quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Estreia espetáculo SOBRE NÓS


Olha que lindeza!!! O espetáculo já está saindo do forno!

Conto com a presença de todos!

Até a estreia!!!

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Minha nova peça no Catarse

Queridos queridos,

Resolvi extrapolar as linhas desse blog e partir para uma aventura mais intensa e perigosa. Vou estrear como dramaturga no espetáculo "Sobre Nós", no qual eu também participo como atriz. Mas, para isso, precisamos arrecadar verba para viabilizar o projeto.

Se você acompanha este blog, gosta dos textos ou tem interesse em incentivar a cultura no Brasil, por favor, contribua! As doações tem o valor mínimo de R$10,00 e, a partir de R$20,00, são oferecidas algumas contrapartidas.

O link é: http://catarse.me/pt/projects/273-sobre-nos

Apoie! Divulgue!

Faça com que "Sobre Nós" seja também "Sobre Você"!!!

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

A Coisa.

Era assim. Uma coisa meio certa, meio errada. Uma coisa estranha. Uma coisa, enfim. Era assim que era, e era assim que ela parecia quando se olhava pra ela de cima, distante, tentando reconhecer suas formas pelo volume que se projetava no espaço. Uma coisa. Nem bonita nem feia, nem grande nem pequena, nem assustadora nem dócil. Uma coisa calma. Imóvel. Parada. Mas por olhá-la assim, por tanto tempo e com tanto afinco, a garota por fim achou que ela parecia mover-se. No início tentava escorrer pelo ralo, depois dilatava, ocupando ainda mais espaço do que o possível dentro daquele recipiente pulsante, tingido de vermelho sangue, ainda a pingar do buraco da blusa. Então era assim que se parecia – pensou. Uma coisa, e nada mais. E ao pensar isso, a coisa transformou-se em coisas outras, subdividindo-se em pequenos grupos que se permeavam. Às vezes, um pedaço pequeno fazia-se grande, mas logo depois voltava a murchar, seco, e morria sozinho, sem que ninguém o tocasse. Às vezes, um grande exemplar estrebuchava ruidoso, deixando claro o assassinato violento que o acometia por motivo qualquer. A coisa, apesar de coisa, era viva. Vez por outra, um pedaço mantinha seu tamanho – até ameaçava crescer – mas mudava de cor repentinamente, ficando pálido e triste para, depois, irradiar sua vermelhidão intensa, a contagiar todos os róseos ao seu redor. Quando isso acontecia, ficava claro que alguma dúvida assolava a matéria, que choramingava calada, sem nem mesmo saber o motivo. Bailando todos os pequenos grupos no mesmo compasso estacado, arritmias inesperadas traziam surpresa àquele espetáculo quase jazzístico. Quando enfim achou que já tinha visto todas as combinações possíveis de vermelho-branco e de pulsa-e-pára, a coisa reorganizou-se de maneira surpreendente, mostrando à menina que, como coisa que era, aquilo era mesmo sem explicação. Centenas de milhares de curiosos, como ela, já haviam tentado definir a coisa antes. Mas ela, indefinível, continuava a arrebatar curiosos e covardes, intelectuais e donas de casa, maus-caracteres e heróis. A coisa é mesmo indefectível – pensou. Mutante que era, transformava-se continuamente. E pior: multiplicava-se, excedendo o tamanho do recipiente em volume mas, ainda assim, mantendo-se etérea e cabendo dentro de si. É... coisas são mesmo enigmáticas - concluiu. E decidiu não mais tentar cartografar o assunto que, guardado dentro do buraco do peito, viveu com ela até sua morte, acendendo-se e extinguindo-se incessante, ao sabor de suas próprias vontades. Morreu junto com ela, a coisa. Mas viveu ainda nos outros. E morreu também quando os outros morreram, vivendo então nos outros que sobraram. É. A coisa era mesmo indestrutível...

