sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Conversa sobre o silêncio

- Eu já disse que não quero conversar.
- Você não tem escolha.
- Claro que tenho: posso conversar, ou não conversar. E eu não quero conversar.
- Neste caso, você também me obriga a escolher: vou fazer minhas malas.
- Ah, eu não acredito! Você vai embora?
- Claro, você não quer conversar!
- Mayra, sem exageros! Você está sendo intransigente.
- E você infantil.
- É, ok, eu estou sendo infantil...
- Então vamos conversar?
- Eu não quero conversar porque eu não sei o que eu quero. E quando é assim você sempre me convence que eu quero o que você quer que eu queira!
- Ahn?
- Deixa pra lá.
- Às vezes parece que eu estou te fazendo uma pergunta muuuuuito difícil!
- E está!
- Estou?
- Está.
- É, então é melhor a gente não conversar mesmo. Eu definitivamente não consigo entender esses fantasmas que assombram a sua cabeça.
- Nem eu.
(Ele, melancólico. Ela pensativa. Silêncio.).
- Será que é um problema psicológico meu?
- Como?
- Um problema psicológico, sabe? Sei lá... Essa coisa de não conseguir escolher nunca!
- Acho que é imaturidade. Você sempre quis abraçar o mundo com as pernas!
- Mas já tem tempos que eu não sou assim, Mayra. Será que você não percebe?
- O quê?
- Que eu mudei. Sei lá, eu mudei. Antes eu queria o mundo, tinha sede de viver! Hoje eu não quero sequer abrir a porta desse quarto.
- Pode ser depressão.
- Talvez... mas eu não acredito. Sabe o que eu acho? A gente muda de personalidade... Assim, ao longo da vida. Muda de personalidade.
- Acho normal, Miguel. A gente está em constante transformação. Imagina ser o tempo inteiro a mesma coisa? Que chato...
- Acho que você não está entendendo muito bem o que eu quero dizer.
- Estou sim... Só acho que é normal passar por essa fase! Você está indeciso, angustiado... daqui a pouco volta tudo ao normal.
- É aí que está. Não acho que vá voltar ao normal, não acho que é passageiro. Acho que mudei a minha forma de ver, de me relacionar com o mundo. Me tornei mais melancólico, é isso.
- Você está infeliz?
- Que pergunta, Mayra!
- Está?
- Não sei... às vezes eu acho que você não me enxerga!
- Eu??
- É, você. Parece que você não percebe que eu mudei, que eu estou diferente. (Pausa). Parece que você está sempre esperando o velho Miguel voltar.
- Acho que você também não me entende...
- Eu?
- É! Não entende que eu sinto falta da gente. Do velho Miguel, da velha Mayra. A gente formava uma boa dupla.
- Ainda forma.
- Será? Acho que a gente não se entende mais. O nosso amor virou silêncio.
- E tem coisa mais linda do que o silêncio a dois? Acho que a gente precisa entender que cresceu, Mayra. Nós não somos mais dois adolescentes brincando de casinha.
- Às vezes eu acho que a realidade engoliu a gente... Logo a gente, que sempre achou que nunca fosse se render a ela.
- Talvez... talvez você tenha razão.
- Você ainda me ama?
- De todas as dúvidas que me apavoram, a única certeza que eu tenho é você. Que você vai estar aqui quando eu acordar, e que vai velar meu sono, enquanto eu dormir.
- Eu não sei o que eu faria sem você. Acho que eu esqueci que passei anos da minha vida sem te conhecer.
- Eu vou ficar bem, prometo. É só você me dar um abraço.
(Luz cai em resistência. No escuro, soluços de Miguel. Um choro sofrido).

Às vezes, só amor é pouco...

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Silêncio


Ah, o silêncio! Às vezes é preciso se afastar do barulho das ruas pra se aproximar do nosso próprio barulho interno. Meu silêncio é cheio de sons esparsos, misturados a um rio de entrelinhas, que vou decifrando enquanto ouço. Às vezes, preciso de paz. Sou um ser da solidão. E é no silêncio que me encontro mais bela; que a minha essência se encontra com o mistério. A beleza, já diria Rubem Alves, é algo escondido dentro de nós que encontramos, às vezes, nas coisas. E o belo dos outros nada mais é do que a nossa própria beleza, escondida entre os entulhos do nosso cotidiano. É preciso limpar a casa, para que se possa achar, por baixo dos escombros, aquele velho patinho de borracha. Tenho andado pelos meus caminhos com curiosidade. Re-conhecer-me tem se tornado uma tarefa prazerosa e criativa. Reinvento-me. Brinco. Estou com saudades de atuar. Procuro dentro de mim aquele ser brincante, que me trouxe até aqui. Aquele ser que se perdeu de si mesmo para se descobrir. Encontro-me na solidão. É dentro dela que se esconde a minha arte; a minha forma única e absoluta de expressão. E calo-me. O silêncio nada mais é do que o som da alma. A música contida nos intervalos das palavras. O profundo suspiro da solidão.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Olho de poeta

