quinta-feira, 29 de outubro de 2009

No pulo

Só então percebeu que nada do que falava fazia sentido. Ela havia inventado, como sempre. Havia criado uma realidade paralela bem mais interessante do que a realidade que vivia. Pena – pensou. Mas sorriu, observando os pássaros negros que voavam ao longe. Ainda pela janela, pode avistar o pôr do sol, que se apresentava sem pressa, em um palco distante. Pensou novamente no ator, e em quando voltaria a vê-lo. O tempo era seu principal inimigo. Tentou desvencilhar-se destes pensamentos soturnos, e lembrou-se daqueles corpos, ainda garotos, a se conhecer em um réveillon qualquer. Fazia muito tempo. E o tempo era seu inimigo. Sorriu sem graça dos cabelos desgrenhados que lhe olhavam agora, do fundo da tela. Ela sentia saudades. E ele, o que sentia? Sorriu de dúvida e de medo. Chorou. Nada como envelhecer. Dia após dia, ruga após ruga. Renew – pensou. Nada mais óbvio. E, besuntada de creme, teve vergonha de seus pensamentos eróticos. Era hora de dormir. Pensou nos loiros cachos que compartilhavam suas idéias. Parceria vitoriosa. Pensou nos outros cachos, ainda curtos, a se enroscar nos seus. Loiros cachos também. Parceria perfeita, formada ao acaso. Não sabia a hora de contar. Mas lembrava dos sorrisos que nunca havia visto, e queria trocar letras e sons. Queria fazer um amor dançante, cheio de arte e harmonia. Se era a pessoa certa? Ainda não sabia. Mas sempre se precipitava. Era de praxe. Sempre se surpreendia. Soluçando de uma noite feliz, teve pena do garoto ainda menino que morreria antes de saber o que é o amor. Para ele, faltava a calma de esperar. Para ele, faltava apenas a paciência de saber. Detestava saber dos amores com antecedência. Sempre lhes depositava mais moedas do que mereciam. Estava de novo fantasiando. Brincando, mais uma vez, de ser feliz. Tinha saudade dos olhos tristes, da melhor boca do mundo, das sardas perdidas por aí. Mas sabia de cada pequena pinta localizada. Sabia pensar, enfim. Pensou, portanto, o quanto seria bom mais um trago e ainda mais um gole. Pensou naqueles braços que não lembrava, e naquela pele que jamais poderia esquecer. Pensou, enfim, nele; como jamais ousara pensar depois de tudo. Pensou nos sorrisos, e nos olhos, e na dor. Sentiu-se parte. E distante. Perdeu-se. E chorou. Com as mãos vacilantes, e os olhos concisos. Chorou de amor e de medo. Porque o tempo passa. Passa rápido. Passa perto. Passa por nós.

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