Pensamentos, frases, estórias e mentiras criadas a partir de fatos corriqueiros. Uma livre distorção da realidade.
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
Leitora desconhecida
Tenho uma leitora desconhecida. Na primeira vez que ela ousou comentar um texto, entrei em seu perfil e tentei traçar algum paralelo; procurei construir a ponte que, de alguma forma, nos unia. Foi em vão. Ao que me parece, não temos nenhum amigo em comum. Não acho que ela tenha descoberto o blog por indicação de alguém. Não sei como ela chegou até aqui. Mas ouso dizer que, de uns tempos pra cá, ela tem sido a minha leitora mais importante. Peço desculpas aos amigos assíduos, leitores por caridade e por identificação ao conteúdo. Adoro a presença de vocês. Mas essa leitora inusitada trouxe-me uma brisa fresca; um novo sopro de inspiração. Sua presença nesse universo intangível é prova de que as minhas letras não reverberam apenas no que é conhecido: ecoam pelas almas humanas perdidas neste mundinho virtual. Pelo que descobri, a leitora desconhecida também é atriz; brasileira, mas mora fora do país. Acho que o meu canto é bem ouvido pelos exilados. Acho que me identifico com quem sente saudades. Mas a estrada é longa, e ficaremos parados se, a todo o momento, olharmos pra trás. Pode ser que essa minha querida leitora nem seja a única desconhecida: essa maquininha que não pára de contar os acessos mostrou-me que há mais números do que os amigos; há mais rotatividade do que textos. Mas ela, apesar desta hipótese, é a única que dá as caras; que opina, que critica, que se mostra. E é também, conseqüentemente, a única que é ouvida. Foi a partir de seus comentários que comecei a me questionar sobre a particularidade do blog: será que este espaço é pessoal demais? Por outro lado, foi também a partir de seus pensamentos que percebi que toda singularidade encontra uma mão amiga em peito alheio. Não importa a partir de quê o texto foi criado. O que importa é que o texto diz coisas que às vezes nem eu mesma sei ouvir. Como escritora, sou também a minha primeira leitora. Mas sou uma leitora um pouco tapada, que às vezes perde a multiplicidade de possíveis interpretações. Os textos são o meu próprio umbigo; um rio calmo para Narciso. E é apenas através do olhar dos outros, que conseguimos construir a nossa própria imagem. E isso não é de minha autoria. Sartre mesmo já dizia. É por isso que adoro quando as pessoas comentam os textos. Textos sem comentários me parecem menores; insensíveis. Escrevo pra ser ouvida. E escrevo pra tirar daqui de dentro, coisas que não conseguem sair de outra forma. E é maravilhoso descobrir que não estou sozinha na minha solidão. Que há outras almas dividindo inquietações, que há outros abraços amigos que sentem saudades. Escrevo pra mostrar que eu sou boa, e pra provar que eu sou muito ruim. E escrevo pra ser criticada. Este texto, por exemplo, escrevi pra ela. Pra minha ilustre leitora desconhecida, que volta pelo meu bom humor, e pela minha “capacidade” de terminar na hora certa. Escrevi pra que ela saiba que eu também a leio – e que suas opiniões são importantes pra mim. E escrevi pra agradecer àqueles que gastam um tempo aqui, lendo as bobagens que eu escrevo, e fazendo delas uma parte de si. Obrigada! Aos conhecidos e aos desconhecidos. Escrevo porque não consigo cessar; mas é bom saber quem há quem se aproveite um pouco de mim. Bem-vindos. Peguem o que melhor lhes aprouver. E, se puderem, deixem um pouquinho de si! Eu adoro a riqueza da troca. E, sinceramente, ando precisando revirar o lixo alheio. Acho que estou começando a me tornar repetitiva...
quarta-feira, 29 de outubro de 2008
Homem Invisível
Era mau, o homem. Nunca aprendera a ser bom. Nascido sem pai nem mãe, era filho de um mundo cruel, saturado de desonestidades e perversões. Aprendera com a vida o preço de não morrer, e vendia aos inimigos uma máscara de quem não tem nada a perder. Refeições formais, nunca tinha feito. Banho de água quente, só quando era recolhido aos abrigos da cidade, de onde fugia assim que lhe fosse possível. Conseguira atravessar a adolescência sem nenhum percalço: orgulhava-se de nunca ter sido mandado aos temíveis reformatórios. Filho de chocadeira, tinha crescido na rua, entre jornais velhos, bêbados e prostitutas. Em várias ocasiões, apanhara de desconhecidos sem motivo algum; apenas por estar ali. Mas crescera sem mágoa dos pais: não tinha parentes, era filho daquele asfalto sujo, fedendo a mijo e creolina. Conhecera o sexo ainda cedo. Nas ruas, para adquirir respeito, é necessário usar a violência. Por isso, sua primeira transa havia sido forçada. Um garoto ainda sem barba, procurando o lugar onde enfiar o pau – enquanto a vadia, drogada, gritava; mais de loucura do que de rejeição. Nunca gostara de sexo. Naquela imundície que era seu mundo, o encontro entre dois corpos trazia à tona um cheiro quase insuportável. Mas não sonhava com a limpeza e o conforto: só se pode sonhar com aquilo que se conhece. E ele nunca conhecera outra vida que não aquela miséria. Para ele, carros e ternos faziam parte de um universo paralelo ao seu – um universo que ele não entendia, e pelo qual não se interessava. Toda a sua maldade era direcionada às pessoas como ele. Em sua ignorância e mediocridade, cobiçava cobertores furados e canecas de alumínio. Roubava apenas para comer. E mendigava de maneira amigável, como se daquele mundo perfumado só lhe interessasse alguns míseros trocados. Tinha aversão a pessoas: vivia sozinho. Quando o corpo lhe obrigava a procurar companhia, munia-se de seu pequeno canivete para evitar contratempos. Mas na maioria das vezes, encontrava mulheres sedentas e fartas de carnes em qualquer viaduto mal iluminado, ou beira de estrada vazia. Já havia se deitado com homens. Já participara de surubas apenas para aplacar o frio da noite. Não era imoral, era apenas amoral. Nunca soubera distinguir o certo do errado. O limpo do sujo. O medo da tristeza. Para ele, a vida era apenas o agora, com a barriga calma, esperando a fome – ou o sono – chegar. A vida se resume a isso: nutrir o corpo, e esperar a morte. Tinha vergonha de defecar em público, mas há tempos não tinha o prazer de utilizar uma privada. Escolhia cantos escuros, e se irritava sobremaneira quando era surpreendido em sua intimidade. Não sabia o significado da palavra “amigo”, mas dividia sua cachaça, às vezes, com um velho mais necessitado. Não era de se embriagar. Cola pra passar a fome, e aguardente pra esquentar o corpo – apetrechos necessários e acessíveis àquela vida de sarjeta. Não sabia quando tinha se tornado sozinho. Não se lembrava de nenhuma sensação de carinho ou proteção. Nunca soubera a diferença entre a vida e a morte. Para ele, a vida era uma linha infinita que se estendia entre o estômago, os sonhos e a temperatura. Uma linha traçada por alguma coisa que chamavam de Deus, e que ele não sabia o significado. Uma palheta de cores que ia de madrugada a madrugada. E que permeava aquela sua existência apagada, desgraçada, fedorenta. Menti. Não era mau, o homem. Ele não tinha classificação. Não possuía sentimentos. Ele era apenas mais um homem invisível, perdido nesse caos controlado que ousamos chamar de civilização.
