sexta-feira, 11 de julho de 2014

Saudades

Da ingenuidade perdida / Das noites maldormidas / Do sonho // Da necessidade do concreto / Do mundo cinza, triste, deserto / Do tempo que já se foi // E perscrutando o infinito / Sigo sempre, persisto / Não penso no que passou // As amizades antigas / As noites maldormidas / O que tinha que ser / E não foi

domingo, 16 de fevereiro de 2014

a volta

e foi por um dia estar assim, insone, que começou a desdenhar as palavras, como quem diz: delas já não preciso. bobagem esta, claro. ilusão. sabia que seus dedos adictos jamais deixariam o suave prazer de se embriagarem de letras. durante os duros anos da ditadura do roteiro, mantivera-se estritamente na linha, obedecendo as rígidas regras dos setups e plots sem, porém, nunca conseguir chegar ao clímax. foi quando a surrealidade do real a obrigou, incerta, a romper os paradigmas de sua própria escrita e voltar, mais uma vez, ao lirismo desenfreado. seus dedos como generais a torturar as frágeis teclas. deixara, enfim, a passividade. estava decidida a pegar em armas. lápis em punho e canetas a postos, iniciava agora sua longa marcha para a liberdade, oprimida - quem diria - apenas pelo brilho intenso daquelas folhas em branco.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Do comum

Total completo absoluto e imenso vazio / Dor no peito, na alma, no amor / Dor de impotência, de tristeza, de decepção. / Por que, meu deus? Por quê? // Sentimento estranho de ruptura, quebra / Sensação profunda de vergonha / Resignação, nenhum alívio. / Para que? Por quê? // E na reflexão óbvia dos prós e contras, / E na guerra incessante do particular versus público / A certeza triste da derrota / Não. Prefiro ser diferente.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Ratinho de Facebook

Tantas coisas inúteis assim, Inúteis assim Tantas coisas que me completam Destroem, enfim. Tantas coisas descartáveis, quebradas, vazias. Tanto tempo em vão. Tempo passa em vão. Já não quero mais linhas desbotadas Palavras vazias ao tempo, nunca alcançadas Não me interessam pessoas, vidas, intempéries Só me interessa o silêncio, o vento, o tempo, a pele Nunca que eu penso em alguém, penso em você Sempre que olhos suas letras, tento esquecer Já me cansei deste tipo de bobagem, do clichê Sinceramente ratinho de facebook, vai se fuder! Ninguém hoje em dia mais se interessa Pelo que você diz Se acordou cansado, comeu frango assado, Ou está feliz. Se está deprimido, se é um bandido, ou pai de miss Ou se agora resolveu se engajar com seu país Se coloca smile, se tem um stile, se fala inglês, Se já foi pra Londres, come scargot, ou se é burguês Se trocou de carro, se foi metralhado, se estava lá Sinceramente gatinho do facebook, Vai se ferrar! Você é babaca, você é chapado, é deprimente Fuma maconha, bate uma bronha, fica contente Na vida real tu tá muito longe de ser feliz, Mas na virtual, tudo tá legal, tu tá em Paris Nunca sai do quarto, diz o nome errado, tenta seduzir A coroa rica que quando te vê chega quase a rir Tenta se passar por uma pessoa que tu nunca foi Mas atrás da tela finda a novela Mas atrás da tela a realidade Mas atrás da tela, você. E coloca smile, diz que tem stile, diz que fala inglês, Diz que foi pra Londres, comprou carro azul, diz que é burguês Mas é um tapado, quase retardado, não tem o que falar Sinceramente ratinho de facebook, Vai se ferrar!

