sexta-feira, 2 de abril de 2010

Um

E comecei um texto chato e burocrático, quase uma bula de procedimentos literários. Ando vazia por dentro, as novidades me escapam. Apenas aqueles velhos assuntos ainda a rodear minhas letras. Mas a tela do computador, virgem branca e brilhante me atraiu profundamente, e eu não consegui conter meus instintos. Como companhia, hoje, apenas um cappuccino e alguns cigarros. Ando acompanhada de mim. No calendário um feriado que não me significa nada, não me esclarece nem inquieta. O que é que hoje significa? Não comi carne por ocasião. Bem queria a minha cama cheia. Ato falho: não era bem isso que eu queria dizer. Sei que o dia de folga me foi perturbado por telefonemas dóceis e incômodos. A todo o momento trimmmms a interromper o meu silêncio. Ainda sonho com o dia que poderei calar os telefones. Todos os telefones. E me comunicar apenas com os olhos. Com letras e pele. Como eu odeio as caixas postais e seus recados. Hoje, de fato, não consegui acessar as mensagens que me chegavam e me descobri, de novo, livre da tecnologia. Por desencargo de consciência, avisei-lhes da minha inutilidade auditiva. Hoje só ouço o que vai dentro. Um bater incessante de coração acelerado, e algumas coisas entaladas numa garganta que eu nem sei se pode falar. Hoje estou carente daquele velho colo de mãe, seguro e exato como a concha de um caracol. E na imensidão do pequeno apartamento, na materialidade de todos os móveis e todas as coisas, meu silêncio ecoa como um grito desesperado de liberdade enfim. Enfim! Falta eu me adequar a nova realidade, mas ela não há, infelizmente. Meu relógio anda parado, correndo atrás de um tempo estranho, que parece que já passou. Ando sozinha comigo. Mas vislumbro, ali bem perto, um pequeno oásis de paz.

Nenhum comentário: