Pensamentos, frases, estórias e mentiras criadas a partir de fatos corriqueiros. Uma livre distorção da realidade.
sexta-feira, 30 de abril de 2010
Vazio
E estava tudo tão cheio daquele vazio que pareceu que nunca antes havia ficado completo. E nos ecos do espaço ela encontrava, enfim, a si mesma. Como era bom reencontrar-se! Como tinha se perdido durante um tempo. E passou a despender seu tempo apenas com as coisas necessárias e inúteis. Apenas com as pequenas delicadezas invisíveis que, por muito tempo, tinha se negado a reparar. E sentiu um prazer imenso em escolher entre cada nova coisa, e tudo que tocava parecia enfim cintilar. Como era bom estar de volta. A sua casa. Sua própria casa. O corpo, extensão da alma, ecoando pelas paredes e a fazendo sorrir assim, sem mentira, sem peso, sem pena, sem nada. Apenas por ser. Sorrir. E teve medo de que um dia algo lhe nublasse de novo o foco e lhe barrasse todo e qualquer movimento. Ela gostava das coisas que tinham movimento ascendente. O que é bom puxa para cima. E por isso mesmo deitou-se naquele chão imundo e teve a deliciosa e plena sensação de limpeza e liberdade. Era tudo nascendo de novo. Eram os buracos a serem preenchidos e algumas poucas coisas a precisarem de remendo. E foi com agulha e linha que teceu com os olhos um texto-poesia, que falava das coisas que mexiam dentro de si e adoçavam-lhe as idéias. Sabia que compromissos se entrelaçavam um pouco mais a frente e que o tempo, embora espaçado, estava borrando neles sensações ainda infantis e bobas. Mas calmas. Pela primeira vez, em muito tempo, calmas. Ah, como tudo chegava enfim a seu lugar. Aos poucos. Toque após toque. Não dava pra confiar em qualquer afago. Nem qualquer pedido. Há que se ter discernimento entre as coisas que foram e as que nunca deixarão de ser. Por isso o maremoto assusta; as ondas. Mas a areia vai sempre estar lá, rompendo seu limite-pedra dia a após dia. Até transformar-se em uma coisa que não ela. Até um dia, enfim deixar de ser. Por isso o tempo companheiro, que cura todo e qualquer desamor. Que cuida de amansar o rancor mais intenso e a solidão mais vazia. É que os dias, ultimamente, não amanhecem ensolarados. Mas eu ainda tenho um edredom para me deitar. No silencio do peito, a chuva. Pingando, fria, em minha pele ainda fresca. É que o dia é brisa, e a noite tempestade. Por ora, nem uma onda a me bater. Apenas o vazio completo e absoluto de estar só. E tão imensamente feliz. E tão sordidamente completa. E assustadoramente realizada. E plenamente consciente dos elos da corrente. A entrelaçarem-se todos. Como os dias. Um depois do outro.
