quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Olhos

Estou com saudades daqueles olhos tão castanhamente tristes, que me fitavam momentos antes de ir embora. Aqueles olhos que não me cobravam nada mais do que a plena compreensão e um bocado de renúncia. Fico me perguntando se voltarei a vê-los, perdidos numa multidão de outros olhos, olhando atentos para mim, esperando algumas palavras e, quem sabe, um sorriso. Aquele olhar penetrou em mim com a suavidade de uma dúvida, e me fez refletir sobre o tempo. Uma vida se deu no instante de seu piscar. E uma vida se desfez. Penso nas possibilidades que aqueles olhos me ofereceram, e me entristeço, ao pensar que eles foram embora. Assim, só deixando uma lágrima. Eles estão por aí, nesta mesma cidade, perdidos talvez em outros cílios, em outros abraços. Queria olhá-los de novo, apenas por um momento, só para que eles soubessem que não lhes culpo pelo abandono. Que os segundos valeram por si só, e que o acaso se encarregará de escrever o resto da história. Naquele olhar não havia maldade, nem sadismo: apenas uma melancolia efêmera de quem não teve como evitar. O fim se apresenta, às vezes, antes mesmo do início. Mas me compadeço dos momentos não vividos, das gargalhadas sufocadas, da aliança partida. Os anéis sumiram nos dedos como fios de fumaça: desapareceram nas horas; no silêncio. Tenho palavras guardadas para aqueles olhos, mas minha língua se aquieta, até que seus ouvidos estejam disponíveis. Talvez eu já tenha voltado a vê-los, de relance, em meio a corpos dançantes e suados. Pode ter sido apenas uma ilusão. Pode ter sido uma possibilidade. Impressiono-me com a profundidade daquele olhar; daquele sorriso sem graça, daquele nervosismo despistado. Não, acho que não voltarei a vê-los. Pelo menos não tão cedo; não por querer. Sutilmente, aquele olhar me pediu distância, me pediu respeito. E eu, escolada na partida dos olhares mais doces, acatei sua decisão silenciosa, e guardei um pequeno amor dentro de mim. Meus amores perdidos costumam transformaram-se em amizade linda e sólida. Talvez este seja o destino, também, daqueles olhos. Aqueles, por trás das lentes tímidas, por baixo de toda aquela falsa postura. Olhos frágeis e saudosos. Talvez tenha amado a saudade alheia, naqueles olhos. Identifico-me com o exílio. Mas o retorno traz, novamente, a solidão. Somos cidadãos do mundo: deixamos para trás o lar. E ao voltarmos a ele, nossas incursões por outros lares nos fazem também falta; escancaram a inexistência de nosso lugar. Penso no meu olhar povoando os sonhos daqueles olhos como um lugar calmo e seguro. Um lugar atraente e ainda desconhecido. Sei que a minha reflexão sobre eles é igual a uma reflexão sobre mim, feita por outro. Também sou a que partiu, e que teima em não voltar. A que está sempre perto, mas nunca próxima; e que se esvai quando parece ao alcance dos dedos. Mas os olhos são fortes, misteriosos. Guardam dentro de si uma verdade que eu mesma desconheço. Se escrevo estas linhas, talvez seja porque quero me explicar enquanto tento entendê-los. E se prefiro dormir, é porque a imagem pode me ser por demais perturbadora. Só posso me desculpar pela atração fugidia, pelas falsas pistas de esperança. Não é minha intenção. Mas não consigo controlar a intensidade deste meu olhar, e não sei o que ele pode provocar no outro. Como aqueles olhos, tão castanhamente tristes, que me invadiram sem pedir licença, e foram embora sem trancar a porta. As janelas continuam abertas, e a brisa fresca que entra por elas me faz pensar que ainda há chuva por vir. Estou aguardando, ainda, com esta coceira nos lábios e este brilho na alma. Aquele olhar será sempre bem vindo: numa noite inesperada, ou numa manhã qualquer mal-dormida. Espero que eles estejam em paz. Espero...

