Pensamentos, frases, estórias e mentiras criadas a partir de fatos corriqueiros. Uma livre distorção da realidade.
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
Precursores do infinito
Pode parecer doentio, mas foi assim que começou. Éramos dois. Ainda hoje o somos, mas naquela época éramos ainda mais. Éramos dois e sós. Só nós. Os dois. E de olhar-nos assim tão imensamente, tão ridiculamente, sentíamo-nos apenas um. Éramos o infinito inóspito aos outros. Éramos uma imensidão dentro de mim. E de navegarmos assim, lado a lado, dia a dia, sentíamos como se da vida tivéssemos tomado um trago. E rido um riso e chorado um ombro, que de nenhuma esperança sentiríamos sede. Éramos nós. Mas não éramos sós, os dois. Éramos lindos. Sonhávamos sonhos acordados e brincávamos, os dois, um com a pele do outro, com o cabelo do outro, com as partes. Somos partes separadas, enfim. Juntas pelo que existe entre, intocável, indelével. Casal não traduzia aquilo que ia dentro. Casal era de dois, e nós éramos um duo infinito, um balanço ousado, uma rede. Éramos uma sede fáustica de conhecimento alheio, éramos o abraço, o cheiro, o maço. E então o cigarro se foi. Desprendeu-se de nós como se desprendem as coisas mortas, as coisas tristes e os vícios passados. Deixou em nós uma saudade da juventude – ainda não completamente perdida, mas um pouco distante – dos antigos dias da nossa irresponsabilidade. Não era a saúde própria que nos preocupava. Era a do outro. Frágil, bonita, singela. E de olhar-nos nos olhos assim, tão a miúde, acabamos por, aos poucos, fazermos parte do olhar do outro, presos nas pupilas negras que nos fitavam com carinho. Naquela época, éramos ainda dois. E ainda hoje o somos, já disse. Mas o sonho cruel de tornar-nos apenas um ganhou um nome, e desse nome-medo, um som. Será ela, a gente pensa. Será? Ainda somos dois, unidos pela sutil diferença do sexo e dos limites do corpo físico. Por dentro, já não sei quem sou. Ele, eu, ela-ele, juntos. todos. Amarrados por vontade própria nessa ciranda infinita. Num mundo no qual o infinito já não há. Éramos dois, um dia. Agora – quem sabe? – apenas um.
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