
Acho que meus textos sempre foram auto-referentes. A escrita, em mim, debate-se: tenta surpreender o racional e aprisionar o emotivo. Quando vôo demais, detenho-me. Quando empaco, acelero. É que as letras, quando colocadas de forma cadenciada, perdem todo o seu encanto, com moléculas de água transformando-se em gelo. Transparentes e ridiculamente ordenadas. Colocam em melodia o que deveria ser entendido apenas como grunhidos, como ruídos suaves e sonoros de almas inquietas. Um pouco por dia, minh’alma liquefaze-se em pequenas gotas de solidão. Pingos. Escorrendo lentamente pela beirada da pia. Pingos na pia. Gotas de inspiração e sucesso. De tensão e acaso. O mundo, parado como está, grita por um reboque, pede pra sair do lugar. E nós aqui, calmamente sentados em nossas cadeiras macias e aveludadas. Lá fora a brisa: vento fagueiro que balança a copa das árvores mostrando às raízes que nada é tão certo assim. Tão previsível assim. Tão estático. E você aí, esperando o tempo chegar, o dinheiro chegar, a proposta chegar, a morte. Você espera a morte enquanto sonha com a vida. Melhor. Mais intensa. Mais alegre. Enquanto isso ela passa – travessa – por sob as suas pernas. Derruba-lhe no chão a saudade inventada de alguém de quem você nem se lembra. E você aí, estraçalhando caixas de fotos, relendo cadernos antigos, procurando descobrir aonde foi que errou. E eu aqui, soltando os dedos em teclados de branco entusiasmo, de branda eficiência. Somos o espelho da vontade, o avesso do amanhã. Eu, lendo você às avessas. Você, tentando decifrar-me pelo que não digo. Sou absurdo e expiração. Sou preguiça e cansaço. Mas sou uma decisão antiga e crescente, que acaba de desatar seu último nó. Sou sinais gráficos dando a exata intenção a letras redondas e áridas. Sou a coragem vestida de palhaço e a vergonha, cantando baixinho uma triste toada de ninar.