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

A volta

Teve medo de se perder naquele labirinto de emoções, e decidiu fugir, por uns tempos, praquele lugar seguro; aquele que sempre a esperava quando as coisas ficavam difíceis. Estava um pouco confusa com os acontecimentos, e tinha a estranha sensação de que voltar lá lhe traria aconchego e segurança. E foi. Arrumou as malas em instantes, tomou a decisão inesperadamente e se mandou pro outro lado de suas inquietações. Foi procurar abrigo quando não tinha mais onde ficar. Mas estranhou a mudança. Percebera, de uma hora para outra, que havia deixado muitas coisas inacabadas, muitos sentimentos em aberto, muitas esperanças ainda sobrevoando. O velho urubu pintado de verde. Não soube como se portar. Desta vez, era ela quem ia embora. Ela sempre ia embora – acabou percebendo isso. A idéia de que era ela que ficava abandonada era por demais irreal. Uma fantasia, que ela gostava de inventar. A grande verdade, é que ela sempre escorregava pelos dedos alheios, sempre fugia quando a situação parecia sem solução. Ela gostava de finais amenos. De coisas que terminam por si só. Tinha dificuldades de colocar um ponto final em suas coisas. Olhos nos olhos. Sempre temia voltar atrás quando a lágrima do outro escorresse. Sempre teve medo de magoar outrem. E assim, com medo de fazer sofrer, causava sofrimento e sofria calada. Sofria por motivos desnecessários, por ansiedades tolas. E culpava-se por abandonar aquelas pessoas, aqueles amores, aqueles sorrisos. É por isso que a volta lhe era sempre doce, apesar de lhe causar medo. Lá, no meio daquela sala e daquelas pessoas jogando videogame; lá é que ela se sentia em casa – embora aquela casa já não fizesse mais parte do seu cotidiano. Mas eram aquelas pessoas que lhe aqueciam a alma, e lhe embalavam os sonhos. Era neles que ela pensava, quando um sorriso largo lhe estampava a cara, ou quando gordas lágrimas lhe corriam pelo rosto. Era ali que podia ser ela mesma, e ser outra, sem o menor pudor. Era onde ela mais gostava de reclamar – porque eles sempre gostaram de ouvir suas reclamações. E era lá que ela estaria no dia seguinte: com uma cerveja gelada e um cigarro nas mãos. Com um sorriso nos lábios, e a alegria de uma pequena criança. Era lá que ela apareceria de surpresa, quando eles menos esperassem. E sentiria-se em casa, como há tempos não acontecia. É fato: era saudosista. Mas nada melhor do que o colo dos bons amigos...

