Pensamentos, frases, estórias e mentiras criadas a partir de fatos corriqueiros. Uma livre distorção da realidade.
sábado, 27 de dezembro de 2008
Diário de um menino novo
Mesmo depois de rica, quando vinha, não trazia presentes. Nunca foi de me encher de mimos, de me estragar com bobagens. Vinha mais ou menos de dois em dois meses, e se encontrava comigo apenas um ou dois dias. Mas sempre foi minha tia preferida. O pouco tempo que tinha comigo, dedicava-me a maior quantidade de amor possível; e foi com ela que aprendi muitas das brincadeiras que, hoje, penso em ensinar aos meus filhos. Ela diz que eu deveria ter sido filho dela, mas que, quando nasci, ela era muito jovem ainda. Não teria condições de criar-me. Apesar disso, e talvez por isso mesmo, a tenho como uma segunda mãe. Não dessas que a gente diz da boca pra fora, pra agradar aos outros. Tenho um sentimento profundo; e uma certeza: a de que vim parar nesta família para poder conhecer e conviver com ela. Pra mim, essa história de mãe é muito relativa. Nunca conheci minha mãe biológica: fui adotado com dias. E nem sei se gostaria de conhecê-la, caso tivesse a oportunidade. Não acho, de forma alguma, que ela seria melhor do que a mãe que eu tive. Mãe pra mim é quem abraça quando a gente chora, quem diz não no momento oportuno, quem dá a mão quando sentimos medo. Mãe é compreensão e certeza. É dúvida e segurança. E foi ela quem me deu essas coisas, quando a minha mãe me faltou. Não a biológica: a minha mãe. Minha mãe sempre cuidou mal de sua saúde: preferia os prazeres e delícias de uma vida efêmera do que as regras da vida saudável. Era careta, ela. Mas tinha o seu vício na comida: não aceitava suas limitações. Tenho uma profunda gratidão e um amor eterno à minha mãe de alma, e não foi fácil conviver com a sua partida. Depois dela, me restou apenas uma família desestruturada, e meia dúzia de pessoas querendo tomar as rédeas do meu viver. Não foi fácil, confesso. Mas era muito novo ainda, e entendo a preocupação. De fato, não saberia me cuidar sozinho. Mas agora, ainda novo, quero começar a escrever meu próprio destino, letra por letra. Por isso escrevo sobre ela. Porque no meio do furacão, nessa enxurrada de dúvidas e inquietações, ela me veio com essa proposta, até meio absurda, talvez. Nunca tinha pensado em sair daqui. Adoro este apartamento, e foi aqui que eu aprendi a ser o homem que hoje sou. Mas sair da segurança dessas paredes encharcadas de memórias pode me tornar um homem maior, melhor. E a segurança de um lar de mãe, realmente, me falta agora. Por isso estou pensando em aceitar. Em me jogar no mundo amparado pela certeza dessa prima-tia-mãe que nunca me faltou. Fico me questionando se não atrapalharia a vida tão estruturada dela. Se não seria motivo de matérias, se a minha vida também seria exposta. Tenho medo de abandonar a casa, e tenho medo que meu pai me interprete mal. Eu o amo, é claro. Mas já sou grande o suficiente para perceber os defeitos e inseguranças dele. Não quero forçar suas fragilidades. Pra mim, a paternidade a essa altura sempre lhe pareceu um fardo. Não queria ter que ficar apenas pra lhe agradar. E não quero, de forma alguma, ter que ficar para cuidar de seus remorsos. Nunca foi um bom pai, nunca foi um bom marido. E agora, condoído, ele passa os dias a resmungar. Não sei se tenho essa dívida com ele, e não quero prender-me à ela. Fazer isso pode guiar a minha existência por caminhos que não sei se quero seguir. Quero estudar, quero ser livre, quero ter filhos. Mas quero sair dessa redoma em que me colocaram. Quero romper essas paredes, e aparecer do outro lado do mundo, depois de quebrar muito a cara. Quero viver por mim mesmo! Por hora é isso. Escrevi mesmo só pra desabafar. Já não sei mais o que falo. Apenas queria uma luz...
sábado, 20 de dezembro de 2008
No silêncio do cigarro (ou ainda ele)
Se a sua vinda não é certa, sua volta eu garanto: certeza. Se no mar que eu nado não há peixes, garanto a natureza das flores que plantei no seu jardim. Espero-te esta noite para prestigiar a estréia do meu novo viver. Espero-te no silêncio do quarto e no barulho da alma. Espero-te acordada nessas noites frias de ruído e solidão. Porque tenho medo: medo de estar só. E apenas sua lembrança me acalenta na profundidade deste nada tão real. Ainda não sei se devo convidá-lo para comigo dançar. Essa valsa acabou há tempos, mas sempre é tempo de rememorar. Tenho tido saudades de você. Daquele sorriso indecente de garoto que sabe que pecou. Daquele sorriso quando a porta do carro se abre, e eu subo em minhas pernas como se deixasse um pedaço da minha esperança. Confundo-me em meus sentimentos: não sei o que quero de ti. Talvez seu amor seja só um capricho de menina mimada, que eu teimo em querer ter. Sua companhia, esse bem já conquistado, me satisfaz, por vezes. Mas por outras quero agarrar-lhe pelo pescoço, e mostrar-lhe que só a união completa nos fará inteiros. Às vezes não sei se somos amigos ou amantes. Não sei se estamos jogando uma partida de regras desconhecidas, ou se estamos nos enrolando no novelo do destino. Perco-me em você. Na sua imagem. Na minha imagem sua. Já não sei o que é real nessa teia de pensamentos. Sei que ainda te espero. Cada dia mais perto. Pra que seja mais intenso quando optarmos pelo sorriso incessante, ou pela lágrima derradeira. Não tenho fantasias de amor romântico, apenas uma fugidia sensação de tarefa não acabada. Ainda não cumprimos nossos roteiros, ainda há cenas a gravar. Mas estamos adiando as filmagens, e o tempo não tem nos ajudado muito. As externas dependem da meteorologia, e eu dependo de mais sol. Sou da noite, ambos sabemos. Talvez seja essa nossa maior distância. Meia volta terrestre. Aqui, no meu apartamento escuro, imagino você a dourar-se nos raios solares. Lindo como ouro. Com essa barriguinha sexy, de quem tem alguns chopps a me contar. Hoje queria abrir uma cerveja, brindar com um champanhe, mas só me resta o cigarro: esse velho companheiro de solidão e angústia. Esse pequeno cérebro que ilumina a escuridão do meu quarto, e acende um pouco os meus pensamentos. Hoje estou enferrujada. Há tempos não escrevo, e meus dedos estão cansados de passear por palavras vazias. Ainda estou perdida no meio das caixas. Ainda me perco em você.
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sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
Cemitério
Era meia-noite. Passeou por entre as tumbas, e um frio gelado lhe correu a espinha. Teve medo de tudo aquilo não passar de uma cilada. Mas estava confiante. Tinha certeza de que havia sido esperto. Não se deixara enganar. Pelo menos não facilmente. Olhou novamente o relógio e pensou que talvez estivesse atrasado. Ou também podia ter chegado cedo demais. Nunca sabia ao certo qual era a hora exata do encontro. Mas esperou, observando velhas sepulturas, e assustando-se com o movimento inesperado de gatos no cio. Aqueles gemidos lhe eram odiosos, e pensou, por um instante, em desistir. Não queria parecer covarde e, de fato, não o era. Mas algo lhe dizia que aquela situação não terminaria bem. Uma impressão fugidia de que não voltaria a ver as coisas que tanto amava. Tudo lhe ocorria em relâmpagos. Flashs, visões. Uma tontura foi lhe tomando o corpo e sentiu-se embriagado por um aroma fétido que rondava o seu ouvido. Questionou sua sanidade: poderia ficar louco. Às vezes tinha certeza de que tudo aquilo não passava de mais uma de suas invenções. Mas manteve-se firme. Afinal, era ou não era um homem? Desses, com h maiúsculo? Observou as minhocas que não paravam de brotar da terra: fertilidade. Ouviu novamente o ranger da porta de ferro, balançada pelo vento. Um farfalhar de folhas secas espreitando sempre: impaciência. Acendeu um cigarro. Dois. Fumou com se fosse ele o próximo a entrar naquela cova aberta. Fumou muito. Não sabia qual seria o seu próximo cigarro. Decidiu desistir: sim, era prudente. Decidiu o contrário, em seguida. Era sua verdade, ora essas. Mataria a mãe para estar ali – no sentido psicanalítico da coisa. Pensou na mãe: morta, no pai: morto, nos irmãos que nunca teve. Ele era sozinho no mundo. Ia temer a troco de quê? Era sua única chance, e não podia desperdiçá-la. Mas o tempo corria ao longe, deixando murchas suas rosas tão vermelhas. Em cima da sepultura, aquelas flores até pareciam uma oferenda: coisa de santo. Mas ninguém sabia o real significado daquele buquê. A senha. Alguém sabia. E era esse alguém desconhecido que ele esperava enquanto os ponteiros do relógio giravam, e seus dentes batiam de frio. Tudo contribuía para tornar aquele lugar assustador. Aquilo não era certo, ele sabia. Mas precisava provar para si mesmo que era capaz. Precisava deixar de lado o peso da sociedade e começar a preocupar-se com o peso de deus próprios desejos. De suas fantasias. O tempo passava ligeiro, mas ele continuaria ali, de pé. Parado em frente a maior lápide, de anjo, com medo e com frio. E com a pressa alheia de quem espera alguém que se atrasou. Ansioso para encontrá-lo. Ele, por quem tanto esperava...
***************
Estava cansado e suado quando chegou ao lugar do encontro, ainda alguns minutos antes da hora marcada. O local parecia deserto, como ele esperava. Ensaiou alguns gritos, mas sua voz ficou embargada: talvez fosse respeito. Decidiu caminhar. Por entre as lápides, todas as sombras lhe pareciam assustadoras. O barulho dos gatos o arrepiava e, por vezes, pensou que havia, em algum lugar por ali, uma mulher sendo molestada. Era só o que lhe faltava: testemunhar um crime em uma noite como aquela. Estava sentindo-se um pouco ridículo, com aqueles suspensórios. Aquilo era coisa do tempo de seu avô. Mas alguém lhe entenderia. Perdido por entre aquelas sombras dançantes havia alguém que lhe reconheceria. Um suspensório não era assim tão comum. Pensou em tirá-los, e observar primeiro o garoto do buquê. Não sabia porque tinha escolhido rosas. Na verdade, achava romântico... Quis fantasiar do seu jeito. Afinal, tudo não passava de um delírio romântico que ele queria aproveitar nos mínimos detalhes. Não era fácil, em uma cidade pequena. Pelo menos não para ele. Admirava os outros. Tinha respeito. Mas não conseguia ter aquele desprendimento: não tão fácil. Contou os minutos: por que será que ele demorava tanto? Talvez não viesse – pensou. Mas logo descartou a hipótese. Depois de tantas conversas, não é possível que ele desistiria no último instante. Estavam tão ansiosos. Sentou-se, por um instante, bem de frente ao portão. Era dali que os cabelos encaracolados surgiriam em alguns instantes. Mal conseguia conter sua respiração ofegante. Suspirou. Agora faltava pouco.
***************
Sentia-se obsceno com aquelas flores na mão em um lugar tão hostil. Era uma cilada, tinha certeza. Deixou as flores sobre a lápide e caminhou até o portão enferrujado, para fumar mais um cigarro. Teve medo, de novo. Não, isso não era desistir. Tinha ido até lá. Tinha esperado. Sentiu-se ridículo, ingênuo, traído. Foi embora sem nem ao menos olhar para trás, e uma lágrima gorda cismou em equilibrar-se nos seus olhos.
***************
Ainda nada. Já era tempo de ele ter aparecido. Será que tinha chegado mais cedo, e decidido caminhar por entre as árvores e as covas? Decidiu atravessar o cemitério – em linha reta, para não se perder. Levou cerca de cinco minutos até avistar um outro portão. Seria possível? Então era isso, tinham-se desencontrado. Seu coração começou a bater, descompassado. Era uma questão de segundos. Apressou o passo, segurando-se para não correr. Em cima da última lápide antes do portão, um buquê de rosas vermelhas. Lindas rosas. Chamou por ele. Nada. Gritou. Saiu pelo portão, olhando a imensidão da pequena estrada. Nada. Correu por entre os mausoléus em desespero: ele ainda devia estar por ali. Nada. Chorou. Um choro masculino cheio de resignação. Tinha perdido sua melhor chance. Talvez a única. Abatido, abraçou as flores tão delicadas, e pensou como teria sido revelador o encontro. Com cuidado, retirou o suspensório. Depositou-o em cima da mesma lápide, e fez uma curta oração: que a vida se encarregasse de entregá-lo a quem de direito. E que a espera fosse breve. Deu um beijo em sua própria mão, como se beijasse uma criatura querida que vai embora. Deu as costas para o antigo portão de ferro, que rangeu ao sabor do vento. E foi-se embora. Um dia haveriam de se encontrar.
***************
Depois de andar duas ou mais quadras, sentiu-se tolo de ter ido embora. Poderia ter esperado mais alguns instantes. Ele não era bom com horários, sabia. Poderia muito bem ter se enganado. Decidiu – não sem hesitar – voltar lá e esperar mais alguns minutos. Não seria ele o covarde. Ele era homem, e sabia disso. Caminhou a passos largos – mas lentamente – saboreando seu último cigarro do maço. Será que estava com mau-hálito? Ele já havia dito que não gostava muito do cheiro de cigarros. Mas ele era assim. Sempre fora assim. E queria mostrar sua essência. Naquele dia, não queria se esconder. Era um momento tão bonito: o dia que assumiria seus desejos para si mesmo, e para um outro. Não um outro qualquer: aquele, com quem compartilhava suas inquietações e angústias por noites a fio, separados apenas por uma tela retangular. Aquele, que lhe mostrara que o amor era possível, mesmo à distância. Estava batendo queixos; o frio penetrava-lhe a alma. Cruzou a porta do cemitério, e caminhou até o anjo alado: bonito e altivo como a pureza de seus sentimentos. Mas não avistou flores. Seu buquê não estava lá. Em seu lugar, o suspensório xadrez. Muito menos feio do que ele imaginava. Muito mais doce. Lágrimas inundaram seu olhar, e ele chamou por seu amor, enquanto arrependia-se dolorosamente de ter ido embora. Não podia ter duvidado dele. Não daquele jeito. Ele não armaria uma cilada: ele o amava. Resignou-se com sua inutilidade. Não servia nem para encontros amorosos. Sentiu-se a pior pessoa do mundo. Pensou, ironicamente, em se matar. E foi-se embora, abraçado ao suspensório xadrez. Sua alma oscilava como aqueles quadrados: vermelho, preto, vermelho, preto. Amor e ódio, amor e desilusão.
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A vida é a arte do encontro...
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Estava cansado e suado quando chegou ao lugar do encontro, ainda alguns minutos antes da hora marcada. O local parecia deserto, como ele esperava. Ensaiou alguns gritos, mas sua voz ficou embargada: talvez fosse respeito. Decidiu caminhar. Por entre as lápides, todas as sombras lhe pareciam assustadoras. O barulho dos gatos o arrepiava e, por vezes, pensou que havia, em algum lugar por ali, uma mulher sendo molestada. Era só o que lhe faltava: testemunhar um crime em uma noite como aquela. Estava sentindo-se um pouco ridículo, com aqueles suspensórios. Aquilo era coisa do tempo de seu avô. Mas alguém lhe entenderia. Perdido por entre aquelas sombras dançantes havia alguém que lhe reconheceria. Um suspensório não era assim tão comum. Pensou em tirá-los, e observar primeiro o garoto do buquê. Não sabia porque tinha escolhido rosas. Na verdade, achava romântico... Quis fantasiar do seu jeito. Afinal, tudo não passava de um delírio romântico que ele queria aproveitar nos mínimos detalhes. Não era fácil, em uma cidade pequena. Pelo menos não para ele. Admirava os outros. Tinha respeito. Mas não conseguia ter aquele desprendimento: não tão fácil. Contou os minutos: por que será que ele demorava tanto? Talvez não viesse – pensou. Mas logo descartou a hipótese. Depois de tantas conversas, não é possível que ele desistiria no último instante. Estavam tão ansiosos. Sentou-se, por um instante, bem de frente ao portão. Era dali que os cabelos encaracolados surgiriam em alguns instantes. Mal conseguia conter sua respiração ofegante. Suspirou. Agora faltava pouco.