Marcadores:
comportamento,
condicionamento,
conto,
deus,
mendigo,
rascunho
domingo, 26 de outubro de 2008
À toa
Depois de muito tempo, resolvi quebrar uma regra que eu mesma tinha me imposto, e fumei, na madrugada, dentro deste quarto, ainda iluminado. E que surpresa! Tinha me esquecido o quanto fumar a noite auxilia meus pensamentos. Esse relaxamento químico, ouso dizer, me traz inspiração. Mais uma vez, escrevo com música nos ouvidos. É um pouco estranha essa sensação de ser influenciada por palavras de dentro e de fora. Mas é bom. Hoje estou me permitindo a pieguice de fazer coisas ridículas. Nada como um novo teste. Tenho me irritado com os distúrbios de personalidade. Tenho sido muito fiel a mim. De uns tempos pra cá, decidi que dizer as coisas facilita um pouco as relações. Vivo, então, nessa nova versão ainda inacabada, que expõe suas fragilidades, e brinca de ser um pouco mais burra do que realmente é. Adoro deixar as pessoas me explicarem aquilo que já sei! Uma sensação maravilhosa de aprender de outro jeito, de desaprender, de se reciclar. Tenho guardado muito lixo inútil. Mas tenho descoberto sucatas interessantíssimas. Às vezes, nada melhor do que uma colcha de retalhos. Hoje recebi um telefonema tão querido, que estou me culpando pela desatenção. Quem sabe amanhã eu consiga criar um tempo que hoje me escapou. Hoje, também, faltei a um compromisso importante: um encontro conturbado com o outro lado desta minha mesma moeda. Queria ter comparecido, mas o tempo, como já disse, me escorreu por entre os dedos. Adoro perder essa noção. E gosto mais ainda de me perder neste tempo inexato, que cisma em passar cada vez mais depressa. A ampulheta continua sua contagem regressiva, rindo das nossas urgências e impaciências. Cada coisa em sua devida hora. E por favor: uma coisa de cada vez! Tenho mania de misturar tudo em taças longas, e beber de um só trago. Ando bebendo de menos. É da minha natureza, herança de família. Gosto de me embriagar de água nas madrugadas escuras, e acordar com ressaca de neosaldina. Tenho comido demais. Fico com um pouco de medo da indigestão – é fato – mas adoro a antropofagia. Tenho vomitado tudo o que não consegue se tornar parte de mim, e estou num processo intenso de análise e exorcismo do passado. E devo isso a uma conversa sincera, que resultou nesse turbilhão de questionamentos, e em alguns machucados nos cotovelos. Coisa pouca, perto do desentupimento de sinapses em estado quase vegetativo. Estou com preguiça de escrever textos longos. Eles se acabam quando o sorriso no rosto termina. Tenho feito coisas apenas pelo prazer. E deixarei de fazer coisas, em breve, por respeito a mim mesma. Estupros artísticos deixam marcas por toda a eternidade. Não preciso impressionar ninguém. Não quero orgulho, nem admiração alheios. Quero apenas a sinceridade daquela sala no primeiro andar, repleta de presentes sentados por todos os lados. Já ganhei muito nessa vida. Não tenho do que reclamar. Mas hoje, não vou falar de saudades. Estou grata por tudo que conquistei. Por cada telefone, nessa agenda cheia de olhos transbordantes e de braços ansiosos. Bem-vindos, amigos de outros tempos! Estou pronta pra recebê-los. Da minha maneira, é claro. Com uma ironia rasgada, e uma aversão aos costumes. Com um jeito diferente de abordar o mesmo tema. E com uma gargalhada contagiante de quem não faz a menor idéia do que acabou de dizer...
Marcadores:
bobagens,
comportamento,
fragilidades,
gratidão,
lixo,
pensamentos,
pieguice,
rascunho,
saudades
sexta-feira, 24 de outubro de 2008
Diamantes de vidro
O beijo que não se pôde dar ficou guardado nas fantasias daquela menina, ainda jovem. Durante anos sonhou com um final diferente, com uma mudança repentina; que só era abafada pelo silêncio e pela indiferença. Durante anos se preocupou com o futuro, com a felicidade, com as mentiras. Mas de repente, o silêncio teve fim. E o que veio à tona foi uma amizade linda, transformada pelo passar do tempo. Aquele beijo guardado no peito tinha se transformado em um câncer benigno, em uma pequena pedra de amor. Com um pouco mais de tempo, soube lapidá-la em sua melhor forma, e ganhou um diamante perfeito, mais resistente do que a razão. A paixão transformada em amizade é uma das coisas mais bonitas de se ver. Quando já se viveu tudo, do ponto de vista amoroso; quando não há mais desejos e mistérios, a relação se torna sublime: o reconhecimento de duas almas. É como um suspiro profundo de amor, oxigenando cada célula da vida. Com essa amizade no peito, e o beijo, então resolvido, caiu de volta no mundo, depois de anos de clausura. Ainda desacostumada com as relações repentinas, pegou-se apaixonada sem mais nem por quê. De repente, vislumbrara o príncipe, num cavalo alado. Um príncipe real que, sem nenhum artifício, havia lhe tomado o chão. O chão e os pensamentos. Não conseguia esquecê-lo, não podia parar se lembrar. Ocupava o dia com coisas banais, lia artigos sem sentido, conversava como quem não presta atenção. E se sentia envolvida nessa névoa densa, fria e úmida, que lhe jogava de volta à ilusão. Estava criando um amor. Mas agora, com aqueles pequenos diamantes de amizade, sentia-se mais amparada para uma queda livre. Tinha mesmo vontade de se jogar. Questionava-se sobre a veracidade daquelas sensações: ela já havia fantasiado muito. Mas desta vez era diferente. Desta vez o racional havia sido posto de lado, e o que lhe sobrava era apenas um medo incontrolável, uma fobia deliciosa. Desde os tempos daquele beijo abafado que não sentia este frio na barriga. Desde aquele final sem fim, daquele samba sem bateria. Tinha medo de terminar assim: um esboço meio apagado, numa esquina de vida qualquer. Já havia perdido muito por medo de tentar. Já havia engolido palavras, sufocado frases, assassinado conversas. Tinha uma nostalgia do que não lhe ocorreu. Sentia saudades do que estava por vir. Mas estava presa em uma redoma escura, criada por coisas que ela mesma havia inventado. Era forte, a garota. Colocava o seu mundo para rodar num sorriso, numa prece. Mas não era de rezar. Por isso, custava a acreditar em sua capacidade, naquele olhar de lado e naquele sorriso. Às vezes, não era ela. Mas estava consigo, dentro de si. Num amor machucado, repleto de esperanças. O que lhe pertencia estava guardado. E a sensação de bailar em nuvens lhe trazia a excitação do que já está para acontecer. Estava solta no espaço, entregue às garras do vento. Mas ela gostava de voar, gostava dessa sensação. Só esperava, agora, o aval de quem tinha esse direito. Somos todos coordenados por sombras. Somos sempre impulsionados pela maré. Naquele dia, ela entraria no mar: para lavar a alma e celebrar a vida. Ela era só um sopro na boca do vento, uma marola, dançando no mar. Ela era o que era, e o que desejava. Era só e completa, lhe faltava um pedaço. Era tudo aquilo que ia buscar. Com diamantes num saquinho, e aquele olhar transbordante. Ela era a tormenta e a calmaria, juntas num mesmo oceano. Era o medo de si, e a coragem dos outros. Era o que tinha, e o que lhe faltava. Era apenas uma gargalhada, ecoando no ar. Permeada por lembranças de uma vida passada, e de sensações do que estava por vir. Era apenas um diamante bruto: um avesso e um reverso, brincando, faceiros, num jogo de acreditar.
