Pensamentos, frases, estórias e mentiras criadas a partir de fatos corriqueiros. Uma livre distorção da realidade.
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
Órfã do Carnaval
Havia-se acostumado a dormir pouco e comer mal. Em seu corpo, ainda esguio, os reflexos da vida desregrada e do farto e irresponsável consumo de álcool já começavam a deixar as primeiras seqüelas. Era nova, ainda. De uma velhice doentia. Era viciada em remédios para morrer e olhos para sonhar. Não vivia sem uma ilusão. Por isso, quando os dias acordavam contentes, e os tambores marcavam o compasso de seu coração; saía à rua com uma agradável sensação de tempo perdido e de escolhas mal feitas. Era carnaval, enfim. E durante aqueles dias, todo o seu caos cotidiano parecia nada menos que uma caretice corriqueira. No meio de toda aquela efusividade sexual, da falta de regras e sentido, ela parecia ser a única a não querer tirar férias de si. Enquanto a multidão sambava sua embriaguez de fuga, ela, perdida entre os tamborins, bailava a sua sobriedade sensual. Nada além de cigarros e a conta. Por trás dos longos cabelos negros, observava a patética coreografia social: intelectuais e mendigos divertindo-se ao som da mesma levada, fingindo, por um instante, fazer parte do mesmo mundo. Era bonito o carnaval. Suores e salivas se misturando àquele cheiro de cerveja velha que insistia em se acumular nas sarjetas daquela avenida. Corpos desconhecidos se encontrando febris em uma impessoalidade quase absurda. Ali, tudo era permitido. Naquela multidão de desconhecidos em potencial. Naquela animada confraternização em nome de coisa nenhuma. Era apenas uma licença oficial para se esquecer de si e dos padrões morais: nenhuma pessoa em sã consciência agüentaria mais de um ano em estreita sobriedade. Por isso, quando os tamborins começaram a festejar na esquina, ela sentiu-se, enfim, livre para se recolher. Enquanto todos se perdiam em suas insanidades carnavalescas, ela, com seu cigarro, recolhia-se à sua já notada insignificância cultural e observava os sorrisos sem valor. Não criticava o carnaval. Era ela sua principal foliã – apesar da distância. Comia, satisfeita, todo e qualquer pedaço interessante de carne que lhe passasse sob a vista, e guardava – em suas gavetas da alma – fotografias coloridas desta folia degradante. Era uma entusiasta e uma mártir da quarta-feira de cinzas. Sofria na festividade pagã todas as chagas culturais que, durante o ano, afogava em pequenos copos sujos. Por isso, quando o último apito soou, e todos os tamborins se calaram, teve uma extrema saudade de si. Daquela que acabava agora para voltar em outro carnaval. Apagando o cigarro, sorveu o último trago de felicidade e se entregou ao cansaço. Era, de novo, mais uma reles colombina sem bloco. Mais uma órfã do carnaval.
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