sábado, 24 de abril de 2010
Dúvida
E descobriu-se num mundo de pessoas interessantes, e, num mundo de pessoas interessantes, não havia para onde correr. Lembrou-se da reserva de mercado e do tempo que havia passado em standby, e decidiu que era melhor decidir-se. Sabia que havia tempo demais e tempo de menos e teve medo das perdas e das necessidades. Era ela enfim. E eram eles depois de longos tempos e de muita espera. Sabia ela que, no fim, acabaria por ser mais fácil que o esperado, mas sabia que a escolha seria difícil. Sentia saudades dos abraços e dos braços e da boca, e ao mesmo tempo temia ser precipitada. O tempo passava rápido e ela, sem pressa, corria pelas horas a saborear as novas possibilidades do presente. Resolveu não prendê-lo ao seu véu, e ficou feliz ao ver-lhe enroscado em outros braços. Era por fim livre de si, e isso lhe causou tal vazio que quase duvidou de sua lucidez. Tinha feito a coisa certa. E agora aquelas barbas lhe vagavam o pensamento como sombras obscuras a nublar-lhe as idéias. Ambos a esfumaçarem-se nas nuvens do tempo. Ambos a mexerem-lhe as entranhas como parasitas isolados e seguros. Ah, os homens. Como simplesmente ignorá-los? Como passar imune a eles? Como não magoá-los e amá-los e duvidá-los e senti-los? Como ser sem eles e como escolher entre tantos? No mundo das pessoas interessantes, sorrisos são possibilidades. Barbas são oásis e covinhas ilusões. Mas no mundo das pessoas interessantes, tudo se mistura em total sintonia, fazendo com que as inquietações pareçam banais e sutis inseguranças. Mas o tempo passa. Os cabelos diminuem e os sorrisos desaparecem. Além de tudo, ainda ele. Deprimido e frágil como o mais mortal dos homens, a sofrer sua perda em silêncio, com um insinuante sorriso nos olhos. Nos meus, dúvidas e aflições. Peço aos castanhos que me salvem. Aos verdes, aos azuis e aos negros. Estou perdida em indagações e questões objetivas. Sinto-me uma escrota, embora nunca tenha dito que prestava. Não quero enganar. Mas quero olhar nos olhos e ver mais que historias escritas. Quero versos impressos e impressões inapagáveis. Quero sentimentos e não verbos. Quero olhos. E por isso me questiono entre o duvidoso e o legitimamente duvidoso. Entre o risco e o quase risco. Tenho visto o despenhadeiro, mais ainda não sei como saltar. Quero a segurança de um lugar e a incerteza de um sorriso sincero. Quero. A barba, os cabelos, e principalmente a cama. Em corpos e em pensamentos. E na fuga que eu finjo esquecer entre as taças de vinho. E cerveja. E mais.
quinta-feira, 15 de abril de 2010
De Manhã
Se soubesse como fazer, faria diferente. Mas anda difícil. Uso sempre as mesmas variantes, e a equação nunca se torna exata. E quem é que se interessa pela exatidão? Vivo os sentimentos no fio da navalha. Um só movimento e ele tenderá para um lado, ou para outro – se você quiser. Por isso equilibro-me na razão. Porque sei da nossa loucura e já consegui retomar meu prumo. Pelo que vejo, você anda mareado. Pelo que beijo. Pelo que olhos. Pelo que pêlo. E de novo você – ah! de novo não! Você de manhã e essa cara amassada, e esse sorriso inevitável e de novo. Caí pro lado errado, eu sei. Caímos. Mas já que estamos aqui em baixo, no meio do caos sentimental e saudosista, nada melhor do que ir. Pra longe e para nunca mais. Para onde a gente nunca foi, e de onde a gente nunca devia ter saído. Porque no fundo é nada. É só aquele formigamento – que a gente jurou que não voltaria – fazendo essas cosquinhas irresponsáveis. E não me venha olhar assim! Não foi minha culpa! Fui eu quem disse não primeiro. Fui eu que sorri com o canto dos lábios. Mas me não venha olhar assim! Que esse olhar eu conheço de longe, e essas mãos eu conheço de perto. Não me venha. Me tenha. E me desculpe pelas desculpas. A gente sempre soube que terminaria assim. Que começaria assim. Que seria. Jogo da mentira. Eu mudo pra me esconder e você troca para me encontrar. Crueldade, sim. Você tinha um ás na manga, e eu nunca joguei pôquer (in portuguese). I can, I know. Mas chega. Nós desistimos, lembra? Depois do primeiro temporal e das nuvens que se aproximavam. Que pode ser? Eu sei. Mas não será, e pare de me olhar assim, com essa cara de quem vai conseguir me convencer a qualquer momento, porque não vai. E não venha querer olhar o que eu escrevo, porque eu não estou falando de você. Estou falando de mim. Do que me vai na cabeça, e do que eu estou lendo nesses olhos que tentam me decifrar enquanto eu me decifro inteira nessas linhas que você ignora. E não adianta fingir. Você desaprendeu a disfarçar – logo você. Por isso me perdoe o deslize. Hoje a noite apago a luz, e prometo que tranco a porta. Mas por enquanto ainda é dia. Meu rosto deve estar amassado de travesseiro e você está encantador com esses olhos inchados. Eu tinha saudade dos olhos inchados. Agora tire essa interrogação da cabeça, e pare de me olhar assim. Eu também não sei porque tenho este sorriso nos lábios. Estou achando graça. E só. E eu também não vou te explicar o que aconteceu. Você estava bem aqui. Por isso pare de me olhar com esses olhos, que eu prometo que tiro esse sorriso do rosto!