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Sentia-se obsceno com aquelas flores na mão em um lugar tão hostil. Era uma cilada, tinha certeza. Deixou as flores sobre a lápide e caminhou até o portão enferrujado, para fumar mais um cigarro. Teve medo, de novo. Não, isso não era desistir. Tinha ido até lá. Tinha esperado. Sentiu-se ridículo, ingênuo, traído. Foi embora sem nem ao menos olhar para trás, e uma lágrima gorda cismou em equilibrar-se nos seus olhos.
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Ainda nada. Já era tempo de ele ter aparecido. Será que tinha chegado mais cedo, e decidido caminhar por entre as árvores e as covas? Decidiu atravessar o cemitério – em linha reta, para não se perder. Levou cerca de cinco minutos até avistar um outro portão. Seria possível? Então era isso, tinham-se desencontrado. Seu coração começou a bater, descompassado. Era uma questão de segundos. Apressou o passo, segurando-se para não correr. Em cima da última lápide antes do portão, um buquê de rosas vermelhas. Lindas rosas. Chamou por ele. Nada. Gritou. Saiu pelo portão, olhando a imensidão da pequena estrada. Nada. Correu por entre os mausoléus em desespero: ele ainda devia estar por ali. Nada. Chorou. Um choro masculino cheio de resignação. Tinha perdido sua melhor chance. Talvez a única. Abatido, abraçou as flores tão delicadas, e pensou como teria sido revelador o encontro. Com cuidado, retirou o suspensório. Depositou-o em cima da mesma lápide, e fez uma curta oração: que a vida se encarregasse de entregá-lo a quem de direito. E que a espera fosse breve. Deu um beijo em sua própria mão, como se beijasse uma criatura querida que vai embora. Deu as costas para o antigo portão de ferro, que rangeu ao sabor do vento. E foi-se embora. Um dia haveriam de se encontrar.
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Depois de andar duas ou mais quadras, sentiu-se tolo de ter ido embora. Poderia ter esperado mais alguns instantes. Ele não era bom com horários, sabia. Poderia muito bem ter se enganado. Decidiu – não sem hesitar – voltar lá e esperar mais alguns minutos. Não seria ele o covarde. Ele era homem, e sabia disso. Caminhou a passos largos – mas lentamente – saboreando seu último cigarro do maço. Será que estava com mau-hálito? Ele já havia dito que não gostava muito do cheiro de cigarros. Mas ele era assim. Sempre fora assim. E queria mostrar sua essência. Naquele dia, não queria se esconder. Era um momento tão bonito: o dia que assumiria seus desejos para si mesmo, e para um outro. Não um outro qualquer: aquele, com quem compartilhava suas inquietações e angústias por noites a fio, separados apenas por uma tela retangular. Aquele, que lhe mostrara que o amor era possível, mesmo à distância. Estava batendo queixos; o frio penetrava-lhe a alma. Cruzou a porta do cemitério, e caminhou até o anjo alado: bonito e altivo como a pureza de seus sentimentos. Mas não avistou flores. Seu buquê não estava lá. Em seu lugar, o suspensório xadrez. Muito menos feio do que ele imaginava. Muito mais doce. Lágrimas inundaram seu olhar, e ele chamou por seu amor, enquanto arrependia-se dolorosamente de ter ido embora. Não podia ter duvidado dele. Não daquele jeito. Ele não armaria uma cilada: ele o amava. Resignou-se com sua inutilidade. Não servia nem para encontros amorosos. Sentiu-se a pior pessoa do mundo. Pensou, ironicamente, em se matar. E foi-se embora, abraçado ao suspensório xadrez. Sua alma oscilava como aqueles quadrados: vermelho, preto, vermelho, preto. Amor e ódio, amor e desilusão.
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A vida é a arte do encontro...
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quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
Depois do banho
Se você soubesse como estou vestida agora, com certeza sairia deste seu quarto escuro, e viria repousar os pêlos nos meus cabelos, ainda molhados. Algum tempo se passou, a gente sabe. E nada melhor do que o tempo para acalmar as feridas e despertar os desejos. Pergunto-me se aquelas lágrimas valeram a pena. Eu, por mim, ainda prefiro este sorriso que tenho agora. Este sorriso molhado, que inunda a casa, e molha as minhas pernas, ainda nuas. Há um som diferente na respiração desse lugar. Algo de calmo e maduro, que floresceu desde que você se foi. As plantas tomam conta das paredes, e um jardim florido enfeita a casa da minha alma. Há paz por aqui. Os caminhos vão sendo abertos em meio à mata virgem e, em cada investida, novos paraísos são descobertos. Eu sei, você queria fazer parte desta expedição. Mas seu passaporte foi negado, houve problema com o visto, eu não quis deixar você entrar. Agora, sua partida é apenas mais uma página deste livro inacabado, e embora você tente voltar pra história, seu personagem perdeu o sentido. Algumas páginas se perderam. Espero que encontre um outro autor competente, que lhe faça um romance, um best-seller. Posso até lhe indicar alguns, se quiser experimentar. Mas há de ser rápido: ainda tenho milhares de flores para regar. O bosque criou raízes, e por mais que a chuva não pare, não há avalanche que o tire daqui. O bosque é a paz, perdida entre nomes próprios e rostos familiares. É a letra que já foi cantada e se esqueceu. Há um tom conservador, nessa natureza do Éden, mas perdi a vontade de ser vanguardista. Só não me contento com a arte descritiva. Gosto da abstração. Mas isso é coisa da década de 20. Antropofagia. Peço desculpas se comi você. Mas foi inevitável. Digeri aquilo que me era necessário, e devolvi-lhe ao mundo, também com um pedaço de mim. Não se compadeça de si mesmo. A troca foi justa. Você só precisa me deixar ir embora. Eu já estou aqui, e você não sabe. Não se apegue tanto a esse pedacinho de mim: eu também tenho milhares de pedaços presos comigo. Mas eles formam uma linda colcha de retalhos: colorida e inspiradora, como cada momento da colheita. Desses pedaços, apenas o primeiro me entristece. Mas a matéria-prima dele se perdeu pelas ruas, como pequenas gotas de orvalho. Continuo plantando o jardim. E há tantas flores ainda por regar... Sou refém das reticências. Vivo o que ainda está por vir. Sou o brilho da aurora e a promessa do ocaso. A linha contínua que começa no nada e termina no além. Sou apenas mais um botão de rosa neste jardim suspenso. O que ainda não foi, e o que logo vai deixar de ser. E o que é, agora. Meu tempo é quando.
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quinta-feira, 27 de novembro de 2008
Olhos
Estou com saudades daqueles olhos tão castanhamente tristes, que me fitavam momentos antes de ir embora. Aqueles olhos que não me cobravam nada mais do que a plena compreensão e um bocado de renúncia. Fico me perguntando se voltarei a vê-los, perdidos numa multidão de outros olhos, olhando atentos para mim, esperando algumas palavras e, quem sabe, um sorriso. Aquele olhar penetrou em mim com a suavidade de uma dúvida, e me fez refletir sobre o tempo. Uma vida se deu no instante de seu piscar. E uma vida se desfez. Penso nas possibilidades que aqueles olhos me ofereceram, e me entristeço, ao pensar que eles foram embora. Assim, só deixando uma lágrima. Eles estão por aí, nesta mesma cidade, perdidos talvez em outros cílios, em outros abraços. Queria olhá-los de novo, apenas por um momento, só para que eles soubessem que não lhes culpo pelo abandono. Que os segundos valeram por si só, e que o acaso se encarregará de escrever o resto da história. Naquele olhar não havia maldade, nem sadismo: apenas uma melancolia efêmera de quem não teve como evitar. O fim se apresenta, às vezes, antes mesmo do início. Mas me compadeço dos momentos não vividos, das gargalhadas sufocadas, da aliança partida. Os anéis sumiram nos dedos como fios de fumaça: desapareceram nas horas; no silêncio. Tenho palavras guardadas para aqueles olhos, mas minha língua se aquieta, até que seus ouvidos estejam disponíveis. Talvez eu já tenha voltado a vê-los, de relance, em meio a corpos dançantes e suados. Pode ter sido apenas uma ilusão. Pode ter sido uma possibilidade. Impressiono-me com a profundidade daquele olhar; daquele sorriso sem graça, daquele nervosismo despistado. Não, acho que não voltarei a vê-los. Pelo menos não tão cedo; não por querer. Sutilmente, aquele olhar me pediu distância, me pediu respeito. E eu, escolada na partida dos olhares mais doces, acatei sua decisão silenciosa, e guardei um pequeno amor dentro de mim. Meus amores perdidos costumam transformaram-se em amizade linda e sólida. Talvez este seja o destino, também, daqueles olhos. Aqueles, por trás das lentes tímidas, por baixo de toda aquela falsa postura. Olhos frágeis e saudosos. Talvez tenha amado a saudade alheia, naqueles olhos. Identifico-me com o exílio. Mas o retorno traz, novamente, a solidão. Somos cidadãos do mundo: deixamos para trás o lar. E ao voltarmos a ele, nossas incursões por outros lares nos fazem também falta; escancaram a inexistência de nosso lugar. Penso no meu olhar povoando os sonhos daqueles olhos como um lugar calmo e seguro. Um lugar atraente e ainda desconhecido. Sei que a minha reflexão sobre eles é igual a uma reflexão sobre mim, feita por outro. Também sou a que partiu, e que teima em não voltar. A que está sempre perto, mas nunca próxima; e que se esvai quando parece ao alcance dos dedos. Mas os olhos são fortes, misteriosos. Guardam dentro de si uma verdade que eu mesma desconheço. Se escrevo estas linhas, talvez seja porque quero me explicar enquanto tento entendê-los. E se prefiro dormir, é porque a imagem pode me ser por demais perturbadora. Só posso me desculpar pela atração fugidia, pelas falsas pistas de esperança. Não é minha intenção. Mas não consigo controlar a intensidade deste meu olhar, e não sei o que ele pode provocar no outro. Como aqueles olhos, tão castanhamente tristes, que me invadiram sem pedir licença, e foram embora sem trancar a porta. As janelas continuam abertas, e a brisa fresca que entra por elas me faz pensar que ainda há chuva por vir. Estou aguardando, ainda, com esta coceira nos lábios e este brilho na alma. Aquele olhar será sempre bem vindo: numa noite inesperada, ou numa manhã qualquer mal-dormida. Espero que eles estejam em paz. Espero...
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quarta-feira, 19 de novembro de 2008
A volta
Teve medo de se perder naquele labirinto de emoções, e decidiu fugir, por uns tempos, praquele lugar seguro; aquele que sempre a esperava quando as coisas ficavam difíceis. Estava um pouco confusa com os acontecimentos, e tinha a estranha sensação de que voltar lá lhe traria aconchego e segurança. E foi. Arrumou as malas em instantes, tomou a decisão inesperadamente e se mandou pro outro lado de suas inquietações. Foi procurar abrigo quando não tinha mais onde ficar. Mas estranhou a mudança. Percebera, de uma hora para outra, que havia deixado muitas coisas inacabadas, muitos sentimentos em aberto, muitas esperanças ainda sobrevoando. O velho urubu pintado de verde. Não soube como se portar. Desta vez, era ela quem ia embora. Ela sempre ia embora – acabou percebendo isso. A idéia de que era ela que ficava abandonada era por demais irreal. Uma fantasia, que ela gostava de inventar. A grande verdade, é que ela sempre escorregava pelos dedos alheios, sempre fugia quando a situação parecia sem solução. Ela gostava de finais amenos. De coisas que terminam por si só. Tinha dificuldades de colocar um ponto final em suas coisas. Olhos nos olhos. Sempre temia voltar atrás quando a lágrima do outro escorresse. Sempre teve medo de magoar outrem. E assim, com medo de fazer sofrer, causava sofrimento e sofria calada. Sofria por motivos desnecessários, por ansiedades tolas. E culpava-se por abandonar aquelas pessoas, aqueles amores, aqueles sorrisos. É por isso que a volta lhe era sempre doce, apesar de lhe causar medo. Lá, no meio daquela sala e daquelas pessoas jogando videogame; lá é que ela se sentia em casa – embora aquela casa já não fizesse mais parte do seu cotidiano. Mas eram aquelas pessoas que lhe aqueciam a alma, e lhe embalavam os sonhos. Era neles que ela pensava, quando um sorriso largo lhe estampava a cara, ou quando gordas lágrimas lhe corriam pelo rosto. Era ali que podia ser ela mesma, e ser outra, sem o menor pudor. Era onde ela mais gostava de reclamar – porque eles sempre gostaram de ouvir suas reclamações. E era lá que ela estaria no dia seguinte: com uma cerveja gelada e um cigarro nas mãos. Com um sorriso nos lábios, e a alegria de uma pequena criança. Era lá que ela apareceria de surpresa, quando eles menos esperassem. E sentiria-se em casa, como há tempos não acontecia. É fato: era saudosista. Mas nada melhor do que o colo dos bons amigos...
