domingo, 29 de março de 2009

Espelho

Na sala, minhas roupas espalhadas pelo chão; enquanto, no quarto, olho-me, nua, no espelho. Mas os olhos que me fitam, do outro lado da porta, não são meus. Por um instante, não são meus. O quarto todo me abraça num eco. As paredes insistem num grito mudo por algo que já se foi. Tudo é falta. Na completude dos objetos, o que sobra é a saudade. Palavra triste, sanidade. Pelo ralo, todo o quarto escorre num suspiro gosmento, que não quer se desgrudar de mim. E os meus olhos, onde estão? Do outro lado não sou eu. Do lado de cá, dor. O peito se move ofegante, como quem procura uma palavra e não acha. A língua a ponto de se soltar; a cabeça prestes a explodir. Tudo é secura. Sertões. No chão da sala, as roupas: imóveis. No chão da alma o medo. As gotas de silêncio envolvem o ambiente de espera. E o tempo para, por toda uma eternidade. Nas mãos, um beijo que não quer sair. E nas costas, a cama que não quer deitar. Tudo é imóvel, enquanto o tempo não passa. Só essa sensação se transforma, trazendo, aos poucos, o peso do esmagamento. Comprimido. Talvez a tarja preta o levasse embora. Mas não quero me embriagar. Nos meus olhos, os olhos de outra que quer sentir a verdade. Tenho me mentido, às vezes. A lágrima do lado de lá não me comove. Nunca fui fácil de dobrar. E, aos poucos, vou sentindo os pensamentos caindo nos meus pés, um por um, e deles brotam novas possibilidades que, agora, só me causam náuseas. O desconforto lateja entre meus dentes, mas mesmo perdendo a noção da realidade, sei que vou resistir. O que me segura é saber que já passei por isso antes. Que já quis morrer e me matar. Por isso tenho raiva desses outros olhos, que me fitam como se não fossem eu, e que me pedem atitude, embora saibam da minha impotência. Nos lençóis, ainda um certo perfume e um certo calor. Um calor que não é meu. Na sala, as roupas no chão choram a minha tristeza. No quarto, as paredes torturam a minha angústia. Tudo pela coragem. Tudo covardia. No peito, todo o movimento do amor. No peito, toda a fobia do fracasso. Pelos dedos, que flertam com o chão, o pranto escorre ligeiro, criando poças de tímida incerteza. Os olhos se enchem de água. E a alma pergunta por que? Por que não? Todo o corpo responde a essa maré de sentimentos, mas o cérebro se recusa. Toda a casa abraça a comunhão, mas a cozinha veta. É no fundo que se conhece o sentimento. É no silêncio que se constrói o grande amor. E são os olhos os geradores da mentira. Por isso, do outro lado espelho, quem me olha não sou eu. Mas não sei de que lado estou. Ainda não sei como chegar lá. Na sala, as roupas no chão vão se enchendo de pó. Envelhecendo. No quarto, as janelas abertas insistem em ainda ventilar. É a esperança insistente, que cismou em sobreviver. Do outro lado do espelho, a mão aguarda o contato. Do lado de cá, todo e qualquer contato tende a ser repelido. Meu olhos não querem mentir, eu sei. Meus olhos apenas se amedrontam com a verdade. Meus olhos querem ser vistos, e por isso não olham. Por isso, do outro lado não sou eu. Porque o outro lado é o que eu quero conquistar. É aquilo que eu quero perto, que eu quero dentro. Por isso as roupas na sala vão morrer. Para que eu possa, aos poucos, vestir-me com uma outra pele. Para que eu possa, de repente, correr atrás de quem sou meu.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Não posso

