E de repente um sentimento de leveza assim tão grande me invadiu a alma, fazendo murchar certas incertezas e nublando de sombras o chamado futuro. E de repente era presente, enfim. Era eu comigo mesma, tendo que tomar uma decisão precisa e correta. E era a retesa. Era o caráter. E era a dor.
Passou. Sorriu. E tudo ao mesmo tempo pareceu tão pequeno e as questões tão insignificantes e as palavras tão repetitivas e os pensamentos tão estacionados, que sentiu vontade de voltar a ser quem ela era há alguns anos. Uma garota. Jovem. Uma menina. Mas era mulher enfim. Com todos os prós e todos os contras e todas as questões e ainda ele. E decidiu que decidir-se não era assim tão ruim e que todas as coisas que um dia foram poderiam voltar a ser, e poderiam ser diferentes, e poderiam enfim dar certo. E torceu. Com toda sua força e bondade. Olhou para o céu, procurou uma estrela, e pediu. Não havia estrelas naquela noite. A estrela estava nela. Embaixo do braço direito, escondida do mundo, apontando-lhe com seus braços o melhor caminho. E teve fé por um breve instante. Fé como nunca antes. E teve saudades, e esperou respostas, e pensou que era bobagem, e ficou ansiosa e deixou os dedos bailarem no teclado, vãos, formando palavras sem sentido que saiam de sua caixa lotada, afinal era esse o sentido dos textos. E teve aquela saudade doída e não soube explicar por que. Porque parecia que o tempo estava passando rápido demais e as coisas estavam ficando para trás e ao mesmo tempo ainda era muito presente, e muito pulsante, e muito, mas muito desconhecido. E era do desconhecido que ela tinha saudades. Das coisas que queria descobrir e que sabia que descobriria se pudesse. E pensou em agir, e achou que podia parecer precipitado e esperou mais um passo. Mas o tempo passava rápido e, no papel, as letras saindo diferente do planejado e ela percebendo aos poucos que a saudade estava mais presente do que a presença, e a imagem ainda não havia saído do pensamento. Mas as coisas andavam muito confusas e a vida ia mudando rápido demais e ela temia o que estava por vir. E ela esperava. Ela ainda espera...
Pensamentos, frases, estórias e mentiras criadas a partir de fatos corriqueiros. Uma livre distorção da realidade.
quarta-feira, 31 de março de 2010
sábado, 27 de março de 2010
Música
E foi então que eu percebi que talvez nunca fosse. Talvez acontecesse de a gente ficar para sempre e não ficar nunca mais. E eu me perguntei que bobagem era aquela que me inquietava a alma, e eu tinha saudade dos teus olhos e das tuas palavras. É. Saudade daquelas palavras macias que não chegaram a me dizer nada, mas eu pensava nelas entrando pelos meus ouvidos e me dizendo coisas surpreendentes e óbvias. Porque no fundo, o que tinha me encantado era a incoerência. A falta de coesão do corpo com as frases, que negavam enquanto o peito queria. E eu sei que você quis disfarçar, porque eu também quis e também não devo ter conseguido porque quando eu me reparava, em meio à conversa efusiva da roda, esta sempre olhando para os seus olhos e para a sua boca, e para as suas mãos, e para todo o corpo que em minutos se voltou todo pra mim e eu, que conheço bem essa coisa de linguagem corporal entendi que não era consciente, mas que estava acontecendo e a gente estava se deixando levar. E porque hoje a semana já está no fim, inquieto-me do telefone ainda não ter tocado, e de nenhum e-mail ter adentrado a minha caixa e espero ansiosa por aquele novo olhar e aqueles novos sorrisos que nos prometemos em silêncio no momento da despedida. Porque desde aquele dia – que parece tão distante – durmo e acordo pensando em você e já não sei mais o motivo de minha cama estar vazia enquanto você ocupa meus pensamentos. E é por isso que escrevo essas letras doentias e febris. Para ver se você começa a entender que a minha loucura não passa de uma inquietude transviada, borrada de ilusões irreais que eu cismei em dourar ao ver teus olhos. Assim, verborragiando letras, sinto-me um pouco mais livre para ser menos normal quando te encontrar, e talvez sorrir destas linhas como se fossem um reflexo atravessado do que me passa no peito. Porque por dentro sou misturada. Sou vermelha como poucos. E é por isso que coloco essas letras para fora pra brincar um pouco de ser deus, e fazer com que você leia, e alterar o seu destino que já estava escrito. Porque eu quero que você faça parte da minha estrada e por isso desenho com giz o caminho para você passar. E as portas estão abertas para você fugir, mas eu sei que você vai ficar. Porque toda essa loucura se aquieta quando estamos juntos e os nossos instrumentos se unem em melodia. Porque meu coração anda buscando seu compasso e o que tem é falta, então ele reclama e se desespera. E por isso a pressa. Só por isso a pressa. Para que a sinfonia não passe nos deixando para trás. Para que possamos tocar na mesma banda, dividindo o mesmo som.