sábado, 2 de julho de 2011

Presente

Por onde passeiam as entranhas que, vez por outra, me abandonam e saem a observar o mundo a seu bel prazer? Eu, por mim, arrumei um foco preciso que ilumina todo o meu olhar. Sorrio. Mareio. Absurdo. E ainda assim, ainda desse jeito, tenho certeza. Todo o entorno treme e se desfaz. Mas ele, ali, no canto do pensamento, me agracia com flores de sentimentos puros, que se despetalam enquanto ando, formando o caminho sinuoso e perfeito das minhas ambições. Por ora, tudo está suspenso. Terra plena de acontecimentos duvidosos e surpreendentes. Na manhã ainda escura, sorrisos, toques, calor. Então é isso que dizem que é felicidade. Gozado, não me parece tão difícil agora. E no fundo daquele olhar pidão, parece-me que há um infinito inteiro de possibilidades. Variações, números, mutações. Camaleonicamente, assemelho-me a coisas que eu admiro de longe, sem dizer o porquê. Sinto-me imensamente completa, como uma banheira de espumas que se estende além de seus próprios limites. E é leve. E pode ser modificada com um sopro. E mesmo assim é sólida. Profunda o suficiente para que eu não me afogue em mim. E deliciosamente relaxante. No corpo inerte que se encontra em repouso, marcas dos acontecimentos parecem se exibir com orgulho. São cicatrizes que foram forjadas por amor. Com os pulmões já livres da fumaça, o pensamento se torna um pouco mais vagaroso e leva, com ele, lampejos da minha preguiça. No peito, letras transformam-se em cenas, certezas transmutam-se em negócios. É que, brevemente, toda a realidade presente escorrerá pelos poros, fazendo com que o suor concretize-se em cifras. Não é sempre que se tem uma oportunidade real de transformar os sonhos em matéria. Por isso, com pequenos orvalhos corpóreos vamos, aos poucos, engendrando uma mistura estranha e dolorosa que será responsável pelo porvir. Não me culpo pelo que deixou de existir. Martirizo-me pelos erros cometidos, mas Eros me acompanha. Eu agora vivo o presente. E ele – lindo – é um presente de barbas.

domingo, 17 de abril de 2011

Caminhada

Da janela do ônibus, vou deixando as cidades para trás. Plantações e plantações de mostarda, pedras cinzas do mediterrâneo, pessoas de referências distintas. Nos ouvidos, um misto de línguas irmãs que se perderam durante a caminhada. O mundo é mesmo um ovo macio e recheado, com város novos sabores a descobrir. Com os pés doendo de tanto chão e a coluna cansada de tanta bagagem, percebo que voltar é necessário, mas que sair é imprescindível. Hoje é talvez um marco desta grande jornada. Pela frente, metade de desconhecido, um velho colo de mãe, e a saudosa concha do sono. Pela primeira vez em muitos dias, tenho tempo de pensar um pouco. De colocar as idéias no lugar e refletir sobre os acontecimentos. Parece absurdo, mas o excesso de informação me causou um esquecimento profundo de coisas desnecessárias e me impediu, por um tempo, de dar a devida atenção aos meus sentimentos. Hoje estou com o coração fraco, com uma gratidão profunda e uma saudade imensa. Por diversas vezes, aqui, lembrei-me de pessoas que já se foram e que, infelizmente, não tiveram a oportunidade de ver o mundo de perto, por outro ângulo, com os olhos descansados. Parece estranho, mas lembrei-me aqui de como tenho me esquecido de ser grata. De ser terna. De ser amável. Olhando monumentos construidos a milhares de anos e conhecendo culturas antigas que ainda se mantêm vivas, tive a exata noção do quanto somos efêmeros. De como as coisas se sucedem contra nossa vontade e do quanto somos privilegiados se, por um momento, prestarmos atenção nos nossos laços de afeto, em nossas conquistas pela vida, nos presentes que recebemos do acaso. Feliz com a minha caminhada, hoje desejo a todos que um dia tenham a oportunidade de ampliar os horizontes, de poder ver, além do mar, antigas caravelas puxadas pelo vento, em direção ao desconhecido. Há pouco tempo, a virada do milênio era um mistério. Agora rumamos ao desconhecido ano de 2012. Mas, a bem da verdade, continuaremos aqui. Cobertos com nossos temores e com nossas crenças. Completamente absortos com nossas próprias vidas, sem termos a exata noção da magnitude da nossa existência. Hoje me sinto um grão de ervilha, de areia. Uma poeira no vento, flanando por uma rota prederminada mas cheia de assaltos, que pode me arrebatar a qualquer momento. Hoje agradeço aos céus pela oportunidade e valorizo um pouco mais meus pequenos diamantes. Meus pais, meus amores, meus amigos. E todo o castelo de cartas que, tolamente, eu acredito que construí.

