Pensamentos, frases, estórias e mentiras criadas a partir de fatos corriqueiros. Uma livre distorção da realidade.
sábado, 24 de abril de 2010
Dúvida
E descobriu-se num mundo de pessoas interessantes, e, num mundo de pessoas interessantes, não havia para onde correr. Lembrou-se da reserva de mercado e do tempo que havia passado em standby, e decidiu que era melhor decidir-se. Sabia que havia tempo demais e tempo de menos e teve medo das perdas e das necessidades. Era ela enfim. E eram eles depois de longos tempos e de muita espera. Sabia ela que, no fim, acabaria por ser mais fácil que o esperado, mas sabia que a escolha seria difícil. Sentia saudades dos abraços e dos braços e da boca, e ao mesmo tempo temia ser precipitada. O tempo passava rápido e ela, sem pressa, corria pelas horas a saborear as novas possibilidades do presente. Resolveu não prendê-lo ao seu véu, e ficou feliz ao ver-lhe enroscado em outros braços. Era por fim livre de si, e isso lhe causou tal vazio que quase duvidou de sua lucidez. Tinha feito a coisa certa. E agora aquelas barbas lhe vagavam o pensamento como sombras obscuras a nublar-lhe as idéias. Ambos a esfumaçarem-se nas nuvens do tempo. Ambos a mexerem-lhe as entranhas como parasitas isolados e seguros. Ah, os homens. Como simplesmente ignorá-los? Como passar imune a eles? Como não magoá-los e amá-los e duvidá-los e senti-los? Como ser sem eles e como escolher entre tantos? No mundo das pessoas interessantes, sorrisos são possibilidades. Barbas são oásis e covinhas ilusões. Mas no mundo das pessoas interessantes, tudo se mistura em total sintonia, fazendo com que as inquietações pareçam banais e sutis inseguranças. Mas o tempo passa. Os cabelos diminuem e os sorrisos desaparecem. Além de tudo, ainda ele. Deprimido e frágil como o mais mortal dos homens, a sofrer sua perda em silêncio, com um insinuante sorriso nos olhos. Nos meus, dúvidas e aflições. Peço aos castanhos que me salvem. Aos verdes, aos azuis e aos negros. Estou perdida em indagações e questões objetivas. Sinto-me uma escrota, embora nunca tenha dito que prestava. Não quero enganar. Mas quero olhar nos olhos e ver mais que historias escritas. Quero versos impressos e impressões inapagáveis. Quero sentimentos e não verbos. Quero olhos. E por isso me questiono entre o duvidoso e o legitimamente duvidoso. Entre o risco e o quase risco. Tenho visto o despenhadeiro, mais ainda não sei como saltar. Quero a segurança de um lugar e a incerteza de um sorriso sincero. Quero. A barba, os cabelos, e principalmente a cama. Em corpos e em pensamentos. E na fuga que eu finjo esquecer entre as taças de vinho. E cerveja. E mais.
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3 comentários:
Gostei muito dos seus textos!
Sou amiga do Chico (seu irmão) e entrei no seu blog pelo blog dele pois achei o nome interessante. Adorei! Um Chico em versão feminina com um toque de Lispector.
Abraços,
Carol
Olá!
Não nos conhecemos mas estou muito entusiasmado lendo o seu Blog.
Parabéns, seus textos transparecerem muita sensibilidade e tem um estilo que torna tão agradável a leitura!
Desejo-lhe ainda mais criatividade para que continue a produzi-los.
Um grande abraço.
Oba!!! Adoro novos leitores! Vocês não imaginam o quanto ler estes recados me realiza. Meus textos são tão pessoais, e tão intimos, e tão à toa, que me deixa espantada saber que causam identificação em alguém. E que tenha poesia, e sensibilidade, e que cause um sorriso.
Sinal que tudo é muito mais que isto.
Sejam muito bem vindos!
Um beijo!
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