Pensamentos, frases, estórias e mentiras criadas a partir de fatos corriqueiros. Uma livre distorção da realidade.
sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
Dias de aeroporto
Fumo muito nos dias de aeroporto. É assim que eu os chamo: “dias de aeroporto”. O primeiro cigarro é sempre em casa: odeio chegar cedo demais, mas como boa mineira, tenho pavor de chegar atrasada. Portanto, antes de sair de casa, naquela ansiedade do sai-não-sai, fumo o primeiro cigarro do dia. Táxi, check-in, espera. Antes da sala de embarque, lá vai mais um cigarro. Hoje, como sempre sentada nos carrinhos de bagagens, me perdi nos pensamentos. Com a cabeça distante, ao lado de um enorme cinzeiro, bati minhas cinzas no chão. Coisa de brasileiro. Falta de educação. Já devia ter entrado na sala de embarque, mas o embarque em si ainda não começou. Entro. Sento. Ligo o computador. Começo a escrever este texto, mas com apenas algumas linhas, sou obrigada a me interromper. Portão R1. Droga! R1 é aquele portão chato, que não desemboca na aeronave. É preciso pegar ainda um ônibus. Chove lá fora. Ar condicionado gelado, sem lugar pra sentar. As escadas ainda não estão colocadas. Espera. Espero um senhorzinho qualquer de guarda-chuvas, pronto para nos acompanhar até a beira da escada. Nada. Chuva mesmo. Apenas algumas gotas, é verdade, mas a minha camisa branca me deixa desconfortavelmente insegura. Embarque pela porta traseira. Saco! Poltrona 7F, lá na frente. Filinha indiana, cada um no seu lugar. Fico me perguntando se posso voltar a escrever dentro do avião. Fico com preguiça de perguntar. Vou acompanhada do Mário Prata, que me faz sorrir com as suas cem melhores crônicas (que, na verdade, são 129). Se o livro acabar antes do vôo, vai ser terrível. Não estou para MP3 hoje. Tiro os tênis. Não sei porque all star de cano alto me irrita. Falta pouco tempo para chegar em casa. Saudades da comida da minha mãe. Turbulência. Puta turbulência. Ainda bem que não tenho medo de avião. Serviço de bordo: salpete recheado (pode?) e suco de laranja diretamente da caixinha. Vou me divertindo com o Mário (aquele mesmo que você está pensando). Por cima da tempestade, um mar de nuvens brancas e o sol. Adoro voar nos dias de chuva. Gosto de ter certeza que por cima daquela imensidão de cinza ainda existe um céu azul. Lixo devidamente retirado, passam balinhas para passar o tempo. Pego distraída uma de laranja – justo de laranja! Devia ter prestado mais atenção. Pouso autorizado. O avião perdendo altura. Sempre sei que estou chegando a Confins quando as verdes montanhas começam a se tornar cinzas com lagoas de profundo azul. É bonito, mas é mineração. Vários e vários morros reduzidos a planícies empoeiradas. Coisa da mudernidade. Antes de desembarcar, um tapa no visual. Estava mais branca que a minha blusa. E onde foi parar a tampa do meu blush? Perdida para sempre no buraco negro daquele avião. Desato os cintos. Levo o Prata pela mão. Posiciono-me no lugar cativo dos espertinhos: bem na saída da esteira de bagagens. Minha mala passa por mim (a primeira a sair) e eu, desatenta, nem faço menção de pegar. Mala nova, me confundi. Sinto saudades da minha sacolinha vermelha da benetton. Maior que esta malinha preto-escritório. Mas menos prática, devo admitir. Malas no carrinho, passagem do conexão comprada, dez minutos pro ônibus sair. Carrinho de novo ao lado do cinzeiro. Halls, cigarro, isqueiro. Uma senhora me pergunta: “ainda dá tempo de poluir?”. Dá, sempre dá. Fumamos juntas conversando amenidades. Ela capixaba, eu carioca. Ambas mineiras. Fim do tempo, fim do cigarro. Sento confortavelmente na minha poltrona número 19, e ligo o computador. A senhora me deseja boa viagem. No balanço do ônibus, termino, feliz, de escrever este texto. Falta pouco tempo para chegar em casa. Não a minha casa, que ficou embaixo da tempestade carioca. Mas a minha casa, cravada na imensidão dessas montanhas, representando bem aquilo que chamam de lar.
