sábado, 21 de novembro de 2009

Branco

Com os dedos já em sangue de tanto tecer, olhou a vestimenta completa e orgulhou-se de si. Havia engenhado o mais perfeito manto. A mais linda prova de fé e sagacidade. Pensou em desistir por um momento, mas vendo o brilho daquele pedaço de tecido – que há pouco não passava de um trapo – teve certeza de sua missão. Nunca mais deixaria de coser. Foi banhar-se, então. Não se sentia digna de tamanha realeza, e por isso banhou-se, lavando o corpo e a alma. Enquanto a água gelada dourava-lhe a pele, desculpou-se por tantos erros e por todas as mentiras. Olhou as falanges – desfiguradas e irreconhecíveis – e não conseguiu ver nenhum sacrifício naquilo. Por um instante, teve certeza de que toda a sua vida só tinha sido necessária para chegar àquele exato momento; àquela deliciosa sensação. Seu corpo inteiro formigava, em uma dormência embriagadora e apavorante. Tinha borboletas no estômago e, enquanto a água gelada lhe escorria pelo rosto, e seus olhos fechados lhe mostravam o breu, soube que a felicidade não passava de um segundo. Infinito e irreal. Teve pena dos que passariam pela vida sem essa sensação. Teve orgulho de fazer parte do que realmente importava. E desligando o chuveiro, com as gotas a abrirem caminho no chão de pedra, enrolou-se no manto sagrado, molhada do banho e das lágrimas. Hesitou em olhar-se no espelho. Não podia ser merecedora de tamanho deslumbre. Mas ousou. Prendendo os cabelos em um nó com suas próprias pontas, deixou mechas escorrendo pela face, e se atreveu a respirar fundo. Sabia que seus lábios estavam vermelhos e inchados. Sentia seus peitos bailando num cancã frenético de francesas de outrora. Pensou em desistir de sua audácia, mas viu-se de relance no espelho comprido, que apresentava o manto por inteiro envolvendo a sua nudez ainda juvenil. Era então uma santa. Alva e rubra, manchada pelo sangue espesso que brotavam das bolhas dos dedos. Era ainda jovem. Mas já sofria na pele as chagas da transformação. Sentia medo, orgulho, desespero. Era apenas mais um passo indeciso e concreto rumo à vida adulta e, quiçá, adúltera. Passou os dedos nos lábios em um gesto sensual que lhe fez questionar sua serenidade. Paralisou-se. Mas era tarde demais. Já estava vestida de branco, borrada com o sangue que lhe escorria pela pele. Na cama, não menos apavorado do que ela, o homem já dava sinais de profundo amor e submissão. Tinha, sem querer, ganhado um jogo perdido. Estava com os dedos doloridos, e os lábios cansados e vermelhos, gritando de dor. Sentia-se plena e envergonhada. E tinha, agora, uma história para contar. Cedendo seu peso ao quente da cama, sentiu aqueles braços fortes a envolver sua magreza. Aquela língua úmida a desejar sua nudez. Teve medo da morte. E, com os olhos fechados e o lábio entre os dentes, pediu, em silêncio, para que o tempo nunca passasse.

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