempre pouco. Mas mesmo assim, ainda não sei o que escrever. O que sei é que aqueles olhos azuis estão, agora, cravados em mim como dois diamantes, a me perseguir e cobrar algo belo e delicado. Porque ele tem uma doçura contida, mesclada àquela loucura implacável, que às vezes o derruba pelas madrugadas sem fim. Porque, por vezes, aquela doçura me acalmou, e aquela loucura me levou a lugares que jamais pensaria pisar. Porque os anos passaram, e apesar dos altos e baixos, continuamos juntos, ligados, inteiros. O que aqueles olhos azuis me cobram, não são as palavras que deixei de dizer pela distância, e sim os sorrisos que economizamos neste tempo. Porque praqueles olhos azuis, os dentes brancos foram sempre uma preocupação. Apesar do cigarro. Lembro-me de cada detalhe, meu loirinho castanho. Do camelo em cima da mesa, da fumaça entrando na boca, das lagoas se esvaziando ligeiras. Lagoinhas. Como tenho saudades das mesas de plástico, você não poderia imaginar. Aqui o que há é chopp, ralo como o sangue de barata dos moradores, todos escondidos em suas tocas. Daquela beleza que imaginávamos, só o que resta são as almôndegas, recheadas de silicone e vazio. O que a gente admira aqui é a casca. Recheio eu ainda não encontrei. É por isso que quando volto, quero as mesmas madrugadas, os mesmos infernos, as mesmas baianas. Porque é aí que eu gosto de me engordar. O mundo aqui, meu pequeno, é apenas salada: colorida e insossa. Mas não desanime! Talvez o que me falte sejam apenas as companhias. Talvez se você estivesse aqui, e armássemos a velha lona, talvez a cidade se tornasse de fato maravilhosa. Talvez. Mas é absurdo viver com o medo apontado para a cabeça, e com a bunda como cartão de visitas. O que eu queria agora, se pudesse, era ter as oportunidades que tenho aqui, estando aí, no meio do umbigo das montanhas. No centro do canto dos passarinhos. Se você me perguntasse o que essas terras possuem de mais marcante, eu responderia, sem pestanejar: a maresia e a fumaça de óleo diesel. E, é claro, as buzinas incessantes, que abrem o meu sono quando o cruzamento se fecha. E escrevo essas coisas não porque quero, mas porque, como já disse, as palavras tomam conta de mim. Obviamente, preferiria escrever um texto sobre você, e não para você, como parece que este está se saindo. Se pudesse, contaria a todos que não sei desde quando você faz parte da minha vida, porque tenho a impressão de que você sempre esteve nela. Contaria como mudamos nesses anos, e falaria, obviamente, do sapato de bico quadrado e dos casacos de couro. Não para te provocar, de maneira alguma. Contaria essas coisas para que soubessem que o que somos hoje, depende diretamente do que fomos ontem. Contaria também das minhas tranças, do forró, tilêlêlê. Falaria destas coisas porque são elas que nos fazem farinha desse mesmo saco furado em que nos encontramos hoje. Pudesse eu escolher o que vou dizer, contaria das viagens, daquela casa mal assombrada, dos banhos pelados no mar. Detalharia fielmente aquele quarto, e aquelas varandas, que nos acompanham até hoje. Mas não posso, meu querido. Não sou eu que decido o que os meus dedos vão contar. É por isso que o texto sai meio fraco, capenga. Porque ele tira de dentro, coisas que eu não costumo deixar sair. É por isso que reclamo muito – mas com uma certa poesia, porque as reclamações são vaidosas. Quisera eu sorrir pra você e, de olhar esses olhos azuis, me esquecer de todo o resto e me lembrar apenas do que realmente importa; das noites mal dormidas que passamos juntos, e das ressacas de cigarro que encaramos no dia seguinte. Se não me engano, nos conhecemos desde a época que eu fumava marlborão. Ou Benson & Redges, para ser mais exata. Benga. Nos conhecemos desde antes daquele fatídico telefonema, em que você dizia “tenho uma novidade pra te contar!”. A novidade era notícia velha, nem naquela época venderia jornal. Mas nós, meu querido, nós ainda somos manchete; com nossas inquietações e problemáticas; com a nossa leveza e a nossa ternura. E com essa amizade que, mesmo de longe, me faz sorrir com os olhos; mantém a minha consciência leve; e me faz pensar que é por causa das pessoas que essa vida vale a pena. Não de qualquer pessoa. Mas de pessoas como você, meu loirinho lindo. Pessoas de verdade: que se rasgam de dúvidas e se emocionam com bobagens. Pessoas como nós que, apesar de tudo, ainda brincam de fazer arte...
Porque ele pediu, eu escrevi esse texto.