terça-feira, 21 de outubro de 2008
Versado
Nem tudo que falo é verdade. Nem tudo que escondo é mentira. Nem tudo que gosto, tolero. Nem tudo que odeio transformo. Nem tudo que sinto é pecado. Em todo pecado, beleza. Nem tudo digo com clareza, nem clara me faço no escuro. Nem toda palavra é poesia; nem todo canto alegria; nem toda roda magia; nem toda amizade perdão. Nem tudo que vejo é o que há; nem tudo que há eu enxergo; às vezes não vejo, renego; às vezes não nego que vi. Às vezes me ponho a cantar, noutras me pego a sorrir, nalgumas vou desistir, mas volto pro mesmo lugar. Rodeio, encanto, esperneio. Eu gosto do centro, do meio. Me exibo um pouco, me encanto. E canto praquele que veio. Se há muitas pessoas, sucesso. Se há poucas pessoas, progresso. Cresço com o que me aparece. Apareço com aquilo que tenho. O que levo dentro, no fundo; não sei nem por um segundo. Vislumbro, prometo, atrapalho. Encalho no centro, no meio. E essa tal coisa de alma, mesmo privada de calma, mesmo bem no rebuliço, não perde a cor e o viço. Escrevo praquele que lê, atuo praquele que assiste, e mesmo no erro persiste a vontade de sempre acertar. Falo bobagens, besteiras. Escrevo pornografias, asneiras. Mas tiro de dentro de mim, essa coisa que pulsa lá dentro. E mesmo dormindo eu invento uma forma de nunca parar. Se agrado aos outros não sei. Não sei e não me interesso. Só sei que escrevo, me expresso, reciclando o lixo do dia. À noite, sonho acordado. De dia, vigília dormindo. Me perco em real e reverso. Encontro-me em algo diverso. As rimas me irritam, me espantam. Mas plantam em terra macia. E às vezes até a vadia, deve por fim descansar. E àqueles que não se acostumam à forma mudada, concisa, explico, de forma massiva: não tive a intenção de versar. Mas hoje carrego poesia na alma e no pensamento. E ela se escoa com o vento trazendo consigo harmonia. Seria um futuro brilhante se eu, esse ser inconstante, parasse agora um momento, e congelasse pra sempre esse vento. Com letras e delicadeza. Com flores e uma cantiga. Em qualquer conversa de amiga que a lágrima vem visitar. E com tenros olhos molhados, o fim vem impondo sua hora. Porque mesmo no brilho da aurora, há sempre a promessa do ocaso.
Marcadores:
bobagens,
escrita,
pensamentos,
poesia,
rascunho
domingo, 19 de outubro de 2008
Lobo de Deus
O Lobo Mau estava escondido debaixo da cama. No escuro. Chapeuzinho não sabia, coitada, mas sentia uma energia estranha no quarto. Embaixo de suas grossas colchas de veludo, Chapeuzinho suava de calor e de horror. Achava graça do filme apavorante, ao mesmo tempo em seus pelos se erguiam. Estava assustada, sem motivo. Sempre gostara dos filmes trash, de qualidade duvidosa. Muita groselha escorrendo como sangue, e maquiagens falsas que ela mesma saberia fazer. Já tinha feito aulas de maquiagem, ela. Ou vocês pensam que aquela roupinha vermelha é tendência? Nada disso. O modelito de capuz era apenas uma peça do figurino. Mas lhe rendera um apelido que levaria para toda a vida. Não ligava muito... Encarava como um nome artístico. Até que era bonitinho: Chapeuzinho Vermelho. Embora ela – em sua brancura de cera – detestasse vermelho. Ficava meio endiabrada. Assemelhava-se um pouco ao demônio. Mas ela era mesmo da pá virada. Depois da historinha infantil, já tinha se aventurado em filmes pornôs e histórias macabras. Gostava de denegrir a imagem de sua própria personagem. Sua menina dos olhos. Sob o tal codinome, atuou em várias peças publicitárias e produções de baixa renda. Dava pra pagar o aluguel. Mas Chapeuzinho já estava ficando velha. Aquele corpinho de criança magra só encantava ao Lobo Mau. Ah, o Lobo Mau. Eterno possessivo e apaixonado. Chamava-se Jeremias, na verdade. E não tinha conseguido sucesso na carreira embaixo daquela roupa toda. Poderia ter feito o personagem pelado: era coberto de pêlos. Teria tido mais sucesso, se assim tivesse sido. Mas o produtor não deixara. E Chapeuzinho odiava pêlos. Até que não era um mau sujeito, o Lobo Mau. Mas recusava qualquer possibilidade de depilação, o que enervara Chapeuzinho, e a fizera romper o conturbado relacionamento em caráter definitivo. Mas não se conformara, o Lobo Jeremias. Mandava flores, telefonava, enviava presentinhos duvidosos e cartas de mau gosto. Chapeuzinho nem ligava: depois dos filmes pornôs, vários admiradores lhe enviavam pornografias e declarações. Metade do que Jeremias escrevera estava junto com as cartas dos fãs, abandonadas num quarto escuro, sem previsão de leitura ou incêndio. Tudo jogado às traças. De tempos em tempo, o Lobo visitava a pequena Chapeuzinho. Escondia-se embaixo da cama, e ficava sentido o cheiro da amada. Cada movimento era uma surpresa, um delírio. Passava horas imóvel, apenas apreciando aquela presença. Desta vez, tinha-se decidido: sairia do anonimato, e conquistaria de vez o coração de Chapeuzinho. Para isso, até tinha sido flexível: aparara bastante os pêlos do corpo com uma maquininha de cabelo. Até a barba tinha feito. Um engano... Chapeuzinho adorava homens barbados! Na gritaria do filme b, Jeremias pensava na vida, e planejava cada detalhe de seu futuro amor perfeito. Coitado. Lá pelas tantas, um barulho de campainha. Era o Caçador, com uma barba espessa, um champanhe gelado e uns apetrechos sexuais. Em instantes, a gritaria da tela passara a parecer sussurro perto dos uivos da garota e de seu herói. A movimentação frenética do colchão deixara o Lobo desconfortável, quase espremido entre a cama e o chão. Com lágrimas nos olhos, Jeremias invejava a sorte do caçador – infinitamente mais bonito e viril que ele. Era mesmo uma vadia, a tal da Chapeuzinho. Com suas cantigas infantilóides e sua bondade fingida. Uma puta. Silenciosamente, o Lobo começa a se mover na escuridão do quarto, em busca da espingarda do caçador. Espingarda de dois tiros. Teria que escolher uma vida para salvar. Uma só, naquele triângulo de indiferenças e paixões. Mataria a todos, se tivesse oportunidade. Mas o caçador lhe negara a possibilidade do suicídio. Com o cano da espingarda, acende de repente a luz do quarto no momento de maior prazer do casal. Sem hesitar, atira cruelmente nos amantes: uma bala em cada cabeça. Eles caem mortos, com uma expressão assustadora de prazer e dor. Com cuidado, o Lobo afasta o Caçador, e beija, carinhosamente, o sexo de sua amada. Com as mãos, suja-se do sangue do casal, e rouba o figurino inesquecível, da fatídica peça infantil. Como um louco, sai pela rua com o rosto manchado de sangue e envolto na capa de cetim vermelho. Tem a alegria de uma criança grande, e a tristeza de um pequeno adulto. Pelas ruas, as pessoas se apavoram e se compadecem. Não há sentido na realidade nem na fantasia. É apenas um personagem de uma história sem futuro. Perdido no enredo criado por outrem. Um personagem inocente, segurando o peso das linhas tortas escritas por Deus.