Estou triste hoje. Ferida mortalmente. Sinto uma dor lancinante que não ousa passar. Lateja. Respiro, concentro-me, e nada! A dor continua aqui. Uma dor de amor pulsante, que cisma em bailar a valsa do meu descompasso. A dor é da espera. Da impotência. Sinto não poder esticar os braços, choro por não poder abraçar uma alma. E me pergunto – sem responder-me – por que é tão difícil? Sinto uma melancolia profunda de sentir-me tão perto, e não poder me aproximar. E creio, cegamente, que a busca, enfim, acabou. Ao menos temporariamente. Quero viver este amor. Quero me permitir. Mas o escudo da hierarquia não me deixa passar pro outro lado; me faz ter medo de subir o muro. Assim, não sei de que lado fico. Tento encontrar brechas nessa realidade irreal, mas só encontro medo. Confesso: sinto-me, novamente, uma garotinha de 14 anos. Perdida. Suspirosa. Improvisada. Estranho cada palavra que sai da minha boca. Pareço infantil e inconsistente. Mas estou apaixonada, é apenas isso. De uma paixão avassaladora e despropositada. Que nasceu de um campo infértil, e em uma hora muito, mas muito imprópria. Não sei se vou conseguir esperar toda essa eternidade sufocando esses gritos dentro de mim. Às vezes, parece que meus olhos vão sangrar, e minha boca vai se abrir em declarações da alma, como uma boneca que, com pilha nova, não consegue descansar. Há dias ele invade meu sono. Sem nem saber onde moro, já devassou minha cama, e conhece, sorrateiramente, cada pequena porta dos meus sonhos. Fui eu quem o deixei entrar, eu sei. Mas ele foi como um vampiro. Como a imprensa: uma vez convidada, nunca deixa de aparecer. Eu não sabia – juro – não sabia que sua presença se tornaria tão palpável. E, mesmo com toda esta distância, ainda consigo sentir o toque suave de suas mãos e sua voz aveludada soando bem perto dos meus ouvidos. Não sei o que me aconteceu! É como se de repente a realidade ruísse; e dela só sobrasse ele e eu. Como uma só coisa, a se misturar entre os olhares. Uma só energia vibrando pelas paredes e pelas portas. Saindo pelas janelas e alcançando os espaços. Pode ser que Freud explique – mas eu, sinceramente, duvido. Pode ser platônico, esse amor de pequenos toques. Mas resisto! Quero a textura da pele e o espetar dos cabelos. Quero o olhar que enxerga, e não o que passa e atravessa. Quero estender-lhe a mão. E é por isso que estou triste. Porque não consigo. Eu quero, mas não consigo! Sou covarde. Mas não sou a primeira. Muitos já devem tê-lo vivido. Por isso faço minhas as palavras – talvez fora de contexto – de Vinicius de Moraes:

Não posso
Não é possível
Digam-lhe que é totalmente impossível
Agora não pode ser
É impossível
Não posso.

Peço desculpas pela minha fraqueza... talvez um dia eu crie coragem.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Chinelo velho

Chinelos de borracha. Nada além de chinelos de borracha. Uma bobagem industrial que acabou unindo toda uma nação. Do chique ao brega, do sul ao nordeste. Nada mais do que um simples chinelinho de dedos. Na minha época era Rider, devo confessar. Rosinha, que dava pra colocar de meias. Um terror estético – admito – mas eu gostava. Era o meu xodó de criança. Devo ter tido pares e pares iguais... acontece! Depois a gente cresce e se esquece do conforto. Quer os pés bonitos em cima de uma sandália escandalosa. Tudo para agradar algum par de olhos castanhos, perdido numa multidão que, em geral, não te enxerga. É a vida, não há o que fazer. As convenções sociais acabam por enterrar o sujeito, coitado. A sete palmos do chão; ainda vivo. A gente se debate, luta pra respirar, mas acaba cedendo. Nas nossas inseparáveis calças jeans, e nos decotes recortados para peitos de silicone. Meu corpo está bem fora dos padrões, devo dizer. Peitico. Não me incomodo – de forma alguma! Mas me incomodam, às vezes. Uma pressão danada para me render à plasticidade. E eu recuso! Tenho peito! E não quero barriga de tanquinho. Pra lavar roupa, tenho máquina, graças a deus. Mas já estou me rendendo ao regime – olha quem está falando! Sou obrigada. Dois quilinhos a mais e meu agente, ó! Me coloca na geladeira. Ai, vida difícil. Só o chinelinho de dedo mesmo, pra juntar toda essa gente numa celebração da utopia. Ô coisa boa! Eu ando procurando o meu par de chinelo velho. Devo admitir que meu pé está um bocadinho cansado... E até já achou onde descansar, olha que beleza. Mas ele é apenas uma ilusão. Um oásis no meio do deserto, a luz no fim do túnel. Mas não me enxerga. Acreditem: ele nem me vê. Seu olhar me ultrapassa e se encontra com a parede. Longe. Distante. Atrás de mim. E eu olhando pra fora. Pra ele. Que aconteça um milagre, peço aos demônios que me rodeiam. Que eu tropece nos seus pés em outro espaço. Acho que vou comprar a novidade do momento. Vou entupir-me de tarjas pretas. Quem sabe acordo listrada, como uma zebra, impensante. Quem sabe durmo acordada, e tenho idéias melhores do que as que me passam agora... Desculpe-me por gastar o seu tempo! É que o meu anda escasso, e estou com vontade de permear-me de idéias alheias. Por isso vim compartilhar essa bobagem. Pra gente brincar um pouco. Estou com vontade de me divertir...