Porque ele pediu, eu escrevi esse texto.
terça-feira, 9 de setembro de 2008
De longe
De tudo, o que mais lhe doía era a solidão. Uma sensação estranha de estar perto e longe ao mesmo tempo. Sinestesias. Impressionava-se com a solidão das pessoas, e se irritava com a aproximação delas. Como dissera um amigo, ela fazia questão de mostrar a todos que não queria conhecer pessoas novas. Mas elas insistiam. Ah, como insistiam! Desculpe-me, mas não vou ao cinema com você. Não vou ao teatro, nem a um café, não vou a parte alguma – tinha vontade de dizer-lhes em inúmeros momentos. Mas era polida, a atriz. Era reclamona, por vezes até ríspida; mas nunca chegava a ser mal educada. Pelo menos não tanto quanto gostaria. Algumas pessoas, em particular, lhe tiravam a paciência. Não tinha tempo para as carências alheias, e nem queria perder seu tempo com aqueles que lhe pareciam desinteressantes. Como as pessoas por lá eram desinteressantes! Cheias de cabelos modernos, roupas descoladas, e nenhum conteúdo. Era isso. O que lhe incomodava sobremaneira era a falta de conteúdo. Quando as conversas não eram recheadas de abobrinhas, eram baseadas num silêncio incômodo. Silêncios de quem não tem nada a dizer. A convivência com esse tipo de pessoa era obrigatória – contingências do ofício. Mas a cada nova frase, sua paciência ia escorrendo pelas orelhas. Tinha uma saudade arrebatadora dos queridos amigos. Dos de verdade, dos emocionantes. Eram poucos esses. Poucos, necessários, e mais do que suficientes. Sentia falta do tempo em que se reuniam todos, naquela pequena sala escura; na varanda com balinhas de vidro. Era nestes momentos que se sentia mais em casa. Ao lado dos seus – dos que escolhera para si. E agora, perdida num labirinto de prédios, se questionava sobre a necessidade da distância. Em momento algum cogitava a volta. Mas como tinha necessidade daquelas pessoas! Ah, como era cruel a saudade! Mas aprendera a viver sem eles, e desfrutava de uma agradável companhia nova: a sua própria companhia. Sabia mais de si do que outrora. Conhecia suas instabilidades e suas perversões. Suas alegrias e rebeldias. Sentia falta também daquele toquinho de gente. Nem aprendera a falar, ainda, mas assustava-lhe a possibilidade de ele não se lembrar de seu nome. A infância perdida é um roubo cruel, de impossível devolução. Quantos passos perdia, quantas palavras, quantas novas descobertas? Sentia saudades também da prima. Como será que ia a barriga, a cabeça, os enjôos? Estava perto, mesmo de longe, mas sabia que a distância lhe furtava a companhia. Os desabafos. Tinha vontade de fazer parte de um passado que agora já não lhe pertencia. Mas não queria abandonar o presente. Em momento algum pensava em abandoná-lo. E ia divertindo-se, aos poucos, com sorrisos inventados, lágrimas forçadas, problemas adquiridos. Era atriz, afinal. Estava acostumada a falsear emoções. A mais comum era o amor. Inventava inícios de paixões como ninguém. Vivia delas por um tempo escasso, e depois se esquecia. Não sabia inventar um fim: nunca o soube. Desfechos eram complicados para ela. Ela, que sempre soube começar; que vivia intensamente; que gostava de surpreender. Ela gostava era do desenvolvimento, do desenrolar, do enquanto. Nunca soube muito bem identificar quando as coisas chegavam ao fim. O fim, para ela, sempre era parte do processo, algo perdido entre o início e o recomeço. Gostava das transformações, a atriz. De amor para amigo, de amigo para parente, de parente para colega, de colega para desconhecido. E ela girando, no centro da roda do mundo. Girando em torno de si mesma, como uma louca regenerada. Da família, sentia uma falta pouca, porque nunca havia conseguido desgrudar-se dela de fato. A família era o que tinha em si e que não fora inventado. Velhos preceitos ultrapassados, velhas intermináveis discussões, velhas comidas de domingo. Será que eles percebiam que ela havia mudado? Será que ela percebia a mudança deles? Do pai, sentia uma falta doída, de quem queria aproveitar mais um tempo que nunca teve. Da mãe, sentia o peso da dor nas costas, e a boca seca de tanto falar. Como sentia falta das conversas. Estavam envelhecendo, os pais. Percebia isso porque estavam cada vez mais lúcidos. Cada vez tentando acertar mais um pouco, ao invés de insistirem no caminho errado de sempre. Estavam precisando de um neto, os pais. Mas ela não lhes daria isso agora: presente guardado na caixa por mais alguns anos. A família já começara a se renovar. Aos poucos, chegaria sua hora. Pensando em todos, assim, calmamente, percebia o quanto era boa a distância. O quanto a falta esclarece a presença, e valoriza o momento. Estava cheia de saudades, a atriz. Mais uma vez, só lhe faltava seis dias para o reencontro. Mas os dias escorriam lentos, como baba de criança nova. Como a lágrima, que se diverte ao tocar o rosto. E como essa chuva fina que, por aqui, não pára de cair.
