Pensamentos, frases, estórias e mentiras criadas a partir de fatos corriqueiros. Uma livre distorção da realidade.
sábado, 4 de julho de 2009
Caminhada
Com um sorriso nos olhos, despediu-se de toda dor e partiu. Não parecia triste. Não era de remoer recordações. Mas no fundo da alma, lhe pesava uma mágoa de se sentir ingrata; dessas que cismam em nos agarram em momentos inoportunos. Tinha feito o que podia, tinha certeza. Mas não tinha feito tudo. E era isso que lhe doía. O fardo de não ter feito o impossível. Sabia que sua caminhada seria longa. Ela estava apenas dando os primeiro passos. Mas quando se despediu da dor, com aquele sorriso nos olhos, teve a certeza que deixara muita coisa para trás. Os dias corriam ligeiros. Por vezes, ela mesma se perdia em sua existência, mergulhada em questões cotidianas de baixo valor sentimental. Toda aquela rotina lhe consumia. Dia após dia, fazendo as mesmas coisas, brincando os mesmos jogos. Por dentro, levava a esperança de um amor qualquer, perdido, que cismava em se agarrar em qualquer figura masculina que lhe parecesse razoável. Andava com um certo tipo de carência. Não sexual. Afetiva. Mas sabia que também isso era parte do percurso. A cada trecho que vencia da estrada, tinha mais e mais certeza de seu destino. E, com mãos e peitos, cortava certeira as intempéries do acaso. Divertia-se sofrida. Não era dada aos prazeres corriqueiros da malandragem. Sabia muito bem sua função e administrava sua culpa com mãos de ferro. Deixava-se, por vezes, se perder em seus pensamentos. Gostava de se escutar. Pouco a pouco, com cuidado, conhecia sedenta os territórios mais longínquos de seu próprio ser. Visitava com freqüência os becos de seu submundo. Neste momento, estava sozinha. Por motivos diversos, é fato. Mas nenhum motivo era maior do que sua própria vontade. Porque quando sentiu que já não produzia mais, foi embora. Não sem saudades, mas com um sorriso nos olhos. No rosto. E à medida que caminhava, conhecia, certeira, todas as possibilidades de seu futuro-presente. Confrontava-se com as possibilidades de escolha e se amedrontava delas. Sabia que, em algum momento, deveria deixar algo para trás. Era certo. Mas nunca soube muito bem ponderar os prós e os contras de seu viver. No momento em que se despediu de toda dor (e partiu sem olhar para trás) estava feliz. Sabia que estava escrevendo, a bico de pena, sua própria história. E por isso caminhava lenta, como a tinta que vai, aos poucos, borrando o papel de significados. Caminhava com o peso do dia, e com a leveza da alma. Estava em paz. O caminho ainda era longo. Os dias do porvir seriam intermináveis. Mas a jornada se faz pelo caminho e não pela chegada. Então ela caminhava lenta. Olhando calmamente as flores da encosta. Sorrindo das pequenas sutilezas, e das grandes ironias. Ela estava em paz. Sonhando com o que já foi, e com o que ainda haveria de ser.
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Um comentário:
vi alguns passos nesse texto!
estou com saudade, muita!
voltarei ao rio algumas vezes mais. Estarei por perto!
com amor,
marcela.
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