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quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
Pendências
Na vitrola, Chico Buarque. Na mesa, um copo de água suado. Lá fora, uma chuva que não pára de cair. Na tela, letras que aparecem com certa lentidão. Por dentro, nada. Ando sem inspiração. Escrevo baseada nos acontecimentos da minha vida. E ela anda tão tediosa... Igual à novela: não precisa assistir pra saber o final. Tramas mirabolantes e pueris, que seriam resolvidas apenas com uma palavra. Básica. Falta ação, como diria um amigo. Falta ação. Eu, por mim, espero. Acho graça, mas me confundo. Não posso negar: me confundo. Perco-me em mim mesma e nos outros. Pergunto-me o que se passa em cada cabeça. Sempre gosto mais de uma cabeça do que de outra, impressionante. Rio. Acho graça dos pensamentos, escorro. Tenho saudades de pessoas que não passaram, e de pessoas que ainda irão passar. Ando melancólica e feliz. Paradoxo? Talvez. Humano, eu diria. Ando refém das reticências... Sempre três pontinhos ao invés de um final. Sempre espera, o tempo todo a mesma espera. Ando caseira, fico bagaceira. Champanhada. Enchampanhada. Risível, leitora. Ando dormindo pouco e pensando demais. Escrevendo de menos, mas criando histórias incríveis. Tenho vivido um reality. A gente fica punhetando os próximos episódios, pra ver se esquenta a história. E nada. A realidade é mais monótona do que o script. Muitos personagens pra um romance só: maridos traídos, amantes recalcados, mulheres tímidas e ferozes. Quem será o homem da relação em uma relação de homens? Só pensamentos soltos ao som de Chico. “Tira as mãos de mim. Põe as mãos em mim”. E Bárbara, e Construção, e Essa moça tá diferente. Devo estar mesmo. Deve estar mesmo. Essa coisa de tempos modernos. Hoje escrevo na sala. Desnuda. Descoberta da minha redoma literária. Do meu quarto de sensações. Hoje soltei os dedos e tranquei o pudor. Escrevo até onde dói, apago coisas que não penso. O dedo na ferida sangrando de verdade. Tem graça essa vida. E eu já disse que rio. De Janeiro. De janeiro a dezembro. Devia parar de rir, é verdade. Mas Rio. Sempre Rio. No meio e no centro. A dúvida, a questão, a certeza e o empecilho. Mas acho graça. No meio de todo o turbilhão acho graça dos desencontros e dos recalques. Analiso, como uma crítica do meu próprio comportamento hipócrita. Medíocre. Não sei deixar de ser cruel. Faz parte da minha natureza animal e grotesca. Parte dessa sinceridade arraigada, que tem em suas raízes uma doçura sutil, mesclada a um temor imenso. Somos estômago e sexo. E uma pitada de carência. Bruta e brilhante como um diamante. Que teima em brilhar por baixo da terra grudada, e que insiste em se endurecer debaixo da terra, calado. Ando sem inspiração. São só pensamentos. Sofrimentos represados, urubus pintados de verde. Saudades do Quintana e do Pessoa. Ando devendo visitas. E telefonemas, e palavras, e suspiros, e carinhos. Mas resolvi acabar com as pendências. Pros que estão aí, um pedido de perdão. Amanhã estou chegando. Pros que ficam aqui, é só uma questão de tempo. Daqui a pouco estou de volta!
sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
Feliz ano novo
- Feliz ano novo!
- Já é a quinta vez que você diz isso.
- E qual é o problema?
- O problema é que hoje já é dia 25 de Janeiro
- Então. É o primeiro mês do ano novo.
- Quer dizer que daqui a seis dias, quando começar o segundo mês do ano, você para com essa chatice?
- Não, uma coisa não tem nada a ver com a outra.
- Ah não?
- Não.
- Então quer dizer que toda vez que a gente abrir uma garrafa de champanhe você vai dizer isso?
- Mais ou menos.
- A partir de hoje está vetado qualquer tipo de espumante aqui em casa!
- Que isso, amor? Você não acha que está sendo muito intransigente?
- Talvez. Mas eu prefiro ficar obesa de tanto tomar cerveja a ter que ouvir esse “feliz ano novo” toda vez que a gente brinda com champanhe.
- Que bobagem!
- Tanto quanto ter que fazer essa piadinha.
- Não é piadinha. É um desejo.
- Uma chatice.
- E você, que toda vez que vai brindar fala “tim-tim”?
- Eu??? Falo “tim-tim”??? Você deve estar me confundindo com uma das suas amantes.
- E desde quando eu tenho amantes, querida?
- Eu não sei, é claro. Se soubesse, provavelmente estaríamos separados.
- Não fala besteira!
- Não é besteira, é só um desejo.
- De se separar de mim?
- De não fazer papel de otária.
- Mas você é tão boa atriz... Ia arrasar no papel de otária!
- Não estou gostando dessa brincadeirinha.
- Você está tão estressada. É tpm?
- Essa então eu gostei menos ainda. Porque que os homens sempre acham que quando a gente se irrita é por causa da tpm?
- Porque geralmente é.
- Vocês nos irritam muito mais do que a tpm.
- E mesmo assim você nos adora.
- É um vício meu. Um dia ainda vou me curar.
- Bobagem! Você nasceu assim e vai morrer assim. Uma devoradora de homens!
- Olha o respeito!
- E não é? Eu adoro.
- Então você bem que podia parar de desejar “feliz ano novo”. Só pra me agradar.
- Por você eu faria qualquer coisa!
- Qualquer?
- Qualquer!
- Então prepara um banho de banheira pra mim! Estou precisando relaxar.
- Você é tão realista. Não podia me pedir um beijo?
- Podia. E vou pedir. Depois que você preparar o meu banho.
- Eu não vou levantar daqui agora nem por um decreto.