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Sobressaltos do tempo

Então as horas passam, o dia passa, a vida passa. E a gente, que decidiu que ser feliz e viver era o melhor caminho, é surpreendido pela própria vida. Arrasadora, pulsante, soberana. Como uma enxurrada, que leva tudo pelo caminho. Sem distinção de sexo, cor, idade. Apenas a vida, enfim. Apenas a morte. E ao olharmos pra trás, assim, confusos, começamos a nos lamentar das coisas não vividas, dos momentos não compartilhados, dos braços que não se apertaram num abraço virulento e trôpego, num “eu te amo” profundo e sincero. Ah, como é difícil olhar pra trás e observar as coisas não experimentadas, os caminhos não escolhidos, as pessoas. Como é difícil crescer, ser adulto, optar. A cada nova conquista, um vazio, uma alternativa deixada pra trás. A cada novo amor, um antigo que se cristaliza no tempo como memória que, efêmera, se esvai aos poucos dos nossos pensamentos, embora continue ali, estática, presa no passado como uma marca do que poderia ter sido e não foi. As amizades que escorreram com o tempo. Os laços que foram desfeitos, os apartamentos desmontados. O aperto que passou, o desejo que passou, o tempo. Segundo por segundo, sem que a gente percebesse. Sem que a gente se importasse. E agora, assim, diante da morte – tão fatal e definitiva – o remorso. Aquela culpa pusilânime que se esconde no fundo do peito, da alma, dos olhos. Para escondê-la, lágrimas caem em dor. Sabemos que não é hora de remoer. Mas temos certeza, agora, que não haverá mais tempo para reparar. Para sorrir de novo, junto, abraçado. Pra conversar aquelas palavras longas e intermináveis de vida, de corpo, confidências. As conversas agora serão telepáticas, imaginativas, fantasiosas. Apenas um reflexo do que poderia ter sido. E não foi. Não. Agora não é hora de pensar no futuro. Pelo menos por este instante, é hora de rememorar o passado e as escolhas não feitas. Escolher é deixar de ir e ao mesmo tempo ficar. Dentro. Como uma realidade que não existiu. Como uma possibilidade que, agora, tarda. Assusta. Corrói.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

R.I.P.

São onze e cinquenta da noite. Estou sentada no sofá em frente ao computador prestes a começar a escrever qualquer coisa que me faça sentir menos solidão nessa noite quente de primavera quando, de repente, uma abelha reluzindo seu preto-e-amarelo invade a janela, sorrateira. Droga! - pensei. Terei agora que, no vazio da minha reflexão, travar uma guerra não desejada contra a possibilidade - sim, a possibilidade - da picada. Sou alérgica, afinal. A abelha, meio tonta, zumbeteia na parede para cima e para baixo atrás da televisão. Saco. No chão, meu chinelo preto sinaliza a vontade de brigar por um instante. Pego-o. E, de arma em punhos, coloco-me entre o ventilador e a perna esticada do sofá tentando, em vão, atingir as pequenas listras que sobem e descem. Dou-lhe uma chinelada. Com a rajada de ar, a abelha se desloca em direção a janela sem, entretanto, fazer menção de se despedir. Não quero matá-la, penso. Saia. Mas ela me desafia zumbindo ainda mais alto e dando voltas embaixo da lâmpada da panela pendente, que força a minha visão em direção ao artificial sol da noite. Penso em desistir. Sento-me. Mas ela bamboleia em volta dos meus ouvidos, rente à minha face. Saco! Não poderei desistir. Assim, em pé, arma havaiana novamente em punhos, desfiro duas ou três chineladas até o golpe derradeiro. Em cima do home theater. Ela equilibra-se na quina até escorrer dramaticamente pelo hack em direção ao chão. Era uma vez uma abelha. Não queria matá-la. Mas é o fim. Na vida - merda! - um leão por dia. Não foi acidente. Não foi premeditado. Ah, destino, seu cretino infiel. Pudera eu antever os seus passos para postar-me sempre na soleira da porta, com sorriso em punho. Hoje matei uma abelha. E amanhã, o que será? Ah! Ja disse o quanto odeio quando escrevem "RIP"? Coisa escrota essa de RIP. Falta de palavras mais profundas, me parece. Coisa pra coisas sem importância. Sem querer, deixo uma lágrima cair. RIP abelhinha. Eu gosto mesmo é das coisas sem importância...

