segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Amanhece

Ocorre-me uma repentina avalanche de idéias novas, todas borbulhando incessantes no caldeirão da minha angústia. A manhã chegou cedo e o sono, marca fiel de meu relacionamento dominical, extinguiu-se como fogo de palha, coroado pelo calor escaldante que, por aqui, cisma em não ceder. Em meio ao quarto bagunçado de pensamentos, penso em escrever qualquer coisa pra apaziguar o peito mas, de leve, uma estranha sensação de incômodo, inquietação infundada e banal. Nas covinhas, um sorriso de criança manhosa, que não sabe bem o que quer, mas está preste a chorar por sua tão urgente causa. Nos olhos, a maquiagem borrada do dia anterior e as generosas olheiras negras denunciam que algo na alma correu em desordem. Uma brisa fresca para aplacar a arritmia. Um peso na consciência qualquer, apenas para provar a existência do escrúpulo: pedra fina e pontiaguda. E assim, com a temperatura elevada e a preguiça no corpo, assina-se de fato o fim, recomeço de qualquer estrada. Por dento, uma sentença tranqüila de ter-se passado a hora; de findar-se o compromisso assumido erroneamente. Não há sinos nem passarinhos. Mas a brisa fresca – que entra pela janela do quarto ainda em desordem – faz notar a clara sensação de desalinho. De liberdade. Então pontos são colocados em seus lugares de destino. Silêncios encerram a questão qualquer. E ali, entre sorrisos sórdidos e sinceros, faz-se de novo a celebração da vida: implacável sucessão de acontecimentos. Borboletas me acometem na manhã solar e eu me perguntando ainda se a janela já se abriu. De longe, o horizonte calmo, rindo de minhas cruéis inquietações adolescentes. De perto, pupilas cintilantes tentando descobrir algo além da imagem. Por fora, palavras completamente dispensáveis: acessórios articulados de inseguranças mútuas. Por dentro, o turbilhão. O questionamento profundo a respeito do tempo. Na janela, a brisa. Entre os lençóis, o sol.