sábado, 10 de abril de 2010
Silêncio!
Impressiono-me com a calma que o tempo me conferiu. Hoje, no olho do redemunho (ah, Riobaldo!), o que vi foi paz. No agito de olhos fervorosos e completamente sem razão, vi a natureza humana de frente, em seus piores instintos. Mas não tive raiva. Tive pena. A arrogância às vezes me diverte. Claro que um mal estar momentâneo foi inevitável, mas qual o quê! Hoje não houve casca que tirasse meu humor. Tenho aquela covinha deseducada no meio da face, mostrando-se safadamente para problemas de todas as espécies. Nada como o correr dos dias. Lentos e macios, mostrando deliciosamente os percalços e as delícias. Não há nada que não chegue a seu devido lugar. E o que é a vida afinal? Apenas a sucessão de minutos insólitos, que nos passam em cada situação de forma diferente. Assustei-me hoje com a necessidade de auto-afirmação alheia. “Eu” mando, “eu” decido, “eu” é que sei. Aquele velho papo. Um dedo apontado para mim, outros três para você. Um perdido no infinito. Ridículo e irrisório. Ah, a arrogância. Material de trabalho inesgotável. Dava pra escrever cenas e cenas, mas minha imaginação para situações tem andado bem reduzida. Ando brincando com os quebra-cabeças na própria realidade. Tudo não passa de um jogo de tabuleiros. O fim será igual, lamento. Por isso aproveito o caminho. Com a covinha macia sempre em funcionamento. Nasci com a marca da ironia. Mas nunca disse que prestava. E, de fato, só presto às vezes – principalmente quando não é necessário. Ah, os ais! Lamentos desnecessários e tediosos. Sempre acho que a pessoa que grita mais alto é a que tem menos razão. Só costumo gritar quando estou errada, acuada, ofendida. Quando tenho razão sou clara. Quando quero me fazer entender, quando preciso convencer, recorro à retórica. Nunca é à toa. E eu rio, desculpa. Das coisas boas, das ruins, e principalmente dos berros. Não grite nos meus ouvidos, sou surda para você. A não ser que você me olhe. Ou peça. Desculpo, claro. Mas não grite. Não nos meus ouvidos. Tenho tímpanos de pandeiros e vibrações virarão samba. Do mais divertido. Do mais dançante. Porque no fim de tudo, o que há é festa. Por isso não grite! Eu ainda estou lhe devolvendo um sorriso. E, qual criança birrenta, as atenções estão se voltando. Para você. Não do jeito que você queria. Você é o centro das atenções. E não é só minha covinha que trabalha. Acho que todos estão ficando surdos!