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Precursores do infinito

Pode parecer doentio, mas foi assim que começou. Éramos dois. Ainda hoje o somos, mas naquela época éramos ainda mais. Éramos dois e sós. Só nós. Os dois. E de olhar-nos assim tão imensamente, tão ridiculamente, sentíamo-nos apenas um. Éramos o infinito inóspito aos outros. Éramos uma imensidão dentro de mim. E de navegarmos assim, lado a lado, dia a dia, sentíamos como se da vida tivéssemos tomado um trago. E rido um riso e chorado um ombro, que de nenhuma esperança sentiríamos sede. Éramos nós. Mas não éramos sós, os dois. Éramos lindos. Sonhávamos sonhos acordados e brincávamos, os dois, um com a pele do outro, com o cabelo do outro, com as partes. Somos partes separadas, enfim. Juntas pelo que existe entre, intocável, indelével. Casal não traduzia aquilo que ia dentro. Casal era de dois, e nós éramos um duo infinito, um balanço ousado, uma rede. Éramos uma sede fáustica de conhecimento alheio, éramos o abraço, o cheiro, o maço. E então o cigarro se foi. Desprendeu-se de nós como se desprendem as coisas mortas, as coisas tristes e os vícios passados. Deixou em nós uma saudade da juventude – ainda não completamente perdida, mas um pouco distante – dos antigos dias da nossa irresponsabilidade. Não era a saúde própria que nos preocupava. Era a do outro. Frágil, bonita, singela. E de olhar-nos nos olhos assim, tão a miúde, acabamos por, aos poucos, fazermos parte do olhar do outro, presos nas pupilas negras que nos fitavam com carinho. Naquela época, éramos ainda dois. E ainda hoje o somos, já disse. Mas o sonho cruel de tornar-nos apenas um ganhou um nome, e desse nome-medo, um som. Será ela, a gente pensa. Será? Ainda somos dois, unidos pela sutil diferença do sexo e dos limites do corpo físico. Por dentro, já não sei quem sou. Ele, eu, ela-ele, juntos. todos. Amarrados por vontade própria nessa ciranda infinita. Num mundo no qual o infinito já não há. Éramos dois, um dia. Agora – quem sabe? – apenas um.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

O urubu

Tudo continua então. Parado, estático, suspenso. Tudo uma imensa questão aberta; uma prova; um teste. E qual é o sentido, então, da vida? Qual? Se você se prepara para ser competente em uma profissão e o é, e o mercado pouco importa-se com sua preparação e almeja seus conhecimentos interpessoais, suas indicações, seus relacionamentos. Se você olha pros lados, pensa, vê gente de todo tipo, decepciona-se, deprime-se. Mas levanta-se, como bom brasileiro, vai à luta, tenta o impensável, grita, pede ajuda. E, do alto da montanha gelada, do frio, da neve, alguns ecos lhe atravessam, mostrando que a geleira não é assim tão intransponível, que existe, do outro lado, pessoas procurando pessoas como você, tentando encontrar em indicações vazias e pessoais algo de novo e fresco e ainda ansioso e engajado. E você se pergunta se ecos são confiáveis. Se aquilo que você ouve é mesmo real ou não passa de absurdos sussurros projetados pela sua cabeça já cansada de perder. Você anda cansado de perder, de tentar, de nadar e morrer na praia, de gritar por socorro em vão. Mas você tenta. Ainda sim, você continua esperançoso. Embora fraco, desiludido e muito cansado. Você tenta acreditar. Porque amanhã pode ser diferente. E você precisa estar atento para perceber as mudanças... Você precisa, no fundo, estar lá.

domingo, 27 de maio de 2012

O ar

A única diferença entre o Céu e o Inferno, é que Deus comprou um ar condicionado.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

ENQUANTO

Tudo pode acontecer enquanto nada acontece.

domingo, 20 de maio de 2012

CULTURA

É preciso criar a crença do Brasil culto. Enquanto acreditarmos que somos um país de semi-analfabetos, assim o seremos.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

PASSADO

Para viver plenamente o presente, é preciso enterrar o passado. Não importa quem você foi um dia. A única coisa que importa é o que você é agora.

domingo, 13 de maio de 2012

PEDRAS

As pedras do caminho não são pedras. Elas são o próprio caminho.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

HUMOR

Fazer humor é a vida e um papel em branco nas mãos: Desminta-me e eu te deformo!

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Raça

Infelizmente, faço parte da raça mais preconceituosa que existe: a Raça Humana!

