segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Tempestade de Idéias

Parece que aparentemente continua exatamente igual. Ingual. Mistura de dor doença e gozo, forte inchaço de glândulas estranhas. Parece calmo e infinitamente seguro. Mas no fundo, de dentro, no meio, o ralo a sugar intenções para baixo. Sempre para baixo. Escorrendo pelas gotas de tensão a possibilidade de entendimento e de angustia. O irreconhecimento. O medo e a demora. Com grãos passando pelo buraco do relógio. Ampulheta. Que se vira no repente, no meio da rima, na hora do sim. Concretude assustada de se saber inteiro. Medo sinistro de se sentir vazio. Porque, no fundo, é apenas aquilo que deixou de ser agora. Linha continua atropelada que deixa qualquer sorriso no espaço do passado. O tempo tentando parecer, tentando ser algo mais palpável do que apenas um instante que passa e que passa e quepassa. Unhas brancas em mãos claras contrastando pouco com o vestido que sustenta a aliança. É tempo do desconhecido. Abismo nos pés e amor nos olhos. Dúvida na hora da pergunta e estranha certeza inata. Enquanto tudo o tempo. Todo o tempo. Minutos indecisos batendo pulsantes num teclado qualquer. Notas dissonantes a agulhar uma cabeça já não sadia. Corredores de cupidos com suas harpas e flautas e trombetas e trompetes. Pratos no fundo criando uma imagem alimentar. Nutrição de alma altamente estéril. Frutas a caírem de pés descalços, que caminham lentos sempre no rumo certo. O errado nada mais é do que uma barriga de percurso. Quilos a menos para livrar-se da insatisfação. Medo doentio de novo e repetidamente. Palavras terminando em fonemas errados, criando rimas tortas e absolutamente lacrimejantes. Peito pulando no peito, batendo ritmos acelerados e voltando, pulsante, ao repouso eterno. Vírgulas não usadas sobrando meio à direita, criando espaços de pausas longas e sem sentido. Milhões de coisas a dizer e apenas uma língua que não quer calar, que se ocupa absolutamente de outras coisas que não o verbo. Língua. Sexo. Coisas. Casas. E os grãos de tempo escorrendo pelas paisagens indecisas da memória. Fotografias esquecidas em cantos de gavetas velhas, com olhares cansados do infinito a procurar alma a que penetrar. Sonhos perdidos no tempo e tempos perdidos nos sonhos. A linha passando rapidamente e se aproximando do corte. Tesoura do desejo. Medo do fim.

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