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sábado, 15 de novembro de 2008
Sobre o tempo
Estava pensando em fugir pra algum lugar que não me lembro onde... mas aí desisti, sei lá. Me deu uma vontade estranha de ficar aqui. Às vezes sou assim: mudo repentinamente de opinião. Já falei sobre isso antes. Aliás, vivo me repetindo. Acho que estou precisando me reinventar. Estou muito certinha, muito no eixo. Estou precisando me desconstruir e inventar uma nova “eu”: um mais do mesmo – igual, só que diferente. Estou orgulhosa de mim hoje, um pouco sem motivo. Mas tenho aprendido a admirar e celebrar também as pequenas conquistas. Tenho tido saudades de grandes vitórias e grandes desafios, mas tenho me contentado com os pequenos pepinos cotidianos, com as amizades brotadas em rocha sólida. Tenho me aberto mais. E foi correndo pela rua, atrás de alguns ônibus que nunca voltaram, que percebi algumas coisas. Gostar é deixar de lado, é deixar ir embora. O desprendimento e a crença na felicidade alheia são duas coisas muito louváveis. E são simples, ouso dizer. A gente fica muito preocupado com picuinhas terrenas. Com probleminhas de comer-e-dormir. A vida é muito mais do que isso, olha que bobagem! Nos preocupamos com as coisas erradas, nos desculpamos por motivos obsoletos, nos estressamos por pequenos detalhes. As coisas são tão banais... Nada mais gratificante do que se reunir com amigos – pessoas queridas, amadas e admiradas – para falar meia dúzia de bobagens, e voltar pra casa com a cabeça mais leve. O tempo passa rápido, é uma contagem regressiva incessante. E perdemos tanto tempo... Acho que é por isso que não gosto de relógios. Quem me conhece sabe: até hoje não sei olhar nos de ponteiros! E não uso aquele modelito de pulso nem que seja o último grito da moda. Odeio me sentir refém de algo que deixa de ser a todo instante. O tempo é o pior dos mutantes. Às vezes queria ser Zeus, pra matar Chronos e ficar, por toda a eternidade, estacionado nesse infinito. Mas tenho pra mim que essa tal eternidade, essa certeza da imortalidade, tornaria as coisas muito mais chatas e menos valorizadas. Por que viver o agora se o amanhã estará sempre lá? Essa ilusão, por muitas vezes, é colocada em prática no nosso cotidiano. Mas ela é irreal, e sabemos disso. Quando colocamos na ponta do lápis as medidas de tempo, passamos a nos assustar com sua enorme velocidade e voracidade. O tempo destrói tudo – é a máxima de “Irreversível”. De fato, tem coisas que jamais conseguiremos mudar. E o tempo é esse pai sádico, que nos castiga aos poucos, e ri de nosso desespero; até que sucumbamos à sua fome implacável. A mitologia greco-romana não passa de uma alegoria. Mas é uma forma bonita, de contar essa nossa história triste de mortais pensantes, que sabem, antes de qualquer coisa, que a única certeza absoluta é sua própria finitude. Tenho problemas com a morte. Tenho a sensação de que mesmo que morra aos 200 anos, ainda terei muito o que viver. Mas as trajetórias são diferentes, e essa sensação, pueril. Minha avó, que morreu aos 91 anos, há muitos não via mais razão na existência. Não acendia a luz pra não gastar energia elétrica, não passeava pela casa por não ter mais o que se ver, se desinteressou pela comida por não ter mais o que provar. No fundo, seus dias na poltrona da sala não refletiam mais do que sua vida interna: as paredes vazias eram a metáfora perfeita de sua existência nos anos finais. Lembro de sua tristeza ao revisitar velhas fotografias, e descobrir-se como a única ainda viva naquele pequeno pedaço de lembrança. O passado pode ser tão esmagador quanto o futuro incerto. Hoje, dois anos depois de sua morte, acho que entendo um pouco sua falta de tesão pela vida. Tudo deve ter um fim – desconfio eu. Mais ainda me espanto com a possibilidade do fim estar próximo, do meu tempo estar terminando. Não sei se quero viver o suficiente para ver todas as pessoas que eu amo morrerem: uma a uma. A vida é mesmo uma solidão comunitária. Um experimento maluco de amor e doação. Abram-se ao máximo! É só um conselho obvio que tenho tentado praticar. E sejam o melhor que puderem, pois o fim está próximo. Mais próximo do que gostamos de admitir. E é mais interessante ser uma lembrança inspiradora e inquietante, do que ser mais um rosto morto numa fotografia amarelada no fundo de uma gaveta qualquer...
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terça-feira, 11 de novembro de 2008
Chuta que é macumba!
Quando eu digo ‘tens cuidado’, muita gente me ignora. Sorriem um pouco de lado, se fiam no brilho da aurora. Mas o que esse povo não sabe, é que o seguro já faleceu. E que cada um se previna: antes ele do que eu! Nessa de se garantir, resolvi foi inovar. E passei a freqüentar a casa de quem já se foi. Quem aqui não está mais, conversa de outros assuntos, têm toda a sabedoria do mundo, não falam do que é banal. Mas a proteção é bem-vinda do lado que aparecer, e como não há quem me proteger, recorri ao lado de lá. Na casa verde que eu freqüento, a bondade é imperatriz. E não há quem um dia não quis entrar lá e agradecer. Tem gente que se amedronta, outros que se acovardam, mas quem entra muxoxado, tende a sair feliz. Pode não se acreditar, de crença não necessita: só é preciso abrir os olhos e deixar-se escutar. Esse espaço que eu freqüento recebe pretos e pobres, recebe ricos e nobres, e gente que não é daqui. E naquela roda de coco, no surdo dos atabaques, é que brilham badulaques e estremecem esqueletos. E é de dentro desta roda, que o demônio me aparece, e com um sorriso me oferece a brancura de sua mão. Ajuda dele não aceito: não quero e não necessito. Porque dos meus assuntos prolixos, prefiro eu mesma cuidar. Mas o cabra ruim me protege. Protege quem é de bem. Porque ao contrário do que dizem, ele não é de confusão. Só que sua justiça é torta, coisa de quem já se foi; e o preço de seu auxílio, é entregar-se pela mão. Não gosto de me sujar, prefiro a consciência tranqüila, por isso, de tempos em tempos, vou lá só me aconselhar. Na macumba que eu freqüento, bruxaria já entrou. O que comanda é a wicca, onde um dá o que levou. Mas pro caso da maldade, da injustiça e do amor, a regra se triplica: três vezes o que se desejou. E se pedires uma graça, pense bem; pense melhor. Lá nada é dado de graça, há que ser merecedor. E se ganhar de cortesia – algo que queira ou que precise – abra o olho, fique esperto: a conta é cobrada depois. Nesse terreiro de umbanda, gente ruim fica a deriva, e só leva dessa vida o que nela mesmo plantou. Por isso tome cuidado: previna-se, plante direito. Porque mesmo que demore, o troco há de chegar. As flores vêm a galope pra quem obedece certa linha. E mesmo na queda mais fria, há alguém pra lhe amparar. Na macumba que eu freqüento, toda mãe é menininha. Todo dia há novidade, pra eu não me entediar. Por isso o altar da frente, às vezes não leva santo. Leva apenas um atabaque observado pelo luar. E é quando a lua é cheia, que há mais graça pelo mundo, que até mesmo o vagabundo pode enfim profetizar. Na garrafa de aguardente, em alguns goles de cidra, nos cigarros aromáticos que se extinguem pelo ar. E é pela gargalhada que se mede a temperatura: quanto mais quente mais pura; quanto mais alta, mais mar. Pois esse terreiro de umbanda, se embasa nos elementos. É, pois, terra, mar e vento, e um fogo a crepitar. E é nesse lugar irreal, cheio de oculta magia, que escondo os meus amigos que insisto em soterrar. Somos parte do mesmo corpo. Vivemos em harmonia. Mas dividimos uma cabeça: e cada cabeça é um guia. Não acreditamos num Deus, não gostamos de rezar. Mas praticamos o bem, que existe em qualquer lugar. O meu terreiro é bem pequeno, e cabe em qualquer covardia, serve num metro quadrado, está sempre a me rodear. Se quiser vir freqüentar, faça votos de bondade. Traga vela, rosa branca, e um punhado de alecrim. E se é do tipo rezadeiro, por favor, não esconjure. Pois a graça da macumba, é que cristão pode ficar. Só me tire, por favor, o agudo daquele “amém”. Digam “amem”, amem muito, amem do verbo amar. Só não se esqueçam de depois, como forma de agradecimento, colherem uma folha ao vento, e por fim atirá-la ao mar. Pois é dando que se recebe. É plantando que se transforma. E nada como um suspiro, e um beijo pra Iemanjá!
segunda-feira, 10 de novembro de 2008
Da partida (ou 'algumas flores e um jardim')
Desculpa, meu amor, mas esta não é a primeira vez que isso me acontece. Na verdade, estou acostumada com separações inesperadas, rupturas repentinas. Talvez seja alguma coisa comigo, não sei. Mas aprendi a lidar com esse tipo de situação. Não sofro mais do que o suficiente. Tenho me dado ao direito de chorar por alguns instantes, e me levantar no momento seguinte: não sou do tipo que gosta do fundo do poço. É obvio que às vezes tenho medo; acho que todo mundo tem. E tenho me sentido sozinha, é verdade. Mas a solidão também é uma ótima forma de autoconhecimento. Acho uma pena, se você quer saber. Não gosto de desistir antes mesmo de tentar, mas entendo sua posição. Nem todas as pessoas conseguem se entregar, na iminência do fim. Eu, por mim, prefiro viver um dia de cada vez. O fim é sempre inevitável. Mas ter uma data pré-determinada para ele é realmente assustador. Porém prefiro permitir-me viver e sofrer. Posso morrer a qualquer momento, nunca se sabe. É como diria o poetinha: a vida é uma só. Duas mesmo, ninguém vai me provar que tem. Mas eu te entendo. De qualquer forma, ainda me entristece o fato de não tentarmos. Mas tudo bem. Outra coisa que aprendi com a vida, foi a respeitar os limites alheios. Quando um não quer, eu, pelo menos, não brigo. Ficamos assim combinados, então: seremos para sempre uma lembrança efêmera; uma foto em alguma parede; aquela estranha sensação de um sonho bom. Seremos o que poderia ter sido e não foi; e o que poderá ser um dia, se o acaso assim o quiser. Quanto a mim, sigo na busca incessante por algo que me emocione; por alguém. Tenho tido surpresas muito agradáveis pelo caminho e talvez você tenha sido apenas uma delas. Tenho aproveitado pouco os presentes que me caem no colo; tenho me perdido nas opções. Mas me cansei de aventuras malucas, de noitadas intermináveis. Acho que vou curtir um pouco o calor de uma cama vazia, e a tranqüilidade do sono acordado. Minha cabeça anda a mil. Tenho mania de inventar coisas, é verdade, e agora vou inventá-las de maneira menos real; mais controlada. Vou transformar a minha imaginação cotidiana em letras contínuas nalguma folha de papel. Vou me entregar a este amante virtual. Não sei se você reparou, mas eu nunca disse que prestava. Na verdade, não sei mesmo se presto. Vivo um dia de cada vez, e os dias são deveras surpreendentes. Tenho me assustado com essa montanha russa, mas aproveito cada ponto alto, pois tenho certeza que a queda virá em seguida. Não sei se gosto da adrenalina... Mas vou seguindo meu caminho, um passo depois do outro. Por favor, não entenda essas linhas como uma carta de despedida, ou um desabafo. São apenas pensamentos soltos, perdidos em uma tediosa tarde de primavera. Outras estações virão. No outono, quem sabe, com as temperaturas mais amenas, poderemos semear o que agora não foi possível. Não há como colher o que não foi plantado. Mas há como, sem ter feito nada, apreciar a beleza das rosas primaveris. Eu, por enquanto, apenas observo. E ofereço flores a quem julgo merecedor. Quanto a você, que seu caminho seja leve. Que o reencontro seja reconfortante, e que as decisões não doam tanto quanto a espera. Que o recomeço seja melhor do que a chegada, e que a partida seja apenas uma parte da estrada. Para você, planto uma rosa. E espero, sinceramente, que ela desabroche em breve. Linda. Onde quer que você esteja. Para você, planto agora esta rosa, que te acompanhará por toda a eternidade, iluminando seus passos nos momentos mais difíceis, e alegrando a casa vazia, quando sua alma vagar por aí. E para mim, uma licença poética; uma pausa dramática. Eu agora vou cuidar do meu próprio jardim. Até que alguém, com mãos delicadas, decida por fim, trazer o seu lar.
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sexta-feira, 7 de novembro de 2008
Opções
Cada escolha traz consigo um arrependimento. Às vezes, na ansiedade da decisão, optamos por espaços menos vantajosos, por esperanças nunca concretizadas. Escolher é uma forma de rejeitar justificadamente. Quando se caminha pela alameda mais bonita, deixa-se de conhecer a ruela menos arborizada, e vice-versa. Durante todo o tempo, mesmo sem perceber, fazemos opções que alteram, em menor ou maior grau, o curso dessa nossa vida. É o tal efeito borboleta. Se soubéssemos o que cada atitude de agora pudesse causar no futuro, talvez fossemos mais corretos. Mas com certeza seríamos também mais artificiais. A beleza da vida é a multiplicidade de escolhas. É a possibilidade do erro e do engano. Às vezes a decisão mais acertada para o momento, lhe parece absurda depois de alguns instantes. Há sempre perdas, não se engane. Sempre, em qualquer ocasião, por mais simples que seja a escolha; sempre ela lhe apresentará uma faceta positiva e uma negativa; não necessariamente proporcionais. Há, obviamente, situações mais simples, e outras mais complexas. Há opções que acarretam outras opções subseqüentes, e escolhas que esgotam uma possibilidade. Acho estas sempre menos acertadas. Sou do tipo que vive até a última gota, que só aceita um final quando ele mesmo se impõe. Estou um tanto quanto acostumada com as perdas. Mas costumo encará-las com naturalidade. Quando se perde uma partida depois de dedicar-se ao máximo, o resultado é o que menos importa. Gosto mesmo é do jogo, da performance. Por isso costumo jogar até o final, até o fatídico apito final. A maioria das pessoas esquece de guardar os pequenos cristais encontrados no caminho! Mas são eles que nos acompanham por toda a estrada até o acidente derradeiro. Viver cada dia como se fosse o último é muito utópico. E, cá pra nós, seria demasiado caótico também. Mas trabalhar a idéia de finitude, e calcar nossas escolhas na certeza de que tudo é efêmero, de uma forma ou de outra, para mim parece muito interessante. Sou do tipo que se entrega, a minutos do fim. Que recolhe os próprios cacos com a dignidade de quem ousou tentar. E que conquista vitórias inimagináveis apenas porque não as pensou possíveis. A vida é a fartura de possibilidades. Cabe a nós escolher, dia a dia, qual será a nossa nova estrada. Somos como aquelas escadas de degraus soltos: há que se retirar o anterior para se construir o seguinte. Há que se encarar o passado para construir o futuro. E há que ser leve, pois carregar um peso desnecessário poderá interromper intermitentemente a nossa ascensão. Tenho aprendido a transformar meu passado em sementes para o futuro. Todas as coisas que vivi até agora, me ensinaram a postura que tenho hoje. Mas tento fazer desta proteção uma armadura maleável. Quero ser permeada por idéias alheias, quero ser tocada quando menos espero. Quero me emocionar com ilusões e descobrir como é bom se deixar sonhar. Estou numa fase de decisões muito importantes. E tenho medo de me arrepender das escolhas. Mas estou aberta ao erro. Estou expondo as minhas fragilidades e sentimentos. Ando querendo mudar de casa. Estou procurando um lugar pra mim. E essa mudança abala estruturas, desmorona confortos. Essa mudança me arranca de dentro de um corpo sólido para me jogar no fundo de um poço de areia movediça. Instável. Quanto mais eu me mexo, mais impregnada fico. Quanto mais tento gritar, mais sufocada me sinto. Estou com as vísceras expostas, vou vagando por aí. Mas tenho comigo uma certeza inata. Tenho um tipo de sabedoria milenar. Por mais que a minha alma insista em vagar, por mais que o controle às vezes me falte, por mais perdida que eu pareça estar, tenho sempre um abrigo perfeito. Sempre algo ao alcance das mãos. Porque mesmo na confusão e na incerteza, mesmo na dúvida mais extrema, minha decisão sempre converge para a minha própria essência. Porque se tem um lugar que eu sempre me acho, mesmo quando não me procuro; porque se há um lugar seguro, esse lugar é dentro de mim.
