segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Da incerteza do acaso

E enquanto a água gelada lhe escorria pela face – ainda suada – arrependeu-se por um momento de não tê-lo feito antes. Preservara-se por pura falta de vergonha, quisera fazer-se de vítima. Mas agora, com os seios ainda dormentes e o pensamento ainda vazio, teve a certeza de que não adiaria mais nenhum minuto. E enquanto a água lhe escorria pela face, como lágrimas incontroláveis, lembrou que ele ainda estava na cama, inerte, embriagado pelo seu aroma e seu sabor. Em seus lábios, também o gosto dele se misturava a palavras sem sentido, que ela dizia sem querer, como se nascessem do instante. Sentiu na pele um arrepio fugidio e, no estômago, por fim, borboletas. Aqueles olhos azuis não lhe saiam do pensamento, penetrando, sutis, no seu mais oculto segredo. Estava enfim juntos, depois de tantos quem-sabe e de quantos talvez. Por um instante, deixou-se pender ao peso da água, e agradeceu pelo encontro promovido pelo acaso. Coincidências não existiam, sabia. Por isso, quando ousou desligar o chuveiro e deitou-se novamente a seu lado, sabia que não havia mais volta. Acabara de entrar em um labirinto sem fim, que consumiria ainda alguns anos de sua existência. E sorrindo suas covinhas rasas, penetrou também naquele oceano e lhe disse, com os olhos, coisas que os lábios não ousariam dizer. Foi um segundo mágico: um encontro de almas e lábios. E olhando para ele assim, tão alvo e tão novo, teve medo do que poderia fazer com o futuro daquele garoto. Era um garoto, enfim. Ela, uma mulher. Segura e decidida como as mulheres às vezes o são. E embaixo daquele ventilador pulsante, na meia luz do quarto ainda em sombras, sentiu-se infantil e desprotegida diante do garoto. Com seus olhos azuis e seus cachos dourados. Abraçou-lhe por um instante, e o enroscar de pernas provou sua certeza: entrara em um labirinto sem fim. Fechou os olhos por um momento, aproveitando a sensação de fragilidade que lhe invadira. E, quando afinal os decidiu abrir, viu que o menino vertera uma lágrima. Gorda e delicada como as suas próprias. Pensou em dizer palavra, mas ele tampou sua boca com os lábios em um beijo de cumplicidade e amor. Mas amor assim tão rápido? – duvidou. Mas ele lhe sorriu com a certeza dos homens maduros. Sorriu-lhe com sua graça de garoto, e com os olhos marejados de dúvidas sinceras. Então teve certeza de que aquilo não era nada; absolutamente nada além de um encontro inusitado. De uma decisão premeditada. De um artifício bobo e fascinante promovido pelo acaso. E teve certeza de ter estabelecido um início; um início bonito e tardio de algo que, algum dia, teria fim.

domingo, 22 de novembro de 2009

Quanto a mim

Tenho falado pouco de mim. Tenho escrito nessas linhas detalhes sutis da vida dos outros (que não existem). Fantasio, fofoco, recrio. Mas tenho falado pouco de mim. A verdade é que estou gorda e um pouco cansada talvez. Tenho vivido vidas opostas; sonhos alheios, realidades irreais. E pensado pouco em mim mesma. Ando triste na medida. Sozinha e solitária como quase sempre. É que gosto muito da minha companhia, dos meus pensamentos. E, desta vez, estou de fato me acompanhando. Parei de usar estórias antigas e fugazes para me distrair. Tenho um foco claro e brilhante (que teima em percorrer as escadarias da ilusão). Ladeira acima, coloco um pé por vez. O alto do morro está lá, a uma distância intangível – graças a deus. Tenho sido mais complacente e compreensiva. E estou calma com relação ao futuro. Todo dia um dia novo; todos os dias uma nova descoberta. Conheci coisas belas e sujas. Coisas podres de pessoas laqueadas, faces ocultas de sorrisos sinceros. Ando em minha própria companhia. Às vezes, flagro olhares furtivos e aflitos que buscam uma compreensão profunda qualquer. No fundo, estamos todos presos em nossos castelos; subindo os altos muros para nos escondermos das (nas) sombras. Acho bonita a idéia disso tudo. Utópica. Mas vejo cada vez mais gente se perdendo no labirinto, procurando saídas para problemas inexistentes. É tudo uma questão de perspectiva. Do alto, as coisas de baixo parecem pequenas. Mas quem insiste em rastejar tem ótica diferente: mundo de gigantes e fantasmas. Ando no prumo. Com a cabeça ereta e os sentimentos em dia. Acho uma pena não me envolver mais com certas pessoas; arrependo-me de envolvimentos desnecessários. Mas hoje (ou seria ultimamente?) sou sincera comigo mesma. De uma verdade crua e dolorida. Digo coisas que nunca deveriam ser ouvidas. As palavras falam por si só. Mas não perco mais meu tempo com relacionamentos infrutíferos e desgastantes. Preservo-me com armaduras e látex. Mas ainda espero – esperança urubu – olhos que faísquem os meus; peles que me façam ferver. Por ora, ando em calma. Silêncio custoso e real. E as saudades – que foram muitas e intensas – têm se aplacado em vagar, criando a certeza de que o que é não deixará de ser jamais. E o que não é não merece um só pranto. Conto carneiro ao revés. Brinco de lobo mau. E ando ativa: pró e passiva dos acontecimentos do enredo. Deixei-me levar. Por ora (confesso), ando cansada de manusear os títeres. Sou boneco sem rumo, bailando esta valsa louca: composta pelo acaso.