terça-feira, 10 de março de 2009

Escuridão

Andou silenciosamente pelo corredor vazio. Na penumbra, as paredes pareciam cada vez mais assustadoras. Quando é que vai terminar? – pensou. Tomava cuidado para que seus passos não ecoassem naquela imensidão de vazio. De tudo, o que mais lhe importava era o silêncio. Não queria parecer confuso ou inconveniente. Gostaria de sair dali do mesmo jeito que entrou: sem ser percebido. A cada minuto, sua ansiedade aumentava; e a demora em chegar à saída acabou lhe trazendo uma incômoda sensação de abandono. Ele não gostava de se sentir frágil. Mas era inevitável. A cada conjunto de passos, uma olhada para trás. Queria ter certeza de não estar sendo seguido. Ninguém o notara sair. Perdido na umidade daquelas galerias, refletia sobre os motivos que haviam lhe trazido ali. Ele não precisava ter vindo. Não deveria vir. Mas precisava ver com seus próprios olhos toda aquela podridão. Todo aquele torpor, espalhando-se como um vírus na cabeça daquela gente. Não pertencia àquele mundo. E não queria crer que havia entrado naquela vida por puro prazer. Nem uma luminosidade. Será que haveria, de fato, a tal luz no fim do túnel? Tudo aquilo parecia interminável e, às vezes, ele tinha a nítida sensação de não ser dono de si mesmo. A angústia lhe corroia como um ácido barato, abrindo em suas entranhas buracos que jamais seriam fechados. Começou a duvidar de sua inteligência. Ele não poderia ter ido ali por vontade própria. Era por demais degradante. Era como a morte em vida. O silêncio ecoava pelas paredes imensas, e ele se sentindo cada vez menor. Mais pequeno – como gostava de pensar. Não havia desespero em seu semblante. Seu rosto era de calma. Uma calma decidida, de quem tem um foco bem definido. Tudo que queria era sair dali sem ser notado. Tudo que desejava era nunca mais lembrar daquela noite. Olhou suas mãos, ainda – e cada vez mais – sujas. A imundície daquele lugar estava começando a fazer parte também dele. O melado de sua mão se juntava ao pó e à fuligem e, aos poucos, sentiu-se também mofado e putrefato. Não era de assustar que muitos não conseguissem sair dali. Uma vez imerso em tal degradação, a vida normal devia assemelhar-se ao paraíso. Uma lembrança utópica e efêmera, que cismava em aparecer nos raros momentos de lucidez. Pensou em soltar um berro, gutural e pavoroso como sua dor. Mas não queria que lhe percebessem. Não queria outra mão amiga para lhe jogar na lama. Já estava sujo demais. Só agora conseguiu dar-se conta de que estava sem camisa. A ânsia de abandonar aquele lugar depressa lhe fizera esquecer-se por completo dela. Era um rastro que tinha deixado para trás. Foda-se – pensou. Não haveria quem descobrisse aquele pedaço perdido. De qualquer forma, muitos deles, por várias vezes, já tinham voltado para casa com camisas alheias. Naquela confusão de corpos e roupas, nunca notariam a prova de sua fraqueza. Sentiu embrulhar-lhe o estômago – como se já não fosse suficiente todo seu mal-estar psíquico. Respirou fundo. Agora não ia parar. Não podia parar. Parecia tão perto... Parou. Com as mãos apoiadas naquelas paredes imundas, vomitou por alguns instantes; e aquele vômito quente, subindo-lhe pela garganta, deu-lhe de novo a sensação de asco que sentira na hora de engolir aquela podridão. Ele não podia ter feito aquilo. Era baixo demais, sujo demais. Era repulsivo, até mesmo para ele – que não ligava a mínima pras regras hipócritas de boa conduta. Balançou a cabeça por um instante, tentando recobrar a razão perdida, e decidiu, imediatamente, esquecer o passado. Ele jamais voltaria a pensar nisso. Nada daquilo tinha acontecido. Era um sonho ruim, uma viagem de droga barata, uma ressaca de adolescência. Nada além de um pesadelo. Revolveu os bolsos a procura de um cigarro – pelo menos um – mas só encontrou aquele maço de notas amassadas, fedendo a homem e à cerveja. Quantas pessoas pegariam aquelas notas, sem saber por onde elas haviam passado? Quantas as abençoariam? Teve nojo daquele dinheiro sujo. Teve vergonha de seu próprio pau. Será que Deus se incomodaria com o mau uso do seu instrumento? Será que o Diabo tinha ganhado o dia? Na memória, flashs de pedaços de corpos nus. Vários pedaços. Vários corpos. Uma orgia multicolorida e internacional. Não conseguia esquecer aquele maldito alemão. Filho da puta. Pegara-lhe desprevenido quando menos esperava. A porra descendo pela garganta, e o pau entrando pelo cu. Bela merda. De novo o vômito. Suas mãos, meladas, já tinham adquirido a coloração daquelas paredes. Achou, por um momento, que nunca mais conseguiria se limpar. Que merda, que merda, que merda. Olhou mais uma vez para trás e, por um instante, não soube dizer ao certo de que lado havia vindo. Aquelas galerias pareciam intermináveis. Aquele cheiro parecia exalado por seu próprio corpo. E a ansiedade da luz ia corroendo-lhe a alma. A luz, que nunca chegava. Acelerou um pouco o passo. Olhou mais uma vez para trás. Com os pés molhados pela lama, perguntou-se como podia ter descido tão baixo. Tinha vergonha de si mesmo. Ele só queria sair dali.