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
Leitora desconhecida
Tenho uma leitora desconhecida. Na primeira vez que ela ousou comentar um texto, entrei em seu perfil e tentei traçar algum paralelo; procurei construir a ponte que, de alguma forma, nos unia. Foi em vão. Ao que me parece, não temos nenhum amigo em comum. Não acho que ela tenha descoberto o blog por indicação de alguém. Não sei como ela chegou até aqui. Mas ouso dizer que, de uns tempos pra cá, ela tem sido a minha leitora mais importante. Peço desculpas aos amigos assíduos, leitores por caridade e por identificação ao conteúdo. Adoro a presença de vocês. Mas essa leitora inusitada trouxe-me uma brisa fresca; um novo sopro de inspiração. Sua presença nesse universo intangível é prova de que as minhas letras não reverberam apenas no que é conhecido: ecoam pelas almas humanas perdidas neste mundinho virtual. Pelo que descobri, a leitora desconhecida também é atriz; brasileira, mas mora fora do país. Acho que o meu canto é bem ouvido pelos exilados. Acho que me identifico com quem sente saudades. Mas a estrada é longa, e ficaremos parados se, a todo o momento, olharmos pra trás. Pode ser que essa minha querida leitora nem seja a única desconhecida: essa maquininha que não pára de contar os acessos mostrou-me que há mais números do que os amigos; há mais rotatividade do que textos. Mas ela, apesar desta hipótese, é a única que dá as caras; que opina, que critica, que se mostra. E é também, conseqüentemente, a única que é ouvida. Foi a partir de seus comentários que comecei a me questionar sobre a particularidade do blog: será que este espaço é pessoal demais? Por outro lado, foi também a partir de seus pensamentos que percebi que toda singularidade encontra uma mão amiga em peito alheio. Não importa a partir de quê o texto foi criado. O que importa é que o texto diz coisas que às vezes nem eu mesma sei ouvir. Como escritora, sou também a minha primeira leitora. Mas sou uma leitora um pouco tapada, que às vezes perde a multiplicidade de possíveis interpretações. Os textos são o meu próprio umbigo; um rio calmo para Narciso. E é apenas através do olhar dos outros, que conseguimos construir a nossa própria imagem. E isso não é de minha autoria. Sartre mesmo já dizia. É por isso que adoro quando as pessoas comentam os textos. Textos sem comentários me parecem menores; insensíveis. Escrevo pra ser ouvida. E escrevo pra tirar daqui de dentro, coisas que não conseguem sair de outra forma. E é maravilhoso descobrir que não estou sozinha na minha solidão. Que há outras almas dividindo inquietações, que há outros abraços amigos que sentem saudades. Escrevo pra mostrar que eu sou boa, e pra provar que eu sou muito ruim. E escrevo pra ser criticada. Este texto, por exemplo, escrevi pra ela. Pra minha ilustre leitora desconhecida, que volta pelo meu bom humor, e pela minha “capacidade” de terminar na hora certa. Escrevi pra que ela saiba que eu também a leio – e que suas opiniões são importantes pra mim. E escrevi pra agradecer àqueles que gastam um tempo aqui, lendo as bobagens que eu escrevo, e fazendo delas uma parte de si. Obrigada! Aos conhecidos e aos desconhecidos. Escrevo porque não consigo cessar; mas é bom saber quem há quem se aproveite um pouco de mim. Bem-vindos. Peguem o que melhor lhes aprouver. E, se puderem, deixem um pouquinho de si! Eu adoro a riqueza da troca. E, sinceramente, ando precisando revirar o lixo alheio. Acho que estou começando a me tornar repetitiva...
quarta-feira, 29 de outubro de 2008
Homem Invisível
Era mau, o homem. Nunca aprendera a ser bom. Nascido sem pai nem mãe, era filho de um mundo cruel, saturado de desonestidades e perversões. Aprendera com a vida o preço de não morrer, e vendia aos inimigos uma máscara de quem não tem nada a perder. Refeições formais, nunca tinha feito. Banho de água quente, só quando era recolhido aos abrigos da cidade, de onde fugia assim que lhe fosse possível. Conseguira atravessar a adolescência sem nenhum percalço: orgulhava-se de nunca ter sido mandado aos temíveis reformatórios. Filho de chocadeira, tinha crescido na rua, entre jornais velhos, bêbados e prostitutas. Em várias ocasiões, apanhara de desconhecidos sem motivo algum; apenas por estar ali. Mas crescera sem mágoa dos pais: não tinha parentes, era filho daquele asfalto sujo, fedendo a mijo e creolina. Conhecera o sexo ainda cedo. Nas ruas, para adquirir respeito, é necessário usar a violência. Por isso, sua primeira transa havia sido forçada. Um garoto ainda sem barba, procurando o lugar onde enfiar o pau – enquanto a vadia, drogada, gritava; mais de loucura do que de rejeição. Nunca gostara de sexo. Naquela imundície que era seu mundo, o encontro entre dois corpos trazia à tona um cheiro quase insuportável. Mas não sonhava com a limpeza e o conforto: só se pode sonhar com aquilo que se conhece. E ele nunca conhecera outra vida que não aquela miséria. Para ele, carros e ternos faziam parte de um universo paralelo ao seu – um universo que ele não entendia, e pelo qual não se interessava. Toda a sua maldade era direcionada às pessoas como ele. Em sua ignorância e mediocridade, cobiçava cobertores furados e canecas de alumínio. Roubava apenas para comer. E mendigava de maneira amigável, como se daquele mundo perfumado só lhe interessasse alguns míseros trocados. Tinha aversão a pessoas: vivia sozinho. Quando o corpo lhe obrigava a procurar companhia, munia-se de seu pequeno canivete para evitar contratempos. Mas na maioria das vezes, encontrava mulheres sedentas e fartas de carnes em qualquer viaduto mal iluminado, ou beira de estrada vazia. Já havia se deitado com homens. Já participara de surubas apenas para aplacar o frio da noite. Não era imoral, era apenas amoral. Nunca soubera distinguir o certo do errado. O limpo do sujo. O medo da tristeza. Para ele, a vida era apenas o agora, com a barriga calma, esperando a fome – ou o sono – chegar. A vida se resume a isso: nutrir o corpo, e esperar a morte. Tinha vergonha de defecar em público, mas há tempos não tinha o prazer de utilizar uma privada. Escolhia cantos escuros, e se irritava sobremaneira quando era surpreendido em sua intimidade. Não sabia o significado da palavra “amigo”, mas dividia sua cachaça, às vezes, com um velho mais necessitado. Não era de se embriagar. Cola pra passar a fome, e aguardente pra esquentar o corpo – apetrechos necessários e acessíveis àquela vida de sarjeta. Não sabia quando tinha se tornado sozinho. Não se lembrava de nenhuma sensação de carinho ou proteção. Nunca soubera a diferença entre a vida e a morte. Para ele, a vida era uma linha infinita que se estendia entre o estômago, os sonhos e a temperatura. Uma linha traçada por alguma coisa que chamavam de Deus, e que ele não sabia o significado. Uma palheta de cores que ia de madrugada a madrugada. E que permeava aquela sua existência apagada, desgraçada, fedorenta. Menti. Não era mau, o homem. Ele não tinha classificação. Não possuía sentimentos. Ele era apenas mais um homem invisível, perdido nesse caos controlado que ousamos chamar de civilização.
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domingo, 26 de outubro de 2008
À toa
Depois de muito tempo, resolvi quebrar uma regra que eu mesma tinha me imposto, e fumei, na madrugada, dentro deste quarto, ainda iluminado. E que surpresa! Tinha me esquecido o quanto fumar a noite auxilia meus pensamentos. Esse relaxamento químico, ouso dizer, me traz inspiração. Mais uma vez, escrevo com música nos ouvidos. É um pouco estranha essa sensação de ser influenciada por palavras de dentro e de fora. Mas é bom. Hoje estou me permitindo a pieguice de fazer coisas ridículas. Nada como um novo teste. Tenho me irritado com os distúrbios de personalidade. Tenho sido muito fiel a mim. De uns tempos pra cá, decidi que dizer as coisas facilita um pouco as relações. Vivo, então, nessa nova versão ainda inacabada, que expõe suas fragilidades, e brinca de ser um pouco mais burra do que realmente é. Adoro deixar as pessoas me explicarem aquilo que já sei! Uma sensação maravilhosa de aprender de outro jeito, de desaprender, de se reciclar. Tenho guardado muito lixo inútil. Mas tenho descoberto sucatas interessantíssimas. Às vezes, nada melhor do que uma colcha de retalhos. Hoje recebi um telefonema tão querido, que estou me culpando pela desatenção. Quem sabe amanhã eu consiga criar um tempo que hoje me escapou. Hoje, também, faltei a um compromisso importante: um encontro conturbado com o outro lado desta minha mesma moeda. Queria ter comparecido, mas o tempo, como já disse, me escorreu por entre os dedos. Adoro perder essa noção. E gosto mais ainda de me perder neste tempo inexato, que cisma em passar cada vez mais depressa. A ampulheta continua sua contagem regressiva, rindo das nossas urgências e impaciências. Cada coisa em sua devida hora. E por favor: uma coisa de cada vez! Tenho mania de misturar tudo em taças longas, e beber de um só trago. Ando bebendo de menos. É da minha natureza, herança de família. Gosto de me embriagar de água nas madrugadas escuras, e acordar com ressaca de neosaldina. Tenho comido demais. Fico com um pouco de medo da indigestão – é fato – mas adoro a antropofagia. Tenho vomitado tudo o que não consegue se tornar parte de mim, e estou num processo intenso de análise e exorcismo do passado. E devo isso a uma conversa sincera, que resultou nesse turbilhão de questionamentos, e em alguns machucados nos cotovelos. Coisa pouca, perto do desentupimento de sinapses em estado quase vegetativo. Estou com preguiça de escrever textos longos. Eles se acabam quando o sorriso no rosto termina. Tenho feito coisas apenas pelo prazer. E deixarei de fazer coisas, em breve, por respeito a mim mesma. Estupros artísticos deixam marcas por toda a eternidade. Não preciso impressionar ninguém. Não quero orgulho, nem admiração alheios. Quero apenas a sinceridade daquela sala no primeiro andar, repleta de presentes sentados por todos os lados. Já ganhei muito nessa vida. Não tenho do que reclamar. Mas hoje, não vou falar de saudades. Estou grata por tudo que conquistei. Por cada telefone, nessa agenda cheia de olhos transbordantes e de braços ansiosos. Bem-vindos, amigos de outros tempos! Estou pronta pra recebê-los. Da minha maneira, é claro. Com uma ironia rasgada, e uma aversão aos costumes. Com um jeito diferente de abordar o mesmo tema. E com uma gargalhada contagiante de quem não faz a menor idéia do que acabou de dizer...
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sexta-feira, 24 de outubro de 2008
Diamantes de vidro
O beijo que não se pôde dar ficou guardado nas fantasias daquela menina, ainda jovem. Durante anos sonhou com um final diferente, com uma mudança repentina; que só era abafada pelo silêncio e pela indiferença. Durante anos se preocupou com o futuro, com a felicidade, com as mentiras. Mas de repente, o silêncio teve fim. E o que veio à tona foi uma amizade linda, transformada pelo passar do tempo. Aquele beijo guardado no peito tinha se transformado em um câncer benigno, em uma pequena pedra de amor. Com um pouco mais de tempo, soube lapidá-la em sua melhor forma, e ganhou um diamante perfeito, mais resistente do que a razão. A paixão transformada em amizade é uma das coisas mais bonitas de se ver. Quando já se viveu tudo, do ponto de vista amoroso; quando não há mais desejos e mistérios, a relação se torna sublime: o reconhecimento de duas almas. É como um suspiro profundo de amor, oxigenando cada célula da vida. Com essa amizade no peito, e o beijo, então resolvido, caiu de volta no mundo, depois de anos de clausura. Ainda desacostumada com as relações repentinas, pegou-se apaixonada sem mais nem por quê. De repente, vislumbrara o príncipe, num cavalo alado. Um príncipe real que, sem nenhum artifício, havia lhe tomado o chão. O chão e os pensamentos. Não conseguia esquecê-lo, não podia parar se lembrar. Ocupava o dia com coisas banais, lia artigos sem sentido, conversava como quem não presta atenção. E se sentia envolvida nessa névoa densa, fria e úmida, que lhe jogava de volta à ilusão. Estava criando um amor. Mas agora, com aqueles pequenos diamantes de amizade, sentia-se mais amparada para uma queda livre. Tinha mesmo vontade de se jogar. Questionava-se sobre a veracidade daquelas sensações: ela já havia fantasiado muito. Mas desta vez era diferente. Desta vez o racional havia sido posto de lado, e o que lhe sobrava era apenas um medo incontrolável, uma fobia deliciosa. Desde os tempos daquele beijo abafado que não sentia este frio na barriga. Desde aquele final sem fim, daquele samba sem bateria. Tinha medo de terminar assim: um esboço meio apagado, numa esquina de vida qualquer. Já havia perdido muito por medo de tentar. Já havia engolido palavras, sufocado frases, assassinado conversas. Tinha uma nostalgia do que não lhe ocorreu. Sentia saudades do que estava por vir. Mas estava presa em uma redoma escura, criada por coisas que ela mesma havia inventado. Era forte, a garota. Colocava o seu mundo para rodar num sorriso, numa prece. Mas não era de rezar. Por isso, custava a acreditar em sua capacidade, naquele olhar de lado e naquele sorriso. Às vezes, não era ela. Mas estava consigo, dentro de si. Num amor machucado, repleto de esperanças. O que lhe pertencia estava guardado. E a sensação de bailar em nuvens lhe trazia a excitação do que já está para acontecer. Estava solta no espaço, entregue às garras do vento. Mas ela gostava de voar, gostava dessa sensação. Só esperava, agora, o aval de quem tinha esse direito. Somos todos coordenados por sombras. Somos sempre impulsionados pela maré. Naquele dia, ela entraria no mar: para lavar a alma e celebrar a vida. Ela era só um sopro na boca do vento, uma marola, dançando no mar. Ela era o que era, e o que desejava. Era só e completa, lhe faltava um pedaço. Era tudo aquilo que ia buscar. Com diamantes num saquinho, e aquele olhar transbordante. Ela era a tormenta e a calmaria, juntas num mesmo oceano. Era o medo de si, e a coragem dos outros. Era o que tinha, e o que lhe faltava. Era apenas uma gargalhada, ecoando no ar. Permeada por lembranças de uma vida passada, e de sensações do que estava por vir. Era apenas um diamante bruto: um avesso e um reverso, brincando, faceiros, num jogo de acreditar.
terça-feira, 21 de outubro de 2008
Versado
Nem tudo que falo é verdade. Nem tudo que escondo é mentira. Nem tudo que gosto, tolero. Nem tudo que odeio transformo. Nem tudo que sinto é pecado. Em todo pecado, beleza. Nem tudo digo com clareza, nem clara me faço no escuro. Nem toda palavra é poesia; nem todo canto alegria; nem toda roda magia; nem toda amizade perdão. Nem tudo que vejo é o que há; nem tudo que há eu enxergo; às vezes não vejo, renego; às vezes não nego que vi. Às vezes me ponho a cantar, noutras me pego a sorrir, nalgumas vou desistir, mas volto pro mesmo lugar. Rodeio, encanto, esperneio. Eu gosto do centro, do meio. Me exibo um pouco, me encanto. E canto praquele que veio. Se há muitas pessoas, sucesso. Se há poucas pessoas, progresso. Cresço com o que me aparece. Apareço com aquilo que tenho. O que levo dentro, no fundo; não sei nem por um segundo. Vislumbro, prometo, atrapalho. Encalho no centro, no meio. E essa tal coisa de alma, mesmo privada de calma, mesmo bem no rebuliço, não perde a cor e o viço. Escrevo praquele que lê, atuo praquele que assiste, e mesmo no erro persiste a vontade de sempre acertar. Falo bobagens, besteiras. Escrevo pornografias, asneiras. Mas tiro de dentro de mim, essa coisa que pulsa lá dentro. E mesmo dormindo eu invento uma forma de nunca parar. Se agrado aos outros não sei. Não sei e não me interesso. Só sei que escrevo, me expresso, reciclando o lixo do dia. À noite, sonho acordado. De dia, vigília dormindo. Me perco em real e reverso. Encontro-me em algo diverso. As rimas me irritam, me espantam. Mas plantam em terra macia. E às vezes até a vadia, deve por fim descansar. E àqueles que não se acostumam à forma mudada, concisa, explico, de forma massiva: não tive a intenção de versar. Mas hoje carrego poesia na alma e no pensamento. E ela se escoa com o vento trazendo consigo harmonia. Seria um futuro brilhante se eu, esse ser inconstante, parasse agora um momento, e congelasse pra sempre esse vento. Com letras e delicadeza. Com flores e uma cantiga. Em qualquer conversa de amiga que a lágrima vem visitar. E com tenros olhos molhados, o fim vem impondo sua hora. Porque mesmo no brilho da aurora, há sempre a promessa do ocaso.