sábado, 18 de outubro de 2008
O choro
É noite em Copacabana. No apartamento, sem água, duas cigarras gritam. A bagunça, inaceitável, se espalha pelos cômodos. Óculos jogados, copos sujos, roupas esquecidas. Não sabia como detestava a desordem. Seu espaço era sagrado. Não gostava de ceder lugar aos outros, e a falta de privacidade lhe doía na cabeça. Tinha se esquecido de como é viver junto, na falta de respeito. O respeito é fundamental – pensou. Mas nas relações de longo tempo ele se desfaz, como pequenas gotas enchendo uma banheira por anos. Um dia transborda. Estava impaciente: com a cidade, com os problemas, com as reclamações. Se não pode resolver, por favor não reclame! Quem não é dono dos problemas sempre tem alguma solução melhor do que a encontrada pelos donos, certo? Errado. Não passam de palpiteiros. Não entendia o porquê do convite. Tinha sido um erro, de fato. Mas já estava feito, só restava se divertir. O programa do dia tinha sido atropelado pelos imprevistos administrativos: nada que se pudesse prever. E agora, nesse silêncio pesado, sentia uma imensa falta da solidão. Gostava de se sentir sozinha, de se sentir em paz. Perto dos outros, os problemas ecoam. Eles são como paredes. Perdidos no espaço infinito, as preocupações só se manifestam quando são de fato importantes. Tinha saudades do pai. Amava-o tanto, com uma admiração tão profunda, que teve medo de nunca conseguir expressar-se corretamente. Ele não podia imaginar tudo o que fazia por ela. Era grata de uma maneira tão intensa e pura, que sonhava em poder, um dia, retribuir de forma adequada. Era uma fortaleza, o pai. Um rochedo, que apesar da força da maré, nem pensava em desmoronar. Tinha uma saudade intensa de quem tinha sido ao lado daquelas pessoas. Mas não o era mais. E o que se tornara era tão melhor, tão bem estruturado, que teve pena da transformação não ter sido feita em conjunto. Eles não entendiam. Olhavam a mulher, e enxergavam a menina. Assistiam às decisões como se fossem caprichos. Eles não podiam imaginar a vida que ela levava. Difícil, controlada. Estava cansada de viver dentro dos limites. Será que um dia ela teria o direito de se rebelar? Teve vontade de ser inconseqüente, pelo menos por uma vez. Nunca se dera ao direito. Todos os riscos que assumia eram extremamente bem calculados. Teve vontade de se jogar no abismo por pelo menos uma vez. De infringir a lei, de se envergonhar. Quis ter uma ressaca moral que lhe mantivesse embaixo do edredom por dias. Mas era certinha. Honestinha. Caretinha. Quis se endividar, fazer compras, se divertir! Precisava comprar tanta coisa... Não agüentava mais as mesmas roupas no espelho, os mesmos tênis fedendo a mofo, os velhos celulares descascados e interrompidos. Não estava feliz fazendo comédia. Não estava achando graça. Mas tinha vendido sua arte. Vendido por umas cervejas e uma pequena dose de adrenalina. Estava gostando de se fuder, no pior dos sentidos. Queria se estrepar, pra mostrar a todos o quanto era fracassada; o quanto tinha dado errado. Voltava tarde da noite, pelas ruas escuras e desertas; nos ônibus cheios de marginais; tentando acordar do pesadelo, tentando se encontrar no barulho das buzinas. Estava insegura, a atriz. Não queria ser um fardo pra ninguém. Vergonha, prejuízo. Não tinha vergonha de suas escolhas, nem de suas dificuldades. Para si, achava até interessante o momento, o aprendizado, a estrada. Mas estava cansada de lhe jogarem na cara o seu insucesso financeiro. Dinheiro é tudo? É? Quer saber: ela era bem mais feliz quando gastava menos e sorria mais. O dinheiro só é bom, quando é fonte de inspiração...
quarta-feira, 15 de outubro de 2008
Papéis
Uma folha de papel em branco perdida no meio da rua vazia. Voando, por entre os ruídos da brisa e o calor da fumaça. A folha branca, que escurece ao longo da vida, tornando-se negra nas pontas, quebradiça. Papéis... Cartas esquecidas no fundo das gavetas, ou queimadas em acessos de raiva. Pedidos escritos em um dia 31 e jogados ao mar. Receitas, recados. Números aleatórios, telefones, informações. Pequenos pedaços de informações que se perdem ao longo do tempo. Papéis esquecidos que não fazem sentido depois de algum tempo. Tenho revisitado papéis. Papéis intangíveis e imaginários, que constroem grão a grão esse meu castelo de areia. Papéis que formam janelas e portas, e brisas e suspiros. Principalmente suspiros... Tenho me encontrado nessa multidão de letras. Tenho achado um pouco de mim. Um eu que já não existe, um eu que se transformou, um eu que se repete. Papéis são pequenas lágrimas coloridas com canetas bic.
**********
Correu pela rua assustado, procurando o que havia perdido. Empurrou pessoas, falou palavrões, e nem assim encontrou. Demorou a aceitar, mas depois de algum tempo, acabou sentando-se na calçada para avaliar o tamanho do prejuízo. Nenhum – pensou. Tinha se exaltado demais. Não era como perder a aliança... Não havia prejuízos; apenas uma fugidia sensação de tolice. Bobagem! Sorriu internamente, como ri quem já não tem o que explicar. Estava feliz. Passeou por entre os carros, tentando esquecer pensamentos que cismavam em lhe ocorrer. Queria o vazio. Já havia perdido, não havia como voltar. Telefonou para um amigo: não tinha nada a dizer. E nessa imbecilidade, resolveu se implicar. Nada como um belo dia de sol pra enlouquecer as cabeças confusas. Foi gastar a sola do sapato, e o resto das moedas que lhe pesavam o bolso. Com um sorvete nas mãos, lembrou da antiga bicicleta, reformada pelo pai, e presenteada ao sobrinho. A gente vai e as coisas sobram. O pai já havia morrido. De enfarte, de derrame, de tristeza. Estava vivo ainda, mas era melhor que não estivesse. As lembranças do pai sempre lhe povoavam a cabeça. A noite começou a cair. Faróis na vinda, freios na ida. A maresia como uma lama encobrindo o universo. Fumaça. Com as mãos meladas, pensou em correr. Mas os sapatos lhe doíam os pés. Pretos. Os pés suados do calor. Nada como um dia quente. As luzes do trânsito invadindo os pensamentos que ele tentava tirar da cabeça. A cabeça doendo pelo calor. As pernas suadas, os braços. Uma saliva espessa ocupando a boca. Estava salgado, o verão era assim. Com a buzina nas orelhas, pensou se conseguiria reconquistar o que perdera. Telefones não são fáceis de encontrar. Cogitou a possibilidade de reencontrar aquela moça. De óculos, interessante. Queria aquela moça que lhe abordara tão gentilmente, com um sorriso no rosto e aquele papel na mão. Onde estaria o papel? Pensou no porquê de não ter aceitado o convite, no motivo de não ter ido ao encontro da moça. Não sabia se ela era comprometida. Com o moço de cabelos loiros. Mas pensava na moça, e no telefone perdido. Talvez nunca mais voltasse a se achar, como se achara naquele par de óculos. Perdido por entre as mesas do bar, observando só ele. Com um sorriso no rosto, e aquele papel na mão, sonhado. Papéis são pequenas esperanças, manchadas pelo passar do tempo.
**********
Correu pela rua assustado, procurando o que havia perdido. Empurrou pessoas, falou palavrões, e nem assim encontrou. Demorou a aceitar, mas depois de algum tempo, acabou sentando-se na calçada para avaliar o tamanho do prejuízo. Nenhum – pensou. Tinha se exaltado demais. Não era como perder a aliança... Não havia prejuízos; apenas uma fugidia sensação de tolice. Bobagem! Sorriu internamente, como ri quem já não tem o que explicar. Estava feliz. Passeou por entre os carros, tentando esquecer pensamentos que cismavam em lhe ocorrer. Queria o vazio. Já havia perdido, não havia como voltar. Telefonou para um amigo: não tinha nada a dizer. E nessa imbecilidade, resolveu se implicar. Nada como um belo dia de sol pra enlouquecer as cabeças confusas. Foi gastar a sola do sapato, e o resto das moedas que lhe pesavam o bolso. Com um sorvete nas mãos, lembrou da antiga bicicleta, reformada pelo pai, e presenteada ao sobrinho. A gente vai e as coisas sobram. O pai já havia morrido. De enfarte, de derrame, de tristeza. Estava vivo ainda, mas era melhor que não estivesse. As lembranças do pai sempre lhe povoavam a cabeça. A noite começou a cair. Faróis na vinda, freios na ida. A maresia como uma lama encobrindo o universo. Fumaça. Com as mãos meladas, pensou em correr. Mas os sapatos lhe doíam os pés. Pretos. Os pés suados do calor. Nada como um dia quente. As luzes do trânsito invadindo os pensamentos que ele tentava tirar da cabeça. A cabeça doendo pelo calor. As pernas suadas, os braços. Uma saliva espessa ocupando a boca. Estava salgado, o verão era assim. Com a buzina nas orelhas, pensou se conseguiria reconquistar o que perdera. Telefones não são fáceis de encontrar. Cogitou a possibilidade de reencontrar aquela moça. De óculos, interessante. Queria aquela moça que lhe abordara tão gentilmente, com um sorriso no rosto e aquele papel na mão. Onde estaria o papel? Pensou no porquê de não ter aceitado o convite, no motivo de não ter ido ao encontro da moça. Não sabia se ela era comprometida. Com o moço de cabelos loiros. Mas pensava na moça, e no telefone perdido. Talvez nunca mais voltasse a se achar, como se achara naquele par de óculos. Perdido por entre as mesas do bar, observando só ele. Com um sorriso no rosto, e aquele papel na mão, sonhado. Papéis são pequenas esperanças, manchadas pelo passar do tempo.