sábado, 7 de março de 2009

Pequenas bobagens

Apareceu entre os arbustos da praça em um dia frio de inverno. A princípio, ninguém notou. Manteve-se ali por algum tempo, ignorando a ignorância das pessoas. Logo começou a sentir inveja. Outros eram observados e até elogiados, enquanto ele permanecia incógnito. Aos poucos, passou a ter raiva. Uma raiva injustificada das pessoas que se sentavam naqueles bancos. Afinal, ele não era tão pequeno assim. Muito pelo contrário. Era protuberante, esbelto, viril. Ainda assim, ninguém lhe notava a presença. Era difícil – pensou – mas não havia nada a fazer além de esperar. Fortalecer-se e esperar. A qualquer momento alguém podia notar-lhe a beleza.

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Fingia permanecer concentrada, enquanto observava cada detalhe do seu corpo. As pernas, o tórax, a barba, todas as notas daquele corpo-harmonia. Havia se apaixonado em segundos, como nunca lhe havia acontecido. Ainda não sabia muito bem como agir. Sentia-se adolescente, infantil. E, de fato, disse algumas idiotices depois que a aula acabou:


- Algum problema?
- Não, por que? Pareço ter algum problema?
- Não. Sim. Na verdade, te achei meio distante na aula hoje.
- Ando com dificuldade de controlar meus pensamentos.
- Não entendi direito.
- Estou um pouco dispersa, é só isso.
- Tem certeza? Se precisar de ajuda, já sabe, né?
- Você pode me ajudar.
- Isso foi uma pergunta?
- Uma afirmação.
- Então diga! Você quer conversar?
- Não sei se seria uma boa idéia.
- Não estou te entendendo. Você quer, ou não quer ajuda?
- Olha, eu sei que parece idiota. Na verdade, é idiota. Mas eu acho que a ajuda que você está me oferecendo não é exatamente o tipo de ajuda que eu estou querendo aceitar.
(ele se aproxima. Fala ao seu ouvido)
- Talvez você não saiba o tipo de ajuda que eu estou oferecendo.
(ela se afasta com um sorriso.)
- É. Acho que a gente devia ir pra um lugar mais reservado. Vou só trocar de roupa.
- Te espero lá embaixo.
(ela se troca e desce. Ele, conversando com outros alunos. Ela passa, se despede, e dobra a esquina. Ele também se despede, e vai atrás dela. Ela fuma um cigarro)
- Você é louco!
- Eu achei que você tivesse ido embora sem mim!
(Ela dá a última baforada. Os dois ficam envoltos em uma leve fumaça perfumada)
- É impressão minha, ou você está me provocando?
- Você não pode negar que existe alguma... hãã... energia entre a gente.
- Você tem idéia de como foi difícil eu me concentrar na aula hoje?
- Eu vi. (ele ri)
- E você está achando graça? Eu morrendo de medo de alguém perceber, e você passando cada vez mais perto, encostando em mim “sem querer”...
- Foi um jogo excitante.
- Interminável.
(a essa altura, já não olham-se nos olhos. Estão vidrados na boca um do outro)
- Delicioso.
- Mal educado!
(beijam-se.)