quinta-feira, 31 de março de 2011

O Fim

E então chega ao fim. Mais uma parceria, mais um tratado, mais um contrato, mais um trabalho. Finda-se, como tudo na vida um dia. E invade-me um sentimento estranho, nem alegre nem triste, de começar-se um novo ciclo. De dar a largada em uma nova corrida contra o tempo, que objetiva apenas duas utopias: estabilidade e satisfação. O tempo, pela frente, parece revoltoso. Mas isso são previsões estranhas separadas, antes, por uma intensa navegação por mares distantes. Por um sentimento calmo e cuidadoso de saber-se em paz. Fui íntegra em todos os momentos – e me orgulho disso. E, se por ora desisto da jornada, o faço porque minh’alma tem-se decepcionado muito com as ambições humanas. Já não basta apenas realizar um grande feito, ter uma grande idéia, compartilhar com os outros a alegria de estar, de sonhar, de fazer. É preciso mais. É preciso ludibriar, iludir, discordar, difamar e, por fim, trocar juras eternas de amor e admiração. Por isso deixo o barco, afogada de decepções, mas contente por ter encontrado bravos guerreiros, doces e corretos marujos. De tudo, me sobra apenas uma distância ligeira, um pudor estranho de querer alertar a todos sobre o perigo da tempestade, mas me calar. Por medo. Por vergonha de opinar. Por achar que, no fundo, todos já sabem da tormenta, mas insistem em acreditar na face clara da calmaria que, vez ou outra, mostra-se negra e imprecisa. O que me mata é a incoerência. Verborragia demagoga e retórica obscura. Se o inferno são mesmo os outros, tenho um pouco de piedade daqueles que carregam o limbo dentro de si. Hoje encerro um ciclo. Hoje consolido mais um tombo. Talvez maior do que todos os outros, mas muito, muito menos dolorido. Com o tempo, a gente vai ficando duro na queda. Preparo-me para um hiato: vinte dias de recolhimento expansivo pelas ruas da vida. Vou ver o mundo; esquecer-me dos problemas; apresentar-me para a imensidão. Quando eu voltar, tudo vai estar ao contrário: casa, trabalho, dinheiro, relações. A única coisa que fica é meu amor, pedra segura neste vendaval de transformações. Há tempos, ouvi que apenas quando eu tivesse raízes conseguiria esse brilho nos olhos. E que, para se arrumar as coisas, é preciso antes bagunçá-las. Pois estou aqui. Firme e preparada para a revolução. Contente com o andamento das coisas. E convicta – muito a contragosto – de que as pessoas são piores. Mas que o castigo vem a cavalo.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Por aí

O peito anda tão em quietude que às vezes fica complicado colocar pra fora as angústias que se escondem sob a superfície calma de minh’alma. Por entre os olhos, apenas uma certeza convicta da força do sentimento que nos assola. Sinto, de fato, ter provocado lágrimas pela perda, ter apressado o passo, ter sido tão consciente nas atitudes. É uma pena, eu sei. Mas cada indivíduo sabe, em seu recheio, a lança precisa que o lacera. E entendendo assim cada sofrimento alheio, espalho migalhas para que não se percam os amigos e, vez por outra, recebo em minha caixa virtual mensagens gratificantes, como a de outro dia. No chão, as folhas do calendário rasgadas figuram em uma pilha de horas perdidas. Infelizmente, todo aquele monte virou lixo, aproveitado em alguns momentos por sentimentos de extrema ternura. Na natureza nada se perde, dizem. Por isso, lampejos de antigas inquietações acabam se tornando belos amores fraternos, que florescem ainda em campos inférteis. Olhando pra frente, o futuro se apresenta como uma floresta inóspita, melindrosa em sua escuridão. Com metas certeiras, tento tirar de dentro esta bússola desalinhada, que cisma em me mostrar um norte às avessas, sempre em oposição ao meu querer. Tenho vivido dias de saudades contidas, na suspeita de que em breve todos os abraços se darão. Mas, ao mesmo tempo, quando me deparo com o espelho e vejo como os dias têm passado por mim, fico com a impressão fugidia de que o tempo não me tem sido muito gentil.