domingo, 12 de outubro de 2008
Sobre os incompetentes
Se há uma coisa que me irrita na vida é trabalhar com gente incompetente. Os incompetentes são seres gelatinosos e borrachudos que, não raramente, colocam a culpa de suas incapacidades nas costas de outras pessoas. Para os incompetentes, sempre há algum empecilho responsável pelo seu mau desempenho. Há sempre uma fatalidade, uma eventualidade, uma contingência. Incompetentes são invasivos. E críticos por excelência. Para eles, nada melhor do que futricar a sua vida e descobrir suas fragilidades. Eles sabem que num momento de extrema necessidade, poderão usar essas falhas contra você. Porque os incompetentes são, em geral, vingativos. Mais mal-amados e carentes do que vingativos. Mas um carente ofendido, ferido em seu brio, normalmente visa um megalomaníaco troco, de preferência em moeda de maior valor. Outra coisa sobre os incompetentes, é que eles se acham competentes em diversas áreas: são cozinheiros, pintores, jornalistas, músicos, escritores, farmacêuticos, filósofos, cineastas, atores, economistas, motoristas, atletas, cantores, professores, dançarinos, malabaristas, políticos, e pegadores – tudo ao mesmo tempo! Eles julgam que suas incursões por várias áreas do conhecimento se devem à sua grande versatilidade, e não à sua falta de real destaque em uma delas. Uma pessoa que reunisse todos os talentos que os incompetentes julgam ter, seria, na verdade, um pequeno gênio. Digno de admiração e reverência. Mas os incompetentes, gelatinosos e borrachudos, nos causam, na verdade, um certo enjôo. Náuseas. Eles são como gosmas nojentas, que grudam em nossos sapatos, e vão nos acompanhando durante a vida. E a caminhada é longa. Dia após dia, aquele chiclete vai nos enervando, nos impedindo de prosseguir mais rápido. Incompetentes têm o dom de atravancar a vida dos outros. São responsáveis por inomináveis dores de cabeça – pras quais eles mesmos receitam remédios. Causam doenças estomacais, crises nervosas, distúrbios de humor. Os incompetentes estão espalhados por todos os lugares. São como baratas, resistentes. Não adianta destruir um: sempre haverá outro para ocupar o seu lugar. Uma grande dedetização de incompetentes, só nos fará deixar de percebê-los por algum tempo. Mas eles estarão sempre lá: escondidos embaixo dos móveis, se movendo rápidos pelas paredes. Nos observando; nos vigiando; sempre prontos a interromper nossa produtividade em prol de uma bobagem qualquer. Porque incompetentes sempre julgam seus problemas maiores do que os dos outros. E estão sempre delegando! Incompetente que é incompetente, está sempre te pedindo pra fazer alguma coisa: dar um telefonema, mandar um e-mail, confirmar uma reunião... Tenho a impressão de que nas grandes companhias, se todos os incompetentes fossem mandados embora, os competentes, auxiliados pelos funcionários medianos, dariam conta de todo o trabalho em um tempo talvez menor. Porque os incompetentes estão sempre botando água no feijão. Adiando decisões, dificultando comunicações, perturbando. O que poderia facilmente ser resolvido por um telefonema, para os incompetentes se transforma em correntes de e-mail, spams, malas diretas, mensagens de texto, cartas via sedex e código Morse. Tudo na rapidez da lentidão. Mas definitivamente, o que mais me irrita nos incompetentes é a sua particular calma. Estão sempre nos olhando com aquela cara de pamonha, como se não entendesse o porquê de nosso desespero. Parecem zombar da nossa falta de paciência, com aquele olhar plácido de quem não sabe o que está fazendo de errado. São carentes os incompetentes, já disse. E devo admitir: são, em sua maioria, bem-intencionados. Sua falta de praticidade e objetividade se deve a um desarranjo universal, cósmico, divino, que vai além de sua boa vontade. Um incompetente bonzinho é digno de pena. Mas não tem salvação: eles são irremediáveis. A não ser em casos isolados, nos quais a mudança da área de atuação os torna brilhantes! Os incompetentes podem apenas ser aqueles que ainda não se encontraram. O que não justifica o fato de nos fazerem perder a paciência. Incompetentes são irritantes, são enervantes, são gosmentos. Eu, hoje, estou coberta por essa baba espessa, tentando, a todo custo, dar um passo à diante. Mas se você quer saber, acho que vou radicalizar! Nada melhor do que tirar os sapatos...
Marcadores:
cotidiano,
crítica,
incompetência,
reclamação,
trabalho
quarta-feira, 8 de outubro de 2008
Notícias para uma miguxa
Miguxa, querida! Sei que você se preocupa com a minha felicidade – ou a falta dela – nessas minhas aventuras no país das maravilhas. E é por isso que te escrevo hoje. Escrevo pra contar que estou ótima. Com saudades, é claro. Mas muito feliz, como há tempos não me sentia. O motivo? Não há motivos, apenas um brilho diferente nos olhos. Acho que virei mulher. Sabe assim? De uns minutos pra cá? Percebi que está tudo dando tão certo, que estou tão adaptada aqui, que tenho a minha vida independente – embora ainda dependa de dinheiro alheio – mas que isso também é uma contingência passageira, que não deve durar muito mais tempo. Descobri que sou nova ainda, muito nova, e devia parar de me cobrar tanto. Talvez esteja assim porque errei. Profissionalmente, ontem não fui muito bem sucedida em uma das minhas apresentações, o que me deixou, na verdade, ótima! Nada como aprender com os erros. Na verdade, nada como lembrar que errar não é tão mal assim. Todo mundo erra. O tempo todo. E como é divertido dar a cara à tapa! Lembrei-me, de certa forma, dos motivos que me trouxeram aqui. E arriscar-me mais foi, com certeza, um deles. Estou feliz, amiga. E tenho saudades. Cortei os cabelos. Ficou bonito, você ia gostar. Está me dando um certo trabalho, é verdade, mas está mais leve. Combinando com esta minha nova cara. Uma nova roupagem. O cigarro? Ainda não consegui largar. Mas estou mais satisfeita com a nossa relação agora. Um pouco mais esporádica e menos necessária. Não sei se acredito no fim definitivo, mas tenho fé no ‘um dia depois do outro’. Esse prazer misturado ao vício é sempre complicado. Fui ao cinema hoje. Por aqui, está tendo festival de cinema, você deve saber. Não tenho assistido muitas coisas, confesso. Mas hoje vi dois documentários: um curta e um longa. Dois artistas. Dois filmes inspiradores. Estou com saudades dos amigos. Convide-os para uma cerveja, e façam um brinde por mim. Mas só os amigos. Os bons amigos. Tenho lembrado muito de vocês. Acho que não falo muito sobre o quanto vocês são importantes para mim, né? Mas são. Muito. Amo vocês de um amor tão puro e sincero, que choro, com um sorriso no rosto. Amo vocês porque nada nos prende, e ainda assim estamos juntos, mesmo na distância. Amo vocês porque sempre que tenho uma novidade é pra vocês que penso em contar. É a reação de cada um que me vem à memória. São os sorrisos que vivemos juntos, as lágrimas, as bebices. Tenho saudades da bagaça também, mas tenho me encontrado por aqui. Em algumas esquinas, alguns olhares. Estou feliz, amiga. Eu estou me dando a oportunidade de tentar e conseguir. De tentar e fracassar. De fazer a minha parte. E embora eu tenha que me distanciar de vocês para fazer isso, está me valendo muito a pena. Agora estou procurando apartamento, chatice que tem me tomado boa parte do tempo. Mas não reclamo. Estou doida pra encontrar um logo, pra que vocês possam vir passar o final de semana comigo. Mas por enquanto só tenho achado velharia. Com calma. Um dia depois do outro, lembra? Como a máxima do A.A.. Tenho bebido bem pouco, falando nisso. A cerveja aqui não tem a mesma graça que a daí. Deve ser a companhia... E champanhada, por aqui, é coisa impossível. Você tem andado um pouco relapsa também! Mandei um e-mail te cobrando as fotos de quando vocês vieram aqui, e nada! Nem resposta. Se puder, escreva-me. Quero notícias da nossa querida trupe e da senhorita. Avise ao marido para se preparar: nem estou reclamando muito, ele vai estranhar. E por favor, da próxima vez que eu aparecer na terrinha, quero um evento exclusivo no seu ap mal-assombrado! Desta última vez nem conseguimos botar as fofocas em dia adequadamente. Bom, é mais ou menos por aí. Escrevi só porque a saudade doeu, e porque quando escrevo, você costuma responder. Escrevi porque estou feliz, e queria que você também estivesse. Escrevi porque eu acho que a gente é parecida, e hoje eu descobri que preciso me cobrar menos. E talvez a minha descoberta valha para você também. Então escrevi para te lembrar! Não se cobre tanto, miguxa. A vida não é tão chata quanto a gente pinta. Ela é leve, como bolinhas de sabão – que podem estourar a qualquer momento. Aproveite seu dia. Aproveite a vida. Somos novas ainda, com milhares de coisas pela frente. Permita-se errar. Na nossa idade, ainda dá tempo de consertar, caso a gente queira. Só tente não magoar as pessoas – pelo menos não as importantes. Eu, por aqui, tenho tentado fazer dessa forma, e tem funcionado muito bem. Se quer uma sugestão, corte os cabelos. Às vezes, eles são um peso desnecessário nas nossas vidas. E nada melhor do que uma cara nova. Sorria amiga! Estou morrendo de saudades. Mas estou feliz, como há tempos não ficava. Sinto falta de vocês. Mas estou tão bem que me sinto perto. Espero que vocês também estejam por aqui. Próximos. Em paz. Estou com saudades. E estou feliz; radiante. Beijos.