sábado, 15 de novembro de 2008

Sobre o tempo

Estava pensando em fugir pra algum lugar que não me lembro onde... mas aí desisti, sei lá. Me deu uma vontade estranha de ficar aqui. Às vezes sou assim: mudo repentinamente de opinião. Já falei sobre isso antes. Aliás, vivo me repetindo. Acho que estou precisando me reinventar. Estou muito certinha, muito no eixo. Estou precisando me desconstruir e inventar uma nova “eu”: um mais do mesmo – igual, só que diferente. Estou orgulhosa de mim hoje, um pouco sem motivo. Mas tenho aprendido a admirar e celebrar também as pequenas conquistas. Tenho tido saudades de grandes vitórias e grandes desafios, mas tenho me contentado com os pequenos pepinos cotidianos, com as amizades brotadas em rocha sólida. Tenho me aberto mais. E foi correndo pela rua, atrás de alguns ônibus que nunca voltaram, que percebi algumas coisas. Gostar é deixar de lado, é deixar ir embora. O desprendimento e a crença na felicidade alheia são duas coisas muito louváveis. E são simples, ouso dizer. A gente fica muito preocupado com picuinhas terrenas. Com probleminhas de comer-e-dormir. A vida é muito mais do que isso, olha que bobagem! Nos preocupamos com as coisas erradas, nos desculpamos por motivos obsoletos, nos estressamos por pequenos detalhes. As coisas são tão banais... Nada mais gratificante do que se reunir com amigos – pessoas queridas, amadas e admiradas – para falar meia dúzia de bobagens, e voltar pra casa com a cabeça mais leve. O tempo passa rápido, é uma contagem regressiva incessante. E perdemos tanto tempo... Acho que é por isso que não gosto de relógios. Quem me conhece sabe: até hoje não sei olhar nos de ponteiros! E não uso aquele modelito de pulso nem que seja o último grito da moda. Odeio me sentir refém de algo que deixa de ser a todo instante. O tempo é o pior dos mutantes. Às vezes queria ser Zeus, pra matar Chronos e ficar, por toda a eternidade, estacionado nesse infinito. Mas tenho pra mim que essa tal eternidade, essa certeza da imortalidade, tornaria as coisas muito mais chatas e menos valorizadas. Por que viver o agora se o amanhã estará sempre lá? Essa ilusão, por muitas vezes, é colocada em prática no nosso cotidiano. Mas ela é irreal, e sabemos disso. Quando colocamos na ponta do lápis as medidas de tempo, passamos a nos assustar com sua enorme velocidade e voracidade. O tempo destrói tudo – é a máxima de “Irreversível”. De fato, tem coisas que jamais conseguiremos mudar. E o tempo é esse pai sádico, que nos castiga aos poucos, e ri de nosso desespero; até que sucumbamos à sua fome implacável. A mitologia greco-romana não passa de uma alegoria. Mas é uma forma bonita, de contar essa nossa história triste de mortais pensantes, que sabem, antes de qualquer coisa, que a única certeza absoluta é sua própria finitude. Tenho problemas com a morte. Tenho a sensação de que mesmo que morra aos 200 anos, ainda terei muito o que viver. Mas as trajetórias são diferentes, e essa sensação, pueril. Minha avó, que morreu aos 91 anos, há muitos não via mais razão na existência. Não acendia a luz pra não gastar energia elétrica, não passeava pela casa por não ter mais o que se ver, se desinteressou pela comida por não ter mais o que provar. No fundo, seus dias na poltrona da sala não refletiam mais do que sua vida interna: as paredes vazias eram a metáfora perfeita de sua existência nos anos finais. Lembro de sua tristeza ao revisitar velhas fotografias, e descobrir-se como a única ainda viva naquele pequeno pedaço de lembrança. O passado pode ser tão esmagador quanto o futuro incerto. Hoje, dois anos depois de sua morte, acho que entendo um pouco sua falta de tesão pela vida. Tudo deve ter um fim – desconfio eu. Mais ainda me espanto com a possibilidade do fim estar próximo, do meu tempo estar terminando. Não sei se quero viver o suficiente para ver todas as pessoas que eu amo morrerem: uma a uma. A vida é mesmo uma solidão comunitária. Um experimento maluco de amor e doação. Abram-se ao máximo! É só um conselho obvio que tenho tentado praticar. E sejam o melhor que puderem, pois o fim está próximo. Mais próximo do que gostamos de admitir. E é mais interessante ser uma lembrança inspiradora e inquietante, do que ser mais um rosto morto numa fotografia amarelada no fundo de uma gaveta qualquer...

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Chuta que é macumba!