Contudo, contemplando esta cara amassada e essas olheiras profundas, admito, com alguma pena, minha parcela de culpa em meu descompasso. Tenho tido muito sono de manhã... E o dia apressado, que acorda antes que eu possa me recompor, apresenta-se sorridente, jogando-me ainda à face a necessidade de levantar e produzir. Algo a mais que suor e sorrisos. E assim, ainda entre os lençóis do dia que passou, calço as minhas botas de sete léguas rumo a um acaso incerto, que me apavorará depois do silêncio dos sonhos. Por ora sou princesa, senhora de castelos e ruínas. Vou à Fontana di Trevi fazer um pedido para o porvir. Em meu pulso, um ponto certeiro ainda indefinido no alto do mapa, símbolo máximo das minhas origens. Na cabeça, a coroa da liberdade encerrando, sem culpa, um ciclo de fé e de desencanto. Nos lábios, a vida. E no peito, a paz.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Entre nuvens

Já se passaram algumas horas desde que você se foi e, no entanto, ainda não consigo saber exatamente qual a extensão da minha perda. De longe, vejo olhos coloridos sorrindo da minha desgraça – doce vingança de uma desilusão amorosa qualquer. De perto, apenas uma cama já fria, retrato inexato de uma ruptura completamente acidental. Olho no relógio e não sei precisar o tempo. Andamos em descompasso, presos a um fuso-horário maluco que cisma em mudar a cada passo que dou. Aqui, do alto, vejo nuvens brancas embaixo de um sol imenso, mas sei que, de baixo, o que se vê é um céu cinzento, ameaçador; resenha final da sua angústia solidão. Pensei em escrever um bilhete hoje. Deixá-lo pregado em seu pára-brisa apenas para tentar conter a ventania que te assola. Mas saí apressada, fugindo da imensa nuvem radioativa que pairava sobre a minha cabeça e acabei deixando pra mais tarde a minha delicadeza de mulher. Nos olhos, tristes memórias premonitórias que custam a acontecer. Flores coloridas impedindo o abraço, beijos saudosos, reconhecimento de corpos. Você não sabe exatamente quanto sangue corre em minhas veias enquanto teço essas linhas confusas, que me saem aos saltos do peito. Olhando aqueles cômodos ocos, hoje, tive certeza absoluta de quantas histórias ainda podemos construir. É naquele grande vazio – pequenos quadrados de esperança – que mora nosso futuro-mistério. A vida acontecendo aos sobressaltos, no compasso da nossa astúcia. Acordo. Olho para o lado. Há algumas horas você se foi. No travesseiro, nem ao menos o cheiro do seu suor, nenhuma memória física da sua passagem por mim. Tento tirar o sono dos olhos, mas o quarto, ainda em sombras, insiste inutilmente em me acalmar, deixando nas frestas a sensação de frio na barriga. Eu ainda não sei quando você se foi. Não sei quanto tempo você ainda ficará distante. Mas sei que te guardo dentro, perto. E que os meus olhos ainda carregam, pesados, ternos reflexos da sua indecisão.