sábado, 21 de novembro de 2009

Branco

Com os dedos já em sangue de tanto tecer, olhou a vestimenta completa e orgulhou-se de si. Havia engenhado o mais perfeito manto. A mais linda prova de fé e sagacidade. Pensou em desistir por um momento, mas vendo o brilho daquele pedaço de tecido – que há pouco não passava de um trapo – teve certeza de sua missão. Nunca mais deixaria de coser. Foi banhar-se, então. Não se sentia digna de tamanha realeza, e por isso banhou-se, lavando o corpo e a alma. Enquanto a água gelada dourava-lhe a pele, desculpou-se por tantos erros e por todas as mentiras. Olhou as falanges – desfiguradas e irreconhecíveis – e não conseguiu ver nenhum sacrifício naquilo. Por um instante, teve certeza de que toda a sua vida só tinha sido necessária para chegar àquele exato momento; àquela deliciosa sensação. Seu corpo inteiro formigava, em uma dormência embriagadora e apavorante. Tinha borboletas no estômago e, enquanto a água gelada lhe escorria pelo rosto, e seus olhos fechados lhe mostravam o breu, soube que a felicidade não passava de um segundo. Infinito e irreal. Teve pena dos que passariam pela vida sem essa sensação. Teve orgulho de fazer parte do que realmente importava. E desligando o chuveiro, com as gotas a abrirem caminho no chão de pedra, enrolou-se no manto sagrado, molhada do banho e das lágrimas. Hesitou em olhar-se no espelho. Não podia ser merecedora de tamanho deslumbre. Mas ousou. Prendendo os cabelos em um nó com suas próprias pontas, deixou mechas escorrendo pela face, e se atreveu a respirar fundo. Sabia que seus lábios estavam vermelhos e inchados. Sentia seus peitos bailando num cancã frenético de francesas de outrora. Pensou em desistir de sua audácia, mas viu-se de relance no espelho comprido, que apresentava o manto por inteiro envolvendo a sua nudez ainda juvenil. Era então uma santa. Alva e rubra, manchada pelo sangue espesso que brotavam das bolhas dos dedos. Era ainda jovem. Mas já sofria na pele as chagas da transformação. Sentia medo, orgulho, desespero. Era apenas mais um passo indeciso e concreto rumo à vida adulta e, quiçá, adúltera. Passou os dedos nos lábios em um gesto sensual que lhe fez questionar sua serenidade. Paralisou-se. Mas era tarde demais. Já estava vestida de branco, borrada com o sangue que lhe escorria pela pele. Na cama, não menos apavorado do que ela, o homem já dava sinais de profundo amor e submissão. Tinha, sem querer, ganhado um jogo perdido. Estava com os dedos doloridos, e os lábios cansados e vermelhos, gritando de dor. Sentia-se plena e envergonhada. E tinha, agora, uma história para contar. Cedendo seu peso ao quente da cama, sentiu aqueles braços fortes a envolver sua magreza. Aquela língua úmida a desejar sua nudez. Teve medo da morte. E, com os olhos fechados e o lábio entre os dentes, pediu, em silêncio, para que o tempo nunca passasse.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Castelo

Com os olhos marejados, respirou fundo e voltou. Não era a primeira vez que o fazia. Mas desta vez suspirou diferente, como quem ainda não sabe o que está por vir. Teve medo, enfim. Mais uma vez foi hostil, falou mal de si mesma, pensou bobagens, sorriu mentiras. E encantou. Como de praxe, encantou. Mas assustou também. E, com sua armadura devidamente colocada a quilômetros de distancia, fez sua barreira mais eficiente do que nunca. Aí se sentiu sozinha no castelo que havia construído para si. E não soube como sair dele. Havia fechado as entradas, barrado as saídas, trancado as janelas. Olhou-se refletida em vidro, e teve medo de sua pavorosa astúcia. Como havia sido tola – pensou. E, aos poucos, de leve mesmo, principiou a afastar as cortinas, deixando entrar pequenos feixes de luz, sorrateiros. Ainda sim, não conseguiu conceber a possibilidade de destrancar a porta. Mas experimentou abrir as janelas, deixando o sol entrar de vez. Foi então que o castelo ficou quente e, sem perceber, a princesa teve vontade de brincar nos jardins, de sentir a brisa leve a lhe balançar os cabelos, e de corar as faces de vergonha e mormaço. Sorriu – como há tempos não o fazia. Deparou-se com um rosa ainda em botão, que a fez pensar, sem querer, em um sorriso distante que por ora parecia mortificado. Mas ainda assim sorriu. Estava de novo entrando em contato com a natureza e com a vida. E foram as borboletas que sobrevoavam o jardim que a fizeram perceber como o seu coração andava em pedra. Amoleceu-o em banho-maria, transformando-o em uma substância pastosa e doce como brigadeiro. E as muralhas do castelo derreteram-se instantaneamente, abrindo os horizontes para as montanhas e o mar. A princesa, nesta hora, cantou. Com os lábios e a alma. E convidou a lua para um passeio noturno. E foi assim que, ao acaso, os olhos da princesa voltaram lentamente a brilhar, e o seu coração voltou a adoçar a vida de sapos e príncipes. Assim. De repente. Porque é de uma decisão que brotam os pequenos amores. De um sorriso no olhar e de uma certa calmaria interna. E de um desassossego moreno, de olhos fundos e coxas grossas. E é assim, inspirada pela estória da princesa, que planto uma semente de cacau – primeira e eterna. Planto para que germine. Rego para que dê frutos. E sorrio, para que saibam que por baixo de uma casca grossa, sempre pode haver uma deliciosa surpresa.