- Mas você disse que faria qualquer coisa por mim.
- E faria. Agora não faço mais. É passado.
- Às vezes eu me pergunto onde foi que a gente se perdeu...
- Onde a gente se perdeu eu não sei... mas isso também não me interessa mais, já tem tanto tempo...
- A gente devia se separar.
- Devia. Mas ia dar muito trabalho, e a gente tem preguiça.
- Tem toda razão.
- Além disso, apesar de perdidos a gente ainda se encontra direitinho na cama.
- Vou ter que dar o braço a torcer?
- Vai.
- Tá bom, é verdade. Pelo menos na cama a gente se entende.
- E como se entende!
- A gente perde muito tempo brigando, já reparou? Mas eu adoro me irritar com você.
- Casamento é isso. Pelo menos pra alguma coisa eu tinha que servir.
- Mas você não serve só pra me irritar... você também abre as garrafas de champanhe.
- Aliás, vamos tomar mais uma?
- Só se for dentro da banheira, antes de ir pra cama.
- Você é quem manda. Estou morrendo de saudades, sabia?
(Olhares insinuantes. Mãos. Beijo. Ele se levanta. Estouro de garrafa).
- Feliz ano novo!
(Ela sorri. O resto da cena eu deixo por conta de sua própria imaginação. Pelo menos pra alguma coisa você tinha que servir...).
- Já é a quinta vez que você diz isso.
- E qual é o problema?
- O problema é que hoje já é dia 25 de Janeiro
- Então. É o primeiro mês do ano novo.
- Quer dizer que daqui a seis dias, quando começar o segundo mês do ano, você para com essa chatice?
- Não, uma coisa não tem nada a ver com a outra.
- Ah não?
- Não.
- Então quer dizer que toda vez que a gente abrir uma garrafa de champanhe você vai dizer isso?
- Mais ou menos.
- A partir de hoje está vetado qualquer tipo de espumante aqui em casa!
- Que isso, amor? Você não acha que está sendo muito intransigente?
- Talvez. Mas eu prefiro ficar obesa de tanto tomar cerveja a ter que ouvir esse “feliz ano novo” toda vez que a gente brinda com champanhe.
- Que bobagem!
- Tanto quanto ter que fazer essa piadinha.
- Não é piadinha. É um desejo.
- Uma chatice.
- E você, que toda vez que vai brindar fala “tim-tim”?
- Eu??? Falo “tim-tim”??? Você deve estar me confundindo com uma das suas amantes.
- E desde quando eu tenho amantes, querida?
- Eu não sei, é claro. Se soubesse, provavelmente estaríamos separados.
- Não fala besteira!
- Não é besteira, é só um desejo.
- De se separar de mim?
- De não fazer papel de otária.
- Mas você é tão boa atriz... Ia arrasar no papel de otária!
- Não estou gostando dessa brincadeirinha.
- Você está tão estressada. É tpm?
- Essa então eu gostei menos ainda. Porque que os homens sempre acham que quando a gente se irrita é por causa da tpm?
- Porque geralmente é.
- Vocês nos irritam muito mais do que a tpm.
- E mesmo assim você nos adora.
- É um vício meu. Um dia ainda vou me curar.
- Bobagem! Você nasceu assim e vai morrer assim. Uma devoradora de homens!
- Olha o respeito!
- E não é? Eu adoro.
- Então você bem que podia parar de desejar “feliz ano novo”. Só pra me agradar.
- Por você eu faria qualquer coisa!
- Qualquer?
- Qualquer!
- Então prepara um banho de banheira pra mim! Estou precisando relaxar.
- Você é tão realista. Não podia me pedir um beijo?
- Podia. E vou pedir. Depois que você preparar o meu banho.
- Eu não vou levantar daqui agora nem por um decreto.
- Mas você disse que faria qualquer coisa por mim.
- E faria. Agora não faço mais. É passado.
- Às vezes eu me pergunto onde foi que a gente se perdeu...
- Onde a gente se perdeu eu não sei... mas isso também não me interessa mais, já tem tanto tempo...
- A gente devia se separar.
- Devia. Mas ia dar muito trabalho, e a gente tem preguiça.
- Tem toda razão.
- Além disso, apesar de perdidos a gente ainda se encontra direitinho na cama.
- Vou ter que dar o braço a torcer?
- Vai.
- Tá bom, é verdade. Pelo menos na cama a gente se entende.
- E como se entende!
- A gente perde muito tempo brigando, já reparou? Mas eu adoro me irritar com você.
- Casamento é isso. Pelo menos pra alguma coisa eu tinha que servir.
- Mas você não serve só pra me irritar... você também abre as garrafas de champanhe.
- Aliás, vamos tomar mais uma?
- Só se for dentro da banheira, antes de ir pra cama.
- Você é quem manda. Estou morrendo de saudades, sabia?
(Olhares insinuantes. Mãos. Beijo. Ele se levanta. Estouro de garrafa).
- Feliz ano novo!
(Ela sorri. O resto da cena eu deixo por conta de sua própria imaginação. Pelo menos pra alguma coisa você tinha que servir...).
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