terça-feira, 7 de outubro de 2008
Umbigo
Corre que o mundo te espera! – disse o diabo ao umbigo. E o umbigo lá, pra dentro, escondido. O umbigo guardado, enrustido, com vergonha de se exibir. Até que um dia teve uma hérnia, que o jogou mundo adentro. Arregaçado, dolorido. E ele foi, sem ter qualquer alternativa. Jogou-se no mundo, o danado do umbigo. E foi feliz. Roçou outras tantas barrigas que jamais pensara em encostar; entrou em lugares desconhecidos, ficou submerso em água. E gostou. Nem de longe, havia pensado que ser umbigo era tão divertido. Desfrutou de pontos de vista quase únicos, brincou com membros avantajados, melecou-se de baba que caía do alto. E se escondeu, novamente, em seu buraco esconderijo. Passou lá dentro dias e dias refletindo sobre a esbórnia vivida. E decidiu-se pela clausura. Sentiu-se pecador. Por anos e anos, rezou em sua escuridão silenciosa, pedindo perdão por suas falhas e pecados. Até que ficou velho, e uma nova hérnia lançou-lhe novamente no mundo. Estava diferente, este mundo. Muito mais interessante e pecaminoso. Divertiu-se, se esbaldou. Arrependeu-se a cada minuto de um arrependimento delicioso, com gosto de quero-mais. Lambuzou-se de maneiras inomináveis, até que uma infecção generalizada levou-o à morte. Depois de carcomido pela terra, chegou ao além. Procurou deus, na esperança de redimir-se e alcançar o descanso eterno. Mas deus era cruel, com suas barbas longas, e suas feições arianas. Ofereceu-lhe como opção uma joelheira de milho, e milhões de orações, que deveriam ser repetidas por toda a eternidade. Esta era a paz eterna: ao lado direito de deus, com os joelhos no chão, entoando cânticos em seu louvor. Encolheu-se novamente, para dentro de seu buraco sombrio, o umbigo. E decidiu espairecer, antes de entregar-se a seu eterno calvário. Avistou, porém, o danado do diabo, a fumar um cigarrinho de palha em uma cadeira de balanço. Velho, negro, com os cabelos grisalhos e um sorriso bondoso, o demo lhe disse: faze o que quiseres, meu filho! isso não passa de uma eterna ilusão. E o umbigo, satisfeito pôs-se a manejar o fumo de rolo, para seu prazer relaxante, que duraria milênios. Travestido, o diabo tornou-se deus, e o próprio deus desceu ao inferno, queimando em longas labaredas, que aqueciam suavemente a brancura das nuvens. Moral da história: nem tudo que reluz é ouro. Ou: por fora, bela viola...
Divirtam-se!
Divirtam-se!
segunda-feira, 6 de outubro de 2008
Conversa entre a empregada e a atriz
- Dona Sônia, a senhora é atriz?
- Sou sim, Iolanda, por que?
- Nada não, dona Sônia, só queria saber.
(Tempo)
- Ô dona Sônia, se a senhora é atriz, por que que eu nunca vi a senhora na televisão?
- É que eu sou formada em teatro, Iolanda, ainda não fiz nada na televisão.
- Ah... e pode ser atriz sem fazer televisão?
- (se irritando) Claro que pode, não é, Iolanda. A Marília Pêra, por exemplo, trabalhou anos no teatro antes de ir pra televisão.
- Eu adoro a Marília Pêra. Ela tem um jeito engraçado, né?
(Silêncio. Tempo.)
- Ô dona Sônia, desculpa perguntar, mas a senhora trabalha no teatro também? É que eu passo aqui o dia todo, todo dia, e a senhora sempre na frente desse computador.
- É que agora eu tenho um site na Internet. E fico escrevendo textos pra ele.
- Mas depois que eu vou embora a senhora vai pro teatro?
- Vou não Iolanda. Eu não estou em cartaz.
- É mesmo? E quando que a senhora vai estar em cartaz? É que eu tenho uma sobrinha, a Luana, que é doidinha pra entrar na televisão. Quem sabe eu não levo ela pra assistir a peça da senhora, e um olheiro da globo não descob...
- Não sei quando vou estar em cartaz, Iolanda. Além do mais, essa coisa de olheiro é história pra boi dormir!
- Não é nada. Lá no meu bairro tem uma menina...
- Iolanda, você está me atrapalhando.
- Ai, desculpa, dona Sônia. O que é que a senhora está escrevendo aí?
- Até agora nada. Você não pára de falar na minha cabeça. Não to conseguindo escrever.
- Escreve sobre o doutor Marcelo.
- Escrever o que sobre o Marcelo, Iolanda?
- Sei lá, ele não é marido da senhora? Escreve como vocês se conheceram. Já sei, escreve sobre a viagem que ele está fazendo!
- E eu lá vou saber escrever sobre a viagem dele, criatura?
- É mesmo, dona Sônia... Não tinha pensado nisso... Muito ruim o marido da senhora. Tirou férias, arrumou mala, e largou a senhora pra trás!
- É a modernidade, Iolanda. O dinheiro só dava pra um viajar.
- Mas precisava ir lá pra Europa? Podia ter viajado com a senhora pra Salvador.
- A gente já foi à Salvador milhões de vezes, Iolanda. E além disso, ele não podia perder a oportunidade de ir pra Europa só porque eu não tinha dinheiro pra ir com ele.
- Gente rica é engraçada! Ai do Genésio se ele viajasse e me deixasse pra trás. Enchia ele de chifre.
- É...
- Por que que a senhora não arruma um homem bem bonito, hein, dona Sônia? A senhora é tão linda... Se bem que melhor que o doutor Marcelo vai ser difícil de arrumar.
- Ta bom, Iolanda. Agora me dá um tempo que eu preciso escrever.
- É mesmo, desculpa. A senhora tem que escrever... (tempo) Ôô, dona Sônia, já que a senhora não ta fazendo peça, por que é que a senhora não faz um livro? Podia ganhar um dinheiro...
- Não tenho o menor talento pra escritora.
- Mas a senhora passa o dia todo escrevendo nesse computador!
- Escrevo bobagens, só pra me distrair...
- E peça, a senhora também faz pra se distrair?
- Claro que não criatura. Fazer peça é o meu trabalho.
- E por que não ta trabalhando então?
- Porque eu to desempregada, Iolanda, será que você não entende?
- Pra falar a verdade, não entendo não. Eu, se tivesse o dom que a senhora tem com as palavras, já tava era montada no dinheiro, cheia dos livros vendidos.
- E como é que você sabe que eu tenho dom com as palavras, criatura?
