sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Visões

É como um mar revolto – disse – e se calou. Durante horas permaneceu num silêncio incômodo, deixando que suas palavras ecoassem pelas paredes imundas daquele quarto de dormir. Ela não se mexeu. Não entendeu o que ele havia dito, e não o quis entender. Bastava. Não agüentava mais as lamúrias sonolentas e inacabáveis daquele que um dia fora seu Homem. Só lhe restava os trapos. Nojentos e marrons, como aquele leito fedorento em que se encontravam. Nas janelas, palavras a giz desapareciam aos pedaços. Lembranças de um tempo que fora bom. O passado é um incômodo presente; uma linha cortada preenchida por memórias inventadas e imprecisas. Não queria se lembrar. Ao seu lado, nu, jazia aquele corpo masculino desprezível, ainda sedento de seus suspiros. Não queria mais, era apenas isso. Não queria ele, nem ela, nem aquele lugar. Queria inexistir. A morte era pouco para quem já se aproximara tantas vezes. Desafio ridículo. Nos pulsos e na alma, as cicatrizes ainda sangravam como gangrenas incuráveis. Desistir não era o bastante. No ventre inchado de algumas semanas, a perversão cruel daquele a quem chamavam Deus. Não acreditava em destino. Apenas em acaso. Olhando com outros olhos, o quarto parecia limpo, as cortinas bem colocadas, os lençóis brancos cheirando a alfazema. Olhares. O cheiro de esgoto lhe invadindo as narinas, e aquele sorriso ao seu lado exalando eucalipto. Nada mais desprezível. Tentou quebrar o silêncio com algum ruído calculado, mas os membros permaneceram inertes, tocando de leve a sua pele e aquecendo-a com aquele fresco calor. Desprezível. Enquanto engolia – muda – o choro, pensou diversas vezes em sangue. Era natural. Mas o suor que lhe escorreu dos olhos parecia um triste indício de que não seria capaz. Não mais uma vez. Passou, incólume, pelos calafrios que lhe percorriam o corpo e tentou engolir o vômito que, a essa altura, já lhe subia pelo peito. Tudo em vão. Ao seu lado, o Homem. Quente e febril como qualquer outro homem. Com seus cabelos negros e lisos escorrendo por sua coxa branca. Com a respiração ofegante de bicho acuado. E só. No mais, apenas o silêncio. E o barulho das ondas febris, atirando-se para a morte na areia da praia.

Um comentário:

Marcela Sena disse...

imaginei tudo isso.
bom, muito bom!