terça-feira, 1 de março de 2011

Cinema religião

Os dias vão passando ligeiros, e esse medo estranho começa a me tomar por completo fazendo das maiores expectativas um tormento muito pouco sutil. Acordei com dores no corpo e uma sensação de saudade antecipada – que se tornará aos poucos tardia – dando a impressão fugaz de que o tempo é estático. Por entre os lençóis, ainda um sono guardado, perturbado apenas pelos sonhos diversos que se apagam da minha memória no alvorecer das horas. Perdida entre as tarefas, procuro encontrar um ponto central, foco de toda a minha energia, mas me perco em devaneios românticos e numa certeza absoluta e substancial: a vida é feita no enquanto. Refletidas no espelho do meu passado, lembranças de momentos delicados e efêmeros, que serão pra sempre guardados na caixa preta das minhas emoções. Hoje acordei feliz e convicta de que a estrada é contínua e nos apresenta sempre bifurcações eloqüentes e encantadoras. No peito, a marca sagrada dos homens com poesia e a certeza de novas frases melódicas. O teclado imprimindo notas dissonantes, que se convertem em caracteres esdrúxulos do meu penseiro ideal. Ondas de reflexão. E na distorção côncavo-convexa das imagens, gordas lágrimas e estreitos sorrisos, preenchendo os ambientes etéreos de mais possibilidades e sensações. Hoje acordei e sorri. Assim, sem causa aparente. Sem nenhum motivo importante ou foco absoluto. Me alegrei pelo que vai dentro e pela beleza dos encontros que se estabelecem pela vida. Fiquei pensando que não há livro mais interessante do que o outro. E que as histórias só são escritas a partir dos olhos. Quis agradecer, por um momento, a possibilidade de me reconhecer nas linhas alheias; de crescer, por um instante, a partir daquela inocência. Tive vontade de comentar, de telefonar, de apoiar, enfim! Somos feitos de segundos consecutivos, que nos atropelam a todo instante transformando o que ficou em matéria morta. Somos um eterno renascimento. E assim, florescendo outros amores, cumprimos nosso destino principal neste plano-sequência. A câmera atrás da parede, filmando momentos que, por ora, ainda não nos damos conta. E, no momento final, no suspiro último, o verdadeiro presente divino: nosso filme biografia, preenchendo as retinas de beleza e recordação. Não faço idéia se há uma justificativa para os dias, mas tenho a impressão de que eles são como a arte: se não tiverem um fim em si mesmos, não são merecedores de apreciação. Não cativarão o público e nem transformarão uma alma. Deus – se é que existe – é um exímio cineasta...

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Por trás da casca

Cof – uma tosse estranha e seca invadindo o ambiente. Cof cof, ela se repetia. Depois, foi seguida por numerosos hum-hum’s, daqueles necessários à limpeza das gargantas acometidas pelo pigarro. Narizes sendo aspirados, mãos limpando o contorno dos olhos e assim, com o organismo aparentemente em ordem, deu início ao discurso. Sua dicção era clara, as referências teóricas também. Falava como quem domina o assunto, fazia citações, inventava verbetes. Mostrava um conhecimento de causa inequívoco, parecia doce, tinha ternura nas pupilas. Não era, em absoluto, um grande homem, mas parecia, de alguma forma, encantador. Um princípio de careca, uma barriguinha um pouco protuberante, nada realmente digno de nota. Tinha uma insegurança contida, que era demonstrada em distraídos movimentos de mão e olhares em direção ao chão. Era, enfim, um homem comum. Talvez um pouco arrogante, mas comum. Depois de uma curta temporada de sorrisos sinceros, desencontraram-se, como acontece com as pessoas que, apesar da afinidade, não encontram no outro aquele quentinho do lado esquerdo. Era inteligente ele, agradável. E ela não quis, de forma alguma, perder a companhia, os diálogos, seus monólogos. Mas ele era arrogante, enfim. Covarde. Por trás da pompa do discurso, da gentileza forçada, do gosto pela auto-afirmação e do seu freqüente assunto sobre cifras, havia um pequeno amedrontado. Um sujeito amargo e invejoso. Passou a desdenhar sua delicadeza, a invadir o seu espaço, a sentir-se atingido por suas letras. Mal sabia ele que ela nem se preocupava com seus desgostos. Tinha por ele um carinho doce, uma paciência amável de quem conhece um homem ferido. Tinha pena de suas atitudes e comportamentos. Assustava-se com suas grosserias, com suas acusações, com sua vigilância e com sua inveja. Era um homem triste. Sozinho como poucos. Vira nela alguma coisa reluzente que pensou ser sua, e acreditou tão piamente em sua posse que, apesar dos esparsos e efêmeros encontros, não conteve sua frustração. Ela não era culpada de suas projeções. Ela nunca havia dito que prestava. Mas vendo suas letras assim, tão cítricas e direcionadas, teve ainda mais certeza de suas escolhas. Teve pena da pequena grande figura que se escondia por trás de toda a arrogância. Ela tinha visto aquela criança assustada em alguns momentos. Tinha vontade de abraçá-la; tinham medos em comum. Mas o pequeno homem bem-sucedido se levantava diante dela, escondendo-a atrás de sua timidez e de suas decepções. Era uma pena. Poderiam ter criado várias estórias juntos. Mas ele era um personagem complexo com uma espessa camada de lodo. Ela sempre gostou de recheios. E as letras nunca mais foram escritas...