terça-feira, 6 de abril de 2010
Dois
Se ele me pedisse um beijo, hoje, não sei exatamente o que faria. Não é porque ele me abalou toda e qualquer estrutura, que eu me renderia, ainda hoje, àqueles olhos tão castanhamente tristes. Mas devo confessar que ele anda incomodando a minha calmaria com suas palavras indiretas que tentam, sutis, me atingir em cheio. Tenho pena de sua covardia. Do seu medo desesperado de olhar. Ele já me perdeu uma vez por isso, e hoje eu o olho com certo pesar do que poderia ter sido e não foi. E é também por isso que os garotos me cansam. Tão inseguros em seu amor a imagem, tão despreparados para as coisas lindas que não tem beleza. E são suas letras tortas que mais me entristecem. Porque eu tinha um abraço carinhoso pra lhe oferecer. Um olhar do passado e uma aliança para dar de volta. Não a quero mais, agradeço a tentativa. Fosse em outro momento, me casaria e iria pra longe. Não adianta me propor filhos agora. Nem me abrir suas carências e suas dúvidas. Já entendi seu silêncio outrora, e ainda escutarei suas palavras, se ele quiser falar. Mas o tempo passou e eu passei com ele. Aquela melodia já parou de tocar em mim. Tranquei a porta e abri meu coração. Fiquei inabitada por algum tempo. Vazia. E no silêncio dessas palavras tortas, entendo o arrependimento e a culpa. Mas agora passou. Não posso mais voltar atrás. Sinos já badalam em outro lugar embora ainda sem som. Ganho meus dias em outras poesias, em pensamentos distantes e macios. Não há o que perdoar nem entender. Desencontros. Os anos passam rápido, e tenho pena dos que ficaram para trás. Ele ficou para trás. E não há nada que o traga ao presente. Nem as alianças esquecidas, nem o funk despropositado que eu até já me esqueci, nem a madrugada inteira e o nascer do sol sem despedidas. Chegou a minha hora de ir de vez. E peço desculpas pelos caminhos cruzados. Não foi minha culpa. Não há culpados. Mas no mundo das pessoas que deixaram suas casas, não há mais para onde voltar. Temos enfim que seguir adiante. Desejo-lhe sorte e calma, com toda a minha fragilidade. Desejo. Que ele saiba ponderar melhor quando for a hora, e que eu tenha forças para ajudar se for preciso. Já destranquei a porta e ofereci abrigo. Por ora, nada mais posso fazer. Tenho sabores inéditos a conhecer, e filosofias baratas para divulgar. Peço perdão ao acaso. E o agradeço, todos os dias, pela beleza do encontro.
sexta-feira, 2 de abril de 2010
Um
E comecei um texto chato e burocrático, quase uma bula de procedimentos literários. Ando vazia por dentro, as novidades me escapam. Apenas aqueles velhos assuntos ainda a rodear minhas letras. Mas a tela do computador, virgem branca e brilhante me atraiu profundamente, e eu não consegui conter meus instintos. Como companhia, hoje, apenas um cappuccino e alguns cigarros. Ando acompanhada de mim. No calendário um feriado que não me significa nada, não me esclarece nem inquieta. O que é que hoje significa? Não comi carne por ocasião. Bem queria a minha cama cheia. Ato falho: não era bem isso que eu queria dizer. Sei que o dia de folga me foi perturbado por telefonemas dóceis e incômodos. A todo o momento trimmmms a interromper o meu silêncio. Ainda sonho com o dia que poderei calar os telefones. Todos os telefones. E me comunicar apenas com os olhos. Com letras e pele. Como eu odeio as caixas postais e seus recados. Hoje, de fato, não consegui acessar as mensagens que me chegavam e me descobri, de novo, livre da tecnologia. Por desencargo de consciência, avisei-lhes da minha inutilidade auditiva. Hoje só ouço o que vai dentro. Um bater incessante de coração acelerado, e algumas coisas entaladas numa garganta que eu nem sei se pode falar. Hoje estou carente daquele velho colo de mãe, seguro e exato como a concha de um caracol. E na imensidão do pequeno apartamento, na materialidade de todos os móveis e todas as coisas, meu silêncio ecoa como um grito desesperado de liberdade enfim. Enfim! Falta eu me adequar a nova realidade, mas ela não há, infelizmente. Meu relógio anda parado, correndo atrás de um tempo estranho, que parece que já passou. Ando sozinha comigo. Mas vislumbro, ali bem perto, um pequeno oásis de paz.
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