- Dá pra ver até pelos bilhetinhos que a senhora deixa pregado na geladeira!
- Iolanda! Deixa de ser boba!
- Um dia, quando fui lavar uma camisa do doutor, encontrei um bilhete da senhora no bolso. A senhora falava cada coisa... até eu fiquei com vontade de ligar pra senhora!
- Iolanda! Essa conversa ta ficando muito estranha... você não tem nada pra fazer na cozinha não?
- Eu ia fazer almoço, mas a senhora me dispensou...
- Podia fazer um bolo.
- Eu não! Se fizer, a senhora vai me xingar a semana toda que ta comendo o bolo sozinha, que vai virar uma baleia...
- Tem razão...
- Vai por mim, dona Sônia! Com esses escritos da senhora, a senhora podia lançar um livro! Até eu podia... se eu juntasse todas as receitas que eu já anotei na vida, ia escrever um baita livro de culinária!
- Não tenho talento pra escrever, Iolanda, já disse. Agora me deixa em paz...
- Artista é tudo engraçado. Ta desempregada, trabalhando igual uma doida, e com vergonha de ganhar dinheiro... Ah, se eu fosse a mãe da senhora! Roubava esse computador e vendia esses textos todinhos! A senhora ia rachar de ganhar dinheiro. Até o doutor Marcelo, que vive implicando com a senhora, ia...
- De chocolate, Iolanda! Quero o bolo de chocolate. Aquele, com brigadeiro no meio. E com bastante cobertura!!!
- É por isso que Deus não dá asa a cobra... ai se eu fosse a senhora...
(Iolanda sai. Sônia volta a escrever no computador. Pára. Pega o telefone e liga pra Marcelo)
- Amooor, por que é que a gente não foi pra Salvador??? (chora).
- Sou sim, Iolanda, por que?
- Nada não, dona Sônia, só queria saber.
(Tempo)
- Ô dona Sônia, se a senhora é atriz, por que que eu nunca vi a senhora na televisão?
- É que eu sou formada em teatro, Iolanda, ainda não fiz nada na televisão.
- Ah... e pode ser atriz sem fazer televisão?
- (se irritando) Claro que pode, não é, Iolanda. A Marília Pêra, por exemplo, trabalhou anos no teatro antes de ir pra televisão.
- Eu adoro a Marília Pêra. Ela tem um jeito engraçado, né?
(Silêncio. Tempo.)
- Ô dona Sônia, desculpa perguntar, mas a senhora trabalha no teatro também? É que eu passo aqui o dia todo, todo dia, e a senhora sempre na frente desse computador.
- É que agora eu tenho um site na Internet. E fico escrevendo textos pra ele.
- Mas depois que eu vou embora a senhora vai pro teatro?
- Vou não Iolanda. Eu não estou em cartaz.
- É mesmo? E quando que a senhora vai estar em cartaz? É que eu tenho uma sobrinha, a Luana, que é doidinha pra entrar na televisão. Quem sabe eu não levo ela pra assistir a peça da senhora, e um olheiro da globo não descob...
- Não sei quando vou estar em cartaz, Iolanda. Além do mais, essa coisa de olheiro é história pra boi dormir!
- Não é nada. Lá no meu bairro tem uma menina...
- Iolanda, você está me atrapalhando.
- Ai, desculpa, dona Sônia. O que é que a senhora está escrevendo aí?
- Até agora nada. Você não pára de falar na minha cabeça. Não to conseguindo escrever.
- Escreve sobre o doutor Marcelo.
- Escrever o que sobre o Marcelo, Iolanda?
- Sei lá, ele não é marido da senhora? Escreve como vocês se conheceram. Já sei, escreve sobre a viagem que ele está fazendo!
- E eu lá vou saber escrever sobre a viagem dele, criatura?
- É mesmo, dona Sônia... Não tinha pensado nisso... Muito ruim o marido da senhora. Tirou férias, arrumou mala, e largou a senhora pra trás!
- É a modernidade, Iolanda. O dinheiro só dava pra um viajar.
- Mas precisava ir lá pra Europa? Podia ter viajado com a senhora pra Salvador.
- A gente já foi à Salvador milhões de vezes, Iolanda. E além disso, ele não podia perder a oportunidade de ir pra Europa só porque eu não tinha dinheiro pra ir com ele.
- Gente rica é engraçada! Ai do Genésio se ele viajasse e me deixasse pra trás. Enchia ele de chifre.
- É...
- Por que que a senhora não arruma um homem bem bonito, hein, dona Sônia? A senhora é tão linda... Se bem que melhor que o doutor Marcelo vai ser difícil de arrumar.
- Ta bom, Iolanda. Agora me dá um tempo que eu preciso escrever.
- É mesmo, desculpa. A senhora tem que escrever... (tempo) Ôô, dona Sônia, já que a senhora não ta fazendo peça, por que é que a senhora não faz um livro? Podia ganhar um dinheiro...
- Não tenho o menor talento pra escritora.
- Mas a senhora passa o dia todo escrevendo nesse computador!
- Escrevo bobagens, só pra me distrair...
- E peça, a senhora também faz pra se distrair?
- Claro que não criatura. Fazer peça é o meu trabalho.
- E por que não ta trabalhando então?
- Porque eu to desempregada, Iolanda, será que você não entende?
- Pra falar a verdade, não entendo não. Eu, se tivesse o dom que a senhora tem com as palavras, já tava era montada no dinheiro, cheia dos livros vendidos.
- E como é que você sabe que eu tenho dom com as palavras, criatura?
- Dá pra ver até pelos bilhetinhos que a senhora deixa pregado na geladeira!
- Iolanda! Deixa de ser boba!
- Um dia, quando fui lavar uma camisa do doutor, encontrei um bilhete da senhora no bolso. A senhora falava cada coisa... até eu fiquei com vontade de ligar pra senhora!
- Iolanda! Essa conversa ta ficando muito estranha... você não tem nada pra fazer na cozinha não?
- Eu ia fazer almoço, mas a senhora me dispensou...
- Podia fazer um bolo.
- Eu não! Se fizer, a senhora vai me xingar a semana toda que ta comendo o bolo sozinha, que vai virar uma baleia...
- Tem razão...
- Vai por mim, dona Sônia! Com esses escritos da senhora, a senhora podia lançar um livro! Até eu podia... se eu juntasse todas as receitas que eu já anotei na vida, ia escrever um baita livro de culinária!
- Não tenho talento pra escrever, Iolanda, já disse. Agora me deixa em paz...
- Artista é tudo engraçado. Ta desempregada, trabalhando igual uma doida, e com vergonha de ganhar dinheiro... Ah, se eu fosse a mãe da senhora! Roubava esse computador e vendia esses textos todinhos! A senhora ia rachar de ganhar dinheiro. Até o doutor Marcelo, que vive implicando com a senhora, ia...
- De chocolate, Iolanda! Quero o bolo de chocolate. Aquele, com brigadeiro no meio. E com bastante cobertura!!!
- É por isso que Deus não dá asa a cobra... ai se eu fosse a senhora...
(Iolanda sai. Sônia volta a escrever no computador. Pára. Pega o telefone e liga pra Marcelo)
- Amooor, por que é que a gente não foi pra Salvador??? (chora).