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Insistência

Viver é um vício antinatural. As pessoas tendem à morte.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Às 18h

Não sei que lirismo é esse que me acomete às 6 da tarde, em um ônibus lotado. Só sei que pela dor, voltei à vida e - oh! - como é bom!

quarta-feira, 11 de abril de 2012

POESIA

Fazer poesia é mostrar o que não existe por trás do que existe. É dizer a verdade ao contrário.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Pingos de Inspiração


Acho que meus textos sempre foram auto-referentes. A escrita, em mim, debate-se: tenta surpreender o racional e aprisionar o emotivo. Quando vôo demais, detenho-me. Quando empaco, acelero. É que as letras, quando colocadas de forma cadenciada, perdem todo o seu encanto, com moléculas de água transformando-se em gelo. Transparentes e ridiculamente ordenadas. Colocam em melodia o que deveria ser entendido apenas como grunhidos, como ruídos suaves e sonoros de almas inquietas. Um pouco por dia, minh’alma liquefaze-se em pequenas gotas de solidão. Pingos. Escorrendo lentamente pela beirada da pia. Pingos na pia. Gotas de inspiração e sucesso. De tensão e acaso. O mundo, parado como está, grita por um reboque, pede pra sair do lugar. E nós aqui, calmamente sentados em nossas cadeiras macias e aveludadas. Lá fora a brisa: vento fagueiro que balança a copa das árvores mostrando às raízes que nada é tão certo assim. Tão previsível assim. Tão estático. E você aí, esperando o tempo chegar, o dinheiro chegar, a proposta chegar, a morte. Você espera a morte enquanto sonha com a vida. Melhor. Mais intensa. Mais alegre. Enquanto isso ela passa – travessa – por sob as suas pernas. Derruba-lhe no chão a saudade inventada de alguém de quem você nem se lembra. E você aí, estraçalhando caixas de fotos, relendo cadernos antigos, procurando descobrir aonde foi que errou. E eu aqui, soltando os dedos em teclados de branco entusiasmo, de branda eficiência. Somos o espelho da vontade, o avesso do amanhã. Eu, lendo você às avessas. Você, tentando decifrar-me pelo que não digo. Sou absurdo e expiração. Sou preguiça e cansaço. Mas sou uma decisão antiga e crescente, que acaba de desatar seu último nó. Sou sinais gráficos dando a exata intenção a letras redondas e áridas. Sou a coragem vestida de palhaço e a vergonha, cantando baixinho uma triste toada de ninar.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

As letras e o tempo

Não se pode dizer que se deixou de fazer aquilo que nunca se fez. Certo? ... ? Escrever faz e sempre fez parte do cotidiano das minhas tramas e pensar em parar de fazê-lo simplesmente não faz o menor sentido. Mas andei sendo relapsa com este fértil sítio de imagens e afeições. Andei plantando por outros caminhos – talvez menos profícuos. Mas resolvi voltar às raízes e deixar florescer este texto ainda encharcado de preguiça, daqueles que custam a se desprender dos dedos para dar lugar à tela. O exercício da inspiração é mesmo coisa muito capciosa, cisma em atravancar as frases no meio de um maremoto de lirismo. Acreditar nos fonemas é tarefa escaldante, exultante que, de quando em quando, esbarra naquele velho problema da auto-estima petrificada, assustada com sua própria coisificação frente ao espelho cruel e maléfico do tempo. Divago, sim. Voltar a escrever linhas soltas depois de tentar – e conseguir – enjaular-se em estruturas rígidas e risonhas não é tarefa fácil. Por isso desprendo-me. Não quero saber que vão pensar os leitores esparsos que – a bem da verdade – há muito já deixaram de passear por estas pequenas estradas de ilusão. Exercito-me, e só. Por aqui, dirijo ainda sem graça as imutáveis caravanas do meu subterrâneo que, dentro em pouco, voltarão a cuspir em lava e prosa as profundezas das minhas paixões. Penso – sem querer acreditar – que a inegável falta de assunto que me acomete é resultado da minha imensa e tranqüila felicidade. Já não sofro mais de solidão. Já não fumo. Também não tenho aventuras de amor velozes pra relatar em minhas linhas. Sou barco correndo lento pela maré, beirando o fio da navalha que separa o paraíso a dois, do pavor da monotonia. Espantada, percebo a obtusa verdade: nunca estive tão completa. Apesar das torcidas homicidas, das invejas deslavadas, das parcerias carnavalescas perdidas. Não preciso mais buscar o que encontrei. Tenho a sutil certeza da infinidade e o medo absoluto de velar a paz antes do tempo. Mas, dentro da alma, o riso. Pequenino e delicado, como qualquer pérola de amor.