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domingo, 19 de outubro de 2008
Lobo de Deus
O Lobo Mau estava escondido debaixo da cama. No escuro. Chapeuzinho não sabia, coitada, mas sentia uma energia estranha no quarto. Embaixo de suas grossas colchas de veludo, Chapeuzinho suava de calor e de horror. Achava graça do filme apavorante, ao mesmo tempo em seus pelos se erguiam. Estava assustada, sem motivo. Sempre gostara dos filmes trash, de qualidade duvidosa. Muita groselha escorrendo como sangue, e maquiagens falsas que ela mesma saberia fazer. Já tinha feito aulas de maquiagem, ela. Ou vocês pensam que aquela roupinha vermelha é tendência? Nada disso. O modelito de capuz era apenas uma peça do figurino. Mas lhe rendera um apelido que levaria para toda a vida. Não ligava muito... Encarava como um nome artístico. Até que era bonitinho: Chapeuzinho Vermelho. Embora ela – em sua brancura de cera – detestasse vermelho. Ficava meio endiabrada. Assemelhava-se um pouco ao demônio. Mas ela era mesmo da pá virada. Depois da historinha infantil, já tinha se aventurado em filmes pornôs e histórias macabras. Gostava de denegrir a imagem de sua própria personagem. Sua menina dos olhos. Sob o tal codinome, atuou em várias peças publicitárias e produções de baixa renda. Dava pra pagar o aluguel. Mas Chapeuzinho já estava ficando velha. Aquele corpinho de criança magra só encantava ao Lobo Mau. Ah, o Lobo Mau. Eterno possessivo e apaixonado. Chamava-se Jeremias, na verdade. E não tinha conseguido sucesso na carreira embaixo daquela roupa toda. Poderia ter feito o personagem pelado: era coberto de pêlos. Teria tido mais sucesso, se assim tivesse sido. Mas o produtor não deixara. E Chapeuzinho odiava pêlos. Até que não era um mau sujeito, o Lobo Mau. Mas recusava qualquer possibilidade de depilação, o que enervara Chapeuzinho, e a fizera romper o conturbado relacionamento em caráter definitivo. Mas não se conformara, o Lobo Jeremias. Mandava flores, telefonava, enviava presentinhos duvidosos e cartas de mau gosto. Chapeuzinho nem ligava: depois dos filmes pornôs, vários admiradores lhe enviavam pornografias e declarações. Metade do que Jeremias escrevera estava junto com as cartas dos fãs, abandonadas num quarto escuro, sem previsão de leitura ou incêndio. Tudo jogado às traças. De tempos em tempo, o Lobo visitava a pequena Chapeuzinho. Escondia-se embaixo da cama, e ficava sentido o cheiro da amada. Cada movimento era uma surpresa, um delírio. Passava horas imóvel, apenas apreciando aquela presença. Desta vez, tinha-se decidido: sairia do anonimato, e conquistaria de vez o coração de Chapeuzinho. Para isso, até tinha sido flexível: aparara bastante os pêlos do corpo com uma maquininha de cabelo. Até a barba tinha feito. Um engano... Chapeuzinho adorava homens barbados! Na gritaria do filme b, Jeremias pensava na vida, e planejava cada detalhe de seu futuro amor perfeito. Coitado. Lá pelas tantas, um barulho de campainha. Era o Caçador, com uma barba espessa, um champanhe gelado e uns apetrechos sexuais. Em instantes, a gritaria da tela passara a parecer sussurro perto dos uivos da garota e de seu herói. A movimentação frenética do colchão deixara o Lobo desconfortável, quase espremido entre a cama e o chão. Com lágrimas nos olhos, Jeremias invejava a sorte do caçador – infinitamente mais bonito e viril que ele. Era mesmo uma vadia, a tal da Chapeuzinho. Com suas cantigas infantilóides e sua bondade fingida. Uma puta. Silenciosamente, o Lobo começa a se mover na escuridão do quarto, em busca da espingarda do caçador. Espingarda de dois tiros. Teria que escolher uma vida para salvar. Uma só, naquele triângulo de indiferenças e paixões. Mataria a todos, se tivesse oportunidade. Mas o caçador lhe negara a possibilidade do suicídio. Com o cano da espingarda, acende de repente a luz do quarto no momento de maior prazer do casal. Sem hesitar, atira cruelmente nos amantes: uma bala em cada cabeça. Eles caem mortos, com uma expressão assustadora de prazer e dor. Com cuidado, o Lobo afasta o Caçador, e beija, carinhosamente, o sexo de sua amada. Com as mãos, suja-se do sangue do casal, e rouba o figurino inesquecível, da fatídica peça infantil. Como um louco, sai pela rua com o rosto manchado de sangue e envolto na capa de cetim vermelho. Tem a alegria de uma criança grande, e a tristeza de um pequeno adulto. Pelas ruas, as pessoas se apavoram e se compadecem. Não há sentido na realidade nem na fantasia. É apenas um personagem de uma história sem futuro. Perdido no enredo criado por outrem. Um personagem inocente, segurando o peso das linhas tortas escritas por Deus.
sábado, 18 de outubro de 2008
O choro
É noite em Copacabana. No apartamento, sem água, duas cigarras gritam. A bagunça, inaceitável, se espalha pelos cômodos. Óculos jogados, copos sujos, roupas esquecidas. Não sabia como detestava a desordem. Seu espaço era sagrado. Não gostava de ceder lugar aos outros, e a falta de privacidade lhe doía na cabeça. Tinha se esquecido de como é viver junto, na falta de respeito. O respeito é fundamental – pensou. Mas nas relações de longo tempo ele se desfaz, como pequenas gotas enchendo uma banheira por anos. Um dia transborda. Estava impaciente: com a cidade, com os problemas, com as reclamações. Se não pode resolver, por favor não reclame! Quem não é dono dos problemas sempre tem alguma solução melhor do que a encontrada pelos donos, certo? Errado. Não passam de palpiteiros. Não entendia o porquê do convite. Tinha sido um erro, de fato. Mas já estava feito, só restava se divertir. O programa do dia tinha sido atropelado pelos imprevistos administrativos: nada que se pudesse prever. E agora, nesse silêncio pesado, sentia uma imensa falta da solidão. Gostava de se sentir sozinha, de se sentir em paz. Perto dos outros, os problemas ecoam. Eles são como paredes. Perdidos no espaço infinito, as preocupações só se manifestam quando são de fato importantes. Tinha saudades do pai. Amava-o tanto, com uma admiração tão profunda, que teve medo de nunca conseguir expressar-se corretamente. Ele não podia imaginar tudo o que fazia por ela. Era grata de uma maneira tão intensa e pura, que sonhava em poder, um dia, retribuir de forma adequada. Era uma fortaleza, o pai. Um rochedo, que apesar da força da maré, nem pensava em desmoronar. Tinha uma saudade intensa de quem tinha sido ao lado daquelas pessoas. Mas não o era mais. E o que se tornara era tão melhor, tão bem estruturado, que teve pena da transformação não ter sido feita em conjunto. Eles não entendiam. Olhavam a mulher, e enxergavam a menina. Assistiam às decisões como se fossem caprichos. Eles não podiam imaginar a vida que ela levava. Difícil, controlada. Estava cansada de viver dentro dos limites. Será que um dia ela teria o direito de se rebelar? Teve vontade de ser inconseqüente, pelo menos por uma vez. Nunca se dera ao direito. Todos os riscos que assumia eram extremamente bem calculados. Teve vontade de se jogar no abismo por pelo menos uma vez. De infringir a lei, de se envergonhar. Quis ter uma ressaca moral que lhe mantivesse embaixo do edredom por dias. Mas era certinha. Honestinha. Caretinha. Quis se endividar, fazer compras, se divertir! Precisava comprar tanta coisa... Não agüentava mais as mesmas roupas no espelho, os mesmos tênis fedendo a mofo, os velhos celulares descascados e interrompidos. Não estava feliz fazendo comédia. Não estava achando graça. Mas tinha vendido sua arte. Vendido por umas cervejas e uma pequena dose de adrenalina. Estava gostando de se fuder, no pior dos sentidos. Queria se estrepar, pra mostrar a todos o quanto era fracassada; o quanto tinha dado errado. Voltava tarde da noite, pelas ruas escuras e desertas; nos ônibus cheios de marginais; tentando acordar do pesadelo, tentando se encontrar no barulho das buzinas. Estava insegura, a atriz. Não queria ser um fardo pra ninguém. Vergonha, prejuízo. Não tinha vergonha de suas escolhas, nem de suas dificuldades. Para si, achava até interessante o momento, o aprendizado, a estrada. Mas estava cansada de lhe jogarem na cara o seu insucesso financeiro. Dinheiro é tudo? É? Quer saber: ela era bem mais feliz quando gastava menos e sorria mais. O dinheiro só é bom, quando é fonte de inspiração...
quarta-feira, 15 de outubro de 2008
Papéis
Uma folha de papel em branco perdida no meio da rua vazia. Voando, por entre os ruídos da brisa e o calor da fumaça. A folha branca, que escurece ao longo da vida, tornando-se negra nas pontas, quebradiça. Papéis... Cartas esquecidas no fundo das gavetas, ou queimadas em acessos de raiva. Pedidos escritos em um dia 31 e jogados ao mar. Receitas, recados. Números aleatórios, telefones, informações. Pequenos pedaços de informações que se perdem ao longo do tempo. Papéis esquecidos que não fazem sentido depois de algum tempo. Tenho revisitado papéis. Papéis intangíveis e imaginários, que constroem grão a grão esse meu castelo de areia. Papéis que formam janelas e portas, e brisas e suspiros. Principalmente suspiros... Tenho me encontrado nessa multidão de letras. Tenho achado um pouco de mim. Um eu que já não existe, um eu que se transformou, um eu que se repete. Papéis são pequenas lágrimas coloridas com canetas bic.
**********
Correu pela rua assustado, procurando o que havia perdido. Empurrou pessoas, falou palavrões, e nem assim encontrou. Demorou a aceitar, mas depois de algum tempo, acabou sentando-se na calçada para avaliar o tamanho do prejuízo. Nenhum – pensou. Tinha se exaltado demais. Não era como perder a aliança... Não havia prejuízos; apenas uma fugidia sensação de tolice. Bobagem! Sorriu internamente, como ri quem já não tem o que explicar. Estava feliz. Passeou por entre os carros, tentando esquecer pensamentos que cismavam em lhe ocorrer. Queria o vazio. Já havia perdido, não havia como voltar. Telefonou para um amigo: não tinha nada a dizer. E nessa imbecilidade, resolveu se implicar. Nada como um belo dia de sol pra enlouquecer as cabeças confusas. Foi gastar a sola do sapato, e o resto das moedas que lhe pesavam o bolso. Com um sorvete nas mãos, lembrou da antiga bicicleta, reformada pelo pai, e presenteada ao sobrinho. A gente vai e as coisas sobram. O pai já havia morrido. De enfarte, de derrame, de tristeza. Estava vivo ainda, mas era melhor que não estivesse. As lembranças do pai sempre lhe povoavam a cabeça. A noite começou a cair. Faróis na vinda, freios na ida. A maresia como uma lama encobrindo o universo. Fumaça. Com as mãos meladas, pensou em correr. Mas os sapatos lhe doíam os pés. Pretos. Os pés suados do calor. Nada como um dia quente. As luzes do trânsito invadindo os pensamentos que ele tentava tirar da cabeça. A cabeça doendo pelo calor. As pernas suadas, os braços. Uma saliva espessa ocupando a boca. Estava salgado, o verão era assim. Com a buzina nas orelhas, pensou se conseguiria reconquistar o que perdera. Telefones não são fáceis de encontrar. Cogitou a possibilidade de reencontrar aquela moça. De óculos, interessante. Queria aquela moça que lhe abordara tão gentilmente, com um sorriso no rosto e aquele papel na mão. Onde estaria o papel? Pensou no porquê de não ter aceitado o convite, no motivo de não ter ido ao encontro da moça. Não sabia se ela era comprometida. Com o moço de cabelos loiros. Mas pensava na moça, e no telefone perdido. Talvez nunca mais voltasse a se achar, como se achara naquele par de óculos. Perdido por entre as mesas do bar, observando só ele. Com um sorriso no rosto, e aquele papel na mão, sonhado. Papéis são pequenas esperanças, manchadas pelo passar do tempo.
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Correu pela rua assustado, procurando o que havia perdido. Empurrou pessoas, falou palavrões, e nem assim encontrou. Demorou a aceitar, mas depois de algum tempo, acabou sentando-se na calçada para avaliar o tamanho do prejuízo. Nenhum – pensou. Tinha se exaltado demais. Não era como perder a aliança... Não havia prejuízos; apenas uma fugidia sensação de tolice. Bobagem! Sorriu internamente, como ri quem já não tem o que explicar. Estava feliz. Passeou por entre os carros, tentando esquecer pensamentos que cismavam em lhe ocorrer. Queria o vazio. Já havia perdido, não havia como voltar. Telefonou para um amigo: não tinha nada a dizer. E nessa imbecilidade, resolveu se implicar. Nada como um belo dia de sol pra enlouquecer as cabeças confusas. Foi gastar a sola do sapato, e o resto das moedas que lhe pesavam o bolso. Com um sorvete nas mãos, lembrou da antiga bicicleta, reformada pelo pai, e presenteada ao sobrinho. A gente vai e as coisas sobram. O pai já havia morrido. De enfarte, de derrame, de tristeza. Estava vivo ainda, mas era melhor que não estivesse. As lembranças do pai sempre lhe povoavam a cabeça. A noite começou a cair. Faróis na vinda, freios na ida. A maresia como uma lama encobrindo o universo. Fumaça. Com as mãos meladas, pensou em correr. Mas os sapatos lhe doíam os pés. Pretos. Os pés suados do calor. Nada como um dia quente. As luzes do trânsito invadindo os pensamentos que ele tentava tirar da cabeça. A cabeça doendo pelo calor. As pernas suadas, os braços. Uma saliva espessa ocupando a boca. Estava salgado, o verão era assim. Com a buzina nas orelhas, pensou se conseguiria reconquistar o que perdera. Telefones não são fáceis de encontrar. Cogitou a possibilidade de reencontrar aquela moça. De óculos, interessante. Queria aquela moça que lhe abordara tão gentilmente, com um sorriso no rosto e aquele papel na mão. Onde estaria o papel? Pensou no porquê de não ter aceitado o convite, no motivo de não ter ido ao encontro da moça. Não sabia se ela era comprometida. Com o moço de cabelos loiros. Mas pensava na moça, e no telefone perdido. Talvez nunca mais voltasse a se achar, como se achara naquele par de óculos. Perdido por entre as mesas do bar, observando só ele. Com um sorriso no rosto, e aquele papel na mão, sonhado. Papéis são pequenas esperanças, manchadas pelo passar do tempo.
