quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Manipulada

Tudo começa com uma brincadeira, mas de repente toma conta de toda a sua vida. Você começa a depender financeiramente daquilo e pergunta-se o que pode fazer para sair de tão desesperado círculo vicioso. Mas aí você já está dependente. Você precisa de sorrisos, e de lágrimas, e de gritos e de críticas. Você desconfia dos elogios, da sua capacidade, da verdade daquilo tudo, mas aí já é tarde demais. Você é uma atriz, enfim. Por mais que queira negar, desistir, desnudar, desmentir. Já era. É só abrir a boca pra falar uma merda que alguém repara na sua retórica. E nas brigas de namorado – que lástima – você é sempre acusada de convencê-lo de seus próprios pontos de vista. Mas você é inteira. Você sempre foi de verdade. E começam a achar que seu sorriso é galanteio, que sua simpatia é merchandising, que sua falta é estratégia. Você conhece um homem interessantíssimo, bem sucedido em sua área, e se afasta, antes mesmo de qualquer possibilidade. Vai que ele acha que é interesse? Aí você faz um comentário e é irônica, faz uma piada e vira humorista, chora de dor e parece cena. Sua vida é uma realidade acompanhada de perto por espectadores ansiosos para ver sua performance. E você de carne e osso. Sangrando por dentro dores que eles chamam de manha, de capricho. Você nega uma mentira e dizem que você é dissimulada. Você acredita em uma verdade e é tudo golpe de marketing. Você casa, separa, sofre, perde parentes e tudo fica assim um pouco raso. Ou fundo demais. Você percebe que é efêmera, que o tempo está passando, que sua testa agora tem rugas. Comparam-na a Narciso. Você envelhece como todos, e tem sempre alguém para lhe dizer o quanto você está pior que os outros. Ou mais gorda. Ou terrivelmente magra. Ou, pior ainda, lindíssima! Você não pode ser uma qualquer. Não pode acordar descabelada, e Deus te livre de ir ao supermercado sem maquiagem. Comparam a capa da revista com sua bunda na praia. Dizem que você disse horrores de cicrano sem você ao menos conhecê-lo. Dizem que você mente a idade. Que não liga pra família. Que só pensa em si mesma. Que a vida anda fácil. E você tentando negar. Tentando colocar a cabeça para fora, pra ver se alguém enxerga que você ainda está ali dentro. A mesma gorda da infância. A mesma magrela da adolescência. A dentuça; de aparelho; com os dentes branqueados. A mesma! Um pouco diferente, mas ainda igual. Ainda inteira. Ainda de verdade.

Você não é mais a personagem. Você agora é um mero fantoche...

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