Pensamentos, frases, estórias e mentiras criadas a partir de fatos corriqueiros. Uma livre distorção da realidade.
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
Estranhidades
Então uma onda de comoção imensa invade a casa, deixando os móveis molhados de lágrimas e angústias. Era algo tão normal quanto a respiração, e o gotejamento dos olhos parecia um vazamento incessante; mina de água a brotar de pedra. O coração aos solavancos, desesperado dentro do peito e, por um instante, parecia que todo o mundo parava estupefato ao odor daquela maresia. Absolutamente nada demais. Apenas um sentimento estranho, um formigamento na boca do estômago, um sorriso faceiro no canto dos lábios. Coisas corriqueiras e cotidianas que, juntas, pareciam forjar uma amálgama nova de sentimentos inusitados. O peito brincando com a boca. E ao surpreender-se assim, bagunçada em seu descompasso de mulher, é que ela deu-se conta dos desvios da vida ao longo dos segundos. Os olhos germinando sorrisos escuros e vagos. Sentindo-se assim, tão completamente confusa, observou as terminações nervosas ligando-se de quando em quando, oferecendo informações desconexas e até mesmo paradoxais. A roda do mundo em seu arranjo: vez em cima, vez embaixo. Carrinhos balançando ao vento, ao sabor da tempestade que insistia em se aproximar no horizonte. A saliva misturando-se ao álcool, o gelo sensibilizando os dentes. E por manter-se assim, quase que paralisada durante esta crise de angústias vãs, percebeu-se completamente livre para traçar seus rabiscos no destino. Era, enfim, dona de si própria, capaz de mudar o rumo da estória e de colocar “h” quando lhe aprouvesse. A mentira era apenas uma verdade que se esquecera de acontecer. A verdade, apenas uma das muitas versões. E quem lhe visse ali, tão absurdamente compenetrada em seu universo interno, poderia pensar que algo de mal lhe afligia, que qualquer peso do passado cismava em lhe assentar nos ombros, que um gosto amargo qualquer lhe tocava o paladar. Bobagens, garanto. Naquele momento, com os olhos fixos em um infinito qualquer e uma tonteira branda de quem se sabe equilibrada, ela apenas fazia questão de observar-se por completo. Inteira como era. Perdida como estava.
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