domingo, 12 de outubro de 2008
Sobre os incompetentes
Se há uma coisa que me irrita na vida é trabalhar com gente incompetente. Os incompetentes são seres gelatinosos e borrachudos que, não raramente, colocam a culpa de suas incapacidades nas costas de outras pessoas. Para os incompetentes, sempre há algum empecilho responsável pelo seu mau desempenho. Há sempre uma fatalidade, uma eventualidade, uma contingência. Incompetentes são invasivos. E críticos por excelência. Para eles, nada melhor do que futricar a sua vida e descobrir suas fragilidades. Eles sabem que num momento de extrema necessidade, poderão usar essas falhas contra você. Porque os incompetentes são, em geral, vingativos. Mais mal-amados e carentes do que vingativos. Mas um carente ofendido, ferido em seu brio, normalmente visa um megalomaníaco troco, de preferência em moeda de maior valor. Outra coisa sobre os incompetentes, é que eles se acham competentes em diversas áreas: são cozinheiros, pintores, jornalistas, músicos, escritores, farmacêuticos, filósofos, cineastas, atores, economistas, motoristas, atletas, cantores, professores, dançarinos, malabaristas, políticos, e pegadores – tudo ao mesmo tempo! Eles julgam que suas incursões por várias áreas do conhecimento se devem à sua grande versatilidade, e não à sua falta de real destaque em uma delas. Uma pessoa que reunisse todos os talentos que os incompetentes julgam ter, seria, na verdade, um pequeno gênio. Digno de admiração e reverência. Mas os incompetentes, gelatinosos e borrachudos, nos causam, na verdade, um certo enjôo. Náuseas. Eles são como gosmas nojentas, que grudam em nossos sapatos, e vão nos acompanhando durante a vida. E a caminhada é longa. Dia após dia, aquele chiclete vai nos enervando, nos impedindo de prosseguir mais rápido. Incompetentes têm o dom de atravancar a vida dos outros. São responsáveis por inomináveis dores de cabeça – pras quais eles mesmos receitam remédios. Causam doenças estomacais, crises nervosas, distúrbios de humor. Os incompetentes estão espalhados por todos os lugares. São como baratas, resistentes. Não adianta destruir um: sempre haverá outro para ocupar o seu lugar. Uma grande dedetização de incompetentes, só nos fará deixar de percebê-los por algum tempo. Mas eles estarão sempre lá: escondidos embaixo dos móveis, se movendo rápidos pelas paredes. Nos observando; nos vigiando; sempre prontos a interromper nossa produtividade em prol de uma bobagem qualquer. Porque incompetentes sempre julgam seus problemas maiores do que os dos outros. E estão sempre delegando! Incompetente que é incompetente, está sempre te pedindo pra fazer alguma coisa: dar um telefonema, mandar um e-mail, confirmar uma reunião... Tenho a impressão de que nas grandes companhias, se todos os incompetentes fossem mandados embora, os competentes, auxiliados pelos funcionários medianos, dariam conta de todo o trabalho em um tempo talvez menor. Porque os incompetentes estão sempre botando água no feijão. Adiando decisões, dificultando comunicações, perturbando. O que poderia facilmente ser resolvido por um telefonema, para os incompetentes se transforma em correntes de e-mail, spams, malas diretas, mensagens de texto, cartas via sedex e código Morse. Tudo na rapidez da lentidão. Mas definitivamente, o que mais me irrita nos incompetentes é a sua particular calma. Estão sempre nos olhando com aquela cara de pamonha, como se não entendesse o porquê de nosso desespero. Parecem zombar da nossa falta de paciência, com aquele olhar plácido de quem não sabe o que está fazendo de errado. São carentes os incompetentes, já disse. E devo admitir: são, em sua maioria, bem-intencionados. Sua falta de praticidade e objetividade se deve a um desarranjo universal, cósmico, divino, que vai além de sua boa vontade. Um incompetente bonzinho é digno de pena. Mas não tem salvação: eles são irremediáveis. A não ser em casos isolados, nos quais a mudança da área de atuação os torna brilhantes! Os incompetentes podem apenas ser aqueles que ainda não se encontraram. O que não justifica o fato de nos fazerem perder a paciência. Incompetentes são irritantes, são enervantes, são gosmentos. Eu, hoje, estou coberta por essa baba espessa, tentando, a todo custo, dar um passo à diante. Mas se você quer saber, acho que vou radicalizar! Nada melhor do que tirar os sapatos...
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quarta-feira, 8 de outubro de 2008
Notícias para uma miguxa
Miguxa, querida! Sei que você se preocupa com a minha felicidade – ou a falta dela – nessas minhas aventuras no país das maravilhas. E é por isso que te escrevo hoje. Escrevo pra contar que estou ótima. Com saudades, é claro. Mas muito feliz, como há tempos não me sentia. O motivo? Não há motivos, apenas um brilho diferente nos olhos. Acho que virei mulher. Sabe assim? De uns minutos pra cá? Percebi que está tudo dando tão certo, que estou tão adaptada aqui, que tenho a minha vida independente – embora ainda dependa de dinheiro alheio – mas que isso também é uma contingência passageira, que não deve durar muito mais tempo. Descobri que sou nova ainda, muito nova, e devia parar de me cobrar tanto. Talvez esteja assim porque errei. Profissionalmente, ontem não fui muito bem sucedida em uma das minhas apresentações, o que me deixou, na verdade, ótima! Nada como aprender com os erros. Na verdade, nada como lembrar que errar não é tão mal assim. Todo mundo erra. O tempo todo. E como é divertido dar a cara à tapa! Lembrei-me, de certa forma, dos motivos que me trouxeram aqui. E arriscar-me mais foi, com certeza, um deles. Estou feliz, amiga. E tenho saudades. Cortei os cabelos. Ficou bonito, você ia gostar. Está me dando um certo trabalho, é verdade, mas está mais leve. Combinando com esta minha nova cara. Uma nova roupagem. O cigarro? Ainda não consegui largar. Mas estou mais satisfeita com a nossa relação agora. Um pouco mais esporádica e menos necessária. Não sei se acredito no fim definitivo, mas tenho fé no ‘um dia depois do outro’. Esse prazer misturado ao vício é sempre complicado. Fui ao cinema hoje. Por aqui, está tendo festival de cinema, você deve saber. Não tenho assistido muitas coisas, confesso. Mas hoje vi dois documentários: um curta e um longa. Dois artistas. Dois filmes inspiradores. Estou com saudades dos amigos. Convide-os para uma cerveja, e façam um brinde por mim. Mas só os amigos. Os bons amigos. Tenho lembrado muito de vocês. Acho que não falo muito sobre o quanto vocês são importantes para mim, né? Mas são. Muito. Amo vocês de um amor tão puro e sincero, que choro, com um sorriso no rosto. Amo vocês porque nada nos prende, e ainda assim estamos juntos, mesmo na distância. Amo vocês porque sempre que tenho uma novidade é pra vocês que penso em contar. É a reação de cada um que me vem à memória. São os sorrisos que vivemos juntos, as lágrimas, as bebices. Tenho saudades da bagaça também, mas tenho me encontrado por aqui. Em algumas esquinas, alguns olhares. Estou feliz, amiga. Eu estou me dando a oportunidade de tentar e conseguir. De tentar e fracassar. De fazer a minha parte. E embora eu tenha que me distanciar de vocês para fazer isso, está me valendo muito a pena. Agora estou procurando apartamento, chatice que tem me tomado boa parte do tempo. Mas não reclamo. Estou doida pra encontrar um logo, pra que vocês possam vir passar o final de semana comigo. Mas por enquanto só tenho achado velharia. Com calma. Um dia depois do outro, lembra? Como a máxima do A.A.. Tenho bebido bem pouco, falando nisso. A cerveja aqui não tem a mesma graça que a daí. Deve ser a companhia... E champanhada, por aqui, é coisa impossível. Você tem andado um pouco relapsa também! Mandei um e-mail te cobrando as fotos de quando vocês vieram aqui, e nada! Nem resposta. Se puder, escreva-me. Quero notícias da nossa querida trupe e da senhorita. Avise ao marido para se preparar: nem estou reclamando muito, ele vai estranhar. E por favor, da próxima vez que eu aparecer na terrinha, quero um evento exclusivo no seu ap mal-assombrado! Desta última vez nem conseguimos botar as fofocas em dia adequadamente. Bom, é mais ou menos por aí. Escrevi só porque a saudade doeu, e porque quando escrevo, você costuma responder. Escrevi porque estou feliz, e queria que você também estivesse. Escrevi porque eu acho que a gente é parecida, e hoje eu descobri que preciso me cobrar menos. E talvez a minha descoberta valha para você também. Então escrevi para te lembrar! Não se cobre tanto, miguxa. A vida não é tão chata quanto a gente pinta. Ela é leve, como bolinhas de sabão – que podem estourar a qualquer momento. Aproveite seu dia. Aproveite a vida. Somos novas ainda, com milhares de coisas pela frente. Permita-se errar. Na nossa idade, ainda dá tempo de consertar, caso a gente queira. Só tente não magoar as pessoas – pelo menos não as importantes. Eu, por aqui, tenho tentado fazer dessa forma, e tem funcionado muito bem. Se quer uma sugestão, corte os cabelos. Às vezes, eles são um peso desnecessário nas nossas vidas. E nada melhor do que uma cara nova. Sorria amiga! Estou morrendo de saudades. Mas estou feliz, como há tempos não ficava. Sinto falta de vocês. Mas estou tão bem que me sinto perto. Espero que vocês também estejam por aqui. Próximos. Em paz. Estou com saudades. E estou feliz; radiante. Beijos.
terça-feira, 7 de outubro de 2008
Umbigo
Corre que o mundo te espera! – disse o diabo ao umbigo. E o umbigo lá, pra dentro, escondido. O umbigo guardado, enrustido, com vergonha de se exibir. Até que um dia teve uma hérnia, que o jogou mundo adentro. Arregaçado, dolorido. E ele foi, sem ter qualquer alternativa. Jogou-se no mundo, o danado do umbigo. E foi feliz. Roçou outras tantas barrigas que jamais pensara em encostar; entrou em lugares desconhecidos, ficou submerso em água. E gostou. Nem de longe, havia pensado que ser umbigo era tão divertido. Desfrutou de pontos de vista quase únicos, brincou com membros avantajados, melecou-se de baba que caía do alto. E se escondeu, novamente, em seu buraco esconderijo. Passou lá dentro dias e dias refletindo sobre a esbórnia vivida. E decidiu-se pela clausura. Sentiu-se pecador. Por anos e anos, rezou em sua escuridão silenciosa, pedindo perdão por suas falhas e pecados. Até que ficou velho, e uma nova hérnia lançou-lhe novamente no mundo. Estava diferente, este mundo. Muito mais interessante e pecaminoso. Divertiu-se, se esbaldou. Arrependeu-se a cada minuto de um arrependimento delicioso, com gosto de quero-mais. Lambuzou-se de maneiras inomináveis, até que uma infecção generalizada levou-o à morte. Depois de carcomido pela terra, chegou ao além. Procurou deus, na esperança de redimir-se e alcançar o descanso eterno. Mas deus era cruel, com suas barbas longas, e suas feições arianas. Ofereceu-lhe como opção uma joelheira de milho, e milhões de orações, que deveriam ser repetidas por toda a eternidade. Esta era a paz eterna: ao lado direito de deus, com os joelhos no chão, entoando cânticos em seu louvor. Encolheu-se novamente, para dentro de seu buraco sombrio, o umbigo. E decidiu espairecer, antes de entregar-se a seu eterno calvário. Avistou, porém, o danado do diabo, a fumar um cigarrinho de palha em uma cadeira de balanço. Velho, negro, com os cabelos grisalhos e um sorriso bondoso, o demo lhe disse: faze o que quiseres, meu filho! isso não passa de uma eterna ilusão. E o umbigo, satisfeito pôs-se a manejar o fumo de rolo, para seu prazer relaxante, que duraria milênios. Travestido, o diabo tornou-se deus, e o próprio deus desceu ao inferno, queimando em longas labaredas, que aqueciam suavemente a brancura das nuvens. Moral da história: nem tudo que reluz é ouro. Ou: por fora, bela viola...
Divirtam-se!
Divirtam-se!
segunda-feira, 6 de outubro de 2008
Conversa entre a empregada e a atriz
- Dona Sônia, a senhora é atriz?
- Sou sim, Iolanda, por que?
- Nada não, dona Sônia, só queria saber.
(Tempo)
- Ô dona Sônia, se a senhora é atriz, por que que eu nunca vi a senhora na televisão?
- É que eu sou formada em teatro, Iolanda, ainda não fiz nada na televisão.
- Ah... e pode ser atriz sem fazer televisão?
- (se irritando) Claro que pode, não é, Iolanda. A Marília Pêra, por exemplo, trabalhou anos no teatro antes de ir pra televisão.
- Eu adoro a Marília Pêra. Ela tem um jeito engraçado, né?
(Silêncio. Tempo.)
- Ô dona Sônia, desculpa perguntar, mas a senhora trabalha no teatro também? É que eu passo aqui o dia todo, todo dia, e a senhora sempre na frente desse computador.
- É que agora eu tenho um site na Internet. E fico escrevendo textos pra ele.
- Mas depois que eu vou embora a senhora vai pro teatro?
- Vou não Iolanda. Eu não estou em cartaz.
- É mesmo? E quando que a senhora vai estar em cartaz? É que eu tenho uma sobrinha, a Luana, que é doidinha pra entrar na televisão. Quem sabe eu não levo ela pra assistir a peça da senhora, e um olheiro da globo não descob...
- Não sei quando vou estar em cartaz, Iolanda. Além do mais, essa coisa de olheiro é história pra boi dormir!
- Não é nada. Lá no meu bairro tem uma menina...
- Iolanda, você está me atrapalhando.
- Ai, desculpa, dona Sônia. O que é que a senhora está escrevendo aí?
- Até agora nada. Você não pára de falar na minha cabeça. Não to conseguindo escrever.
- Escreve sobre o doutor Marcelo.
- Escrever o que sobre o Marcelo, Iolanda?
- Sei lá, ele não é marido da senhora? Escreve como vocês se conheceram. Já sei, escreve sobre a viagem que ele está fazendo!
- E eu lá vou saber escrever sobre a viagem dele, criatura?
- É mesmo, dona Sônia... Não tinha pensado nisso... Muito ruim o marido da senhora. Tirou férias, arrumou mala, e largou a senhora pra trás!
- É a modernidade, Iolanda. O dinheiro só dava pra um viajar.
- Mas precisava ir lá pra Europa? Podia ter viajado com a senhora pra Salvador.
- A gente já foi à Salvador milhões de vezes, Iolanda. E além disso, ele não podia perder a oportunidade de ir pra Europa só porque eu não tinha dinheiro pra ir com ele.
- Gente rica é engraçada! Ai do Genésio se ele viajasse e me deixasse pra trás. Enchia ele de chifre.
- É...
- Por que que a senhora não arruma um homem bem bonito, hein, dona Sônia? A senhora é tão linda... Se bem que melhor que o doutor Marcelo vai ser difícil de arrumar.
- Ta bom, Iolanda. Agora me dá um tempo que eu preciso escrever.
- É mesmo, desculpa. A senhora tem que escrever... (tempo) Ôô, dona Sônia, já que a senhora não ta fazendo peça, por que é que a senhora não faz um livro? Podia ganhar um dinheiro...
- Não tenho o menor talento pra escritora.
- Mas a senhora passa o dia todo escrevendo nesse computador!
- Escrevo bobagens, só pra me distrair...
- E peça, a senhora também faz pra se distrair?
- Claro que não criatura. Fazer peça é o meu trabalho.
- E por que não ta trabalhando então?
- Porque eu to desempregada, Iolanda, será que você não entende?
- Pra falar a verdade, não entendo não. Eu, se tivesse o dom que a senhora tem com as palavras, já tava era montada no dinheiro, cheia dos livros vendidos.
- E como é que você sabe que eu tenho dom com as palavras, criatura?
- Dá pra ver até pelos bilhetinhos que a senhora deixa pregado na geladeira!
- Iolanda! Deixa de ser boba!
- Um dia, quando fui lavar uma camisa do doutor, encontrei um bilhete da senhora no bolso. A senhora falava cada coisa... até eu fiquei com vontade de ligar pra senhora!
- Iolanda! Essa conversa ta ficando muito estranha... você não tem nada pra fazer na cozinha não?