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“Ver um mundo num grão de areia e um céu numa flor silvestre”

domingo, 1 de março de 2009

Da vi da

Queria ter dito mais algumas coisas, mas o tempo não deu. Passou, silenciosamente, por entre nossos dedos, e se foi, como uma lágrima que cai. Queria ter dado mais abraços, ter feito parte da sua vida, mas a minha se foi. Desculpe-me, meu irmão. Queria compartilhar com você. Mas não pude. Não pude. De tudo que você me deu, deixei-te apenas pequenos tesouros, para que sejam descobertos ao longo da vida. Aproveite bem deles. Eles são pedaços de mim. São formas de eu me mostrar sem te assustar, de eu te abraçar e te sentir. Estou perto, posso garantir. E cresci, como você. Estou mais forte e mais maduro. E estou feliz, do lado de cá. Posso ajudar-te e ajudá-los sem causar maiores danos, e fui um profundo ensinamento de vida. Mostrei pra vocês que partir faz parte de todo o caminho, e que a estrada é eterna, mesmo para quem se vai. Estou aqui, mas estou aí com vocês, perto de vocês, cuidando sempre pra que os anjos os guardem. Acreditem nos anjos, vocês foram feitos um para os outros. Às vezes acho que permear suas vidas foi uma forma que encontrei de ser completo. Eu sem querer trouxe unidade a uma massa sem forma. Eu sou a aresta. Sou a fumaça e a forma. Sou o que deixei em vocês. E sou tudo isso sem querer ter sido. Meu grande sonho era estar nessa cerveja com vocês e compartilhar, sem culpa, essa lágrima que cai. Mas sou tudo isso sem ser. Estou aqui, como quem escuta uma confissão e se omite. Como ouvidos, que não sabem se expressar. Sou a calma que lhes dá nesses momentos de aflição, e essa sensação de familiaridade, quando abraças esses braços ainda tão desconhecidos. Peço desculpas pela ausência, mas não pude evitar. Aconteceu. Seria seu abraço terno e seu fraterno ouvido, se o pudesse ser. Mas sou apenas ar, nesses espaços que nos preenchem. Sou a amizade que só faz crescer, e sou a confiança, que existe sem motivo aparente. Não se enganem. A cidade não é tão pequena assim. E vocês já sabem: coincidências não existem. Sou parte do que criou vocês, e sou o que fortalece essa relação. O propósito da caminhada só será revelado a vocês no fim, portanto, caminhem da melhor forma possível. Vocês foram unidos para prosperar. A vida espera de vocês frutos. E eu espero de vocês amor. Eu sou o amor que une vocês. Desde antes de o amor existir. Sou o brilho nos olhos e essa certeza inata. Sou a crença que vocês não querem ter, e a certeza que vos une. Por favor, aproveitem de tudo isso. E acreditem no acaso, pois o ocaso está cada dia mais próximo. Ainda há revelações a fazer. Aproveitem a certeza, e duvidem da ignorância. Sinto saudades. De formas diferentes. Apostem. E se unam. Eu ainda estou aqui. A cada dia, velando por vocês. Bons sonhos, meus amores. Fiquem com Deus.