Quando eu digo ‘tens cuidado’, muita gente me ignora. Sorriem um pouco de lado, se fiam no brilho da aurora. Mas o que esse povo não sabe, é que o seguro já faleceu. E que cada um se previna: antes ele do que eu! Nessa de se garantir, resolvi foi inovar. E passei a freqüentar a casa de quem já se foi. Quem aqui não está mais, conversa de outros assuntos, têm toda a sabedoria do mundo, não falam do que é banal. Mas a proteção é bem-vinda do lado que aparecer, e como não há quem me proteger, recorri ao lado de lá. Na casa verde que eu freqüento, a bondade é imperatriz. E não há quem um dia não quis entrar lá e agradecer. Tem gente que se amedronta, outros que se acovardam, mas quem entra muxoxado, tende a sair feliz. Pode não se acreditar, de crença não necessita: só é preciso abrir os olhos e deixar-se escutar. Esse espaço que eu freqüento recebe pretos e pobres, recebe ricos e nobres, e gente que não é daqui. E naquela roda de coco, no surdo dos atabaques, é que brilham badulaques e estremecem esqueletos. E é de dentro desta roda, que o demônio me aparece, e com um sorriso me oferece a brancura de sua mão. Ajuda dele não aceito: não quero e não necessito. Porque dos meus assuntos prolixos, prefiro eu mesma cuidar. Mas o cabra ruim me protege. Protege quem é de bem. Porque ao contrário do que dizem, ele não é de confusão. Só que sua justiça é torta, coisa de quem já se foi; e o preço de seu auxílio, é entregar-se pela mão. Não gosto de me sujar, prefiro a consciência tranqüila, por isso, de tempos em tempos, vou lá só me aconselhar. Na macumba que eu freqüento, bruxaria já entrou. O que comanda é a wicca, onde um dá o que levou. Mas pro caso da maldade, da injustiça e do amor, a regra se triplica: três vezes o que se desejou. E se pedires uma graça, pense bem; pense melhor. Lá nada é dado de graça, há que ser merecedor. E se ganhar de cortesia – algo que queira ou que precise – abra o olho, fique esperto: a conta é cobrada depois. Nesse terreiro de umbanda, gente ruim fica a deriva, e só leva dessa vida o que nela mesmo plantou. Por isso tome cuidado: previna-se, plante direito. Porque mesmo que demore, o troco há de chegar. As flores vêm a galope pra quem obedece certa linha. E mesmo na queda mais fria, há alguém pra lhe amparar. Na macumba que eu freqüento, toda mãe é menininha. Todo dia há novidade, pra eu não me entediar. Por isso o altar da frente, às vezes não leva santo. Leva apenas um atabaque observado pelo luar. E é quando a lua é cheia, que há mais graça pelo mundo, que até mesmo o vagabundo pode enfim profetizar. Na garrafa de aguardente, em alguns goles de cidra, nos cigarros aromáticos que se extinguem pelo ar. E é pela gargalhada que se mede a temperatura: quanto mais quente mais pura; quanto mais alta, mais mar. Pois esse terreiro de umbanda, se embasa nos elementos. É, pois, terra, mar e vento, e um fogo a crepitar. E é nesse lugar irreal, cheio de oculta magia, que escondo os meus amigos que insisto em soterrar. Somos parte do mesmo corpo. Vivemos em harmonia. Mas dividimos uma cabeça: e cada cabeça é um guia. Não acreditamos num Deus, não gostamos de rezar. Mas praticamos o bem, que existe em qualquer lugar. O meu terreiro é bem pequeno, e cabe em qualquer covardia, serve num metro quadrado, está sempre a me rodear. Se quiser vir freqüentar, faça votos de bondade. Traga vela, rosa branca, e um punhado de alecrim. E se é do tipo rezadeiro, por favor, não esconjure. Pois a graça da macumba, é que cristão pode ficar. Só me tire, por favor, o agudo daquele “amém”. Digam “amem”, amem muito, amem do verbo amar. Só não se esqueçam de depois, como forma de agradecimento, colherem uma folha ao vento, e por fim atirá-la ao mar. Pois é dando que se recebe. É plantando que se transforma. E nada como um suspiro, e um beijo pra Iemanjá!