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Linhas tortas

Então o dia amanhece. Raios de sol entram pelas frestas da cortina e você se pergunta se é possível frear um pouco o tempo. O coração, cavalgante, custa a caber no peito. Ao alcance das mãos, a paz. Um meio sorriso sonolento, um abrir e fechar de olhos cansado. E você agradece pelo instante que, afinal, já se repetiu e se repetirá ainda por muitas vezes. Os longos cabelos a cobrir suas idéias. E, mais uma vez, você confia na vida e no acaso. Esforça-se para concretizar os sonhos-planos e coloca no prumo toda uma sorte de coisas que cismam em andar à margem. Você escreve algumas linhas ao léu, e a criatividade transborda novamente de suas páginas. Você sempre foi um livro aberto que se decifra com o cotidiano. Algumas pessoas preferiram de você o mistério, contentaram-se com a capa, criticaram pelas orelhas. E você mudando de sentido, cambiando os signos para uma análise semiológica mais complexa. Você e os pseudo-intelectuais, presos sempre em suas masmorras de angústias e frustrações. A verdade do artista é feita na pupila do espectador. É no olhar do outro que você se consolida ou aniquila. Por isso não me venha com equações para uma respiração ofegante, nem com matemáticas para a proporção de tempo-espaço. O mundo que você vive é de química, e as relações elementares nem sempre são balanceadas. No fundo, o que a gente queria era não ter medo. Estufar o peito e passar de cabeça erguida pelos fracassos, pelas incapacidades, pelos desrespeitos. Mas quem inventou as regras já morreu e, pudesse ele, escreveria tudo de novo. O que você não entende é que a pena está em suas mãos. E o mata-borrão não tem utilidade para tinta seca. Por isso, folhas em branco! Páginas inteiras de vazio para que você escreva sua história. Ela será recheada de personagens obscuros e misteriosos, que lhe farão refletir seus maiores desencantos. O fim de toda dúvida é um sorriso de criança. Hora de buscar a sua, então. Dentro de si, escondida por debaixo de camadas de roupas e maquiagens e edredons e limites e pavores. Lá embaixo, ela. Encarcerada e perdida entre suas camadas de esquecimento. Compre um pirulito! Conheço poucas pessoas que não se encantam por um apetitoso e róseo pirulito. De morango, talvez. De desejo. Dê uma chance ao que pulsa. Abra a janela com os olhos e guarde na boca as palavras. Afiadas, elas podem ferir. Doces, podem mudar toda uma estrada. Canetas em punho. Tintas borradas. E mãos à obra.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Presentinho

A vida acontece no atropelo. Um dia você acorda estranhamente irritada e percebe que não há nada que você possa fazer pra transformar sua realidade. Você se resigna, trabalha, descansa e, no fim do dia, resolve comemorar a tristeza de mais um aniversário, de saudade dos amigos, de conquistas esparsas e de frustrações, enfim. Aí você desce do taxi, acende um cigarro, e toma fôlego para agüentar os sorrisos, os cumprimentos, as falsidades. Mas alheio ao seu mau-humor, está o mundo. Repleto de possibilidades confusas, de amigos queridos, de abraços sinceros e de mistério. Ali, bem perto. Parado no canto do bar. Escondido sob uma barba espessa, o mistério. Propulsor de questionamentos estranhos, de olhares diretos. Então você sorri. De longe, sorri. E a vida passa em instantes a parecer mais divertida. A cerveja mais gelada, o cigarro ainda mais saboroso. Você passeia por entre as pessoas e elas parecem ter graça, enfim. Você bailando sobre seus saltos, que incomodam sutilmente seus suaves pés; você rodando pelo salão, encontrando prezados sorrisos e desconhecidos olhares. Aí você se cansa um pouco, embriagada pela bebida e pelos pensamentos. Pára, respira fundo, e vai lavar o rosto. Subindo pelas escadas, depara-se de novo com o mistério, estrategicamente colocado no topo, à esquerda, como uma sombra que lhe observa. Você segue para o banheiro, abre a torneira, e a água escorrendo por sua face cria riscos negros e verticais. Lágrimas forjadas do seu desespero. Você se arruma, confiante. Seus olhos no espelho te fazem de novo acreditar no dia; ter vontade de colhê-lo, assim, sem motivo. E você decide voltar. Ainda em cima dos saltos, você decide fazer de novo parte daquela festa. Mas é agarrada pelo mistério, surpreendida pelo acaso, inebriada pelo futuro. E agora, algum tempo depois, você descobre-se ainda mais presa nessa teia. Completamente envolta no desespero, sentindo uma angústia inexata e profunda, misto de paixão e pavor. E se aceita cada dia mais envolvida, e delicia os pequenos momentos, comemora as sutis vitórias e ignora a possibilidade do fim. Talvez pela primeira vez, você aceita a felicidade como um estado constante, sorri sozinha em momentos inusitados, contempla por horas a calma do sono alheio. Você está presa. E tão imensamente livre, tão absurdamente estática, tão profundamente extasiada... Você de novo acredita. Em nada. E em tudo. Você sempre confiou no acaso. Você, por ora, tem aquela certeza absoluta. Aquela certeza esmagadora de que encontrou o seu lugar.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Vomitocrasia