- Eu ia fazer almoço, mas a senhora me dispensou...
- Podia fazer um bolo.
- Eu não! Se fizer, a senhora vai me xingar a semana toda que ta comendo o bolo sozinha, que vai virar uma baleia...
- Tem razão...
- Vai por mim, dona Sônia! Com esses escritos da senhora, a senhora podia lançar um livro! Até eu podia... se eu juntasse todas as receitas que eu já anotei na vida, ia escrever um baita livro de culinária!
- Não tenho talento pra escrever, Iolanda, já disse. Agora me deixa em paz...
- Artista é tudo engraçado. Ta desempregada, trabalhando igual uma doida, e com vergonha de ganhar dinheiro... Ah, se eu fosse a mãe da senhora! Roubava esse computador e vendia esses textos todinhos! A senhora ia rachar de ganhar dinheiro. Até o doutor Marcelo, que vive implicando com a senhora, ia...
- De chocolate, Iolanda! Quero o bolo de chocolate. Aquele, com brigadeiro no meio. E com bastante cobertura!!!
- É por isso que Deus não dá asa a cobra... ai se eu fosse a senhora...
(Iolanda sai. Sônia volta a escrever no computador. Pára. Pega o telefone e liga pra Marcelo)
- Amooor, por que é que a gente não foi pra Salvador??? (chora).
- Sou sim, Iolanda, por que?
- Nada não, dona Sônia, só queria saber.
(Tempo)
- Ô dona Sônia, se a senhora é atriz, por que que eu nunca vi a senhora na televisão?
- É que eu sou formada em teatro, Iolanda, ainda não fiz nada na televisão.
- Ah... e pode ser atriz sem fazer televisão?
- (se irritando) Claro que pode, não é, Iolanda. A Marília Pêra, por exemplo, trabalhou anos no teatro antes de ir pra televisão.
- Eu adoro a Marília Pêra. Ela tem um jeito engraçado, né?
(Silêncio. Tempo.)
- Ô dona Sônia, desculpa perguntar, mas a senhora trabalha no teatro também? É que eu passo aqui o dia todo, todo dia, e a senhora sempre na frente desse computador.
- É que agora eu tenho um site na Internet. E fico escrevendo textos pra ele.
- Mas depois que eu vou embora a senhora vai pro teatro?
- Vou não Iolanda. Eu não estou em cartaz.
- É mesmo? E quando que a senhora vai estar em cartaz? É que eu tenho uma sobrinha, a Luana, que é doidinha pra entrar na televisão. Quem sabe eu não levo ela pra assistir a peça da senhora, e um olheiro da globo não descob...
- Não sei quando vou estar em cartaz, Iolanda. Além do mais, essa coisa de olheiro é história pra boi dormir!
- Não é nada. Lá no meu bairro tem uma menina...
- Iolanda, você está me atrapalhando.
- Ai, desculpa, dona Sônia. O que é que a senhora está escrevendo aí?
- Até agora nada. Você não pára de falar na minha cabeça. Não to conseguindo escrever.
- Escreve sobre o doutor Marcelo.
- Escrever o que sobre o Marcelo, Iolanda?
- Sei lá, ele não é marido da senhora? Escreve como vocês se conheceram. Já sei, escreve sobre a viagem que ele está fazendo!
- E eu lá vou saber escrever sobre a viagem dele, criatura?
- É mesmo, dona Sônia... Não tinha pensado nisso... Muito ruim o marido da senhora. Tirou férias, arrumou mala, e largou a senhora pra trás!
- É a modernidade, Iolanda. O dinheiro só dava pra um viajar.
- Mas precisava ir lá pra Europa? Podia ter viajado com a senhora pra Salvador.
- A gente já foi à Salvador milhões de vezes, Iolanda. E além disso, ele não podia perder a oportunidade de ir pra Europa só porque eu não tinha dinheiro pra ir com ele.
- Gente rica é engraçada! Ai do Genésio se ele viajasse e me deixasse pra trás. Enchia ele de chifre.
- É...
- Por que que a senhora não arruma um homem bem bonito, hein, dona Sônia? A senhora é tão linda... Se bem que melhor que o doutor Marcelo vai ser difícil de arrumar.
- Ta bom, Iolanda. Agora me dá um tempo que eu preciso escrever.
- É mesmo, desculpa. A senhora tem que escrever... (tempo) Ôô, dona Sônia, já que a senhora não ta fazendo peça, por que é que a senhora não faz um livro? Podia ganhar um dinheiro...
- Não tenho o menor talento pra escritora.
- Mas a senhora passa o dia todo escrevendo nesse computador!
- Escrevo bobagens, só pra me distrair...
- E peça, a senhora também faz pra se distrair?
- Claro que não criatura. Fazer peça é o meu trabalho.
- E por que não ta trabalhando então?
- Porque eu to desempregada, Iolanda, será que você não entende?
- Pra falar a verdade, não entendo não. Eu, se tivesse o dom que a senhora tem com as palavras, já tava era montada no dinheiro, cheia dos livros vendidos.
- E como é que você sabe que eu tenho dom com as palavras, criatura?
- Dá pra ver até pelos bilhetinhos que a senhora deixa pregado na geladeira!
- Iolanda! Deixa de ser boba!
- Um dia, quando fui lavar uma camisa do doutor, encontrei um bilhete da senhora no bolso. A senhora falava cada coisa... até eu fiquei com vontade de ligar pra senhora!
- Iolanda! Essa conversa ta ficando muito estranha... você não tem nada pra fazer na cozinha não?
- Eu ia fazer almoço, mas a senhora me dispensou...
- Podia fazer um bolo.
- Eu não! Se fizer, a senhora vai me xingar a semana toda que ta comendo o bolo sozinha, que vai virar uma baleia...
- Tem razão...
- Vai por mim, dona Sônia! Com esses escritos da senhora, a senhora podia lançar um livro! Até eu podia... se eu juntasse todas as receitas que eu já anotei na vida, ia escrever um baita livro de culinária!
- Não tenho talento pra escrever, Iolanda, já disse. Agora me deixa em paz...
- Artista é tudo engraçado. Ta desempregada, trabalhando igual uma doida, e com vergonha de ganhar dinheiro... Ah, se eu fosse a mãe da senhora! Roubava esse computador e vendia esses textos todinhos! A senhora ia rachar de ganhar dinheiro. Até o doutor Marcelo, que vive implicando com a senhora, ia...
- De chocolate, Iolanda! Quero o bolo de chocolate. Aquele, com brigadeiro no meio. E com bastante cobertura!!!
- É por isso que Deus não dá asa a cobra... ai se eu fosse a senhora...
(Iolanda sai. Sônia volta a escrever no computador. Pára. Pega o telefone e liga pra Marcelo)
- Amooor, por que é que a gente não foi pra Salvador??? (chora).
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
Tempestade de palavras
Estou inundada de palavras. Elas me preenchem, me completam. Posso vomitá-las, se quiser. Mas por enquanto, tento digeri-las e transformá-las em material orgânico. Adoro esse processo de transformação. Hoje as palavras me saem dos dedos, e não da mente, como há muito tempo não acontecia. O resultado dessa freneticidade só vai ser avaliado ao final da epilepsia. Ouço música enquanto escrevo. Coisa inédita. Vozes ecoando na minha cabeça com mais palavras. Palavras decoradas ao longo do dia tentando se fixar nesse pequeno pedaço intangível; palavras que disse e que deveria ter dito vagando pelo meu corpo. As palavras nadam, divertem-se. Ainda não sei bem qual é a intenção delas. Algo devem estar tramando. E parece que estão seguras de seu plano, pois os dedos se movem com agilidade sobre o teclado. Deliciam-se. São como crianças aprendendo novas brincadeiras, lambendo bolas de sorvete. Ávidas. Tenho um sorriso no rosto. Ando com esse sorriso. Ainda não sei também o seu significado, mas tenho uma ótima sensação. Parece que as coisas estão, enfim, chegando em seu devido lugar. Nada de novidades, devo dizer. Só uma atmosfera interessante, etérea, engraçada. Estamos nos divertindo. Eu e os meus. Estamos brincando juntos de nos conhecer, de nos ajudar. A gente sabe que forma uma boa equipe, mas a gente sempre teve medo de se atrapalhar. Eu a eles e eles a mim. Agora trabalhamos juntos, ainda sem conversar diretamente. Neste exato momento, eles me ajudam. São uma ponte entre as profundezas do meu ser e a tela desse computador. Querido, necessário, companheiro. Descobri que uma máquina, às vezes, pode ser necessária como um amigo a um ser humano. Minha análise, faço nessas linhas. Falo sem pensar, escrevo num brainstorm, na velocidade das minhas inquietações. A saudade se manifesta, as melancolias se mostram, as vergonhas se desnudam. Mostro-me. E me escondo, obviamente. Quem pensa que ao ler essas linhas se aproxima de mim, engana-se. Redondamente. Nunca sou pura nos caracteres. Sou muitas, e os filtros aqui são inúmeros. Adoro estar do outro lado dessa tela retangular, com ícones tão perfeitos e cheios de significado. Com pequenos desenhos sem nexo que formam um sentido completamente lógico na cabeça dos olhos que os acompanham. O ser humano é mesmo espetacular. Na minha cabeça, limitando todos os outros sons do mundo, um zé pretinho qualquer. Animado, dançante, crioulo. Fazendo a mediação do que eu sei e do que eu desconheço. Do que esta dentro, mas me foge ao domínio. Uma vontade absurda de transformar-me em água; de liberar um peso que já não me é mais necessário. As prioridades se confundem nesse descontrole. Ainda não sei o que quero. Mas quero demais. Quero sempre e quero agora. Permeada por todos os que passaram antes de mim, vou seguindo o caminho. Cada um faz o seu. As pedras e os buracos, tratemos de ultrapassá-los. Afinal, o que seria de nós sem a pior parte? É no fundo escuro do poço que descobrimos como é boa a luz ao ar livre. E dia após dia, vamos tentando respirar esse ar, em meio ao trânsito e à poluição. Cada dia mais sufocados pela lama que nós próprios produzimos. Sujeira fonética, no meu caso. Fonemas e mais fonemas perdidos nesse espaço onírico. Há quem os recolha e os recicle, mas creio que grande parte desse lixo fique por milhares de anos carregando e poluindo uma rede que jamais será limpa por ninguém. A gente morre e o lixo fica. Os prédios ficam, os carros, os filhos, o sobrenome. Fotos amareladas no fundo de alguma gaveta, esquecidas, perdidas, capazes de provocar sorrisos ou lágrimas na hora da descoberta. Somos apenas corpos no espaço. Corpos complexos, que tentam colocar o espaço a seu favor. E ele sempre a nos engolir. Nos ludibriar. Gostamos de certos engodos. Tenho saudades de Deus. Eu um dia o conheci. Você também, creio eu. Será que tornarei a encontrá-lo? Deus era um serzinho bem engraçado. Espertinho... até hoje tento imitar sua ironia. Inteligentíssima. Ele é o tipo de cara que nunca conta piadas, e ri de suas próprias desgraças. Serzinho competente. Bem diferente desses espalhados por aí, que vivem se comparando a ele. Patéticos. A humanidade é cheia de patetas patéticos. Risíveis. Adoro cada um deles: com suas escatologias e arrogâncias. Com seus documentos e contas bancárias. Ah, se eles soubessem que nada disso faz o menor sentido. Que não há sentido. Que o verdadeiro sentido é apenas sentir... mas eles não sabem. Eu também não sei. Se soubesse, estaria morta. É um segredo daqueles de filmes de gangster. De vida ou morte. De sorte. Acaso. Ao caso. Ocaso. Ou pôr-do-sol, num dia frio, com o céu róseo. Sentado na areia, com os bolsos cheios de nada, e os ouvidos cheios de vento. Na praia. Ao vento sul. Com aquele sorriso no rosto, e aquele charme na cabeça. Sabe aquele homem? Então. O charme dele. O que o outro não tem e acha que tem, e o que ele tem e nem sabe. Naquele abdome talhado à perfeição, sem nenhum esforço aparente. Naquele cabelo raspado e naquelas covinhas. Nos sorrimos. Com os olhos. Com os braços. Gosto de imaginá-lo mais perto. A gente acha graça. O que não existe, a gente inventa. E depois desinventa, quando for necessário. Antiviral, antibiótico. Antimonotonia. Mentiras criadas para passar esse nosso tempo escasso. Para que pareçamos mais interessantes e menos solitários. Mais duradouros. Menos mortais. Sou um balde de fragilidade vazando por diversos furos. Mas agora sou uma fragilidade assumida, com a cabeça levantada e um brilho nos olhos. Sou apenas o projeto do que eu ainda vou me tornar. Um dia depois do outro, com calma. Organizadamente, como uma boa estrutura sólida. Sou a soma do que eu tenho e do que me falta. Dos lábios e das lágrimas. E dos dedos. Que bailam, trazendo pra fora o que um dia alguém escondeu.
quarta-feira, 1 de outubro de 2008
Peripécias Aquáticas
Tinha acordado meio melancólica naquele dia. Sabia que as coisas dariam errado. Era fatalista, sempre fora. Mas dessa vez, ela tinha razão. Não havia como dar certo. Por isso levantou-se meio sem graça, e com o mundo pesando-lhe sobre as costas, entrou na banheira de água quente, repleta de espumas coloridas. Afogou-se, como fazia sempre. E acordou no meio do banco, com o chefe lhe gritando nas orelhas. Ela odiava aquele chefe. Lindo. Olhou-o provocantemente nos olhos e sorriu para suas ofensas. Ele perdeu a compostura. Seu pau subiu. Eles foram para o banheiro. Enquanto ele tentava disfarçar lavando as mãos, ela mergulhou na privada. Ele nem notou. Quando deu por si, estava no meio de um parque, numa temperatura primaveril agradável. Não gostava das flores, era dada às folhas secas. Mas mesmo assim resolveu colocar uma no cabelo. Sentiu-se cafona, e de fato estava. Caminhou por entre as trilhas de barro, até se sujar por completo. Teve asco de si mesma, e resolveu nadar na fonte. Acordou no meio de um terremoto, em algum lugar do pacífico. Teve ódio de si mesma, não deveria ter saído da cama. Tentou ligar para o marido, mas o celular estava sem sinal. Tanto melhor. Ela não teria créditos para um interurbano daquele porte. Manteve-se agarrada aos joelhos, embaixo da mesa, até as paredes terminarem de ruir. Ela sempre havia gostado de mármore. Por entre os escombros, avistou anões e piratas, todos envoltos em uma baba espessa e gosmenta. Sentiu aquela substância parada em sua garganta, e teve necessidade de um copo de água. Gelado. Suado. Correu por entre as ruas destruídas até se deparar com um hidrante rompido. Desistiu da sede. Tirou a roupa e dançou pelada com indigentes que se solidarizaram. Foi engolida pelo bueiro, e acordou no Senegal. Encantou-se com tanta beleza e não soube se expressar. Ficou muda. Horas e horas de eterno silêncio. Com movimentos hilários, atraiu as tranças de um senegalês e o levou para uma praça. Amaram-se no chafariz. Sem querer, confundiu o membro do negro, com o da estátua angelical, e foi parar em pleno céu. Tudo muito etéreo, pensou. Teve medo de cair. Começou a juntar pedaços pequenos de nuvens, até que elas se tornassem só uma: sólida, espessa, negra. Fora ela a responsável pelo dilúvio: que Noé nunca descubra. E choveu. Por dias e noites, choveu junto com as gotas armazenadas, caindo nos mais diversos locais. Correu mundo. Ventou. Mas acabou encontrando todas as partes de si no fundo de um oceano, onde termina essa nossa história.
terça-feira, 30 de setembro de 2008
Eu! E você?
