domingo, 17 de abril de 2011

Caminhada

Da janela do ônibus, vou deixando as cidades para trás. Plantações e plantações de mostarda, pedras cinzas do mediterrâneo, pessoas de referências distintas. Nos ouvidos, um misto de línguas irmãs que se perderam durante a caminhada. O mundo é mesmo um ovo macio e recheado, com város novos sabores a descobrir. Com os pés doendo de tanto chão e a coluna cansada de tanta bagagem, percebo que voltar é necessário, mas que sair é imprescindível. Hoje é talvez um marco desta grande jornada. Pela frente, metade de desconhecido, um velho colo de mãe, e a saudosa concha do sono. Pela primeira vez em muitos dias, tenho tempo de pensar um pouco. De colocar as idéias no lugar e refletir sobre os acontecimentos. Parece absurdo, mas o excesso de informação me causou um esquecimento profundo de coisas desnecessárias e me impediu, por um tempo, de dar a devida atenção aos meus sentimentos. Hoje estou com o coração fraco, com uma gratidão profunda e uma saudade imensa. Por diversas vezes, aqui, lembrei-me de pessoas que já se foram e que, infelizmente, não tiveram a oportunidade de ver o mundo de perto, por outro ângulo, com os olhos descansados. Parece estranho, mas lembrei-me aqui de como tenho me esquecido de ser grata. De ser terna. De ser amável. Olhando monumentos construidos a milhares de anos e conhecendo culturas antigas que ainda se mantêm vivas, tive a exata noção do quanto somos efêmeros. De como as coisas se sucedem contra nossa vontade e do quanto somos privilegiados se, por um momento, prestarmos atenção nos nossos laços de afeto, em nossas conquistas pela vida, nos presentes que recebemos do acaso. Feliz com a minha caminhada, hoje desejo a todos que um dia tenham a oportunidade de ampliar os horizontes, de poder ver, além do mar, antigas caravelas puxadas pelo vento, em direção ao desconhecido. Há pouco tempo, a virada do milênio era um mistério. Agora rumamos ao desconhecido ano de 2012. Mas, a bem da verdade, continuaremos aqui. Cobertos com nossos temores e com nossas crenças. Completamente absortos com nossas próprias vidas, sem termos a exata noção da magnitude da nossa existência. Hoje me sinto um grão de ervilha, de areia. Uma poeira no vento, flanando por uma rota prederminada mas cheia de assaltos, que pode me arrebatar a qualquer momento. Hoje agradeço aos céus pela oportunidade e valorizo um pouco mais meus pequenos diamantes. Meus pais, meus amores, meus amigos. E todo o castelo de cartas que, tolamente, eu acredito que construí.