Há definitivamente uma aura estranha de efusividade a rodear as minhas idéias. Com os dedos ainda em pedra, uso dois pés esquerdos para valsar no teclado. O penseiro eloqüente, guimaraneando verbetes. As palavras, insuficientes para me expressar, amalgamam-se formando outras: neologismos. No dicionário verde de minh’alma parda, procuro significados certeiros pro que se passa em meus poros. Misto de suor e arrepio, de certeza e saudade. Já sufoquei palavras pelo desgaste e denegri outras pelo desuso. Agora, só me basta o tempo – gentil pensador da minha irrealidade. E assim, traçando linhas ao vento, desenho estradas compridas e sem curvas, que me levam direto ao destino iminente: ameaça sutil de meu descompasso. Há tempos não ouço acordes cantarolados aos ouvidos e nem tenho certeza se as auréolas, por sua vez, encontraram prazer em notas tão dissonantes. Ao longe, uma leve – mas agressiva – desafinada. Alto volume a molhar as paredes das casas ainda inundadas. Senhores e crianças a varrer com piaçava a lama que invade seus corpos e os agride entrando por orifícios indesejados. De longe, os jovens a gozar de sua irresistível presteza. Imóveis e intactos como estátuas de ceras líquidas. Perto dos olhos, a gota escorrendo remorso apenas para mostrar que por dentro há sangue. Não há nada que impeça um homem de se empedrar. E não há mulher que consiga refrescar um coração em chamas. Refletindo-se nas pupilas dos olhos intangíveis, o espelho nos joga na cara o outro, flanando ligeiro por entre nossas próprias vielas. Ruas de sincerocídio e falsimento. Por perto dos carros, pés-patins a usufruir de suas próprias rodas: humanos correndo uns dos outros, perdendo-se nos desencontros. O que há em si é brasa. Massa de barro e água, que se molda à medida que mãos mornas se encontram. Barro doce, reflexo poético de desejos e desilusões. Como massa de modelar, a vida se tornando colorida: loiro como amarelo, pele como pêssego. Do outro lado, rugas. Marcas de freada no chão da pele. Sombras de passados próximos esquecidos e rememorados. Ruídos confusos de estrofes censuradas. E com caneta em punhos, risco frases inteiras de palavras sem sentido: nexo necessário à liberação do autor. Caracteres sobreponentes. Características só prepotentes. E linhas e linhas de nada.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Entre Zumbis

