terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Pingos de Inspiração


Acho que meus textos sempre foram auto-referentes. A escrita, em mim, debate-se: tenta surpreender o racional e aprisionar o emotivo. Quando vôo demais, detenho-me. Quando empaco, acelero. É que as letras, quando colocadas de forma cadenciada, perdem todo o seu encanto, com moléculas de água transformando-se em gelo. Transparentes e ridiculamente ordenadas. Colocam em melodia o que deveria ser entendido apenas como grunhidos, como ruídos suaves e sonoros de almas inquietas. Um pouco por dia, minh’alma liquefaze-se em pequenas gotas de solidão. Pingos. Escorrendo lentamente pela beirada da pia. Pingos na pia. Gotas de inspiração e sucesso. De tensão e acaso. O mundo, parado como está, grita por um reboque, pede pra sair do lugar. E nós aqui, calmamente sentados em nossas cadeiras macias e aveludadas. Lá fora a brisa: vento fagueiro que balança a copa das árvores mostrando às raízes que nada é tão certo assim. Tão previsível assim. Tão estático. E você aí, esperando o tempo chegar, o dinheiro chegar, a proposta chegar, a morte. Você espera a morte enquanto sonha com a vida. Melhor. Mais intensa. Mais alegre. Enquanto isso ela passa – travessa – por sob as suas pernas. Derruba-lhe no chão a saudade inventada de alguém de quem você nem se lembra. E você aí, estraçalhando caixas de fotos, relendo cadernos antigos, procurando descobrir aonde foi que errou. E eu aqui, soltando os dedos em teclados de branco entusiasmo, de branda eficiência. Somos o espelho da vontade, o avesso do amanhã. Eu, lendo você às avessas. Você, tentando decifrar-me pelo que não digo. Sou absurdo e expiração. Sou preguiça e cansaço. Mas sou uma decisão antiga e crescente, que acaba de desatar seu último nó. Sou sinais gráficos dando a exata intenção a letras redondas e áridas. Sou a coragem vestida de palhaço e a vergonha, cantando baixinho uma triste toada de ninar.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

As letras e o tempo

Não se pode dizer que se deixou de fazer aquilo que nunca se fez. Certo? ... ? Escrever faz e sempre fez parte do cotidiano das minhas tramas e pensar em parar de fazê-lo simplesmente não faz o menor sentido. Mas andei sendo relapsa com este fértil sítio de imagens e afeições. Andei plantando por outros caminhos – talvez menos profícuos. Mas resolvi voltar às raízes e deixar florescer este texto ainda encharcado de preguiça, daqueles que custam a se desprender dos dedos para dar lugar à tela. O exercício da inspiração é mesmo coisa muito capciosa, cisma em atravancar as frases no meio de um maremoto de lirismo. Acreditar nos fonemas é tarefa escaldante, exultante que, de quando em quando, esbarra naquele velho problema da auto-estima petrificada, assustada com sua própria coisificação frente ao espelho cruel e maléfico do tempo. Divago, sim. Voltar a escrever linhas soltas depois de tentar – e conseguir – enjaular-se em estruturas rígidas e risonhas não é tarefa fácil. Por isso desprendo-me. Não quero saber que vão pensar os leitores esparsos que – a bem da verdade – há muito já deixaram de passear por estas pequenas estradas de ilusão. Exercito-me, e só. Por aqui, dirijo ainda sem graça as imutáveis caravanas do meu subterrâneo que, dentro em pouco, voltarão a cuspir em lava e prosa as profundezas das minhas paixões. Penso – sem querer acreditar – que a inegável falta de assunto que me acomete é resultado da minha imensa e tranqüila felicidade. Já não sofro mais de solidão. Já não fumo. Também não tenho aventuras de amor velozes pra relatar em minhas linhas. Sou barco correndo lento pela maré, beirando o fio da navalha que separa o paraíso a dois, do pavor da monotonia. Espantada, percebo a obtusa verdade: nunca estive tão completa. Apesar das torcidas homicidas, das invejas deslavadas, das parcerias carnavalescas perdidas. Não preciso mais buscar o que encontrei. Tenho a sutil certeza da infinidade e o medo absoluto de velar a paz antes do tempo. Mas, dentro da alma, o riso. Pequenino e delicado, como qualquer pérola de amor.