terça-feira, 20 de julho de 2010

Que passa...

Do intenso pulso do passo que passa
Do estranho tempo que passa e que passa
Do intenso pulso que passo e que passa
Do estranho vulto que passa o que passo

Da estranha língua que morde e não fala
Da falsa míngua que come o que cala
Da porta antiga que se abre e pára
Da morte à míngua que se morde e cala

Do intenso pulso do tempo que passa
Da intensa morte, da míngua e da fala
Da falsa sorte do tempo que passo
Do pulso antigo do tempo que passa.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Do Indivíduo

Sou feita de caracteres dissonantes, que vagam na alma enquanto ardo em brasas. Não sei exatamente o que sou. E é na impossibilidade da classificação que encontro meu mais profundo eu. Em momentos de paixão, encontro-me calma, como aquela fonte, no meio do mato, onde tudo se deu. Duvido das coisas certas e exatas porque sou feita de dúvidas. E no medo mais profundo da exposição é que encontro as letras, que me saem como um emaranhado de coisas tolas, que cismam em ocupar meus dedos. Tenho ouvido palavras bonitas e teorias inexatas. Cada qual, no seu desalento, acredita em verdades particulares, que só servem para si. Por isso a qualidade e a diversidade do encontro. À luz de velas, sentados em uma mesa qualquer, verdades jorram como sentimentos adormecidos, que nunca foram antes contados. Na verdade, eles nunca existiram – somente naquele preciso momento. Por isso a beleza do encontro. Cada qual em seu universo intangível, parafraseando versos de um escritor qualquer. Por dentro, poesias e prosa. Narrativas complexas de suas próprias existências. Somos absolutamente diferentes. Mas nos reconhecemos no olhar. Na decisão contida de fazer dar certo e na esperança urubu de crescermos em escala. Somos. Diversos e divertidos, bailando no perigo de tentar se mostrar. Não sei o que acontece enfim. Atropelamo-nos um dia, e agora dependemos das rodas para que nosso mundo gire. Cada um com suas questões e com seus esclarecimentos. Assim, iluminando o caminho alheio, seguimos juntos – cada qual com seu lampião. É a minha escuridão que acende o tesão alheio, e é outra luz que vem me despertar quando apago a manhã. Não quero ser mais. Quero ser. Só. E na individualidade dos sentimentos mais inexatos, encontramo-nos como um. Não há o que esperar, nem o que decidir. Só há o que perceber. Uma percepção rara de desejos individuais. Queremos ser vários e, para isso, somos apenas um. Compartilhando lágrimas e sorrisos, gozos e culpas. Não são as letras que me movem. Nem a história, nem o tempo. São os olhos. Brilhantes ou marejados, opacos ou intensos. Escrevemos nossas letras enquanto a estória se desenrola. Não há porto aonde chegar. Não há nada. Apenas uma brisa suave soprando pela janela emperrada de um século qualquer. Somos indivíduos do hoje. Somos artistas do então. Por isso o abraço, o laço, a dor. Por isso tudo. Porque as paixões intensas são como aquele lago calmo: perdem-se no tempo, mas sabem exatamente o seu lugar de encantamento.