Mudanças repentinas em meu cronograma sentimental. Do lado de fora do peito, o calor escaldante me agride, entrando sem licença pelas cicatrizes ainda abertas. Por aqui, não há chuva que aplaque a solidão memorável dos dias de lágrimas. Pelo intangível universo concreto, notícias estranhas me batem na cara, provocando sensações inesperadas, inusitadas e indevidas. Sou de carne e osso, afinal. Sangue correndo nas veias rapidamente. Pulsações exacerbadas, reações teatrais. Vivo no mundo do drama e é por ele que os olhos brilham, agora. Pelo drama alheio. Cruel e sedutor como nenhum outro. Na insônia intermitente das horas que me assolam, somente uma certeza realizadora: mais de 28 horas sem nicotina no organismo, vitória parcial e concreta, há muito desejada. Com a cama vazia e o ventilador rodando no teto, fico dando voltas em mim mesma, tentando prever exatamente os próximos acontecimentos. E as horas se sobrepondo. Em uma semana de trabalho e possibilidades, tento esconder as olheiras que tatuam o meu rosto, misto de preocupação e sua falta. Já não posso esconder mais minha inquietação doentia, minha ansiedade contida, meu ciúme – inédito – de cenas que eu não vivi. Não há nada que comprove aquela passagem na minha trilha. Nem fotos, nem cartões, nem presentes. Apenas essa memória escassa, que me abandona dia após dia. Cada passado em seu lugar no caderno negro e espesso das angústias perdidas. Na galeria de novas obras, sorrisos e sensações táteis diversas. Paladares confusos, visões inesperadas. Minutos passando velozmente, jogando-me na cara a realidade assustadora e cretina: nada como um dia após o outro. E assim, admitindo as falhas e pressupondo as qualidades, aproveito a instalação à revelia de sentimentos interessantes. Despropositados e gratuitos, mas completamente pertinentes e viáveis. E assim, olhos nos olhos, a proximidade se impõe como condição fatal e absoluta para o sucesso. Os dias se tornando mais curtos e as noites mais longas. A vontade esmagadora de manter-se na horizontal por mais alguns instantes. E o medo, enfim. Companheiro inseparável de momentos diversos. Instinto indecifrável da espécie ainda humana. E rara. Inacreditavelmente, tenho me deparado com muita “gente” entre as pessoas. Acho que ando no caminho certo.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Ter

Eis que surge, assim de repente, uma vontade inata de permanecer inerte. Isolada. Apenas olhando aqueles ruivos pêlos espessos, que brotam de dentro do outro; do profundo lugar distante daquele que eu não conheço. E perdida assim entre as vielas da minha imaginação, vou dando forma àquele contorno tão volátil, moldando-o à imagem e semelhança das minhas maiores expectativas. As palavras são rainhas da relação. E, entonações a parte, as linhas traçadas vão preenchendo um caderno H, relacionando pensamentos e brevidades. A vida se faz no tempo. Presa no lapso dos desencontros, sofro por encontrar gente demais em espaço de menos. Tenho um coração quitinete, que me força a abrigar apenas um convidado por vez. Fosse eu mais pobre de espírito, abriria a casa, as janelas, encheria os espaços com colchonetes e abrigaria o mundo de barbas e cabeças. Mas meu espaço é pequeno, e eu preciso de conforto. Debatendo-se na porta, dois gladiadores ainda tentam entrar. Vivo num tempo de paz. Sentada no sofá da dúvida, tenho certezas absurdas e questiono a racionalidade do tempo, esse pai austero que nos devora. Cada um em sua ótica, ambos poderiam entrar e se estabelecer – pelo menos por um tempo. Mas assim, juntos, características se sobrepõem e me obrigam à escolha, cruel e fatal para um dos combatentes. Com a cicuta em mãos, aguardo, ansiosa, o fim da regressiva. A opção já foi feita, enfim. Mas as badaladas ainda insistem em atrasar meus passos. Uma dor lancinante me derruba na cama longe das frases e dos olhos. Solta em meu próprio universo, começo a reconstruir as estruturas; preparo o terreno para um novo abrigo. Presa em meu próprio universo, conto os compassos apressada, ansiando pelo fim do começo. Com batimentos cardíacos acelerados e desconexos, passeio pelas repetidas imagens de solidão e me compadeço dos finais prematuros. A vida é, enfim, uma grande teia de moscas mortas; emaranhado de fósseis deixados pelos caminhos. Terminando de se formar, crisálidas mudam de status e começam a lançar cores pelos céus. O espetáculo só durará alguns instantes, mas será belo e surpreendente. Por ora, só podemos desenhar o início; o fim nos escorre pelos dedos. A vida é mesmo uma revoada de borboletas!