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Da partida (ou 'algumas flores e um jardim')

Desculpa, meu amor, mas esta não é a primeira vez que isso me acontece. Na verdade, estou acostumada com separações inesperadas, rupturas repentinas. Talvez seja alguma coisa comigo, não sei. Mas aprendi a lidar com esse tipo de situação. Não sofro mais do que o suficiente. Tenho me dado ao direito de chorar por alguns instantes, e me levantar no momento seguinte: não sou do tipo que gosta do fundo do poço. É obvio que às vezes tenho medo; acho que todo mundo tem. E tenho me sentido sozinha, é verdade. Mas a solidão também é uma ótima forma de autoconhecimento. Acho uma pena, se você quer saber. Não gosto de desistir antes mesmo de tentar, mas entendo sua posição. Nem todas as pessoas conseguem se entregar, na iminência do fim. Eu, por mim, prefiro viver um dia de cada vez. O fim é sempre inevitável. Mas ter uma data pré-determinada para ele é realmente assustador. Porém prefiro permitir-me viver e sofrer. Posso morrer a qualquer momento, nunca se sabe. É como diria o poetinha: a vida é uma só. Duas mesmo, ninguém vai me provar que tem. Mas eu te entendo. De qualquer forma, ainda me entristece o fato de não tentarmos. Mas tudo bem. Outra coisa que aprendi com a vida, foi a respeitar os limites alheios. Quando um não quer, eu, pelo menos, não brigo. Ficamos assim combinados, então: seremos para sempre uma lembrança efêmera; uma foto em alguma parede; aquela estranha sensação de um sonho bom. Seremos o que poderia ter sido e não foi; e o que poderá ser um dia, se o acaso assim o quiser. Quanto a mim, sigo na busca incessante por algo que me emocione; por alguém. Tenho tido surpresas muito agradáveis pelo caminho e talvez você tenha sido apenas uma delas. Tenho aproveitado pouco os presentes que me caem no colo; tenho me perdido nas opções. Mas me cansei de aventuras malucas, de noitadas intermináveis. Acho que vou curtir um pouco o calor de uma cama vazia, e a tranqüilidade do sono acordado. Minha cabeça anda a mil. Tenho mania de inventar coisas, é verdade, e agora vou inventá-las de maneira menos real; mais controlada. Vou transformar a minha imaginação cotidiana em letras contínuas nalguma folha de papel. Vou me entregar a este amante virtual. Não sei se você reparou, mas eu nunca disse que prestava. Na verdade, não sei mesmo se presto. Vivo um dia de cada vez, e os dias são deveras surpreendentes. Tenho me assustado com essa montanha russa, mas aproveito cada ponto alto, pois tenho certeza que a queda virá em seguida. Não sei se gosto da adrenalina... Mas vou seguindo meu caminho, um passo depois do outro. Por favor, não entenda essas linhas como uma carta de despedida, ou um desabafo. São apenas pensamentos soltos, perdidos em uma tediosa tarde de primavera. Outras estações virão. No outono, quem sabe, com as temperaturas mais amenas, poderemos semear o que agora não foi possível. Não há como colher o que não foi plantado. Mas há como, sem ter feito nada, apreciar a beleza das rosas primaveris. Eu, por enquanto, apenas observo. E ofereço flores a quem julgo merecedor. Quanto a você, que seu caminho seja leve. Que o reencontro seja reconfortante, e que as decisões não doam tanto quanto a espera. Que o recomeço seja melhor do que a chegada, e que a partida seja apenas uma parte da estrada. Para você, planto uma rosa. E espero, sinceramente, que ela desabroche em breve. Linda. Onde quer que você esteja. Para você, planto agora esta rosa, que te acompanhará por toda a eternidade, iluminando seus passos nos momentos mais difíceis, e alegrando a casa vazia, quando sua alma vagar por aí. E para mim, uma licença poética; uma pausa dramática. Eu agora vou cuidar do meu próprio jardim. Até que alguém, com mãos delicadas, decida por fim, trazer o seu lar.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Opções

