sexta-feira, 11 de junho de 2010

Abismo

Dá pra morar com um artista e não criar um projeto nos primeiros dez dias? Dá pra não acreditar nesse projeto como se fosse o projeto da sua vida, e fazer de tudo para que ele passe da verborragia para a prática em dois tempos? Dá pra não acreditar? E será que dá pra discutir assuntos fundamentais sem pelo menos alguns cigarros e meia garrafa de um vinho qualquer? E quanto tempo dura essa efusividade? E quanto tempo os assuntos permanecerão tão perturbadores, e tão frescos, e tão absolutamente brilhantes e deliciosos? E em quanto tempo vocês conseguirão erguer um espetáculo, ou um livro, ou uma coletânea musical? E por quanto tempo aquele projeto interessará a vocês reciprocamente, e fomentará uma vontade inata de se manter acordado e vivo e participativo e definitivamente e absolutamente brilhante? Por quanto tempo? Por quantas madrugadas? Por quantas brigas e ao custo de quantas noites mal dormidas? E quantos cigarros se consumirão nesse tempo? E haverá remorso? E crise, e fadiga e gargalhadas e outros assuntos? E quantos artistas interessantes, e inteligentes, e brilhantes, e medrosos, e dispostos, e saudáveis, e gostosos, e cabeçudos, e singulares você conseguirá reunir pra esse mesmo projeto? E o projeto realmente sairá do papel? E você sabe o que é um papel? E o papel te interessa, te instiga, te maltrata? E o que é um papel? E você quer um papel? Ou quer um processo? E esse processo te fará acordar extremamente feliz por ter nascido e infinitamente deprimido por não significar nada no mundo além de você mesmo? E você saberá lidar com suas questões e com questões alheias, e com questões filosóficas e matemáticas? E elaborar um orçamento tão próprio será tão fácil como meter o bedelho em projeto alheio e diverso e frio e burocrático? E você verá nos olhos das outras pessoas esse brilho intenso que agora brilha em seus olhos e que você vê refletido nos olhos dos outros artistas e que você quer a qualquer custo manter acesso? E você saberá lidar com todo esse tesão e toda essa angústia e toda essa dor e todo esse arrepio? Porque os pêlos se eriçam e pela primeira vez é chegada a hora de desistir da cama e do sonho e do descanso. É hora de acordar de alguma forma e sacudir a poeira e concentrar e partir pra ação. Mas você gosta de dormir muito. E o tempo lhe falta. E é hora de se livrar dessas amarras e as algemas lhe mantêm presa. Porque morar com um artista, sendo você um deles, é corroborar com a hipocondria e com o medo total e geral do absurdo humano. Porque o tempo vai passar apesar de estar congelado nos ponteiros na parede. E apesar disso, letras vão se soltar docemente de violões alheios, e você não saberá reconhecer a melodia. Porque você não trabalha com música, e sim com corpo. E por isso saberá em algum instante contrabalancear as batidas incessantes do seu coração com o verbo que escorre dos seus lábios, e por mais que tente interromper o processo criativo, não haverá como romper essa louca balada que tocará em seu peito e lhe fará ser mais forte que o Clarck Kent travestido. Porque toda a força de mudança e o potencial para a ação estão dentro dos seus olhos de vidro, que fitam sua real figura no espelho. O buraco do espelho está fechado. E preso em suas próprias elucubrações artísticas, é hora de agir. Porque é tempo. Porque é vento. E porque é foda.

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