Pensamentos, frases, estórias e mentiras criadas a partir de fatos corriqueiros. Uma livre distorção da realidade.
quarta-feira, 24 de março de 2010
Pontos
e então eu olhei pra você e não achei nada mas era só o princípio e nessa coisa de olhar vou me perdendo em você e me perdendo em mim e quando reparei percebi que tinha acontecido em algum momento borboletas coisa pouca ainda apenas leves sinos tocando a distancia e eu não sabia precisar muito bem o que era talvez um emaranhado qualquer me nublando os pensamentos talvez algum tipo de mentira impensada como eu sempre costumava me contar e aí eu dormi mal e acordei pensando em você e tive a nítida sensação de ter ficado de repente louca porque nada fazia sentido e eu mal te conhecia e já sentia saudades e aí veio aquele telefonema dizendo sei lá o quê mas dizia de alguma forma que você também tinha pensado em mim e de repente todo o chão se abriu por um instante e eu me senti tão insegura que tive vontade de gritar mas foi também por isso pela vontade de gritar que eu achei que estava tudo perfeitamente certo e que aquele balanço nada mais era do que a brisa de uma nova paixão batendo na minha porta e então eu tive medo um medo doentio de não saber como seria e de imaginar como seria tive medo de me decepcionar e de te decepcionar e ao mesmo tempo imaginava a cada segundo novas versões para o nosso roteiro e escrevia capítulos e decupava cada cena cada quadro cada olhar em plano detalhe e você ali me olhando com aquela cara de quem finge não olhar e eu ali te vendo me olhar e fingindo ignorar aquele olhar que me embaraçava de alguma forma e eu pensando como será que você me conhecia tanto tendo me conhecido há apenas alguns instantes e os instantes passando e você me conhecendo ainda mais aí eu tive vontade de te abraçar e não sei por que você me pareceu tão carente que eu achei que você precisava de mim e precisava por isso você sorria sem graça tentando esconder suas inquietações mas não sabia que também eu por dentro estava inquieta tentando controlar um maremoto que me refrescava enquanto me causava terror e foi quando nos aproximamos para despedir que tive a total certeza de que não não era só comigo acontecia alguma coisa maior e estranha e perfeita que eu não podia e nem queria explicar e foi por isso que depois de longos segundos eu ainda não conseguia me desvencilhar do abraço e que cada palavra que você disse na breve despedida me soou como um convite e eu aqui espero o convite e rumino frases e borrões que eu mesma criei nesse meu emaranhado de emoções porque por dentro agora estou borbulhando e ainda tenho vergonha de admitir porque acho que é cedo demais precipitado demais adolescente demais mas sei que você acha também e ficamos os dois contando os dias para chegar a olhar o que nem sabemos se vai haver mas no fundo da minha cama na escuridão do travesseiro e do quarto vazio ainda penso naquelas bobagens e nos sorrisos e nas dores e em tudo o que ainda virá porque não acredito em coincidências e em geral não costumo acreditar nas pessoas assim mas acreditei em você em alguma saudade presente nos teus olhos e em alguma carência ecoando no seu corpo acreditei em você e agora não sei mais como nem o que será sei que seremos e o mais rápido e ao mesmo tempo em que posso estar enganada acho que você entenderá que eu estou completamente certa porque tudo isso não aconteceu comigo aconteceu em mim em algum lugar de mim e acho que aconteceu também em você como raramente acontece como a gente em geral imagina sinos assim de repente mas nunca acontece e agora aconteceu em mim em você e eu tenho medo simples assim um medo doentio de não passar de uma impressão pueril e banal medo ah tenho medo
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2 comentários:
Flávia, sempre ótimo ler teus textos. Identifico-me muito.
Legal, Fgá! Ficou massa! :)
Acho que as vezes é difícil a gente se concentrar no conteúdo do texto quando estamos preocupados com a forma. Mas o conteúdo relacionado à angústia de se perceber talvez apaixonado e na em dúvida quando ao outro permeia de forma precisa o texto e o caráter intimista e divagatório cai bem com forma apontuada.
Num texto sem vírgulas, talvez o escritor deva se preocupar não só com a forma, mas com o conteúdo, o ritmo e talvez apareça um tipo de timbre do texto. Parece-me que num texto não pontuado existem as pausas, mas quem as dá é o leitor. Devem haver algumas partes em que são livres e outras que são mais presas a um ideal platônico precisamente pontuado. Acho que vc navega entre as duas.
Gostei de um anglicanismo e um galicismo que vão ali no meio do texto -- tbm gosto de fazer isso --, mas não sei de onde vc tirou o galicismo... talvez seja um espanholismo, não sei como chama. Talvez vc tenha adicionado muitas repetições de partes, mas isso tbm permite que o texto fique mais fluido e natural.
Enfim, parabéns! :D
Quando sai o livro?
Bjs!
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