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
Tempestade de palavras
Estou inundada de palavras. Elas me preenchem, me completam. Posso vomitá-las, se quiser. Mas por enquanto, tento digeri-las e transformá-las em material orgânico. Adoro esse processo de transformação. Hoje as palavras me saem dos dedos, e não da mente, como há muito tempo não acontecia. O resultado dessa freneticidade só vai ser avaliado ao final da epilepsia. Ouço música enquanto escrevo. Coisa inédita. Vozes ecoando na minha cabeça com mais palavras. Palavras decoradas ao longo do dia tentando se fixar nesse pequeno pedaço intangível; palavras que disse e que deveria ter dito vagando pelo meu corpo. As palavras nadam, divertem-se. Ainda não sei bem qual é a intenção delas. Algo devem estar tramando. E parece que estão seguras de seu plano, pois os dedos se movem com agilidade sobre o teclado. Deliciam-se. São como crianças aprendendo novas brincadeiras, lambendo bolas de sorvete. Ávidas. Tenho um sorriso no rosto. Ando com esse sorriso. Ainda não sei também o seu significado, mas tenho uma ótima sensação. Parece que as coisas estão, enfim, chegando em seu devido lugar. Nada de novidades, devo dizer. Só uma atmosfera interessante, etérea, engraçada. Estamos nos divertindo. Eu e os meus. Estamos brincando juntos de nos conhecer, de nos ajudar. A gente sabe que forma uma boa equipe, mas a gente sempre teve medo de se atrapalhar. Eu a eles e eles a mim. Agora trabalhamos juntos, ainda sem conversar diretamente. Neste exato momento, eles me ajudam. São uma ponte entre as profundezas do meu ser e a tela desse computador. Querido, necessário, companheiro. Descobri que uma máquina, às vezes, pode ser necessária como um amigo a um ser humano. Minha análise, faço nessas linhas. Falo sem pensar, escrevo num brainstorm, na velocidade das minhas inquietações. A saudade se manifesta, as melancolias se mostram, as vergonhas se desnudam. Mostro-me. E me escondo, obviamente. Quem pensa que ao ler essas linhas se aproxima de mim, engana-se. Redondamente. Nunca sou pura nos caracteres. Sou muitas, e os filtros aqui são inúmeros. Adoro estar do outro lado dessa tela retangular, com ícones tão perfeitos e cheios de significado. Com pequenos desenhos sem nexo que formam um sentido completamente lógico na cabeça dos olhos que os acompanham. O ser humano é mesmo espetacular. Na minha cabeça, limitando todos os outros sons do mundo, um zé pretinho qualquer. Animado, dançante, crioulo. Fazendo a mediação do que eu sei e do que eu desconheço. Do que esta dentro, mas me foge ao domínio. Uma vontade absurda de transformar-me em água; de liberar um peso que já não me é mais necessário. As prioridades se confundem nesse descontrole. Ainda não sei o que quero. Mas quero demais. Quero sempre e quero agora. Permeada por todos os que passaram antes de mim, vou seguindo o caminho. Cada um faz o seu. As pedras e os buracos, tratemos de ultrapassá-los. Afinal, o que seria de nós sem a pior parte? É no fundo escuro do poço que descobrimos como é boa a luz ao ar livre. E dia após dia, vamos tentando respirar esse ar, em meio ao trânsito e à poluição. Cada dia mais sufocados pela lama que nós próprios produzimos. Sujeira fonética, no meu caso. Fonemas e mais fonemas perdidos nesse espaço onírico. Há quem os recolha e os recicle, mas creio que grande parte desse lixo fique por milhares de anos carregando e poluindo uma rede que jamais será limpa por ninguém. A gente morre e o lixo fica. Os prédios ficam, os carros, os filhos, o sobrenome. Fotos amareladas no fundo de alguma gaveta, esquecidas, perdidas, capazes de provocar sorrisos ou lágrimas na hora da descoberta. Somos apenas corpos no espaço. Corpos complexos, que tentam colocar o espaço a seu favor. E ele sempre a nos engolir. Nos ludibriar. Gostamos de certos engodos. Tenho saudades de Deus. Eu um dia o conheci. Você também, creio eu. Será que tornarei a encontrá-lo? Deus era um serzinho bem engraçado. Espertinho... até hoje tento imitar sua ironia. Inteligentíssima. Ele é o tipo de cara que nunca conta piadas, e ri de suas próprias desgraças. Serzinho competente. Bem diferente desses espalhados por aí, que vivem se comparando a ele. Patéticos. A humanidade é cheia de patetas patéticos. Risíveis. Adoro cada um deles: com suas escatologias e arrogâncias. Com seus documentos e contas bancárias. Ah, se eles soubessem que nada disso faz o menor sentido. Que não há sentido. Que o verdadeiro sentido é apenas sentir... mas eles não sabem. Eu também não sei. Se soubesse, estaria morta. É um segredo daqueles de filmes de gangster. De vida ou morte. De sorte. Acaso. Ao caso. Ocaso. Ou pôr-do-sol, num dia frio, com o céu róseo. Sentado na areia, com os bolsos cheios de nada, e os ouvidos cheios de vento. Na praia. Ao vento sul. Com aquele sorriso no rosto, e aquele charme na cabeça. Sabe aquele homem? Então. O charme dele. O que o outro não tem e acha que tem, e o que ele tem e nem sabe. Naquele abdome talhado à perfeição, sem nenhum esforço aparente. Naquele cabelo raspado e naquelas covinhas. Nos sorrimos. Com os olhos. Com os braços. Gosto de imaginá-lo mais perto. A gente acha graça. O que não existe, a gente inventa. E depois desinventa, quando for necessário. Antiviral, antibiótico. Antimonotonia. Mentiras criadas para passar esse nosso tempo escasso. Para que pareçamos mais interessantes e menos solitários. Mais duradouros. Menos mortais. Sou um balde de fragilidade vazando por diversos furos. Mas agora sou uma fragilidade assumida, com a cabeça levantada e um brilho nos olhos. Sou apenas o projeto do que eu ainda vou me tornar. Um dia depois do outro, com calma. Organizadamente, como uma boa estrutura sólida. Sou a soma do que eu tenho e do que me falta. Dos lábios e das lágrimas. E dos dedos. Que bailam, trazendo pra fora o que um dia alguém escondeu.
quarta-feira, 1 de outubro de 2008
Peripécias Aquáticas
Tinha acordado meio melancólica naquele dia. Sabia que as coisas dariam errado. Era fatalista, sempre fora. Mas dessa vez, ela tinha razão. Não havia como dar certo. Por isso levantou-se meio sem graça, e com o mundo pesando-lhe sobre as costas, entrou na banheira de água quente, repleta de espumas coloridas. Afogou-se, como fazia sempre. E acordou no meio do banco, com o chefe lhe gritando nas orelhas. Ela odiava aquele chefe. Lindo. Olhou-o provocantemente nos olhos e sorriu para suas ofensas. Ele perdeu a compostura. Seu pau subiu. Eles foram para o banheiro. Enquanto ele tentava disfarçar lavando as mãos, ela mergulhou na privada. Ele nem notou. Quando deu por si, estava no meio de um parque, numa temperatura primaveril agradável. Não gostava das flores, era dada às folhas secas. Mas mesmo assim resolveu colocar uma no cabelo. Sentiu-se cafona, e de fato estava. Caminhou por entre as trilhas de barro, até se sujar por completo. Teve asco de si mesma, e resolveu nadar na fonte. Acordou no meio de um terremoto, em algum lugar do pacífico. Teve ódio de si mesma, não deveria ter saído da cama. Tentou ligar para o marido, mas o celular estava sem sinal. Tanto melhor. Ela não teria créditos para um interurbano daquele porte. Manteve-se agarrada aos joelhos, embaixo da mesa, até as paredes terminarem de ruir. Ela sempre havia gostado de mármore. Por entre os escombros, avistou anões e piratas, todos envoltos em uma baba espessa e gosmenta. Sentiu aquela substância parada em sua garganta, e teve necessidade de um copo de água. Gelado. Suado. Correu por entre as ruas destruídas até se deparar com um hidrante rompido. Desistiu da sede. Tirou a roupa e dançou pelada com indigentes que se solidarizaram. Foi engolida pelo bueiro, e acordou no Senegal. Encantou-se com tanta beleza e não soube se expressar. Ficou muda. Horas e horas de eterno silêncio. Com movimentos hilários, atraiu as tranças de um senegalês e o levou para uma praça. Amaram-se no chafariz. Sem querer, confundiu o membro do negro, com o da estátua angelical, e foi parar em pleno céu. Tudo muito etéreo, pensou. Teve medo de cair. Começou a juntar pedaços pequenos de nuvens, até que elas se tornassem só uma: sólida, espessa, negra. Fora ela a responsável pelo dilúvio: que Noé nunca descubra. E choveu. Por dias e noites, choveu junto com as gotas armazenadas, caindo nos mais diversos locais. Correu mundo. Ventou. Mas acabou encontrando todas as partes de si no fundo de um oceano, onde termina essa nossa história.
Assinar:
Postagens (Atom)