sexta-feira, 5 de março de 2010

Por entre os escombros

E o mundo caiu assim, de repente, como uma tempestade refrescante em uma tarde de verão. Caiu como caem as folhas e as lágrimas: sem motivo aparente. E por isso sentiu-se livre para de novo sonhar. A poesia de cada instante lhe sorrindo como olhos agora cerrados. Não se sabe exatamente o porquê de toda aquela profusão. O que se sabe é que quando olhou-se refletida no espelho, com aqueles dez anos a mais, espantou-se com sua sutil jovialidade. Estava mais bela do que nunca. Perdida nos destroços de sua alma, sabia pedra por pedra o caminho a ser percorrido. Era um paradoxo. E tinha medo. Por isso mesmo, quando resolveu abandonar-se ao prazer e à luxuria, sentiu-se escrava de suas próprias atitudes. Estava ridícula como sempre e feliz como raramente. Alguma fagulha de paixão a borbulhar-lhe no peito. Passou dias por entre seus escombros pensando por qual tijolo começaria. Era moldada de massa mole, derretia-se com toques suaves. E teve certo medo de sentir-se vulnerável na sua fúria de marionete sem corda; quis tomar os títeres em suas mãos. Não sabia exatamente como faria para amolecer argila alheia. Por isso, quando o encontro inevitável fez-se real, perdeu as contas de quantas vezes havia se preparado para aquele momento. E fez, novamente, tudo que não deveria ter feito. Correu por entre as vielas de sua alma debaixo de uma garoa fresca, que cismava em gelar-lhe as entranhas. Estava de novo aquecida. E no calor daquele corpo ainda desconhecido, rendeu-se à velha sensação de morte e paz. Não, ela não sabia ao certo o que a impulsionava para aqueles braços tão rudes e vazios. Mas apenas neles se sentia completa. Por isso, olhando o mundo destruído a sua volta, teve total certeza de que, enfim, encontrara o seu lugar. Nenhum de seus sorrisos a corar-lhe a face, nenhuma de suas historias a nublar-lhe as idéias. Apenas aquela sensação intensa e fugaz, que escorria-lhe pelos braços a medida que tentava levantar-se. Não soube dizer exatamente onde o terremoto começou em si. Mas quando todo o resto começou a reconstruir-se, ela, por dentro, sentiu-se desmoronar. Misto de inveja e culpa, de torpor e nada. E foi quando acordou daquela noite agitada, que se deu conta de que o mundo havia estacionado e ela, sorrindo, acabava de entrar pela porta. Havia pegado carona nas órbitas. Estava girando em torno de si.

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