quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Sentido

Estupidamente arraigado um sentimento tolo e tardio de não se saber inteiro. Bobagens contemporâneas. Num maremoto de sensações pulsantes, a mesma e falha invenção da dor. Falta de nada. É de onde vêm as perdas e as fragilidades. De onde menos se espera. Num despertar tardio de uma manhã ensolarada e na brisa noturna de um céu sem estrelas. Penso no precipício e, portanto, na morte. Nada mais natural do que morrer aos poucos, dia após dia, nesse eterno vendaval de emoções inesperadas. É do porto romântico mais trágico que se fazem as escolhas insensatas e as decisões ainda não maduras aparecem como possibilidades reais. Parece que o mundo gira em torno de si mesmo, cada um em seu próprio umbigo. A metateatralidade rompendo as barreiras da cena e falas já decoradas sendo repetidas incessantemente pelos lábios um pouco sem cor. Paixões vermelhas de suor e maldade. Sensações soterradas por conceitos mal formados e ainda não entendidos. E é aí que amanhece. Um sol ardente invade a janela do quarto trazendo consigo aquele sorriso já perdido. Nos olhos, um brilho ocultado há tempos e, no peito, a paz. A simples felicidade de se ver. E só. De reconhecer no outro uma tristeza perdida, uma brasilidade, uma calma regional e um desejo profundo e intenso de se manter assim. Junto assim. Enquanto, ponteiros a viajar na órbita do tempo. Tonturas de Chronos a confundir os frágeis mortais. Lágrimas presas no intestino da alma. Sombras adolescentes a vagar pelo escuro. E o medo. Sempre terrível trovador de versos mansos. Obscuro desejo infinito, a desestabilizar a superfície calma. No lago manso e profundo, a iminência de um terremoto. Nos dedos suaves do contato, o grito da distância. Abismos. E por ser assim tão imensamente normal e tão absurdamente estranho, o peito se apavora nos compassos, criando valsas dissonantes e contratempos de escuridão. O que há é vida. O que sobra é perda. E aos poucos, reconhecendo em si certos traços tortos de punhos ainda não firmes, as linhas vão se seguindo, uma após a outra, criando o estúpido roteiro de toda uma existência. O espectador a imaginar as próximas cenas e o suspense a rir de sua pretensão. Bobagens alheias, lindas verdades. E por ser tão despretensioso e tão imensamente cruel, o amor faz-se soberano, esmagando qualquer passo de doçura e covardia que ouse lhe cruzar o caminho. O que fica é resto. O que toca é instante.

2 comentários:

Meggie disse...

Flávia, não sei o que te motiva a escrever e, em especial, não sei o que te motivo a escrever este texto, mas, preciso te dizer, o quanto faço de suas palavras as minhas. Compartilho contigo muitos momentos e vivências e sentimentos e linhas que divide aqui neste espaço.
Pelo menos, sinto-me acolhida nesse universo.

Flávia Prosdocimi disse...

O que me motiva é o momento. O que me assusta é o tempo.

Bom saber que linhas particulares podem pertencer também a outrem.

Seja bem-vinda. Aliás, como sempre...