quarta-feira, 24 de março de 2010
Pontos
e então eu olhei pra você e não achei nada mas era só o princípio e nessa coisa de olhar vou me perdendo em você e me perdendo em mim e quando reparei percebi que tinha acontecido em algum momento borboletas coisa pouca ainda apenas leves sinos tocando a distancia e eu não sabia precisar muito bem o que era talvez um emaranhado qualquer me nublando os pensamentos talvez algum tipo de mentira impensada como eu sempre costumava me contar e aí eu dormi mal e acordei pensando em você e tive a nítida sensação de ter ficado de repente louca porque nada fazia sentido e eu mal te conhecia e já sentia saudades e aí veio aquele telefonema dizendo sei lá o quê mas dizia de alguma forma que você também tinha pensado em mim e de repente todo o chão se abriu por um instante e eu me senti tão insegura que tive vontade de gritar mas foi também por isso pela vontade de gritar que eu achei que estava tudo perfeitamente certo e que aquele balanço nada mais era do que a brisa de uma nova paixão batendo na minha porta e então eu tive medo um medo doentio de não saber como seria e de imaginar como seria tive medo de me decepcionar e de te decepcionar e ao mesmo tempo imaginava a cada segundo novas versões para o nosso roteiro e escrevia capítulos e decupava cada cena cada quadro cada olhar em plano detalhe e você ali me olhando com aquela cara de quem finge não olhar e eu ali te vendo me olhar e fingindo ignorar aquele olhar que me embaraçava de alguma forma e eu pensando como será que você me conhecia tanto tendo me conhecido há apenas alguns instantes e os instantes passando e você me conhecendo ainda mais aí eu tive vontade de te abraçar e não sei por que você me pareceu tão carente que eu achei que você precisava de mim e precisava por isso você sorria sem graça tentando esconder suas inquietações mas não sabia que também eu por dentro estava inquieta tentando controlar um maremoto que me refrescava enquanto me causava terror e foi quando nos aproximamos para despedir que tive a total certeza de que não não era só comigo acontecia alguma coisa maior e estranha e perfeita que eu não podia e nem queria explicar e foi por isso que depois de longos segundos eu ainda não conseguia me desvencilhar do abraço e que cada palavra que você disse na breve despedida me soou como um convite e eu aqui espero o convite e rumino frases e borrões que eu mesma criei nesse meu emaranhado de emoções porque por dentro agora estou borbulhando e ainda tenho vergonha de admitir porque acho que é cedo demais precipitado demais adolescente demais mas sei que você acha também e ficamos os dois contando os dias para chegar a olhar o que nem sabemos se vai haver mas no fundo da minha cama na escuridão do travesseiro e do quarto vazio ainda penso naquelas bobagens e nos sorrisos e nas dores e em tudo o que ainda virá porque não acredito em coincidências e em geral não costumo acreditar nas pessoas assim mas acreditei em você em alguma saudade presente nos teus olhos e em alguma carência ecoando no seu corpo acreditei em você e agora não sei mais como nem o que será sei que seremos e o mais rápido e ao mesmo tempo em que posso estar enganada acho que você entenderá que eu estou completamente certa porque tudo isso não aconteceu comigo aconteceu em mim em algum lugar de mim e acho que aconteceu também em você como raramente acontece como a gente em geral imagina sinos assim de repente mas nunca acontece e agora aconteceu em mim em você e eu tenho medo simples assim um medo doentio de não passar de uma impressão pueril e banal medo ah tenho medo
sexta-feira, 5 de março de 2010
Por entre os escombros
E o mundo caiu assim, de repente, como uma tempestade refrescante em uma tarde de verão. Caiu como caem as folhas e as lágrimas: sem motivo aparente. E por isso sentiu-se livre para de novo sonhar. A poesia de cada instante lhe sorrindo como olhos agora cerrados. Não se sabe exatamente o porquê de toda aquela profusão. O que se sabe é que quando olhou-se refletida no espelho, com aqueles dez anos a mais, espantou-se com sua sutil jovialidade. Estava mais bela do que nunca. Perdida nos destroços de sua alma, sabia pedra por pedra o caminho a ser percorrido. Era um paradoxo. E tinha medo. Por isso mesmo, quando resolveu abandonar-se ao prazer e à luxuria, sentiu-se escrava de suas próprias atitudes. Estava ridícula como sempre e feliz como raramente. Alguma fagulha de paixão a borbulhar-lhe no peito. Passou dias por entre seus escombros pensando por qual tijolo começaria. Era moldada de massa mole, derretia-se com toques suaves. E teve certo medo de sentir-se vulnerável na sua fúria de marionete sem corda; quis tomar os títeres em suas mãos. Não sabia exatamente como faria para amolecer argila alheia. Por isso, quando o encontro inevitável fez-se real, perdeu as contas de quantas vezes havia se preparado para aquele momento. E fez, novamente, tudo que não deveria ter feito. Correu por entre as vielas de sua alma debaixo de uma garoa fresca, que cismava em gelar-lhe as entranhas. Estava de novo aquecida. E no calor daquele corpo ainda desconhecido, rendeu-se à velha sensação de morte e paz. Não, ela não sabia ao certo o que a impulsionava para aqueles braços tão rudes e vazios. Mas apenas neles se sentia completa. Por isso, olhando o mundo destruído a sua volta, teve total certeza de que, enfim, encontrara o seu lugar. Nenhum de seus sorrisos a corar-lhe a face, nenhuma de suas historias a nublar-lhe as idéias. Apenas aquela sensação intensa e fugaz, que escorria-lhe pelos braços a medida que tentava levantar-se. Não soube dizer exatamente onde o terremoto começou em si. Mas quando todo o resto começou a reconstruir-se, ela, por dentro, sentiu-se desmoronar. Misto de inveja e culpa, de torpor e nada. E foi quando acordou daquela noite agitada, que se deu conta de que o mundo havia estacionado e ela, sorrindo, acabava de entrar pela porta. Havia pegado carona nas órbitas. Estava girando em torno de si.
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