terça-feira, 23 de novembro de 2010

Anti-dor

Até quando você acha que vai se satisfazer com aquele sonho antigo, com aquela vontade incontrolável, com aquele amor calmo? Você realmente acha que suas inquietações e angústias são infundadas, que tudo não passa de caraminholas na sua cabeça, que os sininhos pararam de tocar? E quando você descobre que aquele lugar vazio na cama pode não ser uma falta, e sim um espaço? E que aquele controle, e aqueles sorrisos, e aquela compreensão podem simplesmente parar de existir sem lhe causar nenhuma dor, ou, ainda, lhe causando extremo conforto e certa – e útil – sensação que tudo teve seu tempo exato? É... parece que o planejado saiu um pouco do roteiro, que as linhas seguiram tortas, que as emoções pularam assustadas do peito. Mas as coisas chegaram a seu lugar, enfim. Um lugar diferente do previsto, do almejado, mas um lugar confortável, de uma paz extrema e até mesmo incômoda. Não é fácil se acostumar com o óbvio. Não é simples prever o descompasso. Mas assim, com as paredes mais limpas e os vidros abertos, parece que a casa tomou um novo ar inesperado, um sopro de vida repentino, uns quilos de entulho a menos. Não que não fique uma inquietação profunda, um pesar imenso, uma falta inexorável. Foi-lhe tirado o chão e o que há é água. Maleável, profunda, misteriosa. Exatamente por isso tranqüila e perversa. Cabe a você decidir ter medo ou atração. Colocar o pezinho na borda ou jogar-se de cabeça. Por enquanto, nada mais prudente do que ficar na borda, observando a movimentação dos círculos concêntricos que suas lágrimas causam nela. Faz falta ter tamanha segurança. É delicioso sentir-se livre. E assim, com pequenas pérolas negras desfazendo-se em suas mãos, aquele líquido espesso e gorduroso – por vezes chamado rancor – escorre dedos abaixo, deixando a superfície de novo lisa e alva. Não é a curiosidade que o faz prosseguir. É o medo incontido e irrestrito. É a possibilidade do futuro impreciso e a certeza absurda do acaso. Não se fazem sofredores como antigamente. Hoje em dia somos, todos, sobreviventes de um parto estéril. Fetos abortados de um amor ainda por nascer. Presos na distância entre o tempo e a realidade. Ligados pelos próprios umbigos. Querendo se livrar de si e presos, ainda, às vontades alheias. Dormindo no desespero. Sonhando com plumas leves.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Estranhidades

Então uma onda de comoção imensa invade a casa, deixando os móveis molhados de lágrimas e angústias. Era algo tão normal quanto a respiração, e o gotejamento dos olhos parecia um vazamento incessante; mina de água a brotar de pedra. O coração aos solavancos, desesperado dentro do peito e, por um instante, parecia que todo o mundo parava estupefato ao odor daquela maresia. Absolutamente nada demais. Apenas um sentimento estranho, um formigamento na boca do estômago, um sorriso faceiro no canto dos lábios. Coisas corriqueiras e cotidianas que, juntas, pareciam forjar uma amálgama nova de sentimentos inusitados. O peito brincando com a boca. E ao surpreender-se assim, bagunçada em seu descompasso de mulher, é que ela deu-se conta dos desvios da vida ao longo dos segundos. Os olhos germinando sorrisos escuros e vagos. Sentindo-se assim, tão completamente confusa, observou as terminações nervosas ligando-se de quando em quando, oferecendo informações desconexas e até mesmo paradoxais. A roda do mundo em seu arranjo: vez em cima, vez embaixo. Carrinhos balançando ao vento, ao sabor da tempestade que insistia em se aproximar no horizonte. A saliva misturando-se ao álcool, o gelo sensibilizando os dentes. E por manter-se assim, quase que paralisada durante esta crise de angústias vãs, percebeu-se completamente livre para traçar seus rabiscos no destino. Era, enfim, dona de si própria, capaz de mudar o rumo da estória e de colocar “h” quando lhe aprouvesse. A mentira era apenas uma verdade que se esquecera de acontecer. A verdade, apenas uma das muitas versões. E quem lhe visse ali, tão absurdamente compenetrada em seu universo interno, poderia pensar que algo de mal lhe afligia, que qualquer peso do passado cismava em lhe assentar nos ombros, que um gosto amargo qualquer lhe tocava o paladar. Bobagens, garanto. Naquele momento, com os olhos fixos em um infinito qualquer e uma tonteira branda de quem se sabe equilibrada, ela apenas fazia questão de observar-se por completo. Inteira como era. Perdida como estava.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Resignações

Acho a competência mortal e completamente infalível. Se tivesses ouvidos pra ver que estou ao seu lado, profunda e terrivelmente magoada, talvez não tivesses que lidar com meus ruídos e com minhas inquietações e com meus bailes tão assustadoramente ritmados, que me saem aos berros do coração-compasso. Sou pessoa de raízes profundas, que fincam na duvida sua mais divertida ingratidão. Sou gente de múltiplos que, agora, nesta madrugada fria, lembra de outro que de fato compartilharia meu riso em noite tão estrelada de letras. Penso que ele seria o fim dos abismos e hoje, durante horas a fio, lembrei-me de seus olhos a me fitarem do fundo da noite escura. Tenho medo dos descompassos da vida, que cismam em bater mudos nas sombras de minha resignação. Pergunto-me o porquê de estar aqui, e no meio das respostas mais obvias e doídas, aquela velha visão absolutamente inválida do velho andando só, com suas barbas longas e sua bengala servil. Não é assim que pretendo te ver. Prefiro sacrificar-te ao abismo antes que palavras vis me saiam rolando pela boca e olhos amargos lhe fitem a alma. Não sei qual minha parcela de culpa em tudo isso, mas sei que agora, sentindo-me sozinha aqui, assustadoramente perto, tenho certeza de que o fim se aproxima. Foi um sonho bom, pode ter certeza. Mas a madrugada teima em ir-se e na janela, a parca cortina já não consegue segurar os raios de sol. Peço desculpas pelo ruído das teclas. Foi-me inevitável. E no silencio escuro deste quarto desmaiado, penso entre lágrimas como eu queria estar só. Como eu queria assustadoramente encontrar-me em casa, entre as minhas cobertas e travesseiros. Peço desculpas se não tenho palavras. Aprendi há tempos a riqueza de um olhar. Mas duvido das intervenções combinadas e dos amores premeditados. Pra mim, o fim se aproxima. Não sem dor, não sem medo, apenas com resignação. Com uma certeza absoluta de ter passado o tempo de aceitar tudo e com uma preguiça imensa e doentia de agüentar todas as coisas. A vida se faz nos detalhes. O sonho se desfaz no esquecimento. Peço perdão pela minha impaciência. Se pudesse, guardaria você mais um tempo. No corpo e na alma. Mas é Chronos quem me leva. Ainda um pouco contra minha vontade. Vou amargar uma noite mal dormida e sofrer o medo de ficar sem ti. Mas por ora é tudo. Absolutamente tudo. E terrivelmente um nada.