Antes de qualquer coisa queria me desculpar. Pela demora na atualização do blog, pela repetição dos assuntos, pela ausência. A ausência é uma falta sempre ambígua. Estive distante esses dias justamente porque estava mais perto. Dos que importam, dos que me fazem falta, dos que me fazem parte. A proximidade é a melhor manifestação de amor. Por isso escrevo: para me sentir mais próxima. E, embora distante, é claro o estreitamento de relações com os que amo. É simples. E puro. Já falei sobre o redimensionamento das importâncias no exílio. Aprendemos a dar a cada coisa, o seu devido valor. É por isso que peço desculpas. Por estar longe. E por estar cada vez mais perto. Cada vez mais dentro. Junto.
Estou um pouco sem assunto hoje. Acho que desaprendi a arte da escrita. Não que eu a domine normalmente. Mas hoje, particularmente, não sei o que dizer. Estou com uma sensação estranha de completude. Não tenho queixas, no momento. Impossível? Inacreditável? Acho que a minha escrita não passa de uma forma de reclamar em prosa. E hoje não tenho queixas. Tenho uma boa vida, não tenho do que reclamar. Amigos emocionantes, pais inexplicáveis, amores instáveis. Tudo exatamente como deveria ser. Utópico. Etílico. Refrescante como aquele chopp no fim da noite. No fim da vida. Tem uma hora em que tudo acaba, precisamos admitir. E minha vida mansa termina agora: hora de pegar no batente. Hora de agarrar o mundo pelas orelhas, e deixar que ele me puxe pelos cabelos. Com um sussurro no ouvido. Aquelas palavras que a gente não ouve direito, mas sabe o que significam. Tudo muito bem educado, do jeito que eu gosto. Resolvi acabar com a violência. Agora adoto a polidez. Tem surtido efeito, e eu tenho achado graça. Tenho sorrido mais, repararam? É ironia. Estou rindo de vocês. E para vocês. Estou rindo por nós.
Alguma coisa não está fazendo sentido, eu sei. Mas o sentido é dado por quem lê, e não por quem escreve. Por isso não me culpo, saiba você re-significar. Mas não ache que as palavras são minhas! As palavras estão na tela, e são de quem as pegar primeiro. São dos olhos que se perdem no fundo preto, ou se acham no fundo branco. São de quem imprime e de quem exprime. Eu, por hora, digo, digo e não falo nada. Cada um entende o que quiser. Como um cigarro tragado por quem parou de fumar. Ou um suspiro cansado de quem acabou de dormir. São apenas intuições, não se enganem. Nada é tão verdadeiro. Eu sou só um projeto. Estranho, errado, inacabado. Apenas um prédio prestes a desmoronar, ou um vulcão estéril, em plena ebulição. Eu sou o que eu finjo e o que eu invento. O que eu nego e acredito. Apenas uma fraude desmascarada nas manchetes dos jornais. Eu sou o que ninguém quer, e o que todo mundo deseja. E você? É o quê?
Estou um pouco sem assunto hoje. Acho que desaprendi a arte da escrita. Não que eu a domine normalmente. Mas hoje, particularmente, não sei o que dizer. Estou com uma sensação estranha de completude. Não tenho queixas, no momento. Impossível? Inacreditável? Acho que a minha escrita não passa de uma forma de reclamar em prosa. E hoje não tenho queixas. Tenho uma boa vida, não tenho do que reclamar. Amigos emocionantes, pais inexplicáveis, amores instáveis. Tudo exatamente como deveria ser. Utópico. Etílico. Refrescante como aquele chopp no fim da noite. No fim da vida. Tem uma hora em que tudo acaba, precisamos admitir. E minha vida mansa termina agora: hora de pegar no batente. Hora de agarrar o mundo pelas orelhas, e deixar que ele me puxe pelos cabelos. Com um sussurro no ouvido. Aquelas palavras que a gente não ouve direito, mas sabe o que significam. Tudo muito bem educado, do jeito que eu gosto. Resolvi acabar com a violência. Agora adoto a polidez. Tem surtido efeito, e eu tenho achado graça. Tenho sorrido mais, repararam? É ironia. Estou rindo de vocês. E para vocês. Estou rindo por nós.
Alguma coisa não está fazendo sentido, eu sei. Mas o sentido é dado por quem lê, e não por quem escreve. Por isso não me culpo, saiba você re-significar. Mas não ache que as palavras são minhas! As palavras estão na tela, e são de quem as pegar primeiro. São dos olhos que se perdem no fundo preto, ou se acham no fundo branco. São de quem imprime e de quem exprime. Eu, por hora, digo, digo e não falo nada. Cada um entende o que quiser. Como um cigarro tragado por quem parou de fumar. Ou um suspiro cansado de quem acabou de dormir. São apenas intuições, não se enganem. Nada é tão verdadeiro. Eu sou só um projeto. Estranho, errado, inacabado. Apenas um prédio prestes a desmoronar, ou um vulcão estéril, em plena ebulição. Eu sou o que eu finjo e o que eu invento. O que eu nego e acredito. Apenas uma fraude desmascarada nas manchetes dos jornais. Eu sou o que ninguém quer, e o que todo mundo deseja. E você? É o quê?
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sexta-feira, 12 de setembro de 2008
Porque ele pediu
Tinha pedido um texto, ele. Um texto em sua homenagem, que ficasse gravado nesse universo intangível, e que ele pudesse chamar de seu. Infelizmente, ele não sabia que as palavras não possuem rédeas, e que moldá-las não é exatamente o meu trabalho. Mas decidi agradá-lo, semeando letras em um fundo branco, que só acaba quando não há mais delas no meu pensamento. Tivesse pedido outra coisa, outra qualquer que eu pudesse confeccionar, com certeza eu o teria feito com prazer e dedicação. Mas ele havia pedido palavras e eu, infelizmente, ainda não sabia controlá-las. Dói, tentar colocá-las a minha disposição. Ele não sabia que quando paro para escrever, são elas as donas dos dedos. Da mente. Mas mesmo assim, e talvez exatamente por isso, sentei-me à frente do computador com o afinco do sertanejo, que semeia sorrindo o mais árido pedaço de chão. Por tudo que vivemos juntos, algumas linhas de sofrimento seriam sempre pouco. Mas mesmo assim, ainda não sei o que escrever. O que sei é que aqueles olhos azuis estão, agora, cravados em mim como dois diamantes, a me perseguir e cobrar algo belo e delicado. Porque ele tem uma doçura contida, mesclada àquela loucura implacável, que às vezes o derruba pelas madrugadas sem fim. Porque, por vezes, aquela doçura me acalmou, e aquela loucura me levou a lugares que jamais pensaria pisar. Porque os anos passaram, e apesar dos altos e baixos, continuamos juntos, ligados, inteiros. O que aqueles olhos azuis me cobram, não são as palavras que deixei de dizer pela distância, e sim os sorrisos que economizamos neste tempo. Porque praqueles olhos azuis, os dentes brancos foram sempre uma preocupação. Apesar do cigarro. Lembro-me de cada detalhe, meu loirinho castanho. Do camelo em cima da mesa, da fumaça entrando na boca, das lagoas se esvaziando ligeiras. Lagoinhas. Como tenho saudades das mesas de plástico, você não poderia imaginar. Aqui o que há é chopp, ralo como o sangue de barata dos moradores, todos escondidos em suas tocas. Daquela beleza que imaginávamos, só o que resta são as almôndegas, recheadas de silicone e vazio. O que a gente admira aqui é a casca. Recheio eu ainda não encontrei. É por isso que quando volto, quero as mesmas madrugadas, os mesmos infernos, as mesmas baianas. Porque é aí que eu gosto de me engordar. O mundo aqui, meu pequeno, é apenas salada: colorida e insossa. Mas não desanime! Talvez o que me falte sejam apenas as companhias. Talvez se você estivesse aqui, e armássemos a velha lona, talvez a cidade se tornasse de fato maravilhosa. Talvez. Mas é absurdo viver com o medo apontado para a cabeça, e com a bunda como cartão de visitas. O que eu queria agora, se pudesse, era ter as oportunidades que tenho aqui, estando aí, no meio do umbigo das montanhas. No centro do canto dos passarinhos. Se você me perguntasse o que essas terras possuem de mais marcante, eu responderia, sem pestanejar: a maresia e a fumaça de óleo diesel. E, é claro, as buzinas incessantes, que abrem o meu sono quando o cruzamento se fecha. E escrevo essas coisas não porque quero, mas porque, como já disse, as palavras tomam conta de mim. Obviamente, preferiria escrever um texto sobre você, e não para você, como parece que este está se saindo. Se pudesse, contaria a todos que não sei desde quando você faz parte da minha vida, porque tenho a impressão de que você sempre esteve nela. Contaria como mudamos nesses anos, e falaria, obviamente, do sapato de bico quadrado e dos casacos de couro. Não para te provocar, de maneira alguma. Contaria essas coisas para que soubessem que o que somos hoje, depende diretamente do que fomos ontem. Contaria também das minhas tranças, do forró, tilêlêlê. Falaria destas coisas porque são elas que nos fazem farinha desse mesmo saco furado em que nos encontramos hoje. Pudesse eu escolher o que vou dizer, contaria das viagens, daquela casa mal assombrada, dos banhos pelados no mar. Detalharia fielmente aquele quarto, e aquelas varandas, que nos acompanham até hoje. Mas não posso, meu querido. Não sou eu que decido o que os meus dedos vão contar. É por isso que o texto sai meio fraco, capenga. Porque ele tira de dentro, coisas que eu não costumo deixar sair. É por isso que reclamo muito – mas com uma certa poesia, porque as reclamações são vaidosas. Quisera eu sorrir pra você e, de olhar esses olhos azuis, me esquecer de todo o resto e me lembrar apenas do que realmente importa; das noites mal dormidas que passamos juntos, e das ressacas de cigarro que encaramos no dia seguinte. Se não me engano, nos conhecemos desde a época que eu fumava marlborão. Ou Benson & Redges, para ser mais exata. Benga. Nos conhecemos desde antes daquele fatídico telefonema, em que você dizia “tenho uma novidade pra te contar!”. A novidade era notícia velha, nem naquela época venderia jornal. Mas nós, meu querido, nós ainda somos manchete; com nossas inquietações e problemáticas; com a nossa leveza e a nossa ternura. E com essa amizade que, mesmo de longe, me faz sorrir com os olhos; mantém a minha consciência leve; e me faz pensar que é por causa das pessoas que essa vida vale a pena. Não de qualquer pessoa. Mas de pessoas como você, meu loirinho lindo. Pessoas de verdade: que se rasgam de dúvidas e se emocionam com bobagens. Pessoas como nós que, apesar de tudo, ainda brincam de fazer arte...
Porque ele pediu, eu escrevi esse texto.
Porque ele pediu, eu escrevi esse texto.
terça-feira, 9 de setembro de 2008
De longe
De tudo, o que mais lhe doía era a solidão. Uma sensação estranha de estar perto e longe ao mesmo tempo. Sinestesias. Impressionava-se com a solidão das pessoas, e se irritava com a aproximação delas. Como dissera um amigo, ela fazia questão de mostrar a todos que não queria conhecer pessoas novas. Mas elas insistiam. Ah, como insistiam! Desculpe-me, mas não vou ao cinema com você. Não vou ao teatro, nem a um café, não vou a parte alguma – tinha vontade de dizer-lhes em inúmeros momentos. Mas era polida, a atriz. Era reclamona, por vezes até ríspida; mas nunca chegava a ser mal educada. Pelo menos não tanto quanto gostaria. Algumas pessoas, em particular, lhe tiravam a paciência. Não tinha tempo para as carências alheias, e nem queria perder seu tempo com aqueles que lhe pareciam desinteressantes. Como as pessoas por lá eram desinteressantes! Cheias de cabelos modernos, roupas descoladas, e nenhum conteúdo. Era isso. O que lhe incomodava sobremaneira era a falta de conteúdo. Quando as conversas não eram recheadas de abobrinhas, eram baseadas num silêncio incômodo. Silêncios de quem não tem nada a dizer. A convivência com esse tipo de pessoa era obrigatória – contingências do ofício. Mas a cada nova frase, sua paciência ia escorrendo pelas orelhas. Tinha uma saudade arrebatadora dos queridos amigos. Dos de verdade, dos emocionantes. Eram poucos esses. Poucos, necessários, e mais do que suficientes. Sentia falta do tempo em que se reuniam todos, naquela pequena sala escura; na varanda com balinhas de vidro. Era nestes momentos que se sentia mais em casa. Ao lado dos seus – dos que escolhera para si. E agora, perdida num labirinto de prédios, se questionava sobre a necessidade da distância. Em momento algum cogitava a volta. Mas como tinha necessidade daquelas pessoas! Ah, como era cruel a saudade! Mas aprendera a viver sem eles, e desfrutava de uma agradável companhia nova: a sua própria companhia. Sabia mais de si do que outrora. Conhecia suas instabilidades e suas perversões. Suas alegrias e rebeldias. Sentia falta também daquele toquinho de gente. Nem aprendera a falar, ainda, mas assustava-lhe a possibilidade de ele não se lembrar de seu nome. A infância perdida é um roubo cruel, de impossível devolução. Quantos passos perdia, quantas palavras, quantas novas descobertas? Sentia saudades também da prima. Como será que ia a barriga, a cabeça, os enjôos? Estava perto, mesmo de longe, mas sabia que a distância lhe furtava a companhia. Os desabafos. Tinha vontade de fazer parte de um passado que agora já não lhe pertencia. Mas não queria abandonar o presente. Em momento algum pensava em abandoná-lo. E ia divertindo-se, aos poucos, com sorrisos inventados, lágrimas forçadas, problemas adquiridos. Era atriz, afinal. Estava acostumada a falsear emoções. A mais comum era o amor. Inventava inícios de paixões como ninguém. Vivia delas por um tempo escasso, e depois se esquecia. Não sabia inventar um fim: nunca o soube. Desfechos eram complicados para ela. Ela, que sempre soube começar; que vivia intensamente; que gostava de surpreender. Ela gostava era do desenvolvimento, do desenrolar, do enquanto. Nunca soube muito bem identificar quando as coisas chegavam ao fim. O fim, para ela, sempre era parte do processo, algo perdido entre o início e o recomeço. Gostava das transformações, a atriz. De amor para amigo, de amigo para parente, de parente para colega, de colega para desconhecido. E ela girando, no centro da roda do mundo. Girando em torno de si mesma, como uma louca regenerada. Da família, sentia uma falta pouca, porque nunca havia conseguido desgrudar-se dela de fato. A família era o que tinha em si e que não fora inventado. Velhos preceitos ultrapassados, velhas intermináveis discussões, velhas comidas de domingo. Será que eles percebiam que ela havia mudado? Será que ela percebia a mudança deles? Do pai, sentia uma falta doída, de quem queria aproveitar mais um tempo que nunca teve. Da mãe, sentia o peso da dor nas costas, e a boca seca de tanto falar. Como sentia falta das conversas. Estavam envelhecendo, os pais. Percebia isso porque estavam cada vez mais lúcidos. Cada vez tentando acertar mais um pouco, ao invés de insistirem no caminho errado de sempre. Estavam precisando de um neto, os pais. Mas ela não lhes daria isso agora: presente guardado na caixa por mais alguns anos. A família já começara a se renovar. Aos poucos, chegaria sua hora. Pensando em todos, assim, calmamente, percebia o quanto era boa a distância. O quanto a falta esclarece a presença, e valoriza o momento. Estava cheia de saudades, a atriz. Mais uma vez, só lhe faltava seis dias para o reencontro. Mas os dias escorriam lentos, como baba de criança nova. Como a lágrima, que se diverte ao tocar o rosto. E como essa chuva fina que, por aqui, não pára de cair.
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