Pela janela do meu quarto, a lua cheia invade o espaço prateando o ambiente. Clareando minhas idéias, a luz permeia minha cabeça e acompanha meus pensamentos. Os poetas vêem mais do que os olhos mostram. Não sou a primeira a dizer isso, e nem tampouco me arrisco na poesia. Mas adoro ver um mundo num grão de areia, e um céu numa flor silvestre. Hoje olho com os olhos da beleza coisas que eu jamais havia reparado. Às vezes, o mundo me tira a poesia. E vejo nas coisas simplesmente o que elas pretendem ser. Mas hoje não. Hoje vejo nas coisas mais do que a forma e a função. Hoje o mundo derrubou as arestas e se cobriu de imaginação. Tenho algumas preocupações a menos, e um grande sorriso a mais. E sinto saudades das pessoas distantes. Principalmente das que estão perto-longe, como a bruxa, que sumiu com seus feitiços. Tem também o homem-alegria, que foi levado por uma nuvem acinzentada, e eu me preocupo com a sua tristeza. Tem o príncipe encantado, sempre com suas meias-palavras; e o garoto dos cigarros, que morreu e não parou de fumar. Estou com saudades desses rostos sorridentes e confusos, que, em algum momento, me sorriram com os olhos. Meus olhos hoje gargalham. Estou de novo livre para me felicitar! E isso é tão estranhamente perfeito. Tô me guardando pra quando o carnaval chegar. E ele está aí! Com suas plumas e paetês, e álcoois e corpos. Toda a fantasia desse meu novo olhar distorcido. Estou correndo atrás da paz, mas ela, arisca, tem corrido bastante de mim. Fico na confusão então. Perdida nessa enorme loucura que é a minha sanidade. Tentando entender o ritmo das pausas e dos suspiros. Piscando para a estrela cadente e chorando com as rodelas de cebola. Vivo o diariamente e a incompetência da falta do encontro. Amanhã o lar me chega em casa, e é por isso, também, que hoje trago esse sorriso. Para tentar inspirar você – que ri de mim com o canto da boca – a tomar uma atitude diferente das anteriores. Se você continuar fazendo as mesmas coisas que faz, vai continuar conseguindo as mesmas coisas que tem conseguido. Refresque-se. Hoje estou transpirando os outros. Influências. Mas esse espaço é dedicado a uma vida de mentira. E parafrasear não é plagiar, é? Identifique-se com o que lhe é familiar. O resto, finja que é meu. Afinal, a antropofagia faz parte de toda pequena leitura: de slogan a bulas de remédio. E por hoje é só. Preciso socorrer a ambulância, e sinos me tiram do transe literário. Por favor, volte sempre, se quiser. Escreva pequenos recados para que eu possa guardá-los comigo. Mas deixe-os escondidos. Eu posso não ser a única, você pode não ser o único. Mas isso é um acordo de cavalheiros. Enfim: a gente nunca disse que prestava!