quarta-feira, 3 de setembro de 2008
A doença do menino novo
Sumia e aparecia na janela. Ele era dado a esse tipo de coisa. Gostava de se esconder e se mostrar. Tinha um quê de feminino, seus pensamentos. Não sabia lidar direito com as questões que brotavam em si. Antes da doença, era forte. Mas agora, era apenas um pedaço de carne: esqueleto. Tinha saudade dos seus cabelos. Brilhantes, sedosos. Antes, aqueles negros cabelos traziam à tona o brilho de sua mente. Não os possuía mais: nem os cabelos, nem a genialidade. Com a quimioterapia, sua força vital tinha ido embora. Aos poucos. No princípio, pensara que seria fácil. Apenas mais uma fase, mais uma pedra. Mas a rocha agora parecia intransponível, e ele já não encontrava forças para a escalada. Dia após dia, pensava como tudo seria diferente, se não tivesse cultivado, dentro de si, aquele estranho hóspede. A tristeza se apossava dele, transformando-o em um pequeno caco. Um pedaço podre do que já fora. Tentava não sofrer, mas a possibilidade da morte sugava todas as suas energias. Tão jovem ainda... Sentia pena de si mesmo: a autopiedade era sua melhor companhia. Afastou-se, propositadamente, dos amigos. Não queria se lembrar de como era completo na presença deles. De tudo, o que mais lhe doía era a sensação de ser apenas um pedaço do que havia sido. As dores físicas já não lhe incomodavam mais. Eram apenas mais um aspecto com o qual conviver. Não entendia muito bem as expressões dos médicos. Curado – dissera um. Terminal – garantira outro. Lutava com sua consciência, tentando encontrar a saída mais próxima. Não se incomodava com a partida: de qualquer forma, teria que partir. Mas se desesperava ao pensar quantos projetos inacabados deixava sobre essa terra. Quantos amores não vividos, quantos sorrisos economizados. Chorava, de vez em quando, num misto de raiva e alívio. Queria ter tido um filho. Queria ter sido estória em alguma mesa de bar. O seria, sem a menor dúvida – mas isso ele não conseguia enxergar com os olhos cegos pelas lágrimas. Tinha raiva de seus pais. Uma raiva inexplicável, cheia de indefinido amor. Não era justo que eles o vissem morrer. A vida não fora programada desta forma. Pensava na dor da mãe em seu enterro. No choro calado do pai. Sua partida significava a violação total de sua família. Devastados. Era como iam ficar. A completude com um buraco. A dor infinita. Sua morte tiraria belos anos na vida de seus pais. Tudo matematicamente programado pela lógica absurda do universo. Tanta gente ruim... E ele, sinônimo de bondade e perseverança, a apenas alguns instantes de se tornar areia. Não tinha medo da morte. A morte é o que vem depois – se é que o há. Mas apavorava-se com a possibilidade de morrer. Morrer é ainda em vida. Pode ser sofrido, pode haver dor. O momento exato da morte é a beira de um abismo. Limiar entre o desconhecido, e o que se pensa conhecer. Tudo isso ele pensava em momentos de extrema excitação, quando se dava ao luxo de desfrutar da solidão. Desde que adoecera, desconhecia a privacidade: sempre cercado de carinhosos intrusos. Era humilhante ter de ser amparado ao tomar banho – ele, ainda tão jovem. Os exames já não acusavam o hospedeiro: tinha sido bombardeado pelos processos medicinais mais abrasivos. Mas consigo, tinha levado a capacidade do garoto, fraco, se regenerar. Agora era tudo ou nada: a dois passos da morte, com um fio de vida. A dubiedade de sua situação abalava sua confiança. “Só depende de você”, ouvia como consolo dos entes mais queridos. Mal sabiam eles que era isso que mais o desesperava. Ele sabia que podia conseguir, mas não sabia como. Não era como uma tarefa, com regras bem definidas. Ele não sabia como controlar os mecanismos de seu corpo. Havia sempre os fios vermelho e verde: qualquer corte errado causaria uma explosão. Pensava, em calmaria, sobre o que vem depois do fim. É perto da morte que a fé brota. Acreditava em outros níveis de consciência e percepção. Mas não acreditava em deus, esse ser onipotente. Naquele exato momento, ele era seu próprio deus. Tinha que fazer a vida brotar da aridez de seu corpo. Mas estava cansado, precisava repousar. Não gostava de dormir. Nunca sabia se, após algumas horas, ia lhe ser possível acordar. Dormir é uma forma de morrer aos poucos...
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