Pensamentos, frases, estórias e mentiras criadas a partir de fatos corriqueiros. Uma livre distorção da realidade.
quarta-feira, 22 de abril de 2009
Inquietações
Eu tentei te borrar de mim com a borracha da desilusão – que costumo usar em situações já sem esperança. Não foi suficiente. O grafite – parte negra da lembrança – cedeu fácil; aos poucos se transformou em pó. Mas os sulcos talhados pelo seu lápis-emoção continuam gravados na minha pele, como no dia em que você escreveu. Nosso amor talvez seja feito desses desencantos: uma paixão literária, que se confunde com as personagens dos nossos romances. A peça continua parada: um arquivo morto deste computador. Acho que a ação dramática da cena só se desenvolve quando a dramaticidade da vida anda em baixa. E tenho mergulhado em oceanos de nostalgias. Hoje não fui invadida pela poesia, nem pelo lirismo. Hoje tomei um chá de realidade, adoçado pela expectativa de novos acontecimentos. Brinquei com as palavras no eterno objetivo de ser deus. Mudei o rumo das coisas; deixei-me permear pelos pensamentos alheios. Hoje me envergonhei por alguns instantes, e me orgulhei da minha ousadia. Verti lágrimas de alívio e sorri sorrisos de nervosismo. Hoje brinquei de ser você. Porque ser eu às vezes cansa. Torna-se repetitivo. Porque ser eu não excede o que conheço, não me tira da redoma, guardada como um queijo a se derreter. Tenho-me derretido, é verdade. Amoleço. A vida tem me ensinado a ser menos dura. Os olhos têm me ensinado a sorrir com o peito. Por isso tentei apagar-te e não consegui. Porque de todos os que deixei para trás, você é o único que ainda guardo em mim. Por isso falei minhas últimas palavras, beijei os meus últimos versos. Porque o futuro se aproxima, e eu não queria deixar-te para trás sem algumas letras. Escrevi para ti, mas abri-me para mim. Abri-me para balanço, como disse algumas vezes, em situações um pouco diversas. Estou aberta para balanço! Quero ser balançada como folhas ao vento, com algo emocionante e inquietador. Quero balançar-me ao sabor de um sorvete de pistache. Verde como o urubu da esperança que um dia morreu. Vou entregar-me mais uma vez ao precipício. Quero de novo a vertigem, a insegurança. Quero alucinações em um quarto escuro, noites mal-dormidas de enjôo e angústia. Vou despir-me do luto, e vestir-me de rosa. De negro. Brincar de ser antisocial e multirracial. Numa banheira de hidromassagem. Num banheiro imundo qualquer. Vou lembrar de esquecer-te, e esquecer-me ao te lembrar. Tentar ser um brinquedo qualquer nas mãos do criador. Marionete. Hoje quero o mamulengo. Comandos em ação. Brincadeiras anos 80, roupinha de médico infantil. Hoje abri minhas comportas para um novo rio passar. Hoje me enrolei na bandeira do Brasil, e fumei mais cigarros do que um não fumante é capaz. Hoje parei de fumar. Hoje voltei a beber. Eu comecei a morrer.
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Um comentário:
me causou arrepios e muita identificação! saudades de você!
minha lírica, minha letra!
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