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

(Só)Risos

Desculpe-me, mas hoje não consegui conter o riso. Eu estou tentando, pode ter certeza, mas a vontade que eu tenho é de nunca mais parar. É uma coisa de dentro, sabe? A todo o momento me pego com um sorriso nos lábios, e com uma vontade absurda de gritar. Eu estou feliz, não é bom? Muito. Acho que você ainda não tem a exata idéia do que fez. Estou pensando em como é bom quando as coisas acontecem naturalmente. Aconteceu. Ponto. Não precisa se martirizar. Já virou passado e, a cada dia, vai ficar mais e mais distante. A gente faz bobagens na vida. Não foi a primeira, e nem será a última. Terão piores, eu aposto. Mas é bom. Bom pra aprender e pra valorizar. Um erro, às vezes, pode salvar uma vida. Se ficar triste, pense nisso. Mas não pense. Simplesmente não pense: pare de pensar. Abra comigo este sorriso, e vamos gargalhar. Porque, definitivamente, você não pode negar a graça da situação. É uma piada muito, mas muito bem bolada. Mas fique tranqüilo: até o Camelo está cantando pra você: “tudo passa...”, rs. Cante com ele. Comigo. Vamos sorrir, amigo. Rir da vida é a melhor coisa que a gente faz. Rir pra não chorar. Que o erro tenha a perfeita função de aprendizado. Que fique onde tem que ficar. E que a gente consiga olhá-lo de frente, e não se envergonhar do deslize: pra alguma coisa ele há de ter servido. Ai. Hoje tive um dia bom. Calmo, tranqüilo, e principalmente feliz. Um dia sem peso nas costas, e com uma brisa no rosto. Estou feliz com as mudanças. Adoro a casa nova, adoro passear por essas ruas. O dia no parque me fez lembrar de como essa cidade é maravilhosa, e de quantas coisas eu poderia aproveitar, e desperdiço. Hoje eu me diverti, sozinha. Mas não solitária. Hoje tive vergonha, e esqueci. Esqueci de tudo, pra falar a verdade. Errei também. Mas bola pra frente. Hoje já foi outro dia. Um dia bem melhor. Vamos, amigo. Desmancha essa tromba, e venha sorrir comigo! Hoje as coisas estão por demais engraçadas. Eu me enfiei debaixo do chuveiro, e me esqueci de lembrar. Não senti a água no corpo, nem sei como fui parar na cama, falei um monte de bobagens com aquele delicioso desconhecido, e continuo aqui. Com uma vergonhinha, mas aqui, de pé. Amanhã já vai estar um pouco melhor. Só não deixe o machucado criar casquinha, porque aí pode complicar. Ao invés disso, sorria. Sorria, amigo! A gente anda merecendo...

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Cuidado, garoto.

Cuidado, garoto, você pode se machucar. E se machucar não é só ralar o joelhinho, como você fazia há tempos atrás. Os machucados de gente grande doem por dentro, e às vezes doem mais do que a razão. Cuidado, garoto. Não vá achando que este sorriso fácil engana as mulheres. Já não somos mais as mesmas, e também temos nossos sorrisos, se você quer saber. Para quem entrou no jogo com cartas sujas, pra mim, você parece, agora, um iniciante. O jogo sempre pode virar. Por isso cuidado. Cuidado com o que fala, com o que sente. E não pense demais que as suas ações serão analisadas. A falta de ação também é uma atitude. Por isso cuidado, garoto. O jogo por aqui mudou. Agora já há cartas na mesa e, aos poucos, estamos nos abrindo aos olhares. Não tente se esconder, você já está exposto demais. Por isso, se decidir jogar limpo, não basta apenas abrir o sorriso e a garrafa. A porta pode ainda estar trancada. E você precisa da chave. Aquela, que você guardou dentro de si, e não soube mais procurar. A chave está dentro. E a porta, ainda trancada. Portanto, apresse-se. Dizem por aí que outras chaves estão para ser distribuídas. Que a curiosidade está tocando a campainha. E você sabe, garoto. Você sabe muito bem o que te espera do outro lado da porta. Do outro lado do medo. O tempo está passando, e o tempo destrói tudo. Já há ruínas por trás das portas. Ruínas de outros garotos que, como você, não souberam a hora certa de parar. Que não souberam começar. A estrada ainda pode ser construída – ela sempre poderá. Mas a cada minuto, há mais destroços no acostamento, e o solo, aos poucos, vai se tornando mais árido. O tempo seca; o sol. Não destrua com silêncio o que você construiu com sorrisos. É só o que te peço. Cuidado. O jogo está ficando perigoso demais, e eu já me perdi no tabuleiro. Confundo o início e o final, já não sei onde quero chegar. Por isso cuidado! Não se esqueça que eu sou apenas uma mulherzinha – munida dos meus sorrisos – mas criada dentro deste mesmo jogo. Não costumo desistir de brincar, mas também não serei a primeira a jogar os dados. A luz já começa a cair e, ao longe, já consigo ouvir a música tocar. Há uma festa acontecendo em outro lugar, garoto. E eu estou tentada a participar. Por isso cuidado. São só mais alguns minutos para eu terminar de me arrumar. Só mais um brilho nos olhos e um sorriso nos lábios. Já estou subindo nos saltos. E estou disposta a borrar minha maquiagem. De lágrimas, ou de suor. Você pode vir comigo, se quiser. Mas cuidado, garoto. O tempo está passando e só nos restam alguns minutos. Curtos. Não sei se é impressão, mas parece que a música acaba de entrar pelo buraco da fechadura. E acho que só a sua chave pode fazê-la parar. Mas cuidado. Se você não se apressar, pode ser tarde demais...