Cada escolha traz consigo um arrependimento. Às vezes, na ansiedade da decisão, optamos por espaços menos vantajosos, por esperanças nunca concretizadas. Escolher é uma forma de rejeitar justificadamente. Quando se caminha pela alameda mais bonita, deixa-se de conhecer a ruela menos arborizada, e vice-versa. Durante todo o tempo, mesmo sem perceber, fazemos opções que alteram, em menor ou maior grau, o curso dessa nossa vida. É o tal efeito borboleta. Se soubéssemos o que cada atitude de agora pudesse causar no futuro, talvez fossemos mais corretos. Mas com certeza seríamos também mais artificiais. A beleza da vida é a multiplicidade de escolhas. É a possibilidade do erro e do engano. Às vezes a decisão mais acertada para o momento, lhe parece absurda depois de alguns instantes. Há sempre perdas, não se engane. Sempre, em qualquer ocasião, por mais simples que seja a escolha; sempre ela lhe apresentará uma faceta positiva e uma negativa; não necessariamente proporcionais. Há, obviamente, situações mais simples, e outras mais complexas. Há opções que acarretam outras opções subseqüentes, e escolhas que esgotam uma possibilidade. Acho estas sempre menos acertadas. Sou do tipo que vive até a última gota, que só aceita um final quando ele mesmo se impõe. Estou um tanto quanto acostumada com as perdas. Mas costumo encará-las com naturalidade. Quando se perde uma partida depois de dedicar-se ao máximo, o resultado é o que menos importa. Gosto mesmo é do jogo, da performance. Por isso costumo jogar até o final, até o fatídico apito final. A maioria das pessoas esquece de guardar os pequenos cristais encontrados no caminho! Mas são eles que nos acompanham por toda a estrada até o acidente derradeiro. Viver cada dia como se fosse o último é muito utópico. E, cá pra nós, seria demasiado caótico também. Mas trabalhar a idéia de finitude, e calcar nossas escolhas na certeza de que tudo é efêmero, de uma forma ou de outra, para mim parece muito interessante. Sou do tipo que se entrega, a minutos do fim. Que recolhe os próprios cacos com a dignidade de quem ousou tentar. E que conquista vitórias inimagináveis apenas porque não as pensou possíveis. A vida é a fartura de possibilidades. Cabe a nós escolher, dia a dia, qual será a nossa nova estrada. Somos como aquelas escadas de degraus soltos: há que se retirar o anterior para se construir o seguinte. Há que se encarar o passado para construir o futuro. E há que ser leve, pois carregar um peso desnecessário poderá interromper intermitentemente a nossa ascensão. Tenho aprendido a transformar meu passado em sementes para o futuro. Todas as coisas que vivi até agora, me ensinaram a postura que tenho hoje. Mas tento fazer desta proteção uma armadura maleável. Quero ser permeada por idéias alheias, quero ser tocada quando menos espero. Quero me emocionar com ilusões e descobrir como é bom se deixar sonhar. Estou numa fase de decisões muito importantes. E tenho medo de me arrepender das escolhas. Mas estou aberta ao erro. Estou expondo as minhas fragilidades e sentimentos. Ando querendo mudar de casa. Estou procurando um lugar pra mim. E essa mudança abala estruturas, desmorona confortos. Essa mudança me arranca de dentro de um corpo sólido para me jogar no fundo de um poço de areia movediça. Instável. Quanto mais eu me mexo, mais impregnada fico. Quanto mais tento gritar, mais sufocada me sinto. Estou com as vísceras expostas, vou vagando por aí. Mas tenho comigo uma certeza inata. Tenho um tipo de sabedoria milenar. Por mais que a minha alma insista em vagar, por mais que o controle às vezes me falte, por mais perdida que eu pareça estar, tenho sempre um abrigo perfeito. Sempre algo ao alcance das mãos. Porque mesmo na confusão e na incerteza, mesmo na dúvida mais extrema, minha decisão sempre converge para a minha própria essência. Porque se tem um lugar que eu sempre me acho, mesmo quando não me procuro; porque se há um lugar seguro, esse lugar é dentro de mim.