quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Ratinho de Facebook

Tantas coisas inúteis assim, Inúteis assim Tantas coisas que me completam Destroem, enfim. Tantas coisas descartáveis, quebradas, vazias. Tanto tempo em vão. Tempo passa em vão. Já não quero mais linhas desbotadas Palavras vazias ao tempo, nunca alcançadas Não me interessam pessoas, vidas, intempéries Só me interessa o silêncio, o vento, o tempo, a pele Nunca que eu penso em alguém, penso em você Sempre que olhos suas letras, tento esquecer Já me cansei deste tipo de bobagem, do clichê Sinceramente ratinho de facebook, vai se fuder! Ninguém hoje em dia mais se interessa Pelo que você diz Se acordou cansado, comeu frango assado, Ou está feliz. Se está deprimido, se é um bandido, ou pai de miss Ou se agora resolveu se engajar com seu país Se coloca smile, se tem um stile, se fala inglês, Se já foi pra Londres, come scargot, ou se é burguês Se trocou de carro, se foi metralhado, se estava lá Sinceramente gatinho do facebook, Vai se ferrar! Você é babaca, você é chapado, é deprimente Fuma maconha, bate uma bronha, fica contente Na vida real tu tá muito longe de ser feliz, Mas na virtual, tudo tá legal, tu tá em Paris Nunca sai do quarto, diz o nome errado, tenta seduzir A coroa rica que quando te vê chega quase a rir Tenta se passar por uma pessoa que tu nunca foi Mas atrás da tela finda a novela Mas atrás da tela a realidade Mas atrás da tela, você. E coloca smile, diz que tem stile, diz que fala inglês, Diz que foi pra Londres, comprou carro azul, diz que é burguês Mas é um tapado, quase retardado, não tem o que falar Sinceramente ratinho de facebook, Vai se ferrar!

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Sobressaltos do tempo

Então as horas passam, o dia passa, a vida passa. E a gente, que decidiu que ser feliz e viver era o melhor caminho, é surpreendido pela própria vida. Arrasadora, pulsante, soberana. Como uma enxurrada, que leva tudo pelo caminho. Sem distinção de sexo, cor, idade. Apenas a vida, enfim. Apenas a morte. E ao olharmos pra trás, assim, confusos, começamos a nos lamentar das coisas não vividas, dos momentos não compartilhados, dos braços que não se apertaram num abraço virulento e trôpego, num “eu te amo” profundo e sincero. Ah, como é difícil olhar pra trás e observar as coisas não experimentadas, os caminhos não escolhidos, as pessoas. Como é difícil crescer, ser adulto, optar. A cada nova conquista, um vazio, uma alternativa deixada pra trás. A cada novo amor, um antigo que se cristaliza no tempo como memória que, efêmera, se esvai aos poucos dos nossos pensamentos, embora continue ali, estática, presa no passado como uma marca do que poderia ter sido e não foi. As amizades que escorreram com o tempo. Os laços que foram desfeitos, os apartamentos desmontados. O aperto que passou, o desejo que passou, o tempo. Segundo por segundo, sem que a gente percebesse. Sem que a gente se importasse. E agora, assim, diante da morte – tão fatal e definitiva – o remorso. Aquela culpa pusilânime que se esconde no fundo do peito, da alma, dos olhos. Para escondê-la, lágrimas caem em dor. Sabemos que não é hora de remoer. Mas temos certeza, agora, que não haverá mais tempo para reparar. Para sorrir de novo, junto, abraçado. Pra conversar aquelas palavras longas e intermináveis de vida, de corpo, confidências. As conversas agora serão telepáticas, imaginativas, fantasiosas. Apenas um reflexo do que poderia ter sido. E não foi. Não. Agora não é hora de pensar no futuro. Pelo menos por este instante, é hora de rememorar o passado e as escolhas não feitas. Escolher é deixar de ir e ao mesmo tempo ficar. Dentro. Como uma realidade que não existiu. Como uma possibilidade que, agora, tarda. Assusta. Corrói.