Pensamentos, frases, estórias e mentiras criadas a partir de fatos corriqueiros. Uma livre distorção da realidade.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
Álibi
Acordou então com uma leve fadiga do dia anterior: misto de cerveja e cigarros. E decidiu que apesar do peso na cabeça, o dia seria bom. Saiu por entre os carros balançando o cabelo ao vento e levando, de leve, a brisa fresca no rosto. Ainda não sabia o que seria de si. Mas correu, como correm os cachorros sem motivo algum. E encontrou-se, de repente, com um eu que não conhecia. Um eu cansado e feliz das decisões que tinha enfim tomado. Estava livre outra vez. Com os dias a correrem pelos dedos como gotas de chuva fresca. Foi então que se percebeu dona de si como nunca havia sido. Dona de seu destino e de sua própria vontade. E decidiu que algumas coisas precisavam, enfim, chegar a seus lugares. Não em vagar. Do mesmo modo: de repente. E colocou o mundo para rodar com suas próprias forças. Respirando fundo e mantendo o eixo. E pensou naqueles cabelos molhados e dançantes e teve um medo doentio de eles nunca serem seus. Sonhou mais uma noite um sonho sufocado de respeito e transgressão, e teve vontade de desistir mais uma vez. Como era complexo ser senhora de sua vontade. Como era completo. Sentiu-se sozinha. De uma doçura melancólica a solidão. Os homens interessantes tinham o terrível defeito de estarem sempre casados, e ela já se cansara de ser a outra. Gostara, por um momento. Dos dias de semana agitados e dos sábados tranqüilos. Mas depois sentiu saudades dos edredons e dvd’s, com pés a enroscarem-se debaixo do amor romântico. E decidiu abandonar a paixão fugaz. Saiu de cena, perdeu o jogo. De longe, sofria como uma platéia inóspita, que ainda não sabe bem para quem torcer. E sentia culpa. Uma culpa tremenda por desejar para si o que era de outra – pelo menos momentaneamente. E teve certeza de seu destino. Como sempre e como nunca, soube exatamente aonde chegaria com todo aquele xadrez. Mas no peito, cinzas. Brumas de sentimentos passados a transbordarem por entre a tampa. A completude se esvaindo em palavras e o vazio a consumindo por dentro. Como era difícil ser.
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