Pensamentos, frases, estórias e mentiras criadas a partir de fatos corriqueiros. Uma livre distorção da realidade.
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
Revival
Estava com a sensação estranha de descobrir-se em velho amor. Borboletas a incomodar-lhe a calmaria. Eram dias claros que passavam lentos. No fundo, a velha sensação de sentir-se a imaginar. Os homens eram, de fato, sua melhor invenção. Assim, fechou os olhos no exercício diário de criar encontros, e encontrou-se lá, ainda ao seu lado. Era uma sensação antiga, já o disse. Mas a familiaridade do encontro afigurou-se como uma recordação doce, que teimava em querer se repetir. No peito, a certeza de não ter vivido todos os momentos. Arquitetou pequenos planos de fuga, mas acabava sempre por encontrar-se de novo lá: fumando um cigarro no pátio interno daquele apartamento térreo, e naqueles braços, agora ainda mais ternos e intensos. Enquanto, confundia-se nas ilusões. Misturava realidade e sensações, e criava, sem querer, um jogo de acreditar que se tornava cada vez mais palpável. O telefone ainda a figurar-lhe na agenda. Suas palavras intangíveis ainda a ecoar-lhe nos ouvidos. Então era noite naquele quarto vazio e ela, com suas dúvidas, acreditava naquela certeza inata de que dessa vez seria diferente. Sabia que suas atitudes atrapalharam o passado e, por isso, tecia com cuidado os acontecimentos do porvir. Os dias passavam lentos. E ela, utópica, saboreava cada pequeno novo dado que lhe surgia em suas viagens introspectivas. Alguma coisa a perturbar-lhe a boca do estômago. Lembrou-se então dos negros cabelos e dos corpos dançantes que se encontravam com assustadora freqüência em verões já idos. A antiga memória afetiva já rompera o ano, fazendo dos encontros inesperados pequenas doces pérolas do acaso. Saboreava. Por isso, enquanto criava ambientes oníricos de intensa beleza, sentia como se os acontecimentos conspirassem a favor do encontro. Madrugadas de insônia convergiam e mecanismos cibernéticos os aproximavam. O fato é que se gostavam. A despeito do tempo e do amor romântico. Tinham olhos brilhantes e sorrisos sutis. Estavam, de novo, se descobrindo. De maneira profunda, intensa e talvez até irreal. Ela ainda não sabia o porquê, mas o como se lhe apresentava de maneira incisiva. Faltavam apenas mais uns poucos dias para colocar sua ilusão à prova. De novo ali, à beira daquela baía que tantas vezes os contemplara, embaixo das poucas estrelas e à luz daquela lua cheia. Tão familiar quanto aqueles olhos negros. Tão